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É comum encontrarmos artigos, ou mesmo cursos de preparação
para gestantes, focados na questão dos "tipos
de parto", que geralmente acabam artificialmente classificados
da seguinte forma:
- Parto
Normal
- Parto
Vaginal
- Parto
Natural
- Parto
Fórceps
- Parto
de Cócoras
- Parto
na Água
- Parto
Humanizado
- Parto
sem Dor
- Parto
Leboyer
- Cesariana
Em primeiro lugar, devemos pensar o seguinte: é possível
classificar partos antes deles acontecerem?
Em segundo lugar: mesmo que fosse possível, é
coerente achar que partos, nascimentos, bebês, mulheres
possam ser classificados por tipos? Vamos fazer um balanço
da história recente da obstetrícia, para entender
porque e como os partos foram classificados.
A separação dos partos por tipos aconteceu em
decorrência do nosso sistema obstétrico. Desde
que o atendimento passou a ser hospitalar, feito exclusivamente
pelos médicos, em macas horizontais, com as mulheres
em posição ginecológica, a classificação
ficou óbvia: "Parto Normal" ou "Cesariana".
Não havia alternativa. Se a mulher não conseguia
dar à luz nessas condições padronizadas,
ia para a cesárea.
As
condições padronizadas sob as quais as mulheres
deveriam tentar o "Parto Normal" eram: separação
do companheiro ou qualquer acompanhante, salas de pré-parto
coletivas sem qualquer privacidade, impossibilidade de livre
movimentação, soro com hormônios para
acelerar as contrações e portanto encurtar o
trabalho de parto, período expulsivo com a mulher deitada
de costas, pernas amarradas a suportes, comandos para fazer
força, enfermeiras empurrando a barriga da mulher,
entre outras situações que variavam de serviço
para serviço. Convém lembrar que em muitos hospitais
do Brasil essa ainda é a regra, infelizmente, indo
contra todas as recomendações
da Organização Mundial da Saúde.
Eventualmente o parto ficava difícil e havia a aplicação
do fórceps alto (um instrumento que consiste de um
par de colheres metálicas), que buscava a cabeça
do bebê no canal de parto para puxá-lo para fora.
Essas experiências eram traumáticas para a mãe
e com freqüência lesavam irreversivelmente o bebê.
Era o "Parto Fórceps" ou ainda "Parto
a Ferro". Hoje em dia caiu em desuso e os médicos
agora usam o "fórceps de alívio",
quando o bebê já está mais baixo no canal
de parto. Usado com parcimônia seria um excelente recurso
para acelerar o período expulsivo em casos de emergêcia
ou sofrimento fetal, lembrando que estas são ocorrências
extremamente raras em partos de baixo risco. O uso rotineiro
é desconselhado, o que vale para qualquer intervenção
médica em um processo natural e fisiológico.
A partir da década de 70 o mundo inteiro testemunhou
inúmeros movimentos pelo resgate do parto como um evento
social, afetivo e familiar. Aqui e ali surgiram obstetras
preocupados com o excesso de medicalização e
grupos de consumidoras que lutavam por melhores condições
para darem à luz seus bebês.
Na França, Leboyer foi um dos expoentes desse movimento
e advogou uma forma mais amena de se nascer: pouca luz, silêncio,
sem violência, banho do bebê perto da mãe,
amamentação precoce. No entanto seu foco era
o bebê, não a mulher. Geralmente esta estava
deitada de costas, pernas em estribos e o uso da episiotomia
era rotina. De qualquer forma, por seu pioneirismo, pela qualidade
de nascimento oferecida ao bebê - mais do que pela qualidade
de experiência de parto oferecida à mãe
- no mundo inteiro esses partos ficaram conhecidos por "Parto
Leboyer".
Ainda na França, na cidade de Pithiviers, Michel Odent,
entre várias inovações dignas de mérito,
começou a usar banheira com água quente para
o conforto das parturientes. De lá para cá,
o "Parto na Água" tem sido utilizado
no mundo inteiro, em banheiras especiais ou improvisadas.
Nas maternidades européias as banheiras são
oferecidas às parturientes tanto para o alívio
das dores do trabalho de parto, como para o parto em si. Estudos
científicos comprovam que o uso da água quente
no trabalho de parto é um excelente coadjuvante no
combate à tensão e à dor. No Brasil pouquíssimas
clínicas e médicos oferecem esse conforto às
pacientes, infelizmente.
Onde havia liberdade para movimentação das mulheres,
o "Parto de Cócoras" ganhou terreno,
por ser mais rápido, mais cômodo para a mulher
e mais saudável para o bebê, pois não
se produzia mais a compressão de importantes vasos
sanguíneos, o que acontece com a mulher deitada de
costas. No Brasil o Dr. Moysés Paciornik estudou comunidades
indígenas e resgatou o parto verticalizado. Criou com
seu filho Dr. Cláudio Paciornik uma cadeira para ser
usada em hospitais, que permitia várias posições
para a mãe, sem comprometer o conforto do médico.
Embora não haja necessidade de cadeiras especiais para
que a mulher assuma essa posição, muitos profissionais
afirmam que não fazem partos de cócoras porque
no hospital não existe "a cadeira para parto de
cócoras" à disposição.
Desde os anos 80, com a popularização das questões
ecológicas, e com os movimentos de resgate de uma vida
mais saudável, natural e espiritualizada, muitas mulheres
passaram a optar pelo "Parto Natural", sem
intervenções, sem anestesia e domiciliar em
muitos casos. No entanto o termo "Parto Natural"
muitas vezes tem sido utilizado como sinônimo de "Parto
Vaginal", o que nem sempre é verdadeiro. Um
parto vaginal com episiotomia, rompimento artificial da bolsa
d'água, aceleração com soro, anestesia,
raspagem dos pêlos, entre outras intervenções,
não pode ser classificado com o nome de "Parto
Natural".
O termo "Parto Sem Dor" tem várias
conotações. Os métodos psicoprofiláticos
desenvolvidos especialmente nos Estados Unidos propunham uma
espécie de treinamento às gestantes, baseado
em técnicas respiratórias, de relaxamento, de
concentração, entre outas. A idéia geral
é que uma mulher bem preparada para o parto e bem acompanhada
durante todo o processo terá muito menos dor do que
uma mulher assustada e tensa. A idéia faz sentido,
mas convém lembrar que a dor do parto continua existindo,
agora sem o sofrimento causado por medo e tensão. Os
métodos mais conhecidos são Bradley, Lamaze
e Hipnobirth.
No Brasil "Parto Sem Dor" é comumente
confundido com parto sob anestesia. Obviamente a anestesia
bloqueia a dor, mas também diminui as sensações
das pernas e do assoalho pélvico. Essas sensações
são responsáveis pela força que a mulher
faz na hora de "empurrar" o bebê para fora.
Portanto, embora haja o bloqueio a dor, alguns efeitos indesejáveis
como a perda do controle sobre o processo do parto, entre
outros, podem ocorrer. Em muitos serviços médicos
a anestesia é aplicada no final do trabalho de parto,
já no período expulsivo, de modo que o período
de dilatação não se passa sob efeito
das drogas anestésicas. De qualquer modo, as formas
naturais de se lidar com a dor deveriam ser largamente
oferecidos e utilizados antes de serem aplicados os métodos
farmacológicos de bloqueio da dor.
Atualmente um novo termo tem sido utilizado: "Parto
Humanizado". Como não houve uma formal definição
do termo, ele é usado em todo tipo de circunstância.
Para o Ministério da Saúde, parto humanizado
significa o direito que toda gestante tem de passar por pelo
menos 6 consultas de pré-natal e ter sua vaga garantida
em um hospital na hora do parto. Para um grupo de médicos,
significa permitir que o bebê fique sobre a barriga
da mãe por alguns minutos após o parto, antes
de ser levado para o berçário. Em alguns hospitais
públicos significa salas de partos individuais, a presença
de um acompanhante, alojamento conjunto, incentivo à
amamentação, entre outros benefícios.
No mundo inteiro, no entanto, o que está se discutindo
é: "o atendimento centrado na mulher".
Isso deveria ser o correto significado de parto humanizado.
Se a mulher vai escolher dar à luz de cócoras
ou na água, quanto tempo ela vai querer ficar com o
bebê no colo após seu nascimento, quem vai estar
em sua companhia, se ela vai querer se alimentar e beber líquidos,
todas essas decisões deverão ser tomadas por
ela, protagonista de seu próprio parto e dona de seu
corpo. São as decisões informadas e baseadas
em evidências científicas.
Enquanto nós mulheres não reivindicarmos nossos
direitos, enquanto as decisões couberem aos profissionais
prestadores de serviços médicos, aos hospitais
que elas escolheram, à diretoria que cria as condições
de atendimento, enfim, enquanto deixarmos que os outros cuidem
do que é nosso, os "tipos de parto" fazem
sentido. É a classificação dos partos
que nos serão permitidos ou oferecidos de acordo com
as necessidades, conveniências e crenças dos
outros.
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Recomendações da Organização
Mundial da Saúde para o trabalho de parto e parto
» Lidando
com a Dor no Parto
Ana
Cris Duarte
Amigas do Parto
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