| Tenho
dois filhos. Dois partos bem diferentes, mas que trouxeram coisas boas, que abriram
portas diversas para nós, eu e o Henrique.
Marcella Já
no primeiro parto eu queria algo natural. Não tinha ainda muita consciência
do que era isso de fato, mas fui procurar um médico que fazia e acreditava
em parto natural. Era o dr Jorge Kuhn. Ele me indicou uma doula, a Tuca e então
começamos um trabalho bem bonito de preparação para parto
que depois do nascimento virou terapia e mudou muita coisa na minha vida. Um filho
sempre trás novos caminhos. Tudo
estava certo para um parto normal. A gestação foi tranqüila,
fiz o trabalho de preparação para o parto, o médico acreditava
nesta possibilidade. Faltando
três dias para completar quarenta semanas, comecei a sentir pequenas contrações,
fui para o hospital, mas o médico mandou voltar para casa, pois se ficasse
lá provavelmente me fariam uma cesárea. Ainda não havia nenhuma
dilatação. Que frustração! No dia seguinte, à
noite, as dores aumentaram e então entrei em trabalho de parto. Por orientação
do médico ficamos em casa até de madrugada.
Lá pelas 3 horas fomos para o hospital, esperamos até às
seis e nada da Marcella nascer. Estouraram a bolsa e as dores aumentaram muito.
Como eu já estava muito cansada de tanta dor e ansiedade me deram uma anestesia.
Ainda esperamos umas duas horas na sala de parto, mas eu já estava numa
situação que dificultava muito o parto normal . Estava deitada e
anestesiada. Não sentia dor mas também não sentia vontade
de fazer força. Não sentia! O médico avisava quando era a
hora de fazer a força e eu tentava fazer o que podia naquela situação
anestesiada. Como
houve um aumento do batimento cardíaco do nenem tentaram fórceps.
Nesse momento a Marcella voltou para trás e tiveram que rapidamente fazer
uma cesárea. Eu gritava para não cortarem minha barriga e eles diziam
que a cicatriz ficaria pequena. A minha preocupação não era
estética. Eu não queria este registro no meu corpo. Eles não
entendiam isso... Marcella
nasceu às 8h45.Mostraram-me minha filha e como eu não podia tocá-la
pela posição que estava, com soro e toda parafernália médica,
só pude acariciá-la com o rosto, sentir seu cheiro. As lágrimas
pulavam dos meus olhos cheias de emoção. E do Hebrique também.
Apesar de tudo, a emoção e a energia era forte e grande. Na mesma
hora levaram-na. Eu fui para aquelas sala de recuperação cheia de
mulheres deitadas. Dormi, acordei no quarto onde ficaria com ela por uns dois
dias. E aí vivi toda recuperação cheia de medicamentos.
Leonardo É
tão bom depois de quinze meses ainda voltar a falar do parto e relembrar
este momento tão forte e gostoso da minha vida. Logo que fiquei
grávida comecei a pesquisar e perguntar sobre parto natural, clínica
de parto, parto em casa.Eu queria fazer algo diferente do primeiro parto. Mas
nem imaginava que teria de fato coragem para isso. No início da gravidez
soube que iria mudar para Porto Alegre. Junto com esta notícia me veio
a indicação de um médico, Ricardo Jones, que fazia parto
natural em casa. Nas minhas primeira visitas a Porto Alegre fui conhecê-lo
e adorei tudo o que ele falava sobre parto, mulher, recuperação
da força feminina na sociedade moderna, medicalização, incapacidade
de homens, mulheres e médicos em lidar com um momento tão forte
e tão incontrolável como o nascimento. Mas não era só
teoria, era prática também. Fiz tantas outras visitas, conversas,
perguntas, medos, e ele foi me contando casos, mostrando fotos, limpando meus
medos. A confiança se estabeleceu a tal ponto que não fiz nenhum
ultrassom, era só o exame que ele fazia, ouvia o coração,
pressão, estado geral. Através dele conheci a doula Cristina
com a qual fiz ioga e também muitas conversas (medos, perguntas sobre meu
corpo antes e depois do parto, sobre a dor, sobre a demora, o tempo) e a Neuza,
enfermeira e esposa do Jones que me acompanhou firmemente, mas cheia de carinho
nos momentos cheios de dor. Sobre a dor o que eu digo é que doeu,
mas uma dor diferente do primeiro parto. Pois no primeiro parto eu estava sozinha
num quarto de hospital, esperando o médico chegar, com medo, fome, tensa,
sem saber o que iria acontecer, sem a doula e sem o Henrique(eles estavam do lado
de fora e não os deixavam entrar) e com enfermeira passando de vez em quando,
querendo fazer toque e achando sei lá eu o que de mim ali, gritando de
dor, sem querer que ninguém me tocasse ou me desse algo sem autorização
do meu médico. No fim, depois de quase 14 horas em trabalho de parto, tomei
anestesia, tentamos fórceps e fiz uma cesárea! Que diferença
esta dor em casa, no colo do marido, com massagem da doula, com exercício,
banho quentinho, pouca luz... um médico querido, que sabe te dar o lugar,
o lugar que é nosso, e não dele. Que sabe esperar sem pressa, sem
intromissão, sem invasão. E
o Leo nasceu em casa. Foram 4 horas de trabalho de parto, num ambiente gostoso,
quentinho, seguro, com cheiro de bolo, música, massagem, banho, e muita
energia vibrando, muita sensação acontecendo no meu corpo. Muita
vida. No dia 8 de setembro, eu acordei com um pouco mais de dor mas não
achava que era hora ainda. Meu marido saiu com nossa filha e sogra para passear
e eu não quis ir junto. Fiquei a manhã toda sozinha e por volta
do meio dia as dores aumentaram. Por volta das 2h00 falei com a doula e ela pediu
para que eu me distraísse. Fiz um bolo em meio às contrações.
Ás 4h00 a dor estava bem forte. Avisei o Henrique eàs 5h00 ele e
a doula chegaram. Massagem, exercícios, muita dor. Eu sentia
muita vontade de fazer força. Uma força que é incontrolável,
feita pelo corpo. Uma força que o corpo pede e decide fazer. Era como se
corpo e mente nesta hora fossem separados. Ele decidindo sobre fazer a força.
( Aqui sim eu pude sentir o que é isso, não no parto da Marcella
, anestesiada). Às sete chegou o Jones e a Neuza. Ele fez o primeiro toque.
Eu estava com oito de dilatação. Mais massagem, banho quente e dor.
Depois de uma hora outro toque e já estava pronta para deixar o Leo nascer.
Às 20h00 o Leo nasceu. Eu acho que foi tudo muito rápido.
Ele saiu inteiro de uma vez só. Que emoção pegá-lo
no colo, esperar o cordão parar de pulsar, ver o pai cortando, dando o
primeiro banho. Nós três juntinhos em nossa casa, no calor de toda
essa força e emoção, absolutamente vivos, limpos (de drogas,
anestesias) e sensíveis. Depois
da chegada do Leo, quando ele já estava quentinho e acomodado em sua nova
morada e eu descansava, senti uma forte energia das mulheres, minhas ancestrais.
Era como se elas me dessem parabéns e me incluíssem no seu clã.
Agora sim vc é uma das nossas. E sentia que em algum lugar existia uma
Carla forte e livre.
Um ano depois, começo a entender esta sensação e a recuperar
minha força e liberdade. Agradeço ao Jones por acreditar em mim
e na força feminina de produzir a vida , agradeço a mim por ter
tentado esta experiência, longe de casa, longe da mãe e por conseguir,
agradeço às minhas ancestrais que deram a vida com prazer e força
e agradeço à Deus pela beleza e intensidade deste momento que hoje
me parece tão fugaz. Carla
Servera E-mail: carla.cervera@terra.com.br
Porto Alegre, RS Não
deixe de ver as fotos do parto domiciliar da Carla em www.amigasdoparto.com.br/imagens.html
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