| Nascimento do Gabriel Thomas - Parto natural de cócoras
Busquei muito esta gravidez, principalmente porque tive dois
abortos espontâneos antes desta. Pensei que não
conseguiria ser mãe. Tive muito medo durante toda
a gravidez de perder este bebê
A primeira vez que engravidei, foi por descuido, sem esperar
e sem planejar. Meu marido e eu nem estávamos casados
ainda. Mesmo assim, fiquei felicíssima, pois era
meu primeiro bebê. Minha felicidade durou pouco: uma
semana após a confirmação da gravidez,
perdi o bebê. Um ano depois, engravidei novamente,
mas dessa vez estava tentando. Perdi o bebê novamente.
Resolvi trocar de médico e comecei um tratamento.
Engravidei no segundo mês de tratamento. Confirmei
a gravidez uns dias antes do Natal de 2001 e meu marido
e eu fizemos uma surpresa para nossos pais no dia de Natal.
Minha mãe ficou muito feliz, pois era seu primeiro
neto.
Depois que perdi o primeiro bebê e resolvi planejar minha
futura gravidez, comecei a ler tudo sobre gravidez e parto
e cheguei até o site Amigas do Parto. Lá,
descobri a lista e entrei, dois meses antes de engravidar
de meu filho. Comecei a conversar com as pessoas e logo
travei conhecimento com a Flávia Koeche, psicóloga
com quem meu marido e eu fizemos o curso de gestantes. Participei
também de uma reunião da Rehuna, onde conheci
o Jones (obstetra), a Neusa (enfermeira obstétrica)
e a Cristina (doula), que trabalharam em meu parto.
Sempre
fui a favor de parto normal e meu sonho era ter o parto
dentro d’água. Só não o fiz, porque
o Gabriel Thomas nasceu em pleno inverno, apesar de que
o dia em que ele nasceu foi um dia muito quente, de verão.
Jamais cogitei a possibilidade de fazer uma cesárea
eletiva e se um médico tivesse que fazê-la
em mim, teria que me explicar muito bem as razões
para tal. Tampouco queria fazer episiotomia, pois tinha
medo de ser cortada de maneira exagerada. Minha mãe
sempre me passou uma visão muito positiva do parto,
desde muito jovem lia a respeito de gravidez e parto. Sentia-me
bastante preparada psicologicamente para um parto normal.
Meu
marido, Alexandre, tem dois filhos do primeiro casamento,
ambos nascidos de cesárea, sendo que a primeira filha
não conseguiu ser amamentada. Ele, no início,
achava que era muito mais fácil eu me internar no
hospital, fazer uma cesárea e pronto, já estaria
com o bebê em nossos braços. E eu dizia que
não era assim que eu queria que nosso filho nascesse.
Eu queria ter um parto normal, humanizado, de cócoras,
dentro d’água e em casa. Ele ficou furioso, disse
que jamais permitiria que eu arriscasse a vida de nosso
filho dessa maneira! E eu nem estava grávida ainda
na época. Quando engravidei, disse a ele que faria
um curso para gestantes, para me preparar e que gostaria
que ele fosse junto. Começamos o curso quando eu
estava com dois meses de gestação e nem tinha
barriga ainda. Ele pôde, entre outras coisas, assistir
a um vídeo de um parto normal, o qual ele jamais
tinha visto na vida. Eu já tinha assistido a partos
normais na TV, quando criança e os encarava com naturalidade.
Tive
um período muito ruim na minha gestação,
entre 12 e 14 semanas de gestação, de náuseas
e vômitos intensos, chamado hiperemese. Nada parava
em meu estômago, nem água. Perdi quase 10 quilos
vomitando. Foi horrível, mas graças a Deus,
passou.
Quando
completei 14 semanas de gestação, resolvi
procurar o Jones para que fosse meu obstetra. Havia gostado
muito dele desde o início, pelas suas mensagens na
lista e pelos artigos e depoimentos que havia escrito no
site Amigas do Parto. O Alexandre me acompanhou na maioria
das consultas e pôde conhecer um profissional que
dedica sua vida à humanização do parto.
Com o passar dos meses, fui vendo que não podia impor
minha vontade de ter um parto domiciliar, já que
o filho era de ambos e resolvemos, juntos, ter nosso filho
no hospital. Também desisti da idéia do parto
dentro d’água, mas somente porque ele iria nascer
no inverno. Nas últimas consultas, conversamos e
deixamos acertado com o Jones que eu passaria o trabalho
de parto na casa de meus pais e, com 8 ou 9 cm de dilatação,
nos dirigiríamos ao hospital.
Nos
últimos dois meses da gravidez, procurei a Cristina
para fazer aulas de exercícios para gestantes, no
qual o Alexandre também me acompanhou nas aulas.
Foi um período de aprendizado e companheirismo para
ambos, era tudo por nosso filho.
A
data que eu tinha calculado para que o Gabriel Thomas nascesse
era 26 de agosto de 2002. Nessa noite, entrei em trabalho
de parto. Comecei a me sentir incômoda, não
conseguia ficar sentada ou deitada e comecei a caminhar
pela casa. O Alexandre ficou nervoso e não conseguia
dormir, por isso fui me deitar para que ele dormisse, mas
as dores nas costas não me deixaram dormir muito.
Às 5 da manhã fui ao banheiro e perdi o tampão
mucoso. Liguei para a Cristina e ela disse que era o indício
do início do trabalho de parto. Como recém
havíamos nos mudado para Eldorado do Sul, nossa casa
ficara pronta alguns dias antes, o Alexandre e eu fomos
para Porto Alegre, para a casa de meus pais.
| 
Terça-feira, 27/08, aproximadamente 20 horas.
Neusa se preparando para ouvir os batimentos cardíacos
do bebê.
|
A
Cristina chegou e começou a fazer massagens
de relaxamento, passar óleo nas minhas costas,
bolsa de água quente. Mais tarde, a Neusa
chegou e fez o primeiro exame de toque e disse que
eu estava com 2 cm de dilatação, que
era só o começo, que eu fosse me distrair,
fazer um bolo, qualquer coisa, mas não pensar
muito nas contrações. Elas foram embora
e pediram para ligar se precisasse. O Alexandre
foi trabalhar e eu fiquei com meus pais. Era difícil
me concentrar em outra coisa, pois as dores nas
costas eram bastante fortes. |
Tentei
me deitar e dormir um pouco, mas não consegui, por
causa das dores. À tarde, chamei a Cristina, pois
me senti sozinha e queria apoio. Não consegui comer
quase nada, pois tinha náuseas.

Terça-feira,
27/08, aproximadamente 20 horas.
Cristina e Neusa me confortam durante uma contração.
Já estava com 5-6cm de dilatação. |
A Cristina veio e ficamos na sala, sendo que eu fiquei
sentada na bola, fazendo os exercícios que
eu já fazia nas aulas. À noite, chegaram
o Jones e a Neusa. Foi feito um exame de toque e eu
estava com 6 cm de dilatação. Fiquei
contente porque havia havido um progresso, mas ainda
faltavam 4 cm. |
A
Neusa me mandou para um dos inúmeros banhos de chuveiro
que tomei naquela noite. Ficava debaixo do chuveiro quente,
colocava as mãos nas pernas durante uma contração,
me abaixava e gemia alto. Me mandavam ficar no mínimo
20 minutos em cada banho. Estava frio e quando eu saía
do banho, tinha calafrios. Minha mãe me trouxe roupão
de banho para colocar em cima da camisola, para me esquentar.
A
Neusa monitorava os batimentos cardíacos do bebê,
a Cristina me fazia massagens com óleo de arnica
nas costas e lá ia eu de novo para o banho. Lá
pelas 22 horas, eles ficaram com fome e o Alexandre mandou
vir pizza e refrigerante, para que jantassem. Eu saí
do banho e ficamos ali, rindo e conversando. O Jones olhou
para mim e disse: “Tu nem pareces uma grávida em
trabalho de parto, pois estás sentada conosco, comendo
uma pizza”. Era verdade, as contrações começavam
a ficar fortes e de repente diminuíam o ritmo, quase
desaparecendo. Eu comi lascas de pizza, pois tinha muita
náusea e só conseguia comer entre uma contração
e outra.
À
meia-noite, o Jones foi para casa e o Alexandre também.
Ficamos na casa de meus pais a Neusa, Cristina e eu. Foi
uma madrugada memorável. A Neusa fez chá de
canela com gengibre para mim e eu não agüentava
mais tomar tanto chá. Era para aumentar as contrações.
O gengibre me fez vomitar. Tentei dormir, mas as contrações
não me permitiam fazê-lo. Fui mais umas três
ou quatro vezes para o chuveiro e na última vez,
ao sair do banho, tive uma crise de choro, a madrugada já
estava avançada e nada de meu bebê nascer!
Achei que não iria conseguir, que meu bebê
não queria nascer, mas a Neusa e a Cristina me consolaram.
Minha
mãe descia as escadas de 2 em 2 horas para saber
como ia o progresso do trabalho de parto, mas em nenhum
momento interferiu. Ela estava bastante preocupada, mas
respeitou a minha escolha de passar esse trabalho em casa.
Às sete da manhã, o Alexandre chegou e eu
estava na cozinha tentando comer alguma coisa. Tive outra
crise de choro e disse que não agüentava mais,
tinha chegado ao fim das minhas forças. Estava sem
dormir há praticamente dois dias e também
não havia comido quase nada, por causa das náuseas.
O
Alexandre me consolou nesse momento, disse que faltava pouco,
que logo teríamos nosso bebê nos braços,
que eu precisava ser forte mais um pouco, que eu tinha escolhido
ter nosso filho dessa maneira. Fui para a sala para o Jones
fazer um novo exame de toque, para ver o progresso da dilatação.
Quando ele fez o toque, a bolsa estourou e encharcou o sofá
da sala. Disse que eu estava com 8 cm de dilatação
e que era hora de ir para o hospital. Todo mundo começou
a se aprontar rapidamente para ir para lá, minha
mãe foi conosco. Foi um pouquinho difícil
ir sentada, agüentando as contrações
e sabendo que o trajeto era longo até o hospital.
| 
Quarta-feira, 28/08, aproximadamente 9 horas da manhã.
Já estávamos no Hospital Divina Providência.
Cheguei com 8 cm de dilatação.
|
Chegamos
no Hospital Divina Providência e fomos direto
ao Centro Obstétrico, onde passei por uma avaliação
das enfermeiras e médicos de lá. Recolheram
minha roupa e sapatos e me fizeram colocar um camisolão.
A enfermeira perguntou se precisava fazer alguma preparação
e o Jones disse que não. Já havia combinado
previamente com ele que eu não faria enema
(lavagem intestinal) e nem tricotomia (raspagem dos
pêlos pubianos). |
Fomos
para a sala de pré-parto, onde ficamos à vontade,
o Alexandre, Jones, Neusa, Cristina e, poste-riormente,
o pediatra, Cláudio Brasil. Minha mãe ficou
na sala de espera, ansiosa por notícias.
| 
Cristina está fazendo massagens nas costas, pois
era onde eu mais sentia dor.
|
Bem,
tive que ir novamente para o chuveiro, e as dores
eram cada vez mais fortes. E nada do meu bebê
nascer. Uma hora vinha a Cristina e fazia força
comigo, me falava palavras carinhosas, de como era
bom ter um filho homem. Outra hora, vinha a Neusa
e me mostrava como respirar para sentir menos dor,
fazia força comigo também e me incentivava.
E nada de bebê. Até que eu percebi que
algo estava me trancando, chamei o Alexandre e pedi
para ele fazer força comigo, para fazer o bebê
nascer. |
Eu
tinha medo também por causa das hemorróidas,
que eu tive durante a gravidez e que haviam ressurgido 4
dias antes. Houve um momento que resolvi começar
a fazer força, tentei primeiro ficar de cócoras,
mas não conseguia sustentar as pernas por muito tempo.
Fazia força e descia, amparada pelos braços
de um lado pelo Alexandre e de outro pela Cristina. Depois,
tentamos de maneira diferente, com o Alexandre me segurando
pelas axilas e eu me apoiando em suas pernas. A essa hora,
eu já estava exausta e só pensava em dormir.
| 
Jones com a luva pronta, esperando por uma contração
para fazer o exame de toque, para ver o progresso
da dilatação. Eu estou deitada, com
sono e exausta, depois de passar a noite de terça-feira
em claro.
|
Quando
o Jones tinha que fazer exame de toque, eu subia
na cama de parto e me deitava e não queria
mais levantar. Num dos toques, o Jones disse: “Estás
com 9 cm de dilatação. Não
há mais o que fazer. Agora é contigo
para fazer esse bebê nascer. Só depende
de ti.”
Com
essas palavras, ele me deu a força para fazer
o Gabriel Thomas nascer. |
CONTINUAÇÃO
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