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A
experiência da gestação e do parto é
uma etapa sublime de auto-conhecimento, é uma alavanca
para a sintonia com o mistério da existência,
a glória do feminino, a fertilidade da terra, a sensualidade
sagrada da vida, a melodia eterna do tempo...
A
gravidez e o parto transformam a mulher, e ela, que já
traz em si o dom de transformar-se, tal qual a lua, a terra
e as marés, deve entregar-se confiante a esta vivência
singular que supera os seus limites físicos a fim de
proporcionar-lhe uma experiência profundamente espiritual.
Durante
toda a gravidez uma mulher está mais atenta e sensível
ao que acontece dentro de si, tornando-se uma boa ouvinte
das forças da natureza que atuam em seu interior.
Naturalmente,
é ela quem deve participar ao seu grupo de apoio (obstetra,
doula, familiares, etc) a maneira que idealiza dar a luz,
confiando em seu potencial e em sua intuição.
Deve lembrar-se que a competência de parir lhe é
inerente, entregar-se e nutrir a outrem é uma constante
em sua vida e é ela quem sabe abrir-se como uma flor,
dar passagem, ser essa passagem, obedecer aos comandos do
seu corpo e aos pressentimentos do porvir...
A
trajetória do começo ao fim é pura alquimia,
ora um oceano de águas calmas, ora um vulcão
de emoções involuntárias, até
atingir-se o ápice de “morrer” para fazer
nascer, de separar-se para receber em união...
Por
tudo isso, penso que nós, mulheres, não devemos
jamais abrir mão desse nosso trunfo, devemos, sim,
torná-lo conhecido e respeitado a partir da nossa própria
convicção e autoridade no assunto.
Não
delegue à equipe médica esse direito elementar
de ser a protagonista de seu parto, não barganhe a
sua força, o seu poder, a intuição do
que é bom para você e para a sua criança
por nenhuma tecnologia de ponta, nenhum procedimento ou rotina
hospitalar que considere invasiva ou desnecessária.
Fique
atenta para que não subestimem a sua inteligência,
lhe tratem como doente ou incapaz, lhe faltem com o devido
respeito à sua integridade e/ou ao seu momento de graça,
nem tolere a insensatez de especialistas do tipo “fique
quietinha e deixe tudo por minha conta” .
Que
a hora do seu neném nascer seja envolta em todo o encantamento
e solitude que permeia a chegada do ser mais querido e almejado!
Vamos
vencer a ilusão de nos sentirmos inaptas ou despreparadas
para o nosso momento especial, enfrentando o medo com coragem
e permitindo que a Natureza faça a sua parte.
Esse
encantamento de viver a gravidez e o parto de forma humanizada,
íntegra, mágica e plena é um direito
nosso, faz parte do nosso destino, está gravado dentro
de nós, nos foi presenteado por Deus, e temos o dever
de receber esse presente, amando o corpo que é o templo
de nosso espírito, e confiando em seu perfeito funcionamento
para melhor recebermos a nossa criança.
Vamos
apenas fluir como um rio, nos sabermos fêmeas e sacerdotisas
de coração sensível e intuitivo, verdadeiras
protagonistas desse precioso tempo em que somos conduzidas
pela força de nossa feminilidade a vivenciar uma experiência
única que nos torna mulheres notáveis e aprendizes
entusiastas da arte de tornar-se mãe.
O
primeiro filho: Daniel – cesariana
Meu
primeiro parto foi em 1981, eu tinha 20 anos, foi tudo muito
corrido, me casei em função da gravidez e pedi
a indicação de uma mulher para me acompanhar
durante o pré natal. Só que ela era uma pessoa
fria, técnica, e eu não consegui sentir nenhuma
empatia ou afinidade para compartilhar com ela tudo o que
transbordava do meu ser enquanto eu abrigava no ventre a magia
de estar trazendo outro ser humano ao mundo.
Estava
certa de que o acompanhamento de uma gravidez deveria ter
mais calor humano, então, no oitavo mês de gestação,
desisti dessa obstetra e escolhi um novo médico, recém
formado, sensível e afetuoso, que conheci num curso
rápido para casais grávidos.
Sentia-me
bem mais segura e amparada, mas quando entrei no trabalho
de parto propriamente dito, já no hospital, onde havíamos
planejado um parto vertical, pude intuir uma certa insegurança
da parte dele, o que certamente refletiu-se em mim, e pela
falta de experiência de ambos, fiquei insegura, não
consegui me entregar para que a dilatação fosse
suficiente e sem confiar que poderia me acalmar e estar no
comando, tive medo e não hesitei em acatar a decisão
de fazermos uma cesariana de emergência, já que
o nênem poderia entrar em sofrimento (o que hoje eu
duvido!).
Rumando
para a sala de cirurgia, choramos os dois, eu e o médico.
Permaneci impotente e frágil naquela posição
deitada, imóvel, com os braços em cruz esperando
que tirassem o bêbe de dentro de mim e sem poder abraçar
o serzinho assustado, que era o que eu mais queria, nem conforta-lo
em meus braços.
As
dores na incisão duraram uma semana, a cicatrização
foi perfeita mas o leite só rendeu 6 meses devido à
minha insatisfação.
A
segunda: Bruna – parto normal no hospital
Três
anos depois engravidei de novo e apesar de terem me enchido
os ouvidos de que uma vez cesárea, sempre cesárea,
batalhei por um parto normal e assim trouxe a Bruna ao mundo
numa cadeira semi vertical de um hospital em SP, onde morava
na época.
Foi
bem melhor, obtive permissão para o alojamento conjunto
e para que nenhum pediatra do hospital tocasse nela, nem lhe
pingasse ácido nos olhinhos, mas fiquei ainda frustrada
com alguns procedimentos médicos que considerei totalmente
invasivos como o soro para acelerar a dilatação,
e uma episiotomia enorme, que me foi bem dolorosa e totalmente
desnecessária, já que a Bruna nasceu pequena,
com menos de três quilos. Mamou mais de um ano no peito.
A
terceira: Lara Melissa – parto de cócoras no
hospital
A
Lara Melissa chegou quatro anos depois, primeira filha do
meu segundo casamento, parto em cadeira de cócoras,
no hospital, mas novamente, sem prévio aviso, sofri
uma episiotomia repentina que me foi explicada como sendo
uma conduta de rotina!
Acho
um absurdo passar por toda a energia, dor e alegria de um
parto natural, para depois, ao invés de curtir o nênem,
ter que ficar sentindo uma dor ainda maior, desnecessária,
que as vezes dura semanas...
O
quarto: Alexandre – parto domiciliar de cócoras
Agradeço
de coração ao Adailton Salvatore Meira, às
amigas do parto e a todos os profissionais que se afinam e
se dedicam em promover o discernimento e a prática
do parto humanizado.
Quando
mudei para Campinas dois anos depois, pude sentir verdadeiramente
o que é parir sobre as próprias pernas, totalmente
entregue à percepção dos meus sentidos
e respeitada na minha integridade.
Foi um parto domiciliar, lindo e forte, sem anestesia, episiotomia
ou coisa que o valha, apesar desse ter sido o meu maior bêbe
até aquele momento. Estava tão assustada com
as intervenções de meus partos passados que
pedi ao Adailton que repousasse no quarto de hóspedes
e “não me incomodasse” até que eu
precisasse de sua assistência. Ele assentiu.
Caminhei
por toda casa, subi e desci escadas, acendi incensos, fiz
ioga, cantei e respirei entre as contrações,
experimentei diversas posições escolhendo as
que me sentia mais confortável, ou seja, estava em
meu território e ninguém tinha dúvidas
de quem era a dona do terreiro!
Quando
chamei o Adailton estava em franco trabalho de parto, quase
no momento do expulsivo...
Tudo
transcorreu maravilhosamente bem, Alexandre coroou numa contração
intensa e mágica como eu jamais havia experienciado
e numa última contração forte e ainda
mais bela, nasceu! Meu filho Daniel, então com 9 anos
cortou o cordão, todos participaram emocionados e e
eu pude levantar sem dores, tomar uma sopinha de missô,
celebrar, manter o meu bêbe no peito e no colo o tempo
todo, etc.
O
quinto: Victor Hugo – parto domiciliar de cócoras
O
meu quinto parto agora na idade madura, foi ainda melhor.
Recomendo a todas as corajosas: ter filho depois dos 40 é
a glória! O Victor Hugo nasceu com a bolsa dágua
intacta até o final. Caminhei o tempo todo durante
as contrações e quando elas chegavam, respirava
apoiada ora pelo meu marido ora pelo meu filho mais velho.
No
momento do expulsivo tomei a posição de cócoras
sobre os colchonetes com o meu marido me segurando e o Victor
Hugo nasceu tranqüilo e lindo, nas mãos da Eliana,
uma médica amiga de Belém.
Desta
vez foi a Bruna quem cortou o cordão ( minha segunda
filha). Toda a família deu as boas vindas ao pequeno
príncipe, com muitos beijinhos e afagos, unida e emocionada,
cantamos prá ele que mamou assim que nasceu, demos
o banho morno... foi inesquecível...
A
sexta: Mariana – parto domiciliar de cócoras
Se
a descoberta da gravidez do meu quinto filho, me deixou em
estado de choque, (por alguns segundos) por temer a realidade
de começar tudo de novo quando meus filhos já
estavam em plena adolescência... a sexta gestação
então foi uma incrível surpresa que já
iniciou me ensinando a aceitar integralmente o mistério
da vida, de forma a que o espaço em mim não
resistisse ao amor e se fizesse todo gratidão e reconhecimento
a Deus por fazer de mim uma mulher tão bem aventurada!
A
gravidez da Mariana foi difícil no final, ao contrário
das anteriores em que eu me mantive ágil até
o final. Talvez em função da idade, 42, porém
mais precisamente porque eu havia descuidado do meu corpo
e já engravidei com quase dez quilos acima do peso.
A
minha caçula exercitava em mim a paciência, nasceu
com 41 semanas completas, enquanto que os irmãos nasceram
todos de 38 ou 39 semanas incompletas.
Numa
madrugada de domingo, quando as contrações aumentaram
entrei no chuveiro com a Bruna, minha filha mais velha,18,que
foi a minha doula e respirávamos juntas a cada contração,
o que foi de um conforto inestimável.
O
trabalho de parto estava indo rápido demais e o Adailton
foi chamado às pressas. Veio direto da igreja e recebeu
a Mariana em grande estilo, de gravata e sem luvas!
Não
sofri intervenção de espécie alguma,
nem lacerações (como se tornou o meu estilo
consagrado!), e ela nasceu linda e forte com 3.550 kg e 52
cm.
A
Lara Melissa, 13, cortou o cordão e a neném
foi direto para o colo de todos, conhecer o pai e os irmãos.
Adoro
estar rodeada dos meus filhos e me considero bem servida,
satisfeita e realizada com o meu sexteto!
Verdade!
Desta vez, meu companheiro até fez vasectomia...
Lídia
C. Vasconcellos - Campinas, SP
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