|
Quando
fiquei grávida pela primeira vez tomei uma decisão
que iria me marcar para o resto da minha vida: deixaria todo
o pré-natal e o parto nas mãos do meu obstetra.
Acatei todos os pedidos de exame sem perguntar para quê
serviam. Tomei as vitaminas prescritas e os remédios
para os males da gestação. Nada perguntei sobre
o parto. No dia D (ou melhor, no dia P, de parto), fui para
a maternidade e me foi indicada uma cesárea porque
o trabalho de parto ia ser muito demorado. Não questionei.
Assumi completamente as conseqüências dessa não
participação.
Depois
de muito tempo e de ver isso acontecer tantas vezes com outras
mulheres, entendi que é muito mais fácil entregar
as decisões a outra pessoa e não ter que se
preocupar com essas questões. Assim, partimos do pressuposto
que todos os médicos agem baseados em evidências
científicas sólidas e embasadas e que eles sabem
tudo a respeito de nossos corpos, nossas gestações,
nossos partos, nossas vidas e nossos valores.
É
um grande engano. Cada mulher nasce sabendo gestar, parir
e nutrir. Está em nossos genes. No entanto delegamos
esse saber a outras pessoas em troca de uma garantia e uma
segurança que na verdade ninguém pode nos dar.
Estando
grávida você terá muitas oportunidades
de tomar decisões em relação a exames,
protocolos, rotinas, intervenções e tratamentos.
Essas decisões serão importantes por toda a
sua vida e a vida de seu bebê. Deixar essas decisões
nas mãos de outros não diminui o impacto que
elas terão sobre suas vidas. Portanto, mãos
à obra!
Toda
intervenção médica deveria ser feita
sob critérios rigorosos. A maioria delas possui efeitos
colaterais, muitas podem causar desconforto e atrapalhar processos
naturais e algumas chegam a provocar estresse na mulher, no
bebê ou em ambos. Usadas rotineiramente, a maioria das
intervenções é prejudicial. São
necessárias sob certas circunstâncias, geralmente
nos casos de patologias anteriores à gestação,
gestações de risco ou alterações
do padrão normal.
Antes
de aceitar um exame, um procedimento, um tratamento, devemos
analisar alguns pontos, o que irá facilitar nossa escolha.
1)
Quais são as alternativas? Para cada procedimento médico
existe uma alternativa, no mínimo: fazer ou não
fazer. Mas na maioria dos casos mais de uma alternativa se
apresenta: a escolha de um outro procedimento menos invasivo,
outro ainda mais invasivo, não aceitar o procedimento
para aguardar mais algum tempo, etc.. Essas decisões
podem fazer uma grande diferença. Um exemplo: o jejum
no trabalho de parto pode ser indicado para gestações
de risco, onde existem grandes chances de uma cirurgia de
emergência e possível risco de aspiração
do conteúdo do estômago. No entanto usado indiscriminadamente
ele provoca desidratação, hipoglicemia, fraqueza,
parada de progressão do trabalho de parto e outros
efeitos colaterais indesejados.
2)
Quais opções estão disponíveis
para mim? Apesar de muitas vezes existirem opções,
é possível que o local onde você vai ter
bebê ou o médico que a está assistindo
não conheçam, não possuam os recursos
ou simplesmente não apoiem suas escolhas. Por isso
é importante você se informar antes e conhecer
bem as opções oferecidas pelos serviços
de saúde que você vai utilizar. Exemplo: você
gostaria de ter um parto de cócoras, por motivos vários
e até pelas evidências científicas, mas
o hospital onde você estava pensando em dar à
luz não tem cadeiras especiais e o médico que
a atende diz que não apoia partos de cócoras
ou que não é possível fazê-lo sem
cadeiras especiais. Isso é muito comum de acontecer
e o melhor é começar a procurar alternativas,
acreditando que suas escolhas são corretas.
3)
Quais são as evidências científicas a
respeito de um determinado exame, intervenção,
tratamento? Nem sempre os procedimentos têm a garantia
e eficiência proclamada pelos profissionais que os indicam.
Nem sempre os resultados são aqueles esperados, porque
não há evidência científica para
seu uso. Por exemplo, as evidências científicas
apontam que o uso do monitor fetal durante o trabalho de parto
não diminui o índice de problemas no nascimento.
Leia texto sobre Evidências Científicas e Medicina
Baseada em Evidências.
4)
O que você e sua família preferem? Embora possa
parecer estranho aos olhos de muitos profissionais de saúde,
muitas vezes preferimos assumir um risco e abrir mão
de alguns procedimentos simplesmente porque preferimos. O
pai de seu bebê também tem preferências
e vocês devem se responsabilizar juntos pelas escolhas.
Um exemplo típico é o de não se submeter
a exames de ultrassom. Embora algumas raríssimas malformações
possam ser detectadas nesses exames, não se provou
que eles são absolutamente inócuos e a família
pode preferir abrir mão da possibilidade de encontrar
uma rara malformação fetal em nome de uma certeza
de não interferência no processo de gestação
e uma maior segurança contra possíveis efeitos
negativos do ultrassom.
Leia
também:
O
que são Evidências Científicas
Medicina
Baseada em Evidências
Ana
Cristina Duarte
Amigas do Parto
|