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Praticada
em cerca de 80% dos partos, quando o ideal seria em 20%, a
incisão está na mira das autoridades de saúde
desde que a Medicina Baseada em Evidências provou que,
na maioria dos casos, não protege nem a mãe
nem o bebê. Ao contrário, seria responsável
por um número maior de infecções pós-operatórias,
hemorragias e até rebaixamento da bexiga.
Esse
último seria um dos fatores que levam à incontinência
urinária na maturidade e ocorre porque o obstetra dificilmente
consegue recompor a região pélvica como antes.
É mais um motivo para acabar
com o vício da episiotomia.
Todo
mundo sabe o quanto é difícil sair da rotina.
Mesmo que seja para melhor. Em se tratando de medicina, a
mudança de paradigmas é ainda mais complicada
quando enfrenta a resistência dos próprios médicos.
E
a episiotomia, introduzida na obstetrícia em 1742,
entra como um desses hábitos duros de mudar. A incisão
no períneo, grupo de músculos que vai da vagina
ao ânus, seria uma forma de ampliar a abertura vaginal
facilitando a saída do bebê durante o parto normal.
Há até uma intenção nobre nesse
procedimento. O corte, controlado, poderia ser bem suturado
recompondo a musculatura local e evitando uma laceração
brusca, irregular e, portanto, de difícil correção.
Parecia
bom, mas a prática não comprovou a teoria e
estudos recentes apontam um aumento no risco de trauma, infecções,
hematoma e dor, além de maior tendência à
incontinência urinária entre as parturientes
que passaram pela cirurgia. Não existe o efeito
protetor que todos imaginávamos. Não é
porque se fez episiotomia que a mulher não ficará
com a vagina dilatada ou com a bexiga baixa, diz Eduardo
de Souza, chefe do centro obstétrico do Hospital São
Paulo.
Diante
desses resultados, a tendência mundial é restringir
o uso da episiotomia. No Brasil, uma campanha nesse sentido
começou no ano passado. Há dois benefícios
relevantes: primeiro, não se faz o corte na mulher
(que implica uso de anestesia e risco de infecção),
e, segundo, mantém-se a musculatura perineal íntegra,
já que nem sempre o obstetra consegue recompor o assoalho
pélvico como antes, o que pode facilitar o afrouxamento
da região e rebaixamento da bexiga, levando à
incontinência urinária.
Curioso
é que, mesmo com todas essas vantagens, a maioria dos
obstetras ainda realiza o procedimento como quem cumpre um
ritual. Basta o parto demorar um pouco e pronto. Falta paciência
e, pior, falta esclarecimento.
A
postura moderna é que se use a episiotomia seletiva,
quando o bebê é muito grande e está forçando
a região do períneo, por exemplo. Ou quando
a musculatura da mulher é muito rígida. Nesse
caso, uma rutura no local poderia ser tão extensa que
chegaria até o ânus, esclarece Eduardo
de Souza.
A
inexperiência poderia até justificar que se fizesse
a episiotomia antes de se ter certeza de que a musculatura
perineal não vai suportar a passagem do bebê.
Não é bem o caso. A maior resistência
à mudança de rotina obstétrica vêm
dos médicos mais antigos. Às vezes, por uma
questão de puro vício. Lembro de uma médica
que pedia para que lhe segurassem as mãos a fim de
evitar que praticasse a episio, como também é
conhecida no meio médico, disse a antropóloga
americana Robbie Davis-Floyd em visita à São
Paulo à convite do Distrito de Saúde de Campo
Limpo da Secretaria Municipal de Saúde de São
Paulo.
A
antropóloga informou que nos Estados Unidos, apesar
de estar em queda, a operação ainda ocorre em
80% a 90% dos partos normais de primíparas (grávidas
do primeiro filho). No Hospital São Paulo o índice
é um pouco inferior: 70%. Mas ainda muito acima do
desejável quando se sabe que cerca de 20% a 30%
dos partos normais necessitam de episiotomia.
Norma
sem sentido
O
quadro é semelhante a outro hospital conveniado ao
Complexo Unifesp/SPDM, o Hospital Estadual de Diadema. Lá,
de cada sete partos normais realizados
por dia, cerca de cinco incluem o procedimento.
Já
é um avanço quando se lembra que antigamente
fazia-se episiotomia em todas as mulheres. Era uma norma
sem sentido, diz o obstetra Levon Badiglian Filho,
plantonista. O médico ainda faz a incisão
meio que no piloto automático para ajudar a criança
a nascer mais rápido. Mas fazer nascer mais rápido
não significa fazer nascer melhor.
É
essa consciência que se espera do médico. Abreviar
o parto quando necessário, se o bebê está
em sofrimento. Mas manter a integridade do corpo da mulher
sempre
que possível. O abuso da episiotomia remete a outra
questão importante: como o parto é conduzido.
Dar à luz na posição inclinada
e não deitada facilita o nascimento e diminui
a episio. Quanto ao medo de lesões, vale saber: As
lesões que se pode causar à mulher ao cortar-se
o músculo perineal, entre a vagina e o ânus,
são piores do que as pequenas lacerações,
diz a enfermeira obstetra Ana Cristina dAndretta Tanaka,
do Departamento de Saúde Materno Infantil da Faculdade
de Saúde Pública da USP. Pela experiência
de atendimento no Hospital de Itapecerica da Serra, em São
Paulo, a enfermeira observou que 50% dos partos normais acabam
não tendo laceração alguma.
Na
outra metade, a maior parte sofreu lacerações
superficiais, de primeiro e segundo grau. Rupturas de terceiro
grau, que são um pouco mais profundas,
aconteceram em 5% das parturientes, enquanto que nenhuma apresentou
laceração grave, conta.
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