Sabrina Santos - Porto Alegre, RS
Parto domiciliar

 

O Caminho e a Chegada de Santiago


Antes de concebido, ele já era sonhado. Não planejado, mas desejado com toda a força pelo meu amor materno e pelo amor paterno de meu companheiro. Ao iniciar esta vida dentro de mim, eu me ocupei de me alimentar física, intelectual e espiritualmente com todas as buscas ideológicas que acredito guiarem meu caminho. A natureza nos transforma, e se soubermos escutá-la, vamos participando integralmente dos processos de mudança. Eu já sentia enjôos e outras sensações antes de fazermos o nosso bebê, antes de sabermos que ele estava por vir, antes de entendermos o que nós estávamos esperando. Nos primeiros meses muito mal estar, vomitava demais, tive uma infecção alimentar junto, tomei soro para hidratar, e o meu corpo foi se limpando e abrindo espaço para o desenvolvimento daquele serzinho. Logo veio a anemia, nada sério, mas sentia muita dor de cabeça e cansaço, um turbilhão não só de hormônios mas de energia estava me movimentando. Agora eu doava minha comida, sangue, corpo e, principalmente, amor incondicional para o meu filho que estava crescendo.

Sentia-me mais introspectiva, mais serena, com mais paciência, com tudo de bom brilhando nos meus olhos, e, ao mesmo tempo, medo e insegurança me fazendo pensar, pensar. O instinto de proteção vai aflorando e agora me sentia o animal ser humano pronto pra defender sua cria. Considerei que aquele estava sendo o momento mais mágico de minha vida, o maior acontecimento, sem dúvidas, mas eu não estava satisfeita. A gravidez corria bem, muitas folhas verdes, feijão, leite de soja e castanhas. O desenvolvimento do bebe sempre foi ótimo, e o crescimento dele nunca foi uma preocupação. O que me intrigava era o parto.

Não saía da minha cabeça a idéia de um parto tranqüilo, natural, em paz. Já tinha lido o livro "Parto de Cócoras", do Dr. Moisés Paciornick, e sabia que este era o modelo de nascimento que eu desejava para mim e para o meu filho.
O problema era achar um obstetra no qual eu me identificasse, que fosse humano, que não quisesse fazer uma cesárea sem motivos, que não fosse frio, calculista, cirúrgico. Já tinha presenciado experiências ruins de amigas minhas, também já havia lido sobre muitos "partos tradicionais" , mulheres insatisfeitas, enganadas.

Estava fazendo pré-natal com uma obstetra que foi indicada por minha ginecologista, pessoa na qual eu confio muito e já consulto há doze anos. A médica obstetra era bastante profissional. E só. Eu sentia falta de sensibilidade, interesse, humanidade. Ela era profissional e sincera. Disse que se eu não chegasse ao final da dilatação dentro de oito horas, faria uma cesárea. Ou seja, se meu filho demorasse muito pra nascer nós não seríamos considerados "saudáveis". Algo me ansiava e eu fui em busca de informações, respostas, verdade.

Pesquisando na Internet encontrei o site Amigas do Parto, onde encontrei os depoimentos de parto de diversas mulheres, onde eu encontrei o Ricardo Jones. Descobrindo que ele morava em Porto Alegre e consultava aqui, meu coração se encheu de alegria e lá fui acabar com a minha insegurança e o meu medo de entregar-me nas mãos de algum carniceiro. Chegando ao consultório a confiança tomou conta de mim e do André, meu companheiro. E a proposta de ter nosso bebe em casa só completou nossos sonhos. A partir do quinto mês de gestação fiz yoga, tranqüilizei a mente e o coração. Só não prossegui até o final pois meu ciático incomodou bastante. Sou bailarina, tenho boa abertura e na yoga pude exercitar isso e também a posição de cócoras. As consultas eram verdadeiros encontros, trocas, e já no final da gestação escolhi minha doula, a querida Larissa, que foi muito importante e especial durante todo o processo.

No dia 25 de setembro eu tive consulta, fiz exame de toque e já estava com contrações, mas irregulares. Às vezes elas se intensificavam e eu sentia um pouco de dor. No outro dia, 26, caminhei com os pés na grama no jardim do meu prédio e recebi minha mãe que veio para participar do parto. Estava tudo tranqüilo e eu fiz coisas em casa normalmente, com uma emoção tomando conta de mim. Às 19h as contrações aumentavam e eu chamei a Larissa. Massageei todo o quadril sentada na bola e recebi bastante massagem na lombar, tudo isso me relaxou muito. Mais tarde o Ricardo e a Zeza vieram me ver, eu estava com 2 cm de dilatação e ainda faltava um bom caminho a percorrer.

Eles foram para casa e a Lari ficou comigo, além da minha mãe e do André. Umas 23h fui dormir e acordei às 2h da madrugada com fortes contrações. Foi aí que todos nós nos reunimos para este momento tão esperado. Conversamos, o pessoal tomou café, biscoitos, tudo para ficar firme e percorrer a noite. Chegou um momento em que eu fechei os olhos e vivi cada segundo dentro de mim, mal escutava a voz das pessoas, só sentia todo o processo e fazia instintivamente o que me aconselhavam, como mudar de posição, deitar para o exame de toque, ir tomar um banho quente. Fiquei bastante tempo de quatro, alonguei muito a coluna e caminhei, e deixei a água cair nas minhas costas. Estar em movimento ajudou, a dor incomodava se eu ficasse parada.

Tive muito carinho de todos os presentes, e, ao mesmo tempo, eu estava totalmente dentro de mim, sem falar com ninguém, só sentindo aquela transformação maravilhosa. Sentei na cadeira para parto de cócoras que estava em meu quarto e ali fiquei um pouco ansiosa. O Ricardo me examinou, disse que eu estava com 9 cm de dilatação, e no momento do exame de toque a minha bolsa rompeu. Levantei, quis caminhar e ele me mandou para baixo do chuveiro quente. A água sempre foi um ambiente de conforto, onde me sinto bastante plena. Só que naquele momento estranhei, pensei, questionei "mas agora?", e ele disse que sim, que eu ia relaxar.

No mesmo momento que entrei debaixo do chuveiro veio a vontade de empurrar, tudo ficou claro, tudo que estava para acontecer, e eu me agachei e fiquei de cócoras. Ao ouvirem meu gemido todos entraram no banheiro, lembro de ter feito um sinal para deixar a luz apagada, a do corredor estava ligada e o ambiente ficou numa meia-luz. Quando a cabeça do bebe passou a emoção foi enorme, indescritível, mágico. Mesmo que a minha musculatura fizesse força, eu me sentia muito forte, com muita disposição, fiz careta de força e empurrei meu filho. Sons, cores, cheiros, sentidos aguçados, a melhor sensação do mundo no coração.

O André diz que minha expressão mudou quando ele nasceu, a feição do meu rosto era outra. A Zeza aparou o nosso pequeno e logo, num instinto louco, eu o agarrei e pus no meu colo. Ainda levantei, desliguei o chuveiro e fui deitar na cama para amamentar. Depois levei dois pontinhos no lábio esquerdo de dentro da vagina por ter rasgado um pouquinho. Às 7h54min do dia 27 de setembro de 2006 nasceu o Santiago, para colorir o nosso mundo, trazer muita paz e amor e trilhar um caminho mágico.

Sabrina Santos
bailabina@gmail.com
Porto Alegre, RS


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