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Eu
fiz o meu pré-natal com um médico que NÃO
ERA cesarista anos atrás e agora É. Quando eu
estava grávida e ele me disse que cordão enrolado
e "presença de incisura protodiastólica
na artéria uterina esquerda" contraindicavam o
parto normal, aceitei passivamente, fiquei muito preocupada
e fiquei até aliviada, pensando que estava fazendo
tudo certinho, e que graças a Deus meu médico
e os exames detectaram esse "problemão" a
tempo!
Meu
médico sabia que eu queria parto normal, pedi a ele
que tentasse esperar mais, que preferia repetir os exames
mais pra perto e pelo menos sentir as contrações
para então fazer a operação. Ele me disse
que era muito "arriscado" esperar, que cesariana
não era tão perigoso assim como dizem, que não
era nada demais.
Meu
marido perguntou pra ele se o cordão não poderia
desenrolar, já que faltavam 2 semanas. Ele, com ar
irônico disse que é claro que não, que
o bebê já era grande e dificilmente desenrolaria.
Ficamos ambos decepcionados mas ao mesmo tempo, como disse,
achando que estávamos fazendo tudo certinho. Ele abriu
a agenda dele e falou - Ingrid, quarta-feira que vem você
se interna e a gente faz a cesárea.
Meu
marido virou pra ele e falou - Poderia ser na sexta-feira,
assim no final de semana eu poderia ficar com ela direto?
Sabe o q ele respondeu? E eu vou perder o meu final de semana???????
(detalhe, meu marido só me contou isso depois do parto)
Ao mesmo tempo, ouvia as meninas da lista de discussão
amigas do parto dizendo que nada disso era motivo de cesárea,
e aquilo martelava na minha cabeça.
Primeiro
conflito: médicos podem errar (isso não existia
na minha cabeça)
Segundo conflito: MEU médico errou (mais difícil
de aceitar)
Terceiro conflito: cesariana é perigoso (dezenas de
pessoas me dizendo que era tranquilo e eu achando que era
o mesmo risco de normal só que doendo menos!)
Quarto conflito: MEU médico está forçando
a barra por comodidade (só aceitei quatro meses depois)
Falei
com a minha mãe, já que ele fez o parto dela,
e o comentário foi que o médico não era
cesarista e que quando ela teve o meu irmão, quase
não encontrava ele no consultório, pois muitas
vezes estava fazendo partos normais e ela tinha que remarcar
a consulta.
Disse
que o que eu tinha deveria ser realmente perigoso, pois ela
acreditava que o médico não poderia me submeter
a uma cirurgia à toa, até porque a minha mãe
teve uma infecção hospitalar fazendo uma cesariana,
e ela sabia o quanto era perigoso (infecção
hospitalar significa não amamentar - pois se toma um
monte de antibióticos que passam pro leite, ter que
fazer drenagem do pus que fica no corte três vezes ao
dia (abrir os pontos, limpar e fechar os pontos)).
E
assim foi, fui para a sala de parto, com a pulga atrás
da orelha, mas confiando na minha mãe mais que no meu
médico. No hospital, fui a quarta mulher a entrar no
centro cirúrgico seguido de uma cesariana pela equipe
do meu médico (naquela noite foram 5 cesarianas seguidas).
Naquele dia a ficha começou a cair. Correu tudo bem?
Correu.....
Senti
muita dor nos primeiros dias, dificuldade para caminhar, sem
poder tossir, sem poder espirrar, dependendo dos outros pra
fazer curativo, gastando a maior grana com antibióticos,
mas essa dor física é uma coisa que você
esquece.
Agora,
a partir do momento que você tem acesso a informações
do risco da cesariana ser 10 vezes maior pro teu filho, a
partir do momento que você sabe dos problemas que pode
vir a ter depois da cesariana, a partir do momento que você
sabe qtas camadas do teu corpo foram cortadas e que teu filho
foi tirado de lá fora da hora que queria, podendo ter
uma complicação, e depois que você sabe
que tudo isso foi uma engabelação por comodidade
e lei do menor esforço.
Que
te cortaram sem motivo, aí a coisa muda, porque a ferida
que isso faz na alma e no coração não
cicatrizam nunca. Essas pessoas que dizem que fizeram cesárea
e que não tem nada demais, não sabem do risco
que correram, muitas das vezes, desnecessariamente. É
que nem minha mãe que não amamentou, mas não
sentiu nada, porque achava que o NANON da época alimentava
e engordava mais (ela achava que estava fazendo o melhor pra
gente).
Hoje,
que ela conhece os benefícios do leite materno, que
o João não fica doente e que nós, seus
filhos, vivíamos noites acordados com essas ITES da
vida, aí ela sente muito, e lembra com tristeza do
pediatra que ela confiava tanto e que prescreveu o NANON pra
gente...
Porque
o meu parto não foi normal?
Hoje
eu acordei, querendo entender isso de uma vez por todas, saber
porque eu não me rebelei antes do parto e mudei de
médico. O que me faltou? Entrei hoje no site do Yahoo
e fui ler as mensagens da época. Voltei no tempo, viajei
para Outubro de 2002. Na época eu participava da lista
maesebebes e perguntei o que era a "incisura protodiastólica
na artéria uterina" detectada no meu "doppler
rotineiro". Lista formada de mães, ninguém
sabia responder.
Fui
pra Internet e comecei a pesquisar. 500 resultados falando
de pré-eclâmpsia. Aí comecei a achar que
o que eu tinha era pré-eclâmpsia. Comecei a pesquisar
sobre pré-eclâmpsia... e vi que para ser confirmada
tinha que ter proteina na urina, hipertensão, entre
outros sintomas. Fui olhar o pedido de exame do outro doppler
que eu ia fazer e vi que tava escrito "suspeita de pré-eclâmpsia"
com a letra do obstetra. Fiquei assustada.
Fiz
o exame de urina e deu negativo (sobre pré-eclâmpsia).
Ele ainda havia pedido cardiotocografia e outro doppler pra
confirmar a incisura. Sem sofrimento fetal. Novamente detectada
incisura. Dessa vez uma circular de cordão também
foi detectada (eu estava com 36 semanas). No dia 10 de outubro
fui a consulta. Ele olhou os exames e me disse que a incisura
havia sido confirmada, mas daria até pra tentar, porém,
com a circular de cordão, o parto normal seria contraindicado.
Comentei
isso na lista maesebebes. A Andy e a Anita Vasconcelos participavam,
indicaram a nossa lista, amigasdoparto e me diziam que a circular
não era motivo de cesárea. Me inscrevi aqui
dia 15 de outubro de 2002, 8 dias antes do parto.
Comecei
a pesquisar na Internet. 500 resultados falando de circular,
entre eles alguns diziam que era motivo de cesárea.
Encontrei, inclusive, vários condenando muito o parto
normal com cordão enrolado, contando casos trágicos,
que ficaram na minha cabeça. Ao mesmo tempo, na minha
família tem uns casos não muito agradáveis
de cordão enrolado que acabaram na cesárea às
pressas.
Li
alguns textos da Internet que falavam que apesar das mulheres
preferirem parto normal, eram desencorajadas pelos médicos
pro comodismo.As meninas falavam pra eu esperar o trabalho
de parto.
Dia
17 de outubro fui à ultima consulta. Olhei pro médico
e disse que meus exames não tinham detectado nada de
pressão alta, nem proteinura, nem sofrimento fetal,
nem nada. E que o cordão poderia ser desenrolado na
hora. Aí ele me disse que na hora as coisas poderiam
desandar, que eu já tinha uma predisposição
a ter hipertensão, por causa da incisura, e que o desenlace
do cordão teria que ser feito em segundos, tudo seria
muito imprevisível pra ele, afinal minha pressão
"poderia" subir e tudo complicar. Falei então
para esperar o trabalho de parto. Ele disse que era melhor
"não arriscar". Marcou a cesárea para
o dia 23, ou seja, 5 dias depois. Neste dia eu estaria completando
38 semanas. Numa quarta-feira. Pedimos que fosse na sexta.
Ele disse que não dava. Agenda cheia.
Melhor
não arriscar...
Melhor não discutir...
Liguei pra minha mãe. Falei: o Faria tá me enrolando...
Ele quer fazer cesárea, mas não tem motivo.
Ela me dizia que se eu não tivesse afim, pra eu trocar
de médico, mas que na opinião dela, seria o
cúmulo ele, logo ele, fazer isso. Ela não acreditava
que ele fosse capaz de marcar uma cesárea por comodismo,
como eu havia dito anteriormente. Afinal, segundo ela, ele
era um médico muito respeitado.
O
Bruce, tinha medo de acontecer alguma coisa. De eu estar muito
encucada sem motivo. Afinal, cesárea hoje em dia é
muito segura, ele dizia. Melhor deixar pra lá. Incrivelmente,
não comentei nada aqui na lista. Só avisei após
o João ter nascido. Dia 23 fui pra cesárea,
mas não fui feliz. Eu sabia de tudo, que não
era motivo, sabia que era comodismo. Mas eu fui. Fui caminhando
para o "abate". Devagar e sempre.
Percebi
logo que aquele dia era o "dia da cesárea"
dele. Operou várias consecutivamente. Após o
parto não segurei meu filho, pois estava amarrada aos
aparelhos de pressão e ao soro.
João
teve desconforto respiratório. Demorou 14 horas pra
vir pro quarto. As enfermeiras desconversavam quando eu perguntava
porque ele ainda não tinha vindo. Bruce fez plantão
no berçário até descobrir que ele tinha
"tido uns probleminhas e estava na UTI, mas logo voltaria".
Elas tentavam esconder o problema... Afinal, isso era muito
normal por ali...
Desmaiei
várias vezes ao tentar levantar da cama e caminhar
até o banheiro, no dia seguinte. Tive que ser amparada
pelo Bruce e pela enfermeira que me jogou vários baldes
de água fria na cabeça. As enfermeiras falavam
pra eu andar e eu não queria porque doía horrores.
Hoje o que eu posso concluir que o meu parto não foi
normal. Meu parto não foi normal porque eu tive medo.
Medo de desobedecer. Eu sabia da opinião dos meus pais
e eles confiam muito no Faria (obstetra). Eu, na condição
de filha, não quis desobedecê-los. Também
não quis desobedecer o Faria, e criar um mal-estar.
Medo de saber a verdade. Não mandei emails pra lista
e hj percebo que foi porque vocês me falariam a verdade.
Vocês sabiam a verdade, vcs me deixariam confusa. Embora
a Anita me dissesse que aquilo não era motivo, muitas
outras me mandavam em PVT (na lista maesbebes) que o médico
tava certo, que cesárea era tranquila, e elas mesmas
já tinham feito várias cesáreas. Nas
pesquisas pela Internet, vários artigos falavam que
o cordão não era motivo de cesárea, mas
preferi ler e guardar somente aqueles que falavam que era
motivo. Isso tudo me mantinha alienada e eu queria ficar nesse
estado.
Medo de estar errada. Eu não tinha informação
e conhecimento que eu tenho hoje e por isso não conseguia
trocar de médico. E se ele estivesse certo? E se eu
tiver colocando tudo a perder?
Medo de sentir culpa.
Eu não queria errar e fazer alguma besteira. Eu queria
fazer a cesárea sem sentir culpa. Por isso me alienava
e colocava tudo nas mãos do médico. Entreguei
o meu parto todo na mão da equipe médica e me
libertei da culpa.
Medo do desconhecido - Saber o dia e a hora do parto era prever
o futuro e saber que aquilo tudo cessaria e tinha dia certo.
Acabaria a ansiedade, o peso da barriga. Acabaria a angústia.
Era só esperar. Era tudo previsível agora. Eu
me lembro de sentir alívio.
O
único medo que eu não senti foi o medo da dor
do parto.
E você? Porque o seu parto não foi normal?
Ingrid
Oliveira Lotfi
E-mail: ingrid@smart.inf.br
http://www.partohumanizado.blogger.com.br
Rio de Janeiro, RJ
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