Lídia C. Vasconcellos

"Seis filhos, seis partos diferentes, de cesárea a parto domiciliar"


 

A experiência da gestação e do parto é uma etapa sublime de auto-conhecimento, é uma alavanca para a sintonia com o mistério da existência, a glória do feminino, a fertilidade da terra, a sensualidade sagrada da vida, a melodia eterna do tempo...

A gravidez e o parto transformam a mulher, e ela, que já traz em si o dom de transformar-se, tal qual a lua, a terra e as marés, deve entregar-se confiante a esta vivência singular que supera os seus limites físicos a fim de proporcionar-lhe uma experiência profundamente espiritual.

Durante toda a gravidez uma mulher está mais atenta e sensível ao que acontece dentro de si, tornando-se uma boa ouvinte das forças da natureza que atuam em seu interior.

Naturalmente, é ela quem deve participar ao seu grupo de apoio (obstetra, doula, familiares, etc) a maneira que idealiza dar a luz, confiando em seu potencial e em sua intuição. Deve lembrar-se que a competência de parir lhe é inerente, entregar-se e nutrir a outrem é uma constante em sua vida e é ela quem sabe abrir-se como uma flor, dar passagem, ser essa passagem, obedecer aos comandos do seu corpo e aos pressentimentos do porvir...

A trajetória do começo ao fim é pura alquimia, ora um oceano de águas calmas, ora um vulcão de emoções involuntárias, até atingir-se o ápice de “morrer” para fazer nascer, de separar-se para receber em união...

Por tudo isso, penso que nós, mulheres, não devemos jamais abrir mão desse nosso trunfo, devemos, sim, torná-lo conhecido e respeitado a partir da nossa própria convicção e autoridade no assunto.

Não delegue à equipe médica esse direito elementar de ser a protagonista de seu parto, não barganhe a sua força, o seu poder, a intuição do que é bom para você e para a sua criança por nenhuma tecnologia de ponta, nenhum procedimento ou rotina hospitalar que considere invasiva ou desnecessária.

Fique atenta para que não subestimem a sua inteligência, lhe tratem como doente ou incapaz, lhe faltem com o devido respeito à sua integridade e/ou ao seu momento de graça, nem tolere a insensatez de especialistas do tipo “fique quietinha e deixe tudo por minha conta” .

Que a hora do seu neném nascer seja envolta em todo o encantamento e solitude que permeia a chegada do ser mais querido e almejado!

Vamos vencer a ilusão de nos sentirmos inaptas ou despreparadas para o nosso momento especial, enfrentando o medo com coragem e permitindo que a Natureza faça a sua parte.

Esse encantamento de viver a gravidez e o parto de forma humanizada, íntegra, mágica e plena é um direito nosso, faz parte do nosso destino, está gravado dentro de nós, nos foi presenteado por Deus, e temos o dever de receber esse presente, amando o corpo que é o templo de nosso espírito, e confiando em seu perfeito funcionamento para melhor recebermos a nossa criança.

Vamos apenas fluir como um rio, nos sabermos fêmeas e sacerdotisas de coração sensível e intuitivo, verdadeiras protagonistas desse precioso tempo em que somos conduzidas pela força de nossa feminilidade a vivenciar uma experiência única que nos torna mulheres notáveis e aprendizes entusiastas da arte de tornar-se mãe.

O primeiro filho: Daniel – cesariana

Meu primeiro parto foi em 1981, eu tinha 20 anos, foi tudo muito corrido, me casei em função da gravidez e pedi a indicação de uma mulher para me acompanhar durante o pré natal. Só que ela era uma pessoa fria, técnica, e eu não consegui sentir nenhuma empatia ou afinidade para compartilhar com ela tudo o que transbordava do meu ser enquanto eu abrigava no ventre a magia de estar trazendo outro ser humano ao mundo.

Estava certa de que o acompanhamento de uma gravidez deveria ter mais calor humano, então, no oitavo mês de gestação, desisti dessa obstetra e escolhi um novo médico, recém formado, sensível e afetuoso, que conheci num curso rápido para casais grávidos.

Sentia-me bem mais segura e amparada, mas quando entrei no trabalho de parto propriamente dito, já no hospital, onde havíamos planejado um parto vertical, pude intuir uma certa insegurança da parte dele, o que certamente refletiu-se em mim, e pela falta de experiência de ambos, fiquei insegura, não consegui me entregar para que a dilatação fosse suficiente e sem confiar que poderia me acalmar e estar no comando, tive medo e não hesitei em acatar a decisão de fazermos uma cesariana de emergência, já que o nênem poderia entrar em sofrimento (o que hoje eu duvido!).

Rumando para a sala de cirurgia, choramos os dois, eu e o médico. Permaneci impotente e frágil naquela posição deitada, imóvel, com os braços em cruz esperando que tirassem o bêbe de dentro de mim e sem poder abraçar o serzinho assustado, que era o que eu mais queria, nem conforta-lo em meus braços.

As dores na incisão duraram uma semana, a cicatrização foi perfeita mas o leite só rendeu 6 meses devido à minha insatisfação.

A segunda: Bruna – parto normal no hospital

Três anos depois engravidei de novo e apesar de terem me enchido os ouvidos de que uma vez cesárea, sempre cesárea, batalhei por um parto normal e assim trouxe a Bruna ao mundo numa cadeira semi vertical de um hospital em SP, onde morava na época.

Foi bem melhor, obtive permissão para o alojamento conjunto e para que nenhum pediatra do hospital tocasse nela, nem lhe pingasse ácido nos olhinhos, mas fiquei ainda frustrada com alguns procedimentos médicos que considerei totalmente invasivos como o soro para acelerar a dilatação, e uma episiotomia enorme, que me foi bem dolorosa e totalmente desnecessária, já que a Bruna nasceu pequena, com menos de três quilos. Mamou mais de um ano no peito.

A terceira: Lara Melissa – parto de cócoras no hospital

A Lara Melissa chegou quatro anos depois, primeira filha do meu segundo casamento, parto em cadeira de cócoras, no hospital, mas novamente, sem prévio aviso, sofri uma episiotomia repentina que me foi explicada como sendo uma conduta de rotina!

Acho um absurdo passar por toda a energia, dor e alegria de um parto natural, para depois, ao invés de curtir o nênem, ter que ficar sentindo uma dor ainda maior, desnecessária, que as vezes dura semanas...

O quarto: Alexandre – parto domiciliar de cócoras

Agradeço de coração ao Adailton Salvatore Meira, às amigas do parto e a todos os profissionais que se afinam e se dedicam em promover o discernimento e a prática do parto humanizado.

Quando mudei para Campinas dois anos depois, pude sentir verdadeiramente o que é parir sobre as próprias pernas, totalmente entregue à percepção dos meus sentidos e respeitada na minha integridade.

Foi um parto domiciliar, lindo e forte, sem anestesia, episiotomia ou coisa que o valha, apesar desse ter sido o meu maior bêbe até aquele momento. Estava tão assustada com as intervenções de meus partos passados que pedi ao Adailton que repousasse no quarto de hóspedes e “não me incomodasse” até que eu precisasse de sua assistência. Ele assentiu.

Caminhei por toda casa, subi e desci escadas, acendi incensos, fiz ioga, cantei e respirei entre as contrações, experimentei diversas posições escolhendo as que me sentia mais confortável, ou seja, estava em meu território e ninguém tinha dúvidas de quem era a dona do terreiro!

Quando chamei o Adailton estava em franco trabalho de parto, quase no momento do expulsivo...

Tudo transcorreu maravilhosamente bem, Alexandre coroou numa contração intensa e mágica como eu jamais havia experienciado e numa última contração forte e ainda mais bela, nasceu! Meu filho Daniel, então com 9 anos cortou o cordão, todos participaram emocionados e e eu pude levantar sem dores, tomar uma sopinha de missô, celebrar, manter o meu bêbe no peito e no colo o tempo todo, etc.

O quinto: Victor Hugo – parto domiciliar de cócoras

O meu quinto parto agora na idade madura, foi ainda melhor. Recomendo a todas as corajosas: ter filho depois dos 40 é a glória! O Victor Hugo nasceu com a bolsa dágua intacta até o final. Caminhei o tempo todo durante as contrações e quando elas chegavam, respirava apoiada ora pelo meu marido ora pelo meu filho mais velho.

No momento do expulsivo tomei a posição de cócoras sobre os colchonetes com o meu marido me segurando e o Victor Hugo nasceu tranqüilo e lindo, nas mãos da Eliana, uma médica amiga de Belém.

Desta vez foi a Bruna quem cortou o cordão ( minha segunda filha). Toda a família deu as boas vindas ao pequeno príncipe, com muitos beijinhos e afagos, unida e emocionada, cantamos prá ele que mamou assim que nasceu, demos o banho morno... foi inesquecível...

A sexta: Mariana – parto domiciliar de cócoras

Se a descoberta da gravidez do meu quinto filho, me deixou em estado de choque, (por alguns segundos) por temer a realidade de começar tudo de novo quando meus filhos já estavam em plena adolescência... a sexta gestação então foi uma incrível surpresa que já iniciou me ensinando a aceitar integralmente o mistério da vida, de forma a que o espaço em mim não resistisse ao amor e se fizesse todo gratidão e reconhecimento a Deus por fazer de mim uma mulher tão bem aventurada!

A gravidez da Mariana foi difícil no final, ao contrário das anteriores em que eu me mantive ágil até o final. Talvez em função da idade, 42, porém mais precisamente porque eu havia descuidado do meu corpo e já engravidei com quase dez quilos acima do peso.

A minha caçula exercitava em mim a paciência, nasceu com 41 semanas completas, enquanto que os irmãos nasceram todos de 38 ou 39 semanas incompletas.

Numa madrugada de domingo, quando as contrações aumentaram entrei no chuveiro com a Bruna, minha filha mais velha,18,que foi a minha doula e respirávamos juntas a cada contração, o que foi de um conforto inestimável.

O trabalho de parto estava indo rápido demais e o Adailton foi chamado às pressas. Veio direto da igreja e recebeu a Mariana em grande estilo, de gravata e sem luvas!

Não sofri intervenção de espécie alguma, nem lacerações (como se tornou o meu estilo consagrado!), e ela nasceu linda e forte com 3.550 kg e 52 cm.

A Lara Melissa, 13, cortou o cordão e a neném foi direto para o colo de todos, conhecer o pai e os irmãos.

Adoro estar rodeada dos meus filhos e me considero bem servida, satisfeita e realizada com o meu sexteto!

Verdade! Desta vez, meu companheiro até fez vasectomia...

Lídia C. Vasconcellos - Campinas, SP

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