| Tive meus
dois filhos em casa - na casa de minha mãe. Não tenho nenhuma foto.
Mas tudo está bem filmado em minha memória. Em
abril de 1980, quando soube que eu estava esperando meu primeiro filho, minha
mãe me enviou uma lista de artigos da revista Despertai sobre gravidez,
parto, amamentação, etc. Um dos artigos, entitulado "Nosso
bebê nasceu em casa", era o depoimento de uma pessoa que tinha tido
o desprazer de ter o primeiro filho em hospital, num ambiente frio e impaciente,
numa posição de "frango assado", e descrevia o prazer
de ter o segundo em casa. Nesta
época, minha mãe consultou um ginecologista devido a uma calcificação
na mama. Comentou com o Dr. O sobre minha gravidez, e como gostaríamos
de um parto natural, sem anestesia, e em casa. Ele topou. Disse que cerca de 80%
dos partos poderiam ocorrer sem ajuda médica. "É por causa
dos 20% de risco que eu vou à sua casa", disse ele, humildemente.
Este doutor vinha de uma família humilde, e quando ele nasceu, a mãe
dele quase morreu. Na aflição, o pai dele fez a Deus uma promessa,
de que, se sobrevivessem mãe e filho, ele trabalharia muito duro para este
filho ajudar outras mulheres a dar à luz. Assim, o filho de um lavrador
chegou à Faculdade de Medicina. Nosso
D. nasceu no 25 de dezembro de 1980. O filho do Dr. O nasceu em fevereiro de 1981,
e recebeu o nome de D.. As duas primeiras filhas dele haviam nascido no hospital.
Após o parto do meu filho, ele e a esposa decidiram ter seu filho em casa. E.,
nosso seguindo filho, nasceu em agosto de 1984, na casa de minha mãe também,
com a ajuda do Dr. O. O mesmo se deu com os filhos do meu irmão, L. e R. As
fotos da Fernanda Zimmermann dão uma dica importante, que me fez muita
falta: eu sentia necessidade de algum apoio atrás das minhas costas, me
sustentando o corpo para cima. Mesmo com travesseiros, o cansaço me fazia
"desabar". A
respiração do período de dilatação e expulsão
eu havia aprendido numa xerox de xerox de xerox de uma apostila redigida por um
massagista e obstetra, com desenhos. As
contrações do D. começaram na quarta de madrugada. À
noite eu estava com muito sono e fui dormir. Na manhã seguinte as contrações
haviam parado, e tive medo de acabar sendo submetida a uma cesariana. Então
fui com meu esposo caminhar bastante no bairro. No caminho, via as crianças
estreando seus novos brinquedos, pois era Natal. A parte mais dolorosa era a dor
lombar, do esticamento da coluna para abrir passagem para o bebê. Eu tinha
vontade de ser apertada por um caminhão. A fase de expulsão levou
mais de meia hora. Fui
aprendendo mais a cada contração. Estava cansada, e perdia o embalo
para empurrar o bebê. Quando isso acontecia, ficava meio perdida com a respiração.
Valeu a dica do doutor, de fazer "força com raiva", aí
a coisa funcionou. Ele segurou o períneo, para não se rasgar, e
com isso não precisei de nenhum pontinho. O topo da cabecinha apareceu,
bem cabeludo, cabelos pretos. Meu esposo falou, "deve ser uma menina, pois
puxou para mim". Mas saiu um garotinho. D. deu um berro, com o susto do primero
golpe de ar nos pulmões, mas se aquietou, aninhado entre panos, no meu
colo, olhando para mim, olhando em volta. O
tal do nitrato, obrigatório por lei, para prevenir cegueira na criança,
caso a mãe tenha alguma doença venérea, foi dispensado pelo
médico, que já me conhecia e sabia isto ser desnecessário.
D. mamou, dormiu. Deixamos o banho para depois, pois havíamos aprendido
que aquele "queijinho" branco podia ser reabsorvido pela pele, alimentando-o.
Tomei um banho e uma canja, e adormeci profundamente. Cheguei a roncar, como fui
informada depois. Cinco dias depois, peguei ônibus e fui fazer ficha no
INPS. O
E. já foi mais apressado: as dores começaram de madrugada, e ele
nasceu às 9 da manhã. Eu não conseguia controle sobre a respiração.
Na hora que senti vontade de fazer força, mal deu tempo para ajeitar o
travesseiro e sentar. E ele nasceu chorando forte e inconsolavelmente, como revoltado
por ter de sair de dentro de mim. A
Fernanda Zimmermann tem razão: uma das sensações mais deliciosas
do mundo é o "flup" do corpinho deslizando para fora após
sair a cabecinha. Nenhum homem faz idéia do que seja isso. Da minha boca
espirrou um agradecimento espontâneo a Deus. Ambos
mamaram até 2 anos e oito meses, embora comessem outros alimentos desde
os 6 meses. Isto me deu muita mobilidade. Eu saía com eles para qualquer
lugar, levando apenas 4 fraldas na bolsa (eu só usava fraldas descartáveis
para saídas muito longas). Não precisava daquelas imensas sacolas
com mamadeiras, água, etc. Olhando
para o seu tamanho gigantesco hoje, é difícil imaginar que já
pesaram 3.300g. As pessoas me perguntam, admiradas, como é que eu tive
coragem para ter meus filhos em casa. Respondo que é preciso mais coragem
para tê-los no hospital, lugar que concentra tantas doenças. Espero
que esta linda experiência esteja ao alcance de muitas mulheres. Um
grande abraço, S.
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