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O Patinho Feio o Pato
Obstetra...
A Mamãe Pata vê eclodir
nove dos seus dez ovos. O décimo demora a se quebrar. Aflita, Mamãe
Pata chama o Pato Obstetra. Com toda sua sabedoria, o Pato Obstetra vem
avaliar o ovo. Ele não se preocupa em conversar com a Mamãe
Pata para obter informações.
Talvez, se ele tivesse feito algumas
perguntas, teria desconfiado de que aquele ovo não era dela e que,
não sendo um ovo de pata, demoraria mais para eclodir. Não,
o Pato Obstetra é um pato muito ocupado.
Ele mede o ovo, escuta o foco e constata
que o ovo não está dando nenhum sinal de que irá se
quebrar. Ele terá de marcar uma cesárea.
- Mas, Dr. Pato, não seria
melhor aguardar mais um pouco?- indaga Mamãe Pata, muito triste.
- É muito arriscado, minha
senhora- afirma o Pato Obstetra.
Ele ia dizer que o patinho poderia
se enrolar no cordão, mas lembrou a tempo que ovo não tem
placenta.
- O patinho pode passar da hora de
nascer ou fazer cocô dentro do ovo. Isso teria conseqüências
terríveis!
- Eu poderia ajudar bicando o ovo
por fora- tenta Mamãe Pata. - Eu sempre fiz isso.
- Nem pense nisso, minha senhora.
A senhora já provou a sua incompetência ao botar um ovo que
não se eclode espontaneamente. Não faça mais nenhuma
besteira!
E marca a cesárea para o dia
seguinte, às 12 horas. E deixa a Mamãe Pata tão triste
que ela até se esquece de chocar o ovo, convencida que está
de sua ineficiência. O ovo teria eclodido naquela noite, mas sem
o calor maternal de Mamãe Pata, isso não ocorre.
No dia seguinte, o Pato Obstetra
realiza a cesárea. Imagino a cara do infeliz ao dar de bico com
aquela criatura pescoçuda e desengonçada!
Uma outra hipótese: a cesárea
está marcada às 12 horas do dia seguinte. Mamãe Pata,
muito amuada deita-se sobre seu ovo, por puro instinto. Então, ela
escuta um "toc toc" muito baixinho - é o ovo que começa a
eclodir! Mamãe Pata já conhece aquilo muito bem, afinal é
mãe de nove patinhos.
Mas o Pato Obstetra a deixou tão
convencida de que aquele ovo não iria abrir espontaneamente que
ela se apavora. Sai desesperada em busca do Pato Obstetra. O Pato Obstetra
vem, sonolento, lamentando não ter feito a cesárea no dia
anterior. Ele examina o ovo e tira uma triste conclusão (para ele):
o ovo está começando a eclosão agora e provavelmente
vai levar a noite inteira até que o processo se complete.
Então ele tem uma idéia
brilhante, tão brilhante que ele se admira de nunca ter pensado
nisso antes:
- Mamãe Pata, precisamos
fazer a cesárea urgente. O patinho está com o cordão
enrolado no pescoço!
- Que cordão? -estranha Mamãe
Pata.
- Isso não importa agora-
desconversa o Pato Obstetra. -É caso de vida ou morte!
E põe-se a bicar freneticamente
o ovo até livrar o patinho de sua casca. E dá de bico com
aquela criatura pescoçuda e desengonçada!
Somado à estranheza habitual
que seu aspecto causa no galinheiro, o Patinho Feio ainda tem de lidar
com a prematuridade a que foi submetido. Frágil, vira alvo ainda
mais fácil das aves do galinheiro. Mamãe Pata, agora inteiramente
convencida de que seu corpo é incapaz de gerar um ovo perfeito,
dependerá
eternamente do Pato Obstetra para
abrir todos os ovos de suas próximas ninhadas.
Seu sentimento de culpa por não
ter pedido a cesárea antes a impede, ainda, de expulsar o Patinho
Feio do galinheiro. Por isso, ele jamais encontrará com sua verdadeira
mãe e nunca saberá que é um cisne.
E o Pato Obstetra vive feliz para
sempre. Muito famoso e respeitado, afinal todas as patas da região
dependem completamente dele para abrir os seus ovos.
Todas temem que seus patinhos demorem
a nascer ou que o cordão enrole no pescoço (que cordão?
bem, não importa). Ouvem-se histórias terríveis de
patinhos que nasceram com o pescoço de 2 metros de comprimento porque
suas mães esperaram a eclosão espontânea dos ovos.
Dra.
Cristiane Rodrigues, Ginecologista
e Obstetra,
São Caetano do Sul, SP
Clcr2000@aol.com
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