Escolhas Informadas

Ana Cristina Duarte


 

Quando fiquei grávida pela primeira vez tomei uma decisão que iria me marcar para o resto da minha vida: deixaria todo o pré-natal e o parto nas mãos do meu obstetra. Acatei todos os pedidos de exame sem perguntar para quê serviam. Tomei as vitaminas prescritas e os remédios para os males da gestação. Nada perguntei sobre o parto. No dia D (ou melhor, no dia P, de parto), fui para a maternidade e me foi indicada uma cesárea porque o trabalho de parto ia ser muito demorado. Não questionei. Assumi completamente as conseqüências dessa não participação.

Depois de muito tempo e de ver isso acontecer tantas vezes com outras mulheres, entendi que é muito mais fácil entregar as decisões a outra pessoa e não ter que se preocupar com essas questões. Assim, partimos do pressuposto que todos os médicos agem baseados em evidências científicas sólidas e embasadas e que eles sabem tudo a respeito de nossos corpos, nossas gestações, nossos partos, nossas vidas e nossos valores.

É um grande engano. Cada mulher nasce sabendo gestar, parir e nutrir. Está em nossos genes. No entanto delegamos esse saber a outras pessoas em troca de uma garantia e uma segurança que na verdade ninguém pode nos dar.

Estando grávida você terá muitas oportunidades de tomar decisões em relação a exames, protocolos, rotinas, intervenções e tratamentos. Essas decisões serão importantes por toda a sua vida e a vida de seu bebê. Deixar essas decisões nas mãos de outros não diminui o impacto que elas terão sobre suas vidas. Portanto, mãos à obra!

Toda intervenção médica deveria ser feita sob critérios rigorosos. A maioria delas possui efeitos colaterais, muitas podem causar desconforto e atrapalhar processos naturais e algumas chegam a provocar estresse na mulher, no bebê ou em ambos. Usadas rotineiramente, a maioria das intervenções é prejudicial. São necessárias sob certas circunstâncias, geralmente nos casos de patologias anteriores à gestação, gestações de risco ou alterações do padrão normal.

Antes de aceitar um exame, um procedimento, um tratamento, devemos analisar alguns pontos, o que irá facilitar nossa escolha.

1) Quais são as alternativas? Para cada procedimento médico existe uma alternativa, no mínimo: fazer ou não fazer. Mas na maioria dos casos mais de uma alternativa se apresenta: a escolha de um outro procedimento menos invasivo, outro ainda mais invasivo, não aceitar o procedimento para aguardar mais algum tempo, etc.. Essas decisões podem fazer uma grande diferença. Um exemplo: o jejum no trabalho de parto pode ser indicado para gestações de risco, onde existem grandes chances de uma cirurgia de emergência e possível risco de aspiração do conteúdo do estômago. No entanto usado indiscriminadamente ele provoca desidratação, hipoglicemia, fraqueza, parada de progressão do trabalho de parto e outros efeitos colaterais indesejados.

2) Quais opções estão disponíveis para mim? Apesar de muitas vezes existirem opções, é possível que o local onde você vai ter bebê ou o médico que a está assistindo não conheçam, não possuam os recursos ou simplesmente não apoiem suas escolhas. Por isso é importante você se informar antes e conhecer bem as opções oferecidas pelos serviços de saúde que você vai utilizar. Exemplo: você gostaria de ter um parto de cócoras, por motivos vários e até pelas evidências científicas, mas o hospital onde você estava pensando em dar à luz não tem cadeiras especiais e o médico que a atende diz que não apoia partos de cócoras ou que não é possível fazê-lo sem cadeiras especiais. Isso é muito comum de acontecer e o melhor é começar a procurar alternativas, acreditando que suas escolhas são corretas.

3) Quais são as evidências científicas a respeito de um determinado exame, intervenção, tratamento? Nem sempre os procedimentos têm a garantia e eficiência proclamada pelos profissionais que os indicam. Nem sempre os resultados são aqueles esperados, porque não há evidência científica para seu uso. Por exemplo, as evidências científicas apontam que o uso do monitor fetal durante o trabalho de parto não diminui o índice de problemas no nascimento. Leia texto sobre Evidências Científicas e Medicina Baseada em Evidências.

4) O que você e sua família preferem? Embora possa parecer estranho aos olhos de muitos profissionais de saúde, muitas vezes preferimos assumir um risco e abrir mão de alguns procedimentos simplesmente porque preferimos. O pai de seu bebê também tem preferências e vocês devem se responsabilizar juntos pelas escolhas. Um exemplo típico é o de não se submeter a exames de ultrassom. Embora algumas raríssimas malformações possam ser detectadas nesses exames, não se provou que eles são absolutamente inócuos e a família pode preferir abrir mão da possibilidade de encontrar uma rara malformação fetal em nome de uma certeza de não interferência no processo de gestação e uma maior segurança contra possíveis efeitos negativos do ultrassom.

Leia também:
O que são Evidências Científicas
Medicina Baseada em Evidências

Ana Cristina Duarte
Amigas do Parto


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