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Relato
de Parto... Relato de Vida!
Os
planos são de Deus
Hoje tenho a convicção de que o parto da minha
filha começou há 5 anos, em 2002, quando me
casei com o grande amor da minha vida e planejamos ter um
filho em 2006 ou 2007. Então, de lá pra cá,
tudo correu conforme sonhamos e construímos, com as
graças de Deus! Em 2005, comecei a me interessar por
assuntos relacionados a gravidez, parto e filhos. Lia tudo
o que via pela frente, me inscrevi em listas de discussão
na internet e pesquisei muito para ter uma idéia mais
profunda e crítica sobre esses assuntos, especialmente
sobre a gravidez e o parto em si. Por influência da
minha tia-mãe, que me pegou no colo ao nascer e me
entregou para minha mãe, tive curiosidade em pesquisar
e entender mais sobre o parto. Participei com ela de um congresso
de humanização do nascimento e, de lá
pra cá, depois de ler e trabalhar muito, conversar
com pessoas da área, fazer cursos e ouvir experiências
relacionadas ao tema, me tornei uma ativista e defensora do
parto normal e natural, por entender que o parto é
um processo fisiológico do qual nós, mulheres,
somos exclusivamente capazes e perfeitas para vivê-lo
da forma mais saudável e normal possível.
Bom, conforme os planos, em março de 2006 parei de
tomar anticoncepcional, mas continuamos evitando a gravidez
até o final do ano para que pudesse concluir alguns
cursos e formações que estava fazendo. Engravidamos
no final de dezembro, provavelmente no ano novo, e ficamos
sabendo em 26 de janeiro de 2007, depois de três exames
de farmácia (dois negativos ) e um de sangue "hiperpositivo"!
Foi uma alegria extasiante!!! Imediatamente fomos à
casa dos meus pais e da minha sogra pra contar pessoalmente!
Toda a família ficou muito feliz!
Preparação
para o parto
Passamos os 9 meses curtindo muito a gravidez e preparando
a chegada da nossa 'Pequenina'. Afora um herpes zoster facial
no início da gravidez, azia e pequenas dores na coluna
e virilha no final, tudo correu maravilhosamente bem. Fiz
hidroginástica e fisioterapia para gestantes do 3º
ao 9º mês e yoga com o Duane do 4º ao 8º
mês. Lemos muito. Meu marido, que antes era muito receoso
com partos e especialmente com parto normal, se tornou também
um ativista do parto normal e natural junto comigo.
Um aspecto que considero fundamental foi a busca por um obstetra
no qual pudéssemos confiar e acreditar que só
faria uma cesárea se fosse absolutamente necessário
e também que fosse adepto da humanização
e do mínimo de intervenções e procedimentos
médicos. Isso porque a minha médica e amiga
de muitos anos me disse que não tinha experiência
com esse tipo de parto e que essa "não era a sua
praia". Ela era favorável ao parto normal, mas
com todas as intervenções de rotina, além
de me dizer que esperaria até no máximo 38 semanas
de gestação, porque além disso ficaria
arriscado para o bebê. Na conversa que tive com ela
sobre alguns procedimentos e intervenções como
episiotomia, lavagem, tricotomia, Cristeler, entre outras,
e do meu desejo de um parto de cócoras ou na água,
ela me disse que nós, mulheres ocidentais, não
temos períneo pra isso - "isso é coisa
de índio, que vive agachado e agüenta essa posição".
Bom, com isso, ela me deixou à vontade para ir a outro
médico e foi o que eu fiz! Consultei outros dois médicos
considerados adeptos a práticas humanizadas e optei
por um deles. Encontramos nele um profissional com a prática
diária do parto normal e natural que, com a sua tranqüilidade,
experiência e, acima de tudo, ética, nos ajudou
a fortalecer nosso desejo por esse tipo de parto.
Medos
e incertezas
Apesar de toda a preparação, leitura e conversas
com as mais diversas pessoas, passei por muitos momentos de
incertezas quanto ao tipo de parto. Ficava pensando se não
estava idealizando demais e tinha inclusive medo de me frustrar
por não conseguir ter um parto natural ou mesmo normal.
Ao mesmo tempo em que queria muito, também receava
não dar conta da dor e de todo o trabalho de parto,
por isso pedi muito ao obstetra que eu tivesse a possibilidade
de tomar anestesia caso eu pedisse na hora H (ou melhor, na
hora P). Além disso, tinha dúvidas também
quanto ao local do parto: queria que fosse um lugar com todos
os recursos disponíveis caso eu ou minha filha precisássemos.
Esses e todos os outros medos e incertezas duraram por toda
a gestação, apesar de irem diminuindo mais no
final. Mesmo assim, a escolha do local do parto foi com aproximadamente
36 semanas, bem pertinho da data de nascimento da Larissa.
Escolhi a Casa de Parto depois de muito conversar com o Obstetra,
com a Ana Flávia e com a Rebeca.
Sentimentos e escolhas
Nossa "Pequenina" foi crescendo e, a cada dia,
era mais gostoso senti-la se mexendo dentro de mim. Aliás,
a primeira vez que a senti mexer foi delicioso! Estava vendo
TV e achei que eram gases, mas não, era ela mesma mexendo
pra lá e pra cá! Eu chorava e ria ao mesmo tempo
e meu marido não entendia nada... só queria
saber o que estava acontecendo. Ele demorou um pouco mais
a conseguir sentir ela se mexendo na minha barriga, mas, quando
sentiu, ficou superemocionado também. Ele aprendeu
a ouvir o coraçãozinho dela na minha barriga
e comprou um Pinar só pra isso!
Antes de nos casarmos, combinamos que nossa filha se chamaria
Clara ou, se fosse menino, Gabriel. Como na família
já tinham muitas "Claras", decidimos que
escolheríamos outro nome, até porque não
estávamos gostando muito desse mais. Demoramos a escolher...
Pesquisamos em vários livros de significado de nomes
e um dia me veio à cabeça o nome LARISSA. Fui
ver o significado e gostei muito: cheia de alegria (nome de
origem grega). Ainda assim gostávamos também
de Gabriela, Letícia e alguns outros. Mas Larissa sempre
estava no "top" das paradas e foi o escolhido pelo
nosso coração!
Expectativa
Larissa estava prevista para nascer 22 de setembro pela DUM
(data da última menstruação) e 28 pela
US (ultrassom). Porém, no sábado, dia 15, quando
eu ía fazer as unhas, depilar e preparar nossas malas,
ela nasceu! Trabalhei até sexta-feira, véspera
do nascimento da Larissa.
Tive uma consulta dois dias antes e estava com 2 cm de dilatação.
Foi o primeiro e único exame de toque antes do parto.
Estava com fortes dores na virilha que me impediam de ficar
sentada ou deitada por mais de 20 minutos... mal sabia que
já era meu corpo se abrindo para o nascimento da Larissa.
O dia mais cheio de alegria ( 15 de setembro de 2007)
Por
volta de nove da manhã de sábado, depois de
tomar café, comecei a ter umas contrações
diferentes das que vinha tendo nos últimos dois meses...
Era uma contração na parte inferior da barriga
e não nela toda como antes. Não eram doloridas,
então continuei me arrumando para ir depilar. Percebi
também que estava perdendo um pouco de líquido
amniótico e que o tampão havia saído.
Pedi ao meu marido para ligar para obstetra e contar o que
estava acontecendo. O obstetra perguntou a duração
e freqüência das contrações. Como
eu não tinha contado ao certo, falei que estava durando
uns cinco segundos e que o intervalo era de uns 10 minutos...
isso baseado no meu 'achômetro'. O obstetra falou com
meu marido para eu me deitar um pouco e descansar porque provavelmente
eram só as contrações de Braxton Hicks.
Tentei fazer o que ele falou, mas simplesmente não
conseguia ficar deitada, meu corpo não queria e não
aceitava... Resolvi então tomar banho para sair. Durante
o banho, as contrações se intensificaram e pedi
para meu marido cronometrar... pasmos... estavam durando 40
segundos com intervalo de 3 minutos entre uma e outra... Falei
pro meu marido arrumar as malas, mas também pra ficar
comigo durante as contrações que estavam mais
intensas e doloridas. Ele ficou doidinho, porque eu dava mil
ordens ao mesmo tempo! Além disso, ele não acreditava
que Larissa estava mesmo prestes a nascer. Ligamos novamente
pro obstetra e ele pediu para irmos para a Casa de Parto que
lá o enfermeiro me examinaria e passaria as informações
pra ele acompanhar.
Liguei
pra minha mãe, disse que estava parindo e pedi que
ela viesse rapidamente pra minha casa. A presença,
a participação, o carinho, o apoio, o amor e
a força dela e do meu pai eram fundamentais naquele
momento tão marcante da minha vida. Entre uma contração
e outra, eu ía me vestindo e pedindo ao meu marido
pra pegar uma coisa e outra para levarmos... parecia mais
que íamos viajar de férias por um mês,
pois levamos umas quatro bolsas de viagem com roupas, acessórios,
kit alimentação (Gatorade, biscoitos, etc).
Durante as contrações, só conseguia ficar
agachada ou "de quatro" no chão. Meus pais
chegaram à minha casa quando já estávamos
prontos pra sair - isso devia ser por volta de 10 ou 11 horas
da manhã. Fui "de quatro" no banco de trás
do carro, com meu pai na frente, meu marido dirigindo e minha
mãe comigo atrás achando que a Larissa nasceria
ali mesmo! O trânsito estava caótico, tinha algum
evento no Centro de Belo Horizonte e estava tudo engarrafado...
nessa hora comecei a me arrepender de escolher um local tão
longe da minha casa para dar à luz... puts, parece
que demorou horas pra chegar à Casa de Parto do Sofia
Feldman. No caminho, ía pedindo à minha mãe
pra ligar pro obstetra, pra Ana Flávia, pra moça
das lembrancinhas. A bolsa terminou de romper no caminho,
dentro do carro.
Na
Casa de Parto do Hospital Sofia Feldman
Chegando à Casa de Parto, a Ana já estava nos
esperando na porta. A Ana Flávia é uma amiga
que preparou tudo... deixou todos e tudo a postos para minha
chegada e o nascimento da Larissa - a considero uma irmã
de coração. Ela leu meu plano de parto e providenciou
tudo! Preparou o quarto da banheira com música clássica,
penumbra, me deu de presente a doula, me deu chocolate, suco
e vários comes e bebes durante o trabalho de parto.
Ela filmou e fotografou e foi uma presença superimportante!
Entrei
às 12 horas engatinhando na Casa de Parto e, ao ser
examinada pelo enfermeiro, estava com 4cm de dilatação.
Fiquei embaixo do chuveiro, sentada na bola com o apoio e
o carinho constantes do meu marido da minha mãe (que
ficou ao meu lado o tempo todo, me dando todo amor e carinho
que só ela sabe dar!) e da doula que me orientava e
conversava comigo - ela foi uma fonte de força e concentração
durante todo o tempo. De vez em quando, o enfermeiro vinha
auscultar o coraçãozinho da Larissa, enquanto
o quarto estava sendo preparado. De vez em quando também,
meu pai e minha sogra entravam pra me dar um 'alô' e
dizer que estavam ali comigo! Por volta das 15 horas, o enfermeiro
fez outro toque e constatou 7 cm de diltação.
Durante esse tempo, fiquei rebolando na bola, embaixo do chuveiro
(que relaxava e aliviava muito as contrações)
e respirando. Bebi água, tomei suco, comi chocolate.
Depois de algum tempo já não conseguia mais
ficar sentada na bola, só de pé. Também
comecei a ter a famosa vontade de fazer cocô. Por volta
das 16 horas, fui para o quarto da banheira e, no caminho,
já vi o obstetra com sua tranqüilidade de sempre.
Fiquei superfeliz e segura ao vê-lo!
Quando
entrei no quarto, fiquei emocionadíssima! Todo escurinho,
quentinho, com uma musiquinha suave e um clima superaconchegante
que a Ana Flávia preparou junto dos outros profissionais.
Ali pude vivenciar o que entendia por "Casa de Parto".
Realmente era um ambiente caseiro, com pessoas afetuosas e
acolhedoras. Nada daquele cheiro, daquelas cores acinzentadas
e do clima frio dos hospitais.
A
banheira: hummmm!!!
O obstetra pediu para me examinar antes de entrar na banheira
e verificou que eu já estava com 9 cm de dilatação.
Eu já não conseguia mais ficar sentada, nem
deitada, e, ao colocar os pés na água, me senti
absolutamente relaxada, foi como se eu tivesse tomado um analgésico
ou anestesia, impressionante, até gemi de prazer! Os
intervalos das contrações ficaram maiores e
a dor ficou bem mais amena. Ainda não tinha vontade
de fazer força. Meu marido ficou atrás de mim,
me apoiando, dando força, carinho e amor, a doula me
dando água e orientando as respirações
do meu lado, minha mãe do outro era pura emoção,
minha sogra quietinha olhando e torcendo, a técnica
de enfermagem assessorando o obstetra e a Ana filmando e fotografando
tudo. Essa era a Casa!
Nasceu
a flor mais bela do nosso jardim: Larissa
Fiz força somente quando meu corpo pediu (e ele pede
mesmo!) e, mais perto do momento expulsivo, tive a sensação
de que ia rasgar toda. Quando o obstetra falou que só
faltava a Larissa vencer a resistência do meu períneo,
pedi pra ele cortar tudo porque já estava cansada e
com muita dor. Mesmo assim não tive vontade e nem senti
necessidade de tomar anestesia. No final, pedi socorro, ao
que o obstetra comentou: pronto, pediu socorro agora vai nascer!
Falou também que bastava eu dar uns dois gritos com
bastante força que a Larissa nasceria. Meu pai estava
do lado de fora assustado com meus gritos e, ao ver a técnica
de enfermagem entrando no quarto com oxigênio, ficou
apavorado! Eles colocaram um espelho pra eu ver a cabecinha
dela saindo, eu coloquei a mão nela, mas tive bastante
aflição. Ela nasceu às 17:20 e, na hora
da expulsão, eu não senti ela nascendo. Como
ficava a maior parte do tempo de olhos fechados, viajando
meio em transe entre uma força/contração
e outra, depois que ela nasceu continuei assim, esperando.
Foi quando o obstetra falou pra eu pegá-la - ela já
estava no meu colo e eu achando que ainda viria outra contração.
Tomei o maior susto quando a vi no meu colo, fiquei abraçando,
fazendo carinho nela e perguntando a todos se ela tinha nascido
mesmo! Dr. João falou pra eu segurar o cordão
e dizer quando ele parasse de pulsar. Eu estava tão
extasiada que não senti nenhum pulsar. Depois que parou
de pulsar, meu marido cortou o cordão que, segundo
ele, é muito duro, e ficou com a Larissa no colo, enquanto
eu saía da água pra expulsar a placenta e ser
examinada. Não tive nenhuma laceração,
a placenta saiu e estava ótima, não levei pontos
e não precisei de ocitocina (nem antes, nem durante,
nem depois do parto).
Larissa mamou enquanto fiquei ali deitada e foi maravilhoso
vê-la olhando pra mim e procurando o peito. Meu marido
levou nossa flor pra ser pesada e medida depois de uma ou
duas horas que ela ficou no meu colo. Conversamos com o obstetra
e autorizamos que ministrassem o colírio de nitrato
e a vitamina K na nossa filha.
Larissa nasceu com 45 cm, 2.790kg, apgar 9 e 10 e lindíssima!!!
Enquanto era examinada, tomei café com leite e pão
com queijo que minha mãezona, minha sogra e a doula
foram me dando na boca. Depois disso, levantei e fui para
o outro quarto tomar banho e me arrumar. Quando estava indo
de um quarto para o outro, vi que já era noite e fiquei
impressionada porque tive a sensação de que
tudo tinha durado somente 2 ou 3 horas, pensava que ainda
seriam 2 ou 3 da tarde e já eram 7 e tanta da noite.
Foi um parto realmente maravilhoso e indescritível.
Todos ficaram impressionados e eu mais ainda! Essa foi a experiência
mais forte, linda e Divina que vivi em toda a minha vida.
Realmente toda mulher deve ter o direito e lutar para vivenciar
o parto da forma mais prazerosa e intensa possível.
Vale a pena mesmo!!!
Larissa
nasceu muito saudável, mas, no dia seguinte ao parto,
precisou ser aspirada porque estava bem nauseada. Fiquei com
ela o tempo todo e foi bem rápido, ela até dormiu
enquanto era aspirada.
Experiência
Divina
Um amigo nosso comentou com meu marido: "Puxa, a Carol
é macha pra caramba!", e eu fiquei com essa frase
matutando na minha cabeça: como nossa sociedade fragiliza
a mulher e a coloca como incompetente e incapaz de fazer algo
que só ela pode fazer! Por que será que para
parir assim, naturalmente, somos consideradas 'machas' e não
FÊMEAS?! O parto pra mim foi o apogeu da feminilidade,
uma experiência única. Vi Deus, literalmente,
ao ver Larissa em meus braços.
Ser
mãe está sendo o maior desafio da minha vida,
é um aprendizado diário e um amor realmente
absoluto. Amamentar também é uma experiência
superprazerosa, gratificante e empoderadora, porém,
também considero um desafio, especialmente no início,
quando o leite ainda está descendo e a produção
se equilibrando às demandas do bebê. O apoio
do Duane e dos meus pais foi fundamental. Aliás, o
amor e a admiração que tenho pelos meus pais
ficaram cada dia mais intensos depois do nascimento da Larissa.
Eles são demais!
Sou
eternamente grata a Deus, por me capacitar e me permitir uma
experiência de vida como essa. Ao meu marido, que com
seu amor, carinho e companheirismo embarcou fundo nessa comigo.
Aos meus pais, que, com amor incondicional, me ensinaram a
ser mãe e estão sempre comigo. A Ana Flávia,
ao obstetra, às minhas fisioterapeutas, à minha
professora de yoga, à minha amiga que corrigiu esse
relato, aos profissionais de saúde que me assistiram
e a todos que torceram, orientaram e acompanharam essa jornada:
muito obrigada de coração!
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