COMODIDADE, A FALSA ARMADILHA DA CESARIANA
 

Gazeta Mercantil - 07/12/2001


 

A tranqüilidade e o aconchego de dar à luz em casa já fazem parte do passado, pelo menos no Brasil. Nos dias de hoje, praticamente nenhuma mãe brasileira, desde que não tenha outra opção, desdenha a possibilidade de ter seu filho na maternidade. Atrelada a esta legítima opção, uma outra revolução comportamental cada vez mais acende uma luz vermelha entre os responsáveis pelas políticas de saúde pública. O Brasil é um dos países que mais abusam das técnicas cirúrgicas para o nascimento de crianças. As cesáreas que ocorrem nos hospitais brasileiros, principalmente os particulares, em números muito superiores aos recomendados pela Organização Mundial de Saúde (OMS), fincam raízes na cultura dos obstetras e até de parte da população. A comodidade, muitas vezes defendida tanto para o médico como para a paciente, pode ser uma camuflada, e perigosa, armadilha.

Mas ainda existe oxigênio disponível entre as mulheres para que a situação não atinja um estado de perigo total. Mesmo com toda a contracorrente, a cultura da cesárea ainda não dominou por completo a mente das mães brasileiras, conforme acaba de mostrar um estudo profundo sobre o tema, feito com dados brasileiros, mas publicado no Reino Unido. Apesar de o Brasil ainda continuar no alto do ranking da OMS de cesarianas - ele é o terceiro na América Latina, atrás apenas de Chile e México -, a pesquisa divulgada à comunidade científica mundial pelo 'British Medical Journal' (BMJ), baseada em dados coletados em quatro cidades brasileiras, mostra que o problema muitas vezes não está em quem gera os novos cidadãos. O estudo indica que a relação entre médico e paciente é que precisa ser alterada para que o abuso desta técnica diminua.

Enquanto a OMS considera aceitável uma taxa de cesárea anual não superior a 15%, o Brasil apresenta números, em média, três vezes superiores todos os anos. A situação está bem pior na rede privada de hospitais. Alguns deles, considerados cincoestrelas, chegam a ter 90% de seus partos realizados por intermédio de cesáreas. A pesquisa recém-publicada no jornal britânico mostra que 80% das 1.136 mulheres entrevistadas um mês antes da provável data do nascimento de seus filhos preferiam ter suas crianças pelo parto normal. As mulheres de várias classes sociais recrutadas pelo estudo tinham entre 18 e 40 anos. Foram realizados questionários em Porto Alegre, Belo Horizonte, Natal e São Paulo. O estudo levanta uma informação importante. Não é verdade, ao contrário do que possa induzir o senso comum, que as mulheres da classe média e alta não querem ter os seus filhos por parto normal.

Na discussão do trabalho, o grupo de autores levanta três hipóteses para interpretar esta grande discrepância que existe entre a preferência das mães e do que realmente ocorre dentro da sala de parto. Primeiro, vários médicos obstetras brasileiros acreditam, sempre, que a cesárea é o método mais seguro de nascimento. Segundo, os médicos não possuem muito tempo para eleger qual seria a preferência de sua paciente e, como é mais fácil, eles partem do princípio de que todas preferem o método cirúrgico. E, terceiro, como a cesárea exige um trabalho mais rápido do que o do parto normal, que pode demorar até dez horas em alguns casos, ela acaba sendo a preferida pelos médicos.

A pesquisa revela outro resultado que indica que a opção pela cesárea, na grande maioria dos casos investigados, ocorreu de forma prematura e, portanto, antes que algum problema real pudesse ser detectado para justificar a cirurgia. Das 189 cesáreas marcadas antes de a futura mãe dar entrada no hospital, 120 foram agendadas com mais de 24 horas, ou seja, com bastante antecedência. Entre as mães que declararam sua preferência pelo parto normal, o principal motivo, segundo as respostas dos questionários, é a rápida recuperação que ele possibilita. Ao todo, 42,9% declararam esta opção como sendo a principal vantagem. Em segundo lugar, com 37,7% das respostas, as mães declararam que o parto normal é melhor porque, simplesmente, é natural. Ser a melhor opção para o bebê e já ter vivenciado uma boa experiência com o parto normal em outras oportunidades foram outros motivos citados pelas gestantes ouvidas na pesquisa.

Infelizmente, a cesárea no Brasil virou um bem de consumo', afirma a pediatra Maria Sylvia Vitalle. Também pesquisadora, ela acaba de defender uma tese de doutorado sobre o tema na Unifesp, Universidade Federal de São Paulo. O resultado da pesquisa feita no município de São Paulo é claro: em 12 anos (o intervalo analisado vai de 1985 a 1997), o número de partos cesarianos quase dobrou. No estudo, dos 12.440 nascimentos computados entre 1995 e 1997, 60% foram cirúrgicos. A maior incidência de cesáreas, 77,8%, ocorreu nas classes sociais mais altas. Os dados foram comparados com uma outra pesquisa realizada em meados dos anos 80. O estudo coordenado pelo professor Fernando José da Nóbrega, hoje no Hospital Albert Einstein, mostrou que dos 31 mil partos realizados na cidade de São Paulo em 1985, 35% foram cirúrgicos.

A cesárea não deixa de ser uma cirurgia. É bom lembrar que, apesar de todo o cuidado e monitoramento, o bebê é arrancado, propositalmente, do útero da mãe nestas operações', lembra Maria Sylvia. A pediatra ratifica sua posição de que ela não é contra a cesárea, muito pelo contrário. 'O problema está no abuso que, no Brasil, é muito grande', diz ela. O advento da cesárea, segundo a médica, trouxe muitas vantagens para o ser humano. Depois que as cesáreas começaram a se tornar populares, há algumas décadas, o nível de mortalidade materna, no momento do parto, despencou. 'É claro que, por exemplo, quando a criança for muito maior que a estrutura da bacia da mãe, o parto normal é impossível', diz.

Sempre a favor do parto normal, quando para este não houver contra-indicações, Maria Sylvia faz questão de derrubar uma série de tabus que colaboram para a cultura da cesárea ganhar força em segmentos importantes da sociedade. 'Primeiro, a idéia de que na cesárea a recuperação é melhor e mais rápida não se confirma', diz. Outro tabu, que não tem comprovação científica segundo a pesquisadora da Unifesp, é que uma mulher que teve um primeiro filho via cesárea não pode ter uma segunda criança por parto normal. 'Cada caso precisa ser investigado. Se já tiverem se passado dois anos, provavelmente o segundo parto poderá ser normal', diz a cientista. Um outro temor comum das mulheres que passam por parto normal, de que os músculos da região do períneo com o tempo vão se desestruturando e haverá a necessidade de uma cirurgia delicada, também não se sustenta. 'Isto era mais comum no passado, quando a mulher tinha sete, oito ou dez filhos, sem um bom acompanhamento médico. O parto normal hoje, assistido de forma correta pelos médicos, raramente vai provocar este problema com os músculos da mulher', diz Maria Sylvia.

Um estudo publicado no primeiro semestre, também no BMJ, reforça a tese de que a cesárea deve ser exceção e não a regra. Segundo o Royal College of Obstetricians de Londres, a mulher que faz uma cesárea sem necessidade corre quatro vezes mais risco de ter complicações posteriores - hemorragias, infecção e ruptura do útero - do que se ela, ou o seu médico, tivesse optado pelo parto normal. Na Inglaterra, assim como nos Estados Unidos, as taxas de cesáreas estão por volta dos 20%, o que também está acima do considerado ideal pela OMS. Segundo o boletim mensal de junho da mesma OMS, as taxas de cesáreas são muito mais altas em países das Américas que na África e na Ásia. Países como Camarões, Nigéria, Madagascar e Zâmbia apresentam índices de cesarianas inferiores a 5%. Na América do Sul, segundo o mesmo documento, apenas o Equador mereceu um destaque positivo nos últimos meses. Na África e na Ásia, tanto por motivos religiosos como por culturais, o culto ao parto normal é enorme. Mulheres muçulmanas, por exemplo, costumam ter sempre os seus filhos em casa, ao lado normalmente da família.

Uma das ações mais importantes realizada nos Estados Unidos, que segurou as taxas de cesáreas em um patamar relativamente baixo, se comparado com os números brasileiros, foi feita na área financeira. 'Aqui, a organização responsável pelo credenciamento de todos os hospitais e clínicas investiga todos os hospitais que tenham uma taxa superior a 25%', explica Joseph Potter, o principal autor do trabalho recém-publicado no BMJ, com dados coletados no Brasil. Apesar de norte-americano, ele escreveu o artigo junto com outros pesquisadores brasileiros. 'Se o hospital não consegue justificar um número tão alto de cesáreas, ele corre sérios riscos de perder sua elegibilidade para receber verbas públicas destinadas ao tratamento de idosos', diz Potter. Segundo o professor da Universidade do Texas, em Austin, a grande maioria dos hospitais norte-americanos se autocontrola porque eles dependem, e muito, desta taxa repassada todos os anos pelo governo federal norte-americano.

Além disso, explica o professor, outras medidas de menos impacto também se mostraram positivas nos Estados Unidos. Os obstetras, por exemplo, são reunidos em grupos dentro de um mesmo hospital. Qualquer um da equipe estará apto para atender uma gestante, mesmo que ela chegue de madrugada ou no fim de semana. Os métodos e procedimentos de um parto normal também são revistos e melhorados com freqüência nos Estados Unidos, segundo Potter. Também conhecedor do cotidiano dos hospitais no Brasil, o professor da Universidade do Texas admite que estas pequenas rotinas não são consideradas pela maioria dos hospitais brasileiros.

Sem muito poder de controle sobre os hospitais privados, que são os que mais abusam das cesáreas, o Ministério da Saúde tenta conter o nascimento por intermédio de intervenções cirúrgicas nos hospitais públicos. O próprio ministro José Serra usou o termo 'barbaridade' para se referir às cesáreas feitas de forma desnecessária. O programa em curso do ministério pretende baixar para 25% a taxa de cesáreas em todos os estados brasileiros até 2007. Segundo o texto elaborado pelo Ministério da Saúde, o hospital público que passar dos 30% de cesáreas em um ano não receberá mais nenhuma verba pelas operações excedentes. No ano passado, as taxas de cesarianas nos hospitais públicos do Brasil já caíram para 24%. Em 1995, este mesmo número foi de 32,4%. No caso dos hospitais financiados pelo governo, as 550 mil cesáreas desnecessárias que ocorrem todos os anos em todo o país também custam um desperdício de verba bastante elevado.

A cesárea, segundo os padrões obstétricos, é indicada apenas quando existe risco de morte para o bebê, para a mãe ou para ambos. Estes casos ocorrem, principalmente, quando o cordão umbilical sai primeiro que o bebê ou quando a placenta se descola da parede do útero antes de a criança ter nascido. O número de complicações que podem surgir depois de uma cesariana, tanto para a mãe como para a criança, também é bem maior que as decorrentes do parto normal. Segundo o obstetra e ginecologista Richard Johanson, que comentou para o MBJ o resultado da última auditoria realizada na Inglaterra pelo governo, nos hospitais com altas taxas de cesáreas a grande decisão que precisa ser tomada deve partir dos profissionais envolvidos no parto e das próprias mães. 'É importante que todos se encham de coragem e passem a considerar o parto normal como algo positivo.' Motivos que muitas vezes levam as futuras mães a optar pela cesárea, como a dor do parto, o longo tempo para o nascimento e a desestruturação da região vaginal precisam ser explicados e desmistificados, acredita o médico britânico.

No caso brasileiro, a grande independência dos hospitais privados coloca essas instituições em uma situação bastante paradoxal por causa da necessidade do lucro. O governo não tem um poder de ação muito direto sobre estas instituições. A questão cultural, então, ganha mais peso para as mães que pretenderem, pelo menos uma vez, dar a possibilidade de seu próprio corpo mostrar a capacidade que tem de parir. A pediatra Maria Sylvia já ouviu relatos de obstetras, que vivem na beira do leito de parto, sobre mulheres de baixa renda que tentam convencer o médico a fazer a cesárea. 'Na opinião delas, isso nada mais é que um sinal de status social. Elas aprendem isso no cabeleireiro ou em rodas de amigas.'

Gazeta Mercantil 07.12.01

Versão Original no site da Gazeta Mercantil: http://www1.investnews.com.br/fimdesemana/texto.asp?ed=17&cod=1560735


página principal          menu de artigos


Direitos Autorais