POESIAS E CONTOS

O Patinho Feio o Pato Obstetra...

Cristiane Rodrigues

 
O Patinho Feio o Pato Obstetra...

A Mamãe Pata vê eclodir nove dos seus dez ovos. O décimo demora a se quebrar. Aflita, Mamãe Pata chama o Pato Obstetra. Com toda sua sabedoria, o Pato Obstetra vem avaliar o ovo. Ele não se preocupa em conversar com a Mamãe Pata para obter informações. 

Talvez, se ele tivesse feito algumas perguntas, teria desconfiado de que aquele ovo não era dela e que, não sendo um ovo de pata, demoraria  mais para eclodir. Não, o Pato Obstetra é um pato muito ocupado. 

Ele mede o ovo, escuta o foco e constata que o ovo não está dando nenhum sinal de que irá se quebrar. Ele terá de marcar uma cesárea.

- Mas, Dr. Pato, não seria melhor aguardar mais um pouco?- indaga Mamãe Pata, muito triste.
- É muito arriscado, minha senhora- afirma o Pato Obstetra. 

Ele ia dizer que o patinho poderia se enrolar no cordão, mas lembrou a tempo que ovo não tem placenta.

- O patinho pode passar da hora de nascer ou fazer cocô dentro do ovo. Isso teria conseqüências terríveis!
- Eu poderia ajudar bicando o ovo por fora- tenta Mamãe Pata. - Eu sempre fiz isso.
- Nem pense nisso, minha senhora. A senhora já provou a sua incompetência ao botar um ovo que não se eclode espontaneamente. Não faça mais nenhuma besteira!

E marca a cesárea para o dia seguinte, às 12 horas. E deixa a Mamãe Pata tão triste que ela até se esquece de chocar o ovo, convencida que está de sua ineficiência. O ovo teria eclodido naquela noite, mas sem o calor maternal de Mamãe Pata, isso não ocorre.

No dia seguinte, o Pato Obstetra realiza a cesárea. Imagino a cara do infeliz ao dar de bico com aquela criatura pescoçuda e desengonçada!

Uma outra hipótese: a cesárea está marcada às 12 horas do dia seguinte. Mamãe Pata, muito amuada deita-se sobre seu ovo, por puro instinto. Então, ela escuta um "toc toc" muito baixinho - é o ovo que começa a eclodir! Mamãe Pata já conhece aquilo muito bem, afinal é mãe de nove patinhos. 

Mas o Pato Obstetra a deixou tão convencida de que aquele ovo não iria abrir espontaneamente que ela se apavora. Sai desesperada em busca do Pato Obstetra. O Pato Obstetra vem, sonolento, lamentando não ter feito a cesárea no dia anterior. Ele examina o ovo e tira uma triste conclusão (para ele): o ovo está começando a eclosão agora e provavelmente vai levar a noite inteira até que o processo se complete. 

Então ele tem uma idéia brilhante, tão brilhante que ele se admira de nunca ter pensado nisso antes:
- Mamãe Pata, precisamos fazer a cesárea urgente. O patinho está com o cordão enrolado no pescoço!
- Que cordão? -estranha Mamãe Pata.
- Isso não importa agora- desconversa o Pato Obstetra. -É caso de vida ou morte!
E põe-se a bicar freneticamente o ovo até livrar o patinho de sua casca. E dá de bico com aquela criatura pescoçuda e desengonçada!

Somado à estranheza habitual que seu aspecto causa no galinheiro, o Patinho Feio ainda tem de lidar com a prematuridade a que foi submetido. Frágil, vira alvo ainda mais fácil das aves do galinheiro. Mamãe Pata, agora inteiramente convencida de que seu corpo é incapaz de gerar um ovo perfeito, dependerá 
eternamente do Pato Obstetra para abrir todos os ovos de suas próximas ninhadas. 

Seu sentimento de culpa por não ter pedido a cesárea antes a impede, ainda, de expulsar o Patinho Feio do galinheiro. Por isso, ele jamais encontrará com sua verdadeira mãe e nunca saberá que é um cisne.

E o Pato Obstetra vive feliz para sempre. Muito famoso e respeitado, afinal todas as patas da região dependem completamente dele para abrir os seus ovos. 

Todas temem que seus patinhos demorem a nascer ou que o cordão enrole no pescoço (que cordão? bem, não importa). Ouvem-se histórias terríveis de patinhos que nasceram com o pescoço de 2 metros de comprimento porque suas mães esperaram a eclosão espontânea dos ovos.
 

Dra. Cristiane Rodrigues, Ginecologista
e Obstetra, São Caetano do Sul, SP
Clcr2000@aol.com


página principal          menu de poesias/contos


Direitos Autorais