|
Meu nome é Marcia, tenho 37 anos e tive meu primeiro
bebê aqui na Holanda. Minha gravidez não foi
das mais simples, tive sangramentos no primeiro trimestre,
tratados com hormônios, e fui submetida a uma cerclagem
na 18 semana da gestação.
Tudo
isso foi no Brasil, o médico me recomendou repouso
e um medicamento para inibir contrações (inibina),
tive que parar de trabalhar, pois sou professora de ballet
e danca do ventre, o que me deixou desapontada pois planejava
me exercitar na gravidez. Vim, então, para a Holanda,
pois meu marido é Holandês e queria que eu tivesse
a bebê por aqui. Foi assim que cheguei, no final do
sexto mês. O atendimento aqui normalmente é feito
por parteiras, mas por causa da cerclagem tive que fazer acompanhamento
hospitalar.
O
sistema de saúde aqui é sobrecarregado, e o
antendimento particular é o mesmo que o público
(subsidiado por seguros): Não há médicos
o suficiente para a demanda, e cada vez em que fui ao hospital
fui atendida por um médico diferente, que nunca ouvia
minhas queixas ou esclarecia minhas dúvidas. Não
poderia saber qual o médico que estaria disponível
no momento do parto.
Eles
suspenderam a medicação e o repouso por achar
que a gestação já estava adiantada e
não havia mais riscos. Me recomendaram hidroginástica
e passeios de bicicleta, pois aqui é muito plano e
não envolveria esforço físico. No começo
fiquei super insegura mas depois me senti bem melhor, retomando
meu ritmo de atividades físicas.
A
cerclagem foi removida na 34 semana, no hospital e passei
o resto do dia sob um ECG para o bebê e medindo minhas
contrações. Comecei a ter contrações
indolores no 8 mes e lá pela 34 semana, com um certo
incômodo. Tinha medo de entrar em parto sem perceber
(como se fosse possível...) e tinha os pontos da cerclagem,
tinha medo de não dar tempo de removê-los, e
mais uma porção de bobagens que passam pela
nossa cabeca quando a gente esta grávida pela primeira
vez.
Na
37 semana tinha contrações incômodas o
tempo todo. Na 38 semana eu tive umas 3 contrações
mais incômodas entre 10 e 10 e meia da noite. Não
dei bola, e fui dormir... acordei as 3:24 da manhã
com a bolsa rompendo! Acordei meu marido, e fui para o chuveiro
quente durante meia hora. Tive 4 contrações
fortes, senti muita vontade de evacuar e como eu queria me
"esvaziar" para não fazer na hora do parto,
aproveitei essas contrações.
Eu
estava calma, as contrações eram doloridas mas
iam e vinham e nos intervalos eu não sentia nada. Arrumava
minhas coisas com calma. Meu marido comecou a ficar nervoso
porque nessa altura eu já tinha contrações
a cada 3 minutos, me enfiou dentro do carro e fomos para o
hospital. As contrações foram ficando mais intensas
e próximas, e as curvas do caminho foram uma tortura.
(É melhor ir mais cedo para o hospital). Chegamos no
hospital às 4:30 e eu já tinha que sentar a
cada contração..
A
enfermeira nos recebeu e me colocou no ECG por meia hora.
Disse que estava tudo bem com a bebê, que eu deveria
estar no começo da dilatação que não
dava para saber quanto tempo ia demorar mas o médico
viria por volta de 8 da manhã para fazer um toque,
pois quando rompe a bolsa eles não podem fazer toques
(minha sorte!). Me disse que poderia escolher o que fazer:
Andar, ir para o chuveiro, pular na minha bola canguru, etc.
Me orientou com relação a respiração
e sumiu...(nada de tricotomia, enema...)
Fui
para o chuveiro e meu marido me acompanhava, respirando comigo
a cada contração. Não quis as massagens
nem nada, só apertar a mão dele, que quase arrancava
a cada contração coitado! Durante todo o tempo
no hospital uma funcionária vinha me oferecer água,
chá ou sucos, e coisas para comer. Não quis
comer, mas tomei chá o tempo todo, inclusive já
na sala de parto ela continuou oferecendo chá para
mim e para meu marido.
Também
me foi oferecida uma pequena bolsa de água quente,
que proporcionou um bom alivio durante as contrações.
As contrações foram ficando fortíssimas
e eu comecei a me arrepender dessa estória toda...
Sai do chuveiro e me sentei na cama. Não dava mais
para fazer
nada do que eu tinha programado: Nem andar, nem me pendurar,
nem pular na bola canguru, nem nada. Só me espichava
toda a cada contração e meio que dormia nos
intervalos. Uma hora me peguei rezando uma ave maria...
Foi
aí que eu percebi que as contrações estavam
diferentes, que elas não aliviavam mais com aquele
tipo de respiração e eu percebi que instintivamente
já estava respirando rápido, como aprendi no
curso, e tinha que fazer forca, que aliviava a contração.
Nessa hora, se alguém te oferecer gordura de rinocernte
crua para aliviar a dor você aceita. Imagine uma anestesia...
Disse
para meu marido: Chama a enfermeira que eu entrei na fase
expulsiva (ou era a de transição, não
sei). Ela veio com cara de dúvida, me examinou e disse:
É... está rápido...- e fez um comentário
idiota: "-Você não pode mais sorrir agora,
né...? - Ao que eu respondi com um sorriso enorme!
Imagine, eu ia sair de a com um bebê lindo no colo,
acha que não dava para sorrir nos intervalos?
Fomos
para a sala de parto. Lá tinha uma enfermeira parteira
muito simpática, sorridente. Eu lá, me espichando
toda, não conseguia nem falar, só dizia para
meu marido: hand!, e ele respirava comigo e eu espremia a
mão dele... A enfermeira simpática sorria e
dizia: - Good, good, very good!!!- e eu pensava: - O que é
que tem de bom nisso...
No
hospital nós eramos 3 mulheres em fase final de parto,
cada uma em uma sala e só um médico para atender...
O médico entrou na sala, disse que iria examinar minha
dilatação para calcular a demora. A outra enfermeira
abaixou a cama e eu protestei, porque sabia que não
ia dar tempo de colocar na vertical de novo. A essa altura
eu já tinha desistido da cadeirinha porque não
conseguiria me sustentar naquela posição por
causa das contrações, que eram muito fortes,
mas pelo menos a cama eu queria mais na horizontal. A enfermeira
não deu bola e desceu a cama.
Batata:
O médico fez o toque e exclamou: - "Empurra"
que ela já vai nascer!!! Foi assim mesmo! Nada do que
eu planejei: Sem a cadeirinha, deitada...mas foi. Começou
aquela função na sala: Todo mundo gritando -
"Forca, forca, mais forca, vai, vai, vai...!!! A enfermeirinha:
Push, push, push!!! (Igual aos filmes, não fosse a
situação me dava vontade de rir), Very good,
very good!!!, o médico - "More, more!!!",
meu marido ali, de repente perceberam que eu ainda segurava
a mão dele, colocaram minhas mãos segurando
as coxas, minha cabeça encostando no peito...
Bom,
tudo isso foi a primeira contração. Eu não
vi nada (tinha um espelhão em cima), meu marido disse
que viu uns cabelinhos. Na segunda contração
eu fiz a maior forca, achei que não tinha saído
nada e quando eu abri os olhos eu vi: Metade da cabecinha,
cheia de vernix e cabelinhos, para fora... O médico
reclamou, disse que eu tinha que fazer mais força,
não fazer barulhos com a boca e não perder o
ar, (como se fosse possível, fazendo tanta força...),
veio a terceira contração força, força,
empurra, empurra, pára! (era para proteger o períneo,
porque não foi feita a episiotomia).
Neste
momento valeu o meu preparo com a danca do ventre, que me
proporcionou uma ótima musculatura abdominal. Não
arrisquei abrir os olhos. Veio a quarta contração
e pluft!!! Ela nasceu! Cor de rosinha, lindinha, só
os pezinhos azulados! Neste momento, sumiu a dor! De verdade,
não era emoção pelo bebê, a dor
some mesmo, acaba! Muito rapidamente ele aspirou a bebê
com uma seringuinha, deu o cordão para meu marido cortar
e a enfermeira colocou a bebê no meu colo. Na hora eu
já coloquei ela no peito, ela me olhando nos olhos
(mesmo que eles não enxerguem nada, eles olham a gente
nos olhos!) e ela já comecou a mamar, perfeitamente,
com força!!!
O
médico esperou sair a placenta, me examinou e disse:
Ah, só uns arranhões! Não vai precisar
de nenhum ponto... Parabéns, e sumiu. Pedi para ver
a placenta e a enfermeira perguntou se eu queria levar para
casa (não imagino isso acontecendo no Brasil...). A
enfermeira nos trouxe um chá e umas torradas com umas
bolinha de anis glacadas de rosa e branco, e enquanto nos
comiamos ela pesou a bebê, etc. Disse que ia me ajudar
a tomar banho enquanto meu marido segurava a bebê.
Eu
me levantei da cama, fui para o chuveiro, e agradeci. Podia
tomar banho sozinha, estava muito bem disposta. Depois fomos
nos 3 para o quarto. Um pediatra veio examinar a bebê,
e depois de 4 horas nos pediram para deixar o hospital porque
estavamos bem e eles precisavam do leito...
Enfim,
para mim foi uma vitória a ser comemorada: Aos 37 anos
de idade ter meu primeiro bebê de parto normal, sem
anestesia, episiotomia e sem rupturas, e sem tricotomia, enema,
etc... Nada de touquinhas, aventais, etc, acabei tendo o bebê
com a camiseta e o par de meias que estava usando quando cheguei
no hospital, nem lembrei de trocar e ninguém mais se
lembrou. Nem lembramos de filmes ou fotografias nem nada,
que pena!
Gostaria
de frisar os pontos mais positivos do meu parto:
1- A participação do meu marido
2- A simpatia e o sorriso da enfermeira, me encorajando e
tranquilizando. 3- A competência do médico em
avaliar meu períneo, não fazendo uma episiotomia
desnecessária.
4- O fato de termos ficado o tempo todo com a bebê
5- Tudo isso só foi possivel porque nós frequentamos
um curso de partos em Bauru e estavamos muito bem informados
a respeito do processo. Imagino que uma menina entre em pânico
se não estiver muito bem informada, inclusive assistido
vídeos, etc sobre partos.
De
negativo mesmo ficou o antendimento médico que recebi
na Holanda no pré-natal e o sumiço da primeira
enfermeira. E a expectativa de que o parto fosse mais longo:
como as contrações já estavam muito fortes
e eu imaginava que teria mais umas 4 horas pela frente,(quando
na verdade tinha apenas mais meia hora), e fazia com que as
contrações fossem quase insuportáveis,
e se eu estivesse no Brasil provavelmente neste momento aceitaria
uma anestesia.
Depois
eu pensei: Se eu soubesse que iria ser tão rápido,
não teria sofrido tanto! Uma coisa que eu acho importante
colocar: As primeiras semanas com o bebê são
um periodo muito difícil . A princípio estamos
bem, euforicas com o bebê e cheias de energia. Depois
bate uma depressão, um inseguranca e ficamos mesmo
muito frágeis. Na maioria das vezes nos informamos
muito sobre a gravidez e o parto, até sobre a amamentação
mas deixamos de lado essa fase que é muito delicada,
difícil e para a qual poucas pessoas nos alertam. Os
companheiros também devem se conscientizar e se preparar
para ajudar a mulher e ao bebê nesta fase. Desejo a
todas/os vocês uma boa sorte e agradeço muito
ao pessoal do Amigas do Parto por todo o apoio que recebi
durante e após minha gravidez!
Marcia
Sier
robinsier@hotmail.com
Holanda
Mas agora de volta a Bauru, SP
página
principal
menu de depoimentos
|