Francisco, com 1 ano

 

Andrea

Nascimento do Franciso,
um parto domiciliar em São Paulo



LEIA TAMBÉM O DEPOIMENTO
DO MEU PRIMEIRO PARTO, EM HOSPITAL


 

O nascimento do Francisco

A Elisa, nossa primeira filha, já estava com quase 3 anos e a vontade (e coragem!) de termos outro filho foi surgindo...

Francisco foi concebido numa noite de lua cheia em março, 2002...

Quando descobri que estava que grávida, quase um mês depois, fiquei muito contente. E tive certeza de que o bebê era menino. Me senti plena, realizada. Mas, ao mesmo tempo, fiquei apreensiva: será que conseguiria ser mãe de mais um filho?; como seria este outro parto? ( A Elisa havia nascido de parto normal no hospital: um parto cheio de intervenções que deixou uma marca tão profunda que acabou me levando a criar, com outras 3 mulheres, o site www.amigasdoparto.com.br ). O depoimento deste primeiro parto esta aqui: http://www.amigasdoparto.com.br/depoim3.html

Nunca me imaginei tendo meu bebê em casa. Quando estava grávida pela primeira vez e ouvia falar ou lia sobre partos em casa, achava bonito mas também muito distante da minha realidade. Não conhecia ninguém que tivesse tido um bebê em casa e muito menos algum profissional que se dispunha a fazer! Acreditava realmente que o hospital era o lugar mais natural para se dar à luz (mesmo fazendo questão absoluta de ter um parto normal).

Depois que a Elisa nasceu, eu comecei a pesquisar, ler, aprender sobre parto na tentativa de compreender e dar algum sentido à experiência que tinha sido quase traumática, tão diferente do que eu esperava. Não demorou muito para que eu percebesse que sería dificílimo ter o tipo de parto que eu queria no hospital (pelo menos nos hospitais aqui de São Paulo!).

O que mais havia me incomodado durante o primeiro parto era a impessoalidade com a qual eu havia sido tratada, a sensação de ter sido submetida a uma série de procedimentos simplesmente porque "é assim que fazemos; esta é nossa rotina" sem ter sido levado em conta como indivíduo, como pessoa, justamente num momento tão íntimo e importante da minha vida! Escapar das "rotinas" hospitalares é difícil e eu não queria ter que brigar/ discutir durante o trabalho de parto.

Então, assim que fiquei grávida, (e mesmo antes, quando planejava esta gravidez) percebi que a melhor solução seria ter meu bebê em casa mesmo. Mesmo sem estar 100% convencida de que era isto mesmo que eu queria, ficou claro para mim que no hospital eu correria mais riscos de ter um parto com intervenções, de não ser respeitada, de ter um parto parecido com o primeiro. Quando me dizem que fui corajosa de ter meu filho em casa, discordo. A idéia de ter que passar por uma cirurgia, de ser submetida a uma cesárea me assusta mil vezes mais! (E foi um medo que tive que enfrentar durante a gravidez, me preparando para todas as possibilidades possíveis...).

Fui procurar a Vilma, enfermeira obstetra (que gosta de ser chamada de parteira). Eu a havia conhecido uns dois anos antes num dos encontros anuais da Fadyinha. Ela era palestrante e ao ouvi-la falar sobre parto, me encantei. Troquei algumas palavras com ela depois e fiquei desapontada quando descobri que ela não fazia partos....Senti que ela era uma pessoa que eu gostaria de ter ao meu lado na hora do parto. Alguns meses antes de engravidar, nos econtramos de novo num evento e ela me contou que fazia um ano que estava acompanhando partos em casa. Fiquei muito contente! Fora ela só tinha mais um médico que fazia partos em casa em São Paulo. Aliás acho que a falta de opção para um parto como eu queria, imaginava, fez com que eu demorasse mais para engravidar de novo. Demorei para encontrar uma solução...

Nossa primeira conversa foi muito gostosa. Estava grávida de umas 5 semanas. Fiquei de procurá-la de novo um mês depois. Eu ainda não tinha certeza do que eu queria. Mas não me via mais fazendo aquela consulta convencional com médico obstetra pedindo avalanche de exames, partindo do princípio de que sempre poderia haver algo de errado, eu tendo que provar a todo momento que eu e meu bebê estávamos bem. Queria aprender a confiar mais em mim, na vida! (E a esta altura eu já tinha informação suficiente para saber que evitar exames desnecessários não era só uma questão de bom senso mas também algo com embasamento em evidências científicas).

Decidi ir fazendo o pré-natal com ela...

Com 12 semanas deu para escutar o coração do nosso bebê batendo (Vilma tinha uma aprelho portátil) e uns dias depois fiz o primeiro e único ultra-som, (com pedido médico de um amigo da Vilma, já que os laboratórios e planos de saude não aceitam pedidos de enfermeiras).

Deu para ver nosso bebezinho, perfeitamente formado e acabou tornando a gravidez mais "real", especialmente para meu marido, já que minha barriga ainda não havia começado a crescer.

A médica ultrasonografista ainda quis nos dar um palpite sobre o sexo do bebê. Fomos pegos de surpresa, mas respondi rapidinho que não queria saber! E até que foi gostoso manter o suspense até o final, especialmente com a inuição forte de que era menino. Acho que para as avós, tias etc. é que foi duro aguentar até o fim!

É engraçado que não só eu sentia que este bebê era menino como também achava que iria nascer dia 20 de dezembro (o que realmente acabou acontecendo)... A tal data provável caía no dia 21 de dezembro e por alguma razão, desde o começo, a data do dia 20 ficou na minha cabeça. Serviu para que eu aprendesse a confiar mesmo na minha intuição.

Foi uma gravidez muito tranquila. Eu me encontrava com a Vilma uma vez por semana e quando não era para avaliar aspectos mais técnicos (peso, pressão, crescimento da barriga, ouvir o coração do bebê), batíamos papo, fazíamos exercícios de alongamento e massagens também. A Vilma sempre tinha alguma dica natural para lidar com aqueles desconfortos típicos da gravidez, desde nariz entupido até azia. Os únicos exames que voltei a fazer foram os de sangue, por volta das 30 semanas. E estava tudo bem. Também comecei a fazer yoga uma vez por semana e haptonomia uma vez por mês. (Haptonomia é uma técnica que facilita o contato entre mãe, pai e bebê. Acho que a maior vantagem foi a participação do pai: o Marcos se divertia vendo nosso bebê respondendo aos seus toques).

Até o sexto mês eu ia até o consultório da Vilma. O problema é que o Marcos nunca ia comigo, por causa do horário, e daí a Vilma começou a ir lá em casa. Era uma delícia: a Elisa, minha filha também participava e não deixava a Vilma ir embora sem antes fazer massagem nela!

Gostava de ouvir o coração do bebê batendo e até de ouvir o seu próprio e o meu também. A Vilma incentivava esta participação da Elisa e foi muito gostoso sentir que toda a familia estava participando da gravidez e da chegada do novo bebê.

A idéia de que nosso bebê iria nascer em casa foi se tornando cada vez mais natural...

Eu, um pouco ansiosa, precisava resolver quem ficaria na retaguarda caso precisasse ir para o hospital na hora do parto por alguma razão.

Um mês antes do Francisco nascer, eu e o Marcos fomos conversar com o Jorge Kuhn, médico obstetra, admirador do trabalho da Vilma. Ele se dispôs a ajudar e eu cheguei a falar com ele sobre como que eu queria que fosse a cesárea, se necessária!

Ficamos bem mais tranquilos com tudo organizado....até pediatra (Gabriel Ventura) eu também arrumei para ir conosco para o hospital caso precisasse! Não queria que aspirassem meu bebê sem necessidade, nem que usassem o colírio de nitrato de prata, queria que a vitamina K fosse via oral e principalmente não admitia que meu bebê ficasse 4 ou 6 horas em observação, longe de mim.

E assim que estava tudo "organizado" relaxei.

Quando eu estava com 35/36 semanas, a Vilma achou que o bebê estava já bem baixo e que eu estava com muitas contrações (Braxton-Hicks) e me aconselhou a tomar muita água de coco e tentar descansar um pouco mais. Fazia muito calor. Fiquei preocupada, será que meu filho iria nascer antes do tempo? No fundo achava que não...

As semanas foram se passando, as mudanças aqui em casa já estavam prontas (escritório virou quarto de bebê), roupinhas já separadas e lavadas. Tudo pronto. Até o equipamento da Vilma já estava guardado aqui (pouca coisa: luvas, material de sutura para eventuais pontos, etc.). E faltando uma semana para completar as 40 semanas vem aquela sensação que o tempo não passa, cada dia dura uma eternidade, parece que o bebê não vai nascer nunca (será possível que este vai ficar aqui dentro 42 semanas e só nascer em janeiro??). Com vontade de saber como andava a situação pedi à Vilma que me examinasse (era dia 19 dezembro, um dia antes do parto) e o veredito foi um colo já bem macio, com 1cm de dilatação.

Nem imaginei que no dia seguinte entraria em trabalho de parto.

No dia 20 de dezembro, um dia antes de completar as 40 semanas, acordei lá pelas 6 da manhã sentindo umas contrações, levemente dolorosas. Fiquei tããao feliz! Meu grande medo era que este trabalho de parto começasse com bolsa rompendo e que eu demorasse a ter contrações, o que poderia acabar provocando uma série de intervenções... (foi o que tinha acontecido da primeira vez). Quando vi que este seria diferente fiquei animadíssima. Cada contração era a prova de que desta vez seria diferente, de que meu corpo estava funcionando e era capaz de funcionar! Avisei o Marcos e liguei para a Vilma para contar a novidade. Disse a ela que estava tudo tranquilo e que as contrações vinham de 10 em 10 minutos. Não achei necessário que ela viesse por enquanto e combinamos que eu voltaria a ligar quando as coisas "apertassem".

O Marcos deu uma saída, foi ao banco etc. e eu tomei café, fiquei um pouco com a Elisa e avisei a Georgia, que seria a doula...Voltei a me deitar para descansar um pouco e as contrações continuavam de 10 em 10 minutos, às vezes espaçavam mais e vinham depois de 15 minutos..Eram desconfortáveis: eu parava o que estava fazendo e ficava respirando fundo mas estavam longe de ser insuportáveis. Até almoçei, tomei uma sopinha. Mandei a Elisa brincar na casa de uma amiguinha a tentei descansar mais um pouco. Comecei a anotar o tempo das contrações no papel, ajudava a passar o tempo! Lá pelas 2 da tarde as contrações começaram a vir de 5 em 5 minutos, tanto que parei de anotá-las uma meia hora depois!! Liguei para a Vilma e para a Georgia por volta das 3 e pedi que viessem logo já que as contrações estavam mais fortes. Chamei minha irmã para fazer companhia para a Elisa e logo depois o Marcos também chegou.


Georgia, Elisa, Andrea e Vilma
Quando a Vilma me examinou, uma grande surpresa: já estava com 7 de dilatação. Que bom! E até então estava tudo bem suportável. A contração vinha eu respirava fundo algumas vezes, ela passava e dava para relaxar. Foi engraçado que desde de manhã quando acordei sentindo as contrações, eu simplesmente não tive tempo de sentir medo ou ansiedade. Em nenhum momento pensei "e agora, será que vai dar tudo certo?".

Parece que passei a viver intensamente aquele momento, uma contração de cada vez, sem pensar no que viria depois...(em certos momentos era até mesmo difícil imaginar que no final disso tudo nasceria um bebê!!).

A posição mais confortável que encontrei foi de ficar sentada numa banquetinha baixa, com uma bolsa de água quente na lombar e o Marcos sentado atrás me abraçando. A Georgia pressionava uns pontos na mão que ajudavam a aliviar a dor e a Vilma também ficava por perto assistindo. Depois as duas nos deixaram (eu e o Marcos) sozinhos por um tempo: era o que eu queria, muita calma e concentração. Às vezes experimentava outras posições: tentei ficar de quatro e é incrível como aumentou a intensidade da dor! Mudei de novo de posição rapidinho. Depois do parto percebi que em nenhum momento cheguei a me deitar na cama! Ou eu andava e na hora da contração me apoiava em alguém/ alguma coisa para respirar fundo ou ficava sentada na banqueta. Comecei a ficar enjoada na hora da contração, a sensação de enjôo vinha e depois ia embora. Eram umas 5 e meia da tarde. A Vilma sugeriu que eu fosse ou para o chuveiro ou para a banheira. Escolhi a banheira e ela colocou umas gotas de óleo de lavanda na água....

O ritmo estava mais intenso, e meu medo do que viria depois aumentava. Agora era pra valer! O enjôo estava piorando, chamei a Vilma e acabei vomitando (no balde de areia da minha filha!!). O esforço fez com que minha bolsa se rompesse, dentro da água mesmo. Estava transparente, sinal de que estava tudo bem. A Vilma me examinou pela segunda vez e me perguntou "quer que nasça aqui ou lá no quarto?!". Eram quase 6 horas da tarde e eu estava com 10 de dilatação. Mas as contrações continuavam cada vez mais intensas e eu não sentia ainda nenhuma vontade de fazer força. Agora parecia que nada estava bom, nenhuma posição aliviava a dor (ou medo?) que eu sentia...

Saí da água e fomos para o quarto. A Vilma chamou o Marcos que estava com a Elisa na sala...

Eu estava com medo. Não de que desse algo errado. Mas de me abrir para esta passagem, para esta mudança. E a "pressão" aumentava: era como se meu corpo me dissesse "vamos, agora não tem mais como voltar atrás, seu bebê vai nascer" mas eu resistia e a dor aumentava. Me senti paralisada, eu queria resistir. O quarto estava escurinho, ninguém falava nada e eu já estava metade do tempo em outro mundo, tentando sobreviver a uma contração da cada vez. Entre uma e outra às vezes eu abria os olhos e me dava conta de onde estava. Além de respirar eu dava uns gemidos que pareciam ajudar: "aai, aai, aai..." . Fiquei uma meia hora assim, imobilizada pelo medo e tomada pela intensidade das contrações cada vez mais seguidas. Até que a Vilma sugeriu que eu tentasse mudar de posição (eu estava sentada na banquetinha com o Marcos, o chão todo forrado com plástico). Não sabia porque estava demorando tanto. Não sentia vontade de fazer força, mesmo estando com 10cm de dilatação. Não sentia ainda meu bebê descendo. Parecia que estava tudo parado.

Desci da banqueta e fiquei meio ajoelhada. Veio uma contração, igual às outras. De repente um puxo (palavra perfeita) violento, e a sensação da cabeça do meu filho já saindo. Foi um choque, de onde veio?! E sem aviso algum! Olhei apavorada para Georgia, que estava mais perto, "me ajude por favor!". Ainda tentei desajeitadamente fazer com que fosse tudo mais devagar e comecei a fazer aquela respiração de cahorrinho. Tentativa em vão. Não tinha jeito, o puxo vinha lá de dentro, poderoso, orgânico. Desisti de resistir. Me entreguei e mergulhei no desconhecido, no olho daquele furacão que tomava conta de mim. Morri um poquinho. Parecia que eu estava sendo partida ao meio mas nada mais importava. Soltei uns tres gritos, altos mas que ajudaram a aliviar a dor. Senti vagamente quando a Vilma deu uma puxadinha para ajudar o bebê a nascer. E pronto. Tudo calmo.

Ouvia uma voz dizendo bem baixinho "seu bebê está aí, seu bebê está ái". Era a Georgia. Meio cegamente fui tateando e peguei meu bebê que estava ali no chão com o cordão ainda pulsando. Ainda estava num estado meio alterado, não totalmente consciente. Sentia um enorme alívio. Eu havia sobrevivido, era como se renascesse junto com meu bebê. Não sentia mais nenhuma dor e segurava meu bebê no colo. Olhava para ele e parecia que eu o reconhecia lá de dentro de mim. Foi o Marcos que me trouxe de volta à realidade. Ele queria saber "é menino mesmo?". Eu sabia que era e nem tinha me lembrado de olhar. A Vilma riu e falou que pelo o que ela tinha visto era sim...Eram quase sete da noite....E eu havia conseguido! Que felicidade! Naquele momento me senti mulher: senti aquilo que tantas mulheres relatam nesta hora, uma sensação de comunhão com todas as mulheres do mundo, desde as nossas ancestrais; uma confirmação da minha feminilidade e do nosso poder. (Afinal, parir é realmente exlusividade nossa).

Que privilégio poder ter todo o tempo do mundo para ficar olhando e namorando nosso novo bebê. Um momento realmente sagrado. O quarto estava quase escuro e eu olhava para ele, tão diferente da Elisa e tão parecido com o Marcos, um estranho de quem eu já me sentia íntima. Ele chorava, um choro alto, forte (e para mim inesperado). Era como se ele disesse, "estou aqui, cheguei e esta é minha voz".

Não queria saber de mamar. A Vilma cortou o cordão e aos poucos ele se acalmou com a voz do Marcos. Estava bem rosado, ótimo.

O Marcos chamou a Elisa para conhecer o irmão. Ela entrou no quarto e disse "mamãe, deixa eu ver se sua barriga está murcha"!! Morremos de rir. Não sossegou até que o Francisco fosse para seu colo (aliás, ela ajudou a escolher o nome). Depois minha irmã também entrou para conhecer o novo sobrinho.

E eu saboreei cada instante: que bom estar em minha casa! Que bom ficar com meu bebê o tempo todo! Que bom que ele não foi aspirado, pesado, medido, separado de mim bem neste comecinho! Que bom que nossa filha mais velha pôde participar junto...

 

O tempo era meu e da minha família. Nós fomos imprimindo nosso ritmo à chegada do nosso bebê. E não consigo expressar direito o valor que teve para mim este tempo respeitado. É um tempo sagrado, único. Não estava a serviço de regras, rotinas e normas institucionais. Foi mais ou menos uma hora de namoro, (re)conhecimento, encantamento, bate-papo, risadas. Uma hora mágica, inesquecível, a mais especial de todo o parto.

O Francisco finalmente se interessou em mamar um pouquinho e depois senti que estava na hora da placenta sair (já havia pedido à Vilma que não a tracionasse). A Georgia me ajudou a ficar de cócoras e eu fiz força. Aos poucos ela foi saindo. Foi o segundo parto do dia, só que este foi indolor e eu estava completamente consciente! É engraçado mas me deu muita satisfação "parir" minha placenta. A Vilma me mostrou como era, realmente incrível. A Georgia pegou um saco e na hora em que a Vilma foi colocar a placenta dentro escapuliu e foi parar no chão, forrado de plástico. Morremos de rir e e a Vilma comentou que se não fosse pelo pequeno acidente, nem teria precisado do plástico no chão!

Aí fui examinada. Eu tinha certeza que havia lacerado bastante por causa da rapidez da expulsão. A Vilma olhou e confirmou: a laceração era bem em cima da cicatriz da antiga episiotomia (voltei a ficar com raiva de ter sido cortada sem justificativa!). Ela me deu uma anestesia local e fez a sutura enquanto a Georgia segurava minha mão (o Marcos estava na sala com a Elisa e o Francisco). Fora o incômodo da aplicação da injeção, não senti mais nada, nem um pontinho sequer sendo dado. Aquilo me surpreendeu já que no meu primeiro parto, no hospital, cheguei a sentir cada ponto sendo dado e ainda tive dificuldades de convencer minha médica disto. Só depois de muita insistência minha é que ela reforçou a dose do anestésico.

Não eram boas lembranças!

Me levantei, fui tomar banho e me deitei na cama para descansar. O Francisco estava tão limpinho e com um cherinho de recém nascido tão irresistível que decidi deixar para dar banho nele no dia seguinte. A Vilma e a Georgia o pesaram e vestiram. Ele ficou na cestinha do meu lado e adormeceu enquanto eu lanchava. A Vilma ficou para jantar com o Marcos, a Elisa e minha irmã e lá pelas onze da noite foi para casa. Estávamos eufóricos!

No dia seguinte eu continuava tomada por intensas emoções. A gente "vive" um parto, não o assiste ou observa, e eu precisei da ajuda de todos que estiveram lá comigo (Marcos, Vilma e Georgia) para aos poucos elaborar aquilo que eu tinha vivido. O momento do parto, da expulsão, foi violento. Eu tinha sonhado com uma expulsão lenta, mais consciente, mais presente. Não foi assim. Nos primeiros dias pós-parto custei a me conformar com a falta de um registro completo do parto em si (fotos ou filme), para que eu pudesse assistí-lo mais objetivamente. Na hora, apesar de ter uma máquina por perto, não tive a mínima vontade de que alguém ficasse me filmando ou que tirasse fotos. Aos poucos fui aceitando que minhas impressões e sensações não eram menos completas só porque eu não estava lá, consciente, acompanhando tudo. Que mania que a gente tem de querer assistir de longe! Acabei aprendendo a valorizar o "viver" também. Mas é como se eu precisasse destes registros objetivos para assimilar direito toda a experiência.

E foi uma experiência tão forte que confesso que cheguei a dizer à Georgia no dia seguinte que não sabia se teria condições de repetí-la. (É lógico que hoje, um ano depois, a história é outra. Já me sinto pronta para ter outro filho do mesmo jeito!).

O pós-parto foi bem diferente desta segunda vez, mesmo com algumas dificuldades típicas como rachaduras no seio etc. A Vilma ia lá em casa quase todos os dias durante a primeira semana dar um apoio, conversar, e isto foi muito bom.O fato de ser meu segundo filho provavelmente também ajudou. Mas acredito que o parto e o sentimento de conquista que este me trouxe também teve grande influência. Foi tudo mais fácil, mais ameno e, por outro lado, menos intenso do que fora com minha primeira filha. E até hoje é esta a sensação que fica comigo: quando pego meu filho no colo, quando estou com ele, reconheço aquele bebezinho que se mexia dentro da minha barriga. Seu nascimento e este primeiro ano de vida foram feitos de transições suaves e naturais, sem grandes cortes nem solavancos e separações bruscas. E sinto que isto se traduz no jeito de ser do Francisco: aberto, curioso e confiante no mundo.

Aprendi tanta coisa com este nascimento, com este parto. Aprendi a confiar mais na vida e no ritmo e tempo da natureza. Aprendi a confiar na minha intuição, no meu tempo e no meu ritmo.

O trabalho de parto me mostrou como viver mais intensamente no presente, um momento de cada vez. Foi uma experiência da qual saí inteira e através da qual me tornei um pouco mais eu mesma. Me sinto um pouco mais forte, mais segura e mais mulher.

Aprendi a me entregar um pouco mais, a ter menos medo de viver a vida com intensidade. A vida é feita de altos e baixos, dores e alegrias, assim como o trabalho de parto. E da mesma forma em que pude viver meu parto, hoje me sinto mais aberta a "viver" a vida.

Quero agradecer ao Marcos, que me apoiou e sempre se mostrou aberto a idéias novas, a rever preconceitos...seu apoio foi fundamental e nos fez crescer; à Vilma que tornou possível a realização do parto em casa e que, com sua discrição fez com que o parto fosse realmente meu; à Georgia, cuja presença me trouxe muita tranquilidade e que teve sensibilidade para saber quando se afastar e quando se aproximar, quando e como ajudar.

E ao Francisco: foi com ele que dividi esta experiência, tão transformadora para nós dois. O parto foi meu mas o nascimento foi dele. Obrigada meu filho!

LEIA TAMBÉM O DEPOIMENTO DO MEU PRIMEIRO PARTO, EM HOSPITAL
 

Andrea Amaral Almeida Prado
aa.prado@uol.com.br


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