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Abril
de 1992, 18 anos, 20 kg a mais, solteira e completamente perdida
dentro de mim mesma. Essa é a frase que retrata o nascimento
de meu primeiro filho, Bernardo, hoje com 10 anos de idade.
Até hoje me ressinto muito da maneira como o tive,
isto é, da forma como tudo aconteceu, mas após
ler tantos depoimentos de outras mães neste site pude
observar que nem tudo foi minha culpa.
O
médico que me 'acompanhou' foi o mesmo que fez o parto
da minha mãe e admito que nunca tive interesse de procurar
outro, mais por puro medo. Medo de algo dar errado, mas meu
Deus, será que ele fez tudo certo?
O pré-natal foi o que se poderia chamar de estéril,
pois foram idas ao consultório onde as perguntas mais
profundas que fazia ou ele não respondia ou ignorava.
Talvez, por ser muito jovem e inexperiente, ele não
me considerasse madura o suficiente para entender a complexidade
de um parto. Infelizmente, não me interessei em combater
essa atitude, pois a minha própria vida já estava
confusa demais...
Não
tive apoio emocional de ninguém na minha família,
ao contrário, recebi muitos julgamentos e críticas
e nem apoio por parte do pai do meu filho também. Principalmente
emocional, pois não havíamos programado (ou
sonhado) um filho naquela altura das nossas vidas. Estávamos
noivos, mas ainda não havíamos sequer decidido
onde morar, pois ele era de Porto Alegre e eu do Rio de Janeiro.
Namorávamos à distância e assim mantínhamos
o relacionamente que, justamente na época em que engravidei,
estava praticamente terminado. Havia decidido terminar com
o noivado e continuar meus estudos, mas nada disso aconteceu.
Sinceramente,
como fui uma adolescente grávida, sei exatamente o
que se passa com essas meninas recém saídas
da infância que se deparam com um mundo de emoções
novas e com o desejo de se conhecerem como mulheres. O que
sentia não era amor, mas curiosidade. Parece estranho?
Você se lembra dos seus 17 anos? Particularmente, foi
uma época muito estranha da minha vida. E o nascimento
do meu filho justamente nessa hora me fez uma pessoa melhor,
hoje tenho certeza disso.
Acho
que a ingenuidade deve ser combatida e a informação
quanto ao sexo deve partir de dentro de casa, isso é
responsabilidade dos pais! E não da TV, da mídia
ou do Ministro da Saúde. Não tive orientação
nenhuma nesse sentido. Minha mãe, que nunca mais teve
outro relacionamento sério com um homem desde que separou
de meu pai, nunca conversou séria e abertamente comigo
a esse respeito. Posso dizer que nunca realmente conversamos
nada sério antes de eu completar 27 anos de idade...
Sim,
ser oriunda de uma separação foi algo que marcou
muito a minha consciência e que me prejudicou muito
sim, pois nunca consegui "resolver" isso dentro
de mim. Até hoje ainda me machuca pensar no meu pai
que não vejo desde 1993. Portanto, acho muita graça
anúncios de camisinha e tudo mais, mas os pais, que
são os únicos responsáveis mesmo pelos
próprios filhos, estes muitas das vezes (por ignorância,
estupidez, medo ou preconceito) sequer se acham na obrigação
de fazê-lo! Minha mãe até hoje acha que
nunca foi obrigação dela em conversar comigo
sobre sexo...
Bem,
minha gravidez foi bem tumultuada e problemática. No
início 'recusei' a idéia de ter meu filho. Tinha
um medo terrível! Medo de nunca mais poder concluir
meus estudos, de ficar com o períneo 'estragado' (como
minha mãe falava do dela mesma, pois se arrebentou
no parto normal), de ter um filho doente, de nunca mais ter
meu corpo esbelto de volta, entre outros pensamentos estranhos.
Foi uma fase difícil e mais difícil foi superar
isso tudo sozinha!
Lá
por volta dos 6 meses tudo se acalmou... Começei a
amadurecer e a aceitar meu filho dentro de mim. Começei
a ler a respeito de gravidez e queria mais informação
a respeito. Meu coração revoltado começou
a amolecer e a aceitar minha nova condição como
ser humano: mãe.
Uma tarde de páscoa num domingo tranqüilo de abril...
Estava
tentando cochilar após uma refeição mais
consistente, estava há 2 meses só comendo sopa
e sem sal para controlar o peso e a pressão, senti
uma dor muito forte no ventre. Estava sozinha em casa. Já
havia pago as prestações do parto (paguei como
se fosse cesariana, pois o valor era mais alto e não
quiz deixar pra última hora, se fosse o caso... Não
tinha plano de saúde e tinha pavor de hospital público)
e estava praticamente tudo organizado pro bebê chegar.
Sempre pedi informações sobre o parto normal
ao meu gineco, mas como disse anteriormente, ele sempre vinha
com a ladainha: "a mulher sofre muito e você é
muito jovem..." Fiquei com medo, claro.
Fui
ao banheiro e vi sangue na calcinha e decidi ir pra Maternidade,
pois havia ido 2 dias antes num alarme falso e achei que esse
não seria, e não queria mesmo ficar sozinha
em casa correndo o risco de ter o filho sem ajuda. Peguei
a bolsa e fui a pé até a esquina de casa chamar
um taxi. No taxi mesmo começaram a ficar mais fortes
as contrações. Fui encaminhada na Maternidade
ao meu quarto a esperar o meu médico. Mudaram minha
roupa, começaram a me raspar, mas ninguém parou
pra conversar comigo ou perguntar como eu estava ou o que
sentia...
Fiquei
momentos sozinha na cama do quarto pensando comigo mesma o
que estava acontecendo, pois aquilo não estava parecendo
um parto. As dores aumentaram e começei a chorar e
chamar a enfermeira. Elas vinham, diziam que o médico
estava chegando e iam embora. Fiquei assim por algumas horas.
Daí o médico chegou no momento em que sentia
as dores, fez o toque e disse que eu só tinha até
então 3 dedos de dilatação e que isso
não era suficiente para o início de um parto,
etc. Precisaria esperar mais até mais de 7 dedos (?)
e doer mais! Agüentei o quê pude, mas chegou um
momento em que começei a sentir falta de ar e a ficar
tonta. Ninguém monitorou meu bebê ou coisa assim
e sequer estava com soro. Sabia que isso já deveria
estar acontecendo naquela altura! Nada.
Em
seguida veio o médico e me perguntou se eu queria fazer
a cesariana... Fiquei em dúvida e no estado lamentável
em que estava não tinha condições de
pensar! Acho hoje que isso foi até maldade por parte
dele para comigo quiçá uma grande insensibilidade
moral. Aliás, hoje tenho CERTEZA disso, pois fiz a
asneira de ter meu segundo filho também com esse mesmo
médico...
Após
minha indecisão ele decidiu (!) por mim em fazer a
cesariana e me encaminhou imediatamente ao centro cirúrgico.
Ora, dali então passou tudo a parecer mais com a idéia
de parto que eu tinha até então. Fui para a
sala de cirurgia onde recebi soro e anestesia. Alguns aparelhos
me monitorando e tudo mais. Eles fizeram meu parto ouvindo
ao jogo de Vasco e Botafogo... O único que foi doce
comigo e puxou conversa, certamente para me acalmar, foi o
anestesista. Meu filho nasceu justamente no gol do Vasco...
Até hoje me senti desreispeitada por isso, mas como
iria reclamar? Como uma mulher atada à uma cama, anestesiada,
tonta e mal podendo falar vai poder fazer-se entender e EXIGIR
que o maldito do rádio para de fazer barulho!!!
Me
entupiram tanto de remédios e entorpecentes que após
ver meu filho na sala de parto e ser bruscamente separada
dele por mais de 12 horas, tive de enfrentar uma "noite"
de horrores com todo o meu corpo em "coma" devido
a tanta porcaria dentro de mim! Tinha uma dor de cabeça
horrível e vomitei mais de 2 vezes, não consegui
separar realidade de imaginação e tentava falar
mas não podia. A dor de cabeça, o enjôo
e a sensação de desorientação
que tive foram tão fortes que ainda sinto-me mal só
em recordar isso! Um horror.
Amanheceu.
Encontrei-me enfaixada em torno da minha cintura e senti a
dor do corte no ventre. Me lembro de ter ido ao banheiro com
a ajuda de uma enfermeira nessa hora, pois sequer consegui
levantar sozinha ou andar sem amparo devido a dor e a cirurgia.
Ao me dirigir ao banheiro vi, do lado de fora da porta do
meu quarto, uma mãe com seu bebê recém
nascido ao colo e passeando com o mesmo pelo corredor... Meu
Deus! Como desejei estar como ela naquele segundo... Senti-me
um lixo naquela hora. Perguntei à enfermeira como ela
conseguia andar com o bebê e a mesma disse que a moça
havia tido parto normal quase no mesmo período que
eu. Só que eu só iria conseguir fazer aquilo,
isto é, passear tranqüilamente com meu bebê
ao colo, somente 2 meses depois do parto!!!
Trouxeram
Bernardo...
Tão
pequenino, apenas 2,430kg e ainda teve de ficar na encubadeira,
dizem eles, por problemas respiratórios. Graças
a Deus havia me esclarecido bastante a respeito da amamentação
e havia decidido que iria amamentá-lo ao peito até
quando ele quisesse! Isso ninguém tirou de mim ou do
meu filho. Amamentei ao peito e acho que isso me ajudou muito
psicológicamente, fisicamente, emocionalmente e até
espiritualmente. Tive depressão pós-parto (hoje
sei e reconheço o que fôra aquilo, pois na época
nem o gineco sabia...), mas consegui superar com a ajuda do
meu próprio filho e da amamentação ao
peito.
Não
senti meu baixo ventre por 2 anos após o parto. Era
tudo "dormente". Um dos pontos inflamou após
a retirada dos pontos e isso foi traumatizante, pois ficava
aquele pavor de terem de me abrir denovo a barriga! No primeiro
mês após o parto praticamente não andava.
Só comecei mesmo a poder fazer as coisas após
1 mês e meio... Fiquei muito traumatizada com o parto
todo em si e acho que não foi uma das melhores experiências
que tive em minha vida. Acho que foi desumano.
Apoiar
e fazer com que vosso site seja reconhecido é uma tarefa
de cada mulher que visita o mesmo. Tenha ela tido uma boa
experiência ou não. Espero sinceramente que essa
situação calamitosa no Brasil possa melhorar
dentro de poucos anos, pois o que há hoje para a maioria
das mulheres não se chama parto, mas desumanidade.
Não tive meu parto em hospital público (2 histórias
horrendas eu contaria sobre duas pessoas que conheço,
também adolescentes grávidas na época,
mas não devo, pois faz parte da vida delas. O que posso
é tentar mandar o link do site para as mesmas), mas
numa Maternidade particular e com médico particular,
isto é, com pessoas que, veja bem, TALVEZ, tivessem
mais "interesse" em oferecer algo de qualidade à
mulher. Isso parece não existir ainda em nosso país.
O que existe é a preocupação com o dinheiro,
mais nada. Nem a vida de mãe e filho são levadas
em consideração.
Hoje
moro na alemanha, onde cesariana soa palavra de outro planeta
por aqui. Todos a quem conheço nasceram por parto normal
e os 2 primeiros filhos de meu atual esposo nasceram aqui
nesta casa onde moramos. Nosso primeiro filho, como já
disse, nasceu no Brasil, mas isso é outra história...
Aqui
há uma consicentização e um apoio à
mulher que nunca havia visto e o homem, inclusive, tem uma
consicência ímpar sobre todo o processo em si.
Um exemplo que o Brasil deveria copiar, pois parece que por
lá já não sabem mais trazer ao mundo
bebês com amor.
Sonho
ainda em ter uma menina. Sonho ainda em tê-la por parto
normal. Não sei se ainda realizarei esses sonhos, mas
uma coisa é certa, não me arrependo mais de
nada do que vivi até hoje. E ser mãe é
uma dádiva divina que deve ser respeitada por todos.
Começando pela própria mulher! Recuse ser ignorada,
mal tratada ou mal atendida numa Maternidade ou pelo seu próprio
gineco, eles não têm esse direito! E se você
está grávida e leu meu depoimento procure seu
pediatra por aqui mesmo ou se informe bem melhor e sem medos,
leia as histórias e faça de tudo para que nesta
parte do site, cada vez mais, histórias de partos felizes
possam ser publicadas.
..Namastê..
Patrícia
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