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A tranqüilidade
e o aconchego de dar à luz em casa já fazem parte do passado,
pelo menos no Brasil. Nos dias de hoje, praticamente nenhuma mãe
brasileira, desde que não tenha outra opção, desdenha
a possibilidade de ter seu filho na maternidade. Atrelada a esta legítima
opção, uma outra revolução comportamental
cada vez mais acende uma luz vermelha entre os responsáveis pelas
políticas de saúde pública. O Brasil é um
dos países que mais abusam das técnicas cirúrgicas
para o nascimento de crianças. As cesáreas que ocorrem
nos hospitais brasileiros, principalmente os particulares, em números
muito superiores aos recomendados pela Organização Mundial
de Saúde (OMS), fincam raízes na cultura dos obstetras
e até de parte da população. A comodidade, muitas
vezes defendida tanto para o médico como para a paciente, pode
ser uma camuflada, e perigosa, armadilha.
Mas ainda
existe oxigênio disponível entre as mulheres para que a
situação não atinja um estado de perigo total.
Mesmo com toda a contracorrente, a cultura da cesárea ainda não
dominou por completo a mente das mães brasileiras, conforme acaba
de mostrar um estudo profundo sobre o tema, feito com dados brasileiros,
mas publicado no Reino Unido. Apesar de o Brasil ainda continuar no
alto do ranking da OMS de cesarianas - ele é o terceiro na América
Latina, atrás apenas de Chile e México -, a pesquisa divulgada
à comunidade científica mundial pelo 'British Medical
Journal' (BMJ), baseada em dados coletados em quatro cidades brasileiras,
mostra que o problema muitas vezes não está em quem gera
os novos cidadãos. O estudo indica que a relação
entre médico e paciente é que precisa ser alterada para
que o abuso desta técnica diminua.
Enquanto
a OMS considera aceitável uma taxa de cesárea anual não
superior a 15%, o Brasil apresenta números, em média,
três vezes superiores todos os anos. A situação
está bem pior na rede privada de hospitais. Alguns deles, considerados
cincoestrelas, chegam a ter 90% de seus partos realizados por intermédio
de cesáreas. A pesquisa recém-publicada no jornal britânico
mostra que 80% das 1.136 mulheres entrevistadas um mês antes da
provável data do nascimento de seus filhos preferiam ter suas
crianças pelo parto normal. As mulheres de várias classes
sociais recrutadas pelo estudo tinham entre 18 e 40 anos. Foram realizados
questionários em Porto Alegre, Belo Horizonte, Natal e São
Paulo. O estudo levanta uma informação importante. Não
é verdade, ao contrário do que possa induzir o senso comum,
que as mulheres da classe média e alta não querem ter
os seus filhos por parto normal.
Na discussão
do trabalho, o grupo de autores levanta três hipóteses
para interpretar esta grande discrepância que existe entre a preferência
das mães e do que realmente ocorre dentro da sala de parto. Primeiro,
vários médicos obstetras brasileiros acreditam, sempre,
que a cesárea é o método mais seguro de nascimento.
Segundo, os médicos não possuem muito tempo para eleger
qual seria a preferência de sua paciente e, como é mais
fácil, eles partem do princípio de que todas preferem
o método cirúrgico. E, terceiro, como a cesárea
exige um trabalho mais rápido do que o do parto normal, que pode
demorar até dez horas em alguns casos, ela acaba sendo a preferida
pelos médicos.
A pesquisa
revela outro resultado que indica que a opção pela cesárea,
na grande maioria dos casos investigados, ocorreu de forma prematura
e, portanto, antes que algum problema real pudesse ser detectado para
justificar a cirurgia. Das 189 cesáreas marcadas antes de a futura
mãe dar entrada no hospital, 120 foram agendadas com mais de
24 horas, ou seja, com bastante antecedência. Entre as mães
que declararam sua preferência pelo parto normal, o principal
motivo, segundo as respostas dos questionários, é a rápida
recuperação que ele possibilita. Ao todo, 42,9% declararam
esta opção como sendo a principal vantagem. Em segundo
lugar, com 37,7% das respostas, as mães declararam que o parto
normal é melhor porque, simplesmente, é natural. Ser a
melhor opção para o bebê e já ter vivenciado
uma boa experiência com o parto normal em outras oportunidades
foram outros motivos citados pelas gestantes ouvidas na pesquisa.
Infelizmente,
a cesárea no Brasil virou um bem de consumo', afirma a pediatra
Maria Sylvia Vitalle. Também pesquisadora, ela acaba de defender
uma tese de doutorado sobre o tema na Unifesp, Universidade Federal
de São Paulo. O resultado da pesquisa feita no município
de São Paulo é claro: em 12 anos (o intervalo analisado
vai de 1985 a 1997), o número de partos cesarianos quase dobrou.
No estudo, dos 12.440 nascimentos computados entre 1995 e 1997, 60%
foram cirúrgicos. A maior incidência de cesáreas,
77,8%, ocorreu nas classes sociais mais altas. Os dados foram comparados
com uma outra pesquisa realizada em meados dos anos 80. O estudo coordenado
pelo professor Fernando José da Nóbrega, hoje no Hospital
Albert Einstein, mostrou que dos 31 mil partos realizados na cidade
de São Paulo em 1985, 35% foram cirúrgicos.
A cesárea
não deixa de ser uma cirurgia. É bom lembrar que, apesar
de todo o cuidado e monitoramento, o bebê é arrancado,
propositalmente, do útero da mãe nestas operações',
lembra Maria Sylvia. A pediatra ratifica sua posição de
que ela não é contra a cesárea, muito pelo contrário.
'O problema está no abuso que, no Brasil, é muito grande',
diz ela. O advento da cesárea, segundo a médica, trouxe
muitas vantagens para o ser humano. Depois que as cesáreas começaram
a se tornar populares, há algumas décadas, o nível
de mortalidade materna, no momento do parto, despencou. 'É claro
que, por exemplo, quando a criança for muito maior que a estrutura
da bacia da mãe, o parto normal é impossível',
diz.
Sempre
a favor do parto normal, quando para este não houver contra-indicações,
Maria Sylvia faz questão de derrubar uma série de tabus
que colaboram para a cultura da cesárea ganhar força em
segmentos importantes da sociedade. 'Primeiro, a idéia de que
na cesárea a recuperação é melhor e mais
rápida não se confirma', diz. Outro tabu, que não
tem comprovação científica segundo a pesquisadora
da Unifesp, é que uma mulher que teve um primeiro filho via cesárea
não pode ter uma segunda criança por parto normal. 'Cada
caso precisa ser investigado. Se já tiverem se passado dois anos,
provavelmente o segundo parto poderá ser normal', diz a cientista.
Um outro temor comum das mulheres que passam por parto normal, de que
os músculos da região do períneo com o tempo vão
se desestruturando e haverá a necessidade de uma cirurgia delicada,
também não se sustenta. 'Isto era mais comum no passado,
quando a mulher tinha sete, oito ou dez filhos, sem um bom acompanhamento
médico. O parto normal hoje, assistido de forma correta pelos
médicos, raramente vai provocar este problema com os músculos
da mulher', diz Maria Sylvia.
Um estudo
publicado no primeiro semestre, também no BMJ, reforça
a tese de que a cesárea deve ser exceção e não
a regra. Segundo o Royal College of Obstetricians de Londres, a mulher
que faz uma cesárea sem necessidade corre quatro vezes mais risco
de ter complicações posteriores - hemorragias, infecção
e ruptura do útero - do que se ela, ou o seu médico, tivesse
optado pelo parto normal. Na Inglaterra, assim como nos Estados Unidos,
as taxas de cesáreas estão por volta dos 20%, o que também
está acima do considerado ideal pela OMS. Segundo o boletim mensal
de junho da mesma OMS, as taxas de cesáreas são muito
mais altas em países das Américas que na África
e na Ásia. Países como Camarões, Nigéria,
Madagascar e Zâmbia apresentam índices de cesarianas inferiores
a 5%. Na América do Sul, segundo o mesmo documento, apenas o
Equador mereceu um destaque positivo nos últimos meses. Na África
e na Ásia, tanto por motivos religiosos como por culturais, o
culto ao parto normal é enorme. Mulheres muçulmanas, por
exemplo, costumam ter sempre os seus filhos em casa, ao lado normalmente
da família.
Uma das
ações mais importantes realizada nos Estados Unidos, que
segurou as taxas de cesáreas em um patamar relativamente baixo,
se comparado com os números brasileiros, foi feita na área
financeira. 'Aqui, a organização responsável pelo
credenciamento de todos os hospitais e clínicas investiga todos
os hospitais que tenham uma taxa superior a 25%', explica Joseph Potter,
o principal autor do trabalho recém-publicado no BMJ, com dados
coletados no Brasil. Apesar de norte-americano, ele escreveu o artigo
junto com outros pesquisadores brasileiros. 'Se o hospital não
consegue justificar um número tão alto de cesáreas,
ele corre sérios riscos de perder sua elegibilidade para receber
verbas públicas destinadas ao tratamento de idosos', diz Potter.
Segundo o professor da Universidade do Texas, em Austin, a grande maioria
dos hospitais norte-americanos se autocontrola porque eles dependem,
e muito, desta taxa repassada todos os anos pelo governo federal norte-americano.
Além
disso, explica o professor, outras medidas de menos impacto também
se mostraram positivas nos Estados Unidos. Os obstetras, por exemplo,
são reunidos em grupos dentro de um mesmo hospital. Qualquer
um da equipe estará apto para atender uma gestante, mesmo que
ela chegue de madrugada ou no fim de semana. Os métodos e procedimentos
de um parto normal também são revistos e melhorados com
freqüência nos Estados Unidos, segundo Potter. Também
conhecedor do cotidiano dos hospitais no Brasil, o professor da Universidade
do Texas admite que estas pequenas rotinas não são consideradas
pela maioria dos hospitais brasileiros.
Sem muito
poder de controle sobre os hospitais privados, que são os que
mais abusam das cesáreas, o Ministério da Saúde
tenta conter o nascimento por intermédio de intervenções
cirúrgicas nos hospitais públicos. O próprio ministro
José Serra usou o termo 'barbaridade' para se referir às
cesáreas feitas de forma desnecessária. O programa em
curso do ministério pretende baixar para 25% a taxa de cesáreas
em todos os estados brasileiros até 2007. Segundo o texto elaborado
pelo Ministério da Saúde, o hospital público que
passar dos 30% de cesáreas em um ano não receberá
mais nenhuma verba pelas operações excedentes. No ano
passado, as taxas de cesarianas nos hospitais públicos do Brasil
já caíram para 24%. Em 1995, este mesmo número
foi de 32,4%. No caso dos hospitais financiados pelo governo, as 550
mil cesáreas desnecessárias que ocorrem todos os anos
em todo o país também custam um desperdício de
verba bastante elevado.
A cesárea,
segundo os padrões obstétricos, é indicada apenas
quando existe risco de morte para o bebê, para a mãe ou
para ambos. Estes casos ocorrem, principalmente, quando o cordão
umbilical sai primeiro que o bebê ou quando a placenta se descola
da parede do útero antes de a criança ter nascido. O número
de complicações que podem surgir depois de uma cesariana,
tanto para a mãe como para a criança, também é
bem maior que as decorrentes do parto normal. Segundo o obstetra e ginecologista
Richard Johanson, que comentou para o MBJ o resultado da última
auditoria realizada na Inglaterra pelo governo, nos hospitais com altas
taxas de cesáreas a grande decisão que precisa ser tomada
deve partir dos profissionais envolvidos no parto e das próprias
mães. 'É importante que todos se encham de coragem e passem
a considerar o parto normal como algo positivo.' Motivos que muitas
vezes levam as futuras mães a optar pela cesárea, como
a dor do parto, o longo tempo para o nascimento e a desestruturação
da região vaginal precisam ser explicados e desmistificados,
acredita o médico britânico.
No caso
brasileiro, a grande independência dos hospitais privados coloca
essas instituições em uma situação bastante
paradoxal por causa da necessidade do lucro. O governo não tem
um poder de ação muito direto sobre estas instituições.
A questão cultural, então, ganha mais peso para as mães
que pretenderem, pelo menos uma vez, dar a possibilidade de seu próprio
corpo mostrar a capacidade que tem de parir. A pediatra Maria Sylvia
já ouviu relatos de obstetras, que vivem na beira do leito de
parto, sobre mulheres de baixa renda que tentam convencer o médico
a fazer a cesárea. 'Na opinião delas, isso nada mais é
que um sinal de status social. Elas aprendem isso no cabeleireiro ou
em rodas de amigas.'
Gazeta
Mercantil 07.12.01
Versão
Original no site da Gazeta Mercantil: http://www1.investnews.com.br/fimdesemana/texto.asp?ed=17&cod=1560735
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