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"Quando
fui ao médico para minha primeira consulta de pré-natal,
ele me explicou que eu deveria fazer exames de ultrassom todos
os meses, para garantir que estivesse tudo bem com meu bebê.
Eu perguntei a ele se o exame poderia fazer mal ao bebê
e ele disse que não, o exame é totalmente inofensivo.
Por coincidência na mesma semana eu li um artigo na
internet que dizia que esses exames poderiam estar ligados
a danos cerebrais nos fetos. Aquilo me deixou totalmente confusa
e agora não sei mais em quem devo confiar."
(Luciana, São Paulo, SP)
"Minha
mãe disse que sem o "pique" (episiotomia)
eu ficaria com meu períneo fraco e incontinência
urinária. Meu médico disse que isso não
é verdade e que a episiotomia deve ser usada apenas
em algumas circunstâncias. Quando ela deve ser usada?
É verdade ou não que o "pique" protege
o períneo?" (M. Eduarda, S. José dos
Campos, SP)
Assim
como Luciana e Eduarda, nós mulheres nos sentimos confusas
na hora de escolher o melhor para nossos bebês, na gestação,
no parto, no pós-parto. As informações
muitas vezes se chocam e o que um médico diz que é
certo, outro diz que é absurdo. Como saber a verdade?
Porque eles pensam tão diferentemente?
Como
qualquer área de conhecimento, a Medicina se baseou
desde o início em observação de fenômenos,
formulação de teorias e apresentação
de conclusões. No entanto quando se observa um fenômeno,
ou quando o interpretamos, estamos dando o nosso "toque
pessoal" e muitas vezes já esperamos um determinado
resultado. Quando tiramos conclusões, elas são
cercadas de nossas crenças, nossos mitos, nossa cultura.
Os médicos e pesquisadores não escapam desses
fatores ao montarem suas pesquisas e anotarem seus resultados.
É
por isso que existem regras para se fazer pesquisa. Tem que
haver um bom número de participantes nos testes. Tem
que se estabelecer um o grupo experimental e um grupo controle,
ou seja, um grupo de participantes que passa pelo procedimento
e outro que não passa. O pesquisador não pode
saber quem faz parte do grupo de experimentos e quem faz parte
do grupo de controle. Existem diversas formas de projetar
os experimentos para que eles tenham o mínimo possível
de interferências pessoais, comerciais e culturais de
quem está executando, analisando e processando o experimento.
Depois
é necessário uma boa análise estatística.
Mesmo assim, milhares e milhares de pesquisas são publicadas
anualmente e que não cumprem com o mínimo de
requisitos que as qualifiquem como "padrão ouro".
Portanto, se alguém quiser encontrar artigos ditos
científicos que afirmem que a cesárea é
mais segura que o parto normal, basta procurar. Vai até
encontrar artigos "científicos" que afirmem
que as mulheres mestiças têm bacias defeituosas
e não podem ter um parto normal. É possível
encontrar todo tipo de afirmação, até
as mais estapafúrdias.
Para
isso existem as metanálises. São estudos em
que os pesquisadores juntam todas as pesquisas feitas no mundo
dentro de um período sobre um determinado assunto.
Depois eles classificam e aproveitam apenas aquelas cujos
experimentos que foram executados dentro dos preceitos acima
citados. Juntam então todos os resultados e fazem a
análise estatística desse conjunto de pesquisas.
Nesse caso teremos milhares de casos computados e com a certeza
de que as pesquisas participantes foram bem planejadas.
E
como é que nós, mães, gestantes, temos
acesso a essas metanálises? Existe um "braço"
da Organização Mundial da Saúde voltada
para o consumidor e suas prioridades. É a Biblioteca
Cochrane. Eles colocam à disposição dos
profissionais e do público leigo todos os estudos feitos
até hoje, envolvendo todas as áreas da medicina.
São os consumidores que determinam o que esse grupo
vai estudar, que dão as prioridades.
Infelizmente
os estudos estão todos em inglês, mas em breve
o site Amigas do Parto vai disponibilizar os resumos mais
importantes traduzidos para o português. É de
fundamental importância que as mulheres saibam o que
está sendo feito em cada exame, cada procedimento e
que, acima de tudo, tenham o direito de escolher o que é
melhor para elas.
Entre
os estudos já publicados: efeitos na anestesia sobre
o parto, uso da episiotomia, posição para o
parto, uso da água para analgesia, ultrassom, e muito,
muito mais. Não deixe de se informar e se for o caso,
consulte uma segunda, terceira, quarta opinião. E lembre-se
que a opinião de cada médico virá acompanhada
da experiência, crenças e conhecimentos dele.
Leia
também:
Escolhas
Informadas
Medicina
Baseada em Evidências
Ana
Cristina Duarte
Amigas do Parto
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