Caroline Miranda

"Obrigada por me darem esta chance de abrir meu coracão e descarregar tudo isso que venho levando comigo desde o dia 24 de setembro de 2001. Mas apesar de tudo, foi o dia mais lindo da minha vida"


 

Gostaria de comecar este depoimento, pabenizando as organizadoras deste site. Aqui encontrei coragem e informacões que me ensinaram coisas, que se das quais eu soubesse antes de ter meu filho, o que vou contar não teria acontecido.

Fiquei grávida aos 19 anos, não tinha uma carreira feita, é claro, mas não foi uma gravidez indesejável, queríamos muito um filho, um fruto do nosso amor que estava explodindo em paixão e felicidade. Minha família ficou muito decepcionada comigo, pois esperavam muito de mim profissionalmente falando. Então, decidi vir para a Dinamarca, país de onde é o meu marido. Infelizmente não pude levar minha gravidez a termo aqui, tive que retornar ao Brasil. E aos seis meses de gestacão, decidi procurar o mesmo médico que havia diagnosticado a gravidez, pois havia achado ele muito bom.

Quando deixei seu consultório, logo após a primeira consulta, tinha certeza de que era ele, pois ele se dizia totalmente vaginalista e só optaria por uma cesariana em último caso. Estava excitada em viver esta experiência que a natureza deu somente à mulher, um dom e um presente que somente nós mulheres podemos ter. Não estava com medo da dor, pois ele havia me explicado tudo sobre o " parto humanizado" com a peridural após os 5 cm de dilatacão e tudo mais. Me explicou também sobre o encaixe do bebê, e que eu poderia achar que era a hora do parto, mas que tudo passaria, isso provavelmente aconteceria uns 15 dias antes do real trabalho de parto.

Eu tive uma gravidez ótima, nenhum inchaco, ou nenhum outro tipo dos muitos pequenos problemas gestacionais. Me sentia poderosa, e também que estava fazendo uma grande contribuicão para a natureza. Tudo que o médico disse, comecou a acontecer, e eu me sentia cada vez mais preparada e encorajada a dar à luz ao meu filho (que eu quis saber o sexo).

Quatro dias antes da data provável do parto, fui à uma consulta para um exame cervical, para saber quão baixo estava a cabeca do bebê e assim poder saber em que fase eu estava. Ele me disse que o bebê ainda estava flutuando, mas que se eu estivesse anciosa, poderia marcar uma cesárea para o próximo dia. Ele havia escolhido a maternidade Perinatal para fazer o meu parto. Porém, quando liguei para saber informacões sobre a maternidade, soube que eles não tinha a opcão enfermaria, que era tudo que meu plano de saude "Bradesco Saúde" cobria. Quando contei a ele, ele se mostrou boquiaberto e decepcionado, e me disse cara a cara que seria pago bem menos fazendo o parto num hospital onde eu ficaria numa enfermaria (quarto com 2 leitos). Vi em seu rosto a decepcão e não soube o que pensar. E disse para minha mãe, "ele vai arrumar uma razão para realizar uma cesárea em mim mãe, estou com medo."

Na madrugada antes do Nicholas nascer, levantei às 3:00hs da manhã para ir ao banheiro e constatei que não era urina o que eu queria expelir, e sim o líqudo aminiótico da bolsa, que havia rompido. Interessante é que eu conseguia conter e então liberar, como se estivesse realmente urinando. Comecei então a contar as contracões que estavam muito brandas e distantes umas das outras (2 a cada 15 min). Calmamente, tomei um banho, arrumei minhas coisas pessoais, pus disponível a bolsa do bebê que já estava arrumada desde os 7 meses, tomei café, pizza com refrigerante (o que me fez vomitar na hora do parto) e sentei na cama esperando as contracões aumentarem e o sol nascer para ligar para o médico.

Às 7hs da manhã liguei para ele e contei o que estava a ocorrer, e ele me disse para ir diretamente para a outra maternidade que ele havia escolhido. Eu, minha irmã e minha mãe, muito excitadas, fomos "voando" para o hospital. Dei entrada às 9 e o médico chegou por volta das 11hs. Assim que fez um exame cervical disse que eu não estava com nenhum sinal de parto exceto a bolsa rota. Fui posta imediatamente em ocitocina o que fez as contracões irem de brandas para quase isuportáveis. Mas eu podia suportá-las. E ele disse que iria almoçar e voltaria em uma hora.

O assistente dele veio uma hora depois, fez outro exame cervical e disse que eu estava comecando a progredir, mas muito lentamente. Eu estava com 10 horas de bolsa rota. Então meu médico chegou meia hora depois e ouviu o que seu assistente tinha a dizer e então me falou, bem parace que nnhum progresso está ocorrendo aqui, teremos que optar por uma cesárea. Eu não tinha palavras neste momento, sabia que isto iria acontecer. Mandou as enfermeiras prepararem a sala de cirurgia e me levaram imediatamente para aquela sala fria e medonha. Eles usavam o dopler para escutar o coracão do bebê, e eu também podia ouvir, havia estudado muito sobre isto e sabia que até então não havia sofrimento fetal ... Eu não conseguia falar de tanta decepcão.

Foi me administrada uma ráquianestesia, morfina, e outras coisas que eu nem tomei conhecimento, fiquei completamente insensível, só conseguia snetir a cabeca. Ele foi tirado do meu ventre às 2:34 hs da tarde. Ele não tinha nem mesmo o formato na cabeca de um bebê que havia estado entrando no canal de parto. De qualquer forma ele teve APGARS 10 e 10. Meu aleitamento foi horrível, levei quatro dias para comecar a ter leite, tive uma crise de pressão, que subiu de 100 x 90 para 180 x 130 após a operacão.

Dias depois, me sentia uma fracassada, incapaz de atuar naturalmente como toda fêmea do reino animal. Meu corpo não era capaz de realizar a tarefa dada pela natureza. Meu marido não estava ao meu lado, o que foi ainda mais difícil. Hoje, quase 9 meses depois, estou morando na Dinamarca, e as vezes ainda me correspondo com o meu médico. Nunca tive coragem de escrever-lhe uma carta contando como me senti usada e enganada por ele. Apesar de ter esta vontade o tempo todo. Até escrevi ua carta para uma revita famosa brasileira pedindo que fizessem uma matéria sobre a máfia da cesariana nos planos de saúde, mas também não tive coragem de enviar.

A vontade de me sentir como um animal irracional durante este período mágico e totalmente instintivo que é o mmomento de dar a lus naturalmente, sem medicamentos para dor, sem episiotomia ou tricotomia, anestesia ou qualquer outro tipo de palavras que terminem em "ia" cresceu dentro de mim. Meu bebê não foi parido, ele foi tirado para mim, através de uma cicatriz no abdomen e no coracão que praticamente nunca cicatrizarão...

Espero poder ter a alternativa de um VBAC no meu próximo filho. Tenho certeza de que sou capaz agora, e sou muio mais informada por causa do meu sentimento de fracasso, li tudo que pude sobre VBAC's e ainda leio, e sei que não foi meu corpo que fracassou, ele foi usado e enganado por um médico que se dizia totalmente vaginalista e me passou confianca até o dia do nascimento do meu filho, talvez para que eu não mudasse de médico.

Não quero citar nomes e não quero levantar raiva por parte de ninguém da comunidade obstétrica brasileira, mas tenho que contar este fato também: No dia em que ele nasceu, uma médica trouxe 8 mulheres para serem operadas. Ela chegou às seis da noite e às 11 estava em sua última cesariana. Foi ainda mais impressionante, pois era uma mulher, como pode, uma mulher, que deve ter os instintos dos quais falei, agir de tal forma?

Obrigada por me darem esta chance de abrir meu coracão e descarregar tudo isso que venho levando comigo desde o dia 24 de setembro de 2001. Mas apesar de tudo, foi o dia mais lindo da minha vida, pois o Nicholas é a melhor coisa que já aconteceu na minha vida, e somente outro filho poderá ser comparado a este... Não há sentimentos, ou emocões que sequer cheguem perto à de ter um filho, um filhote, uma cria, pois somos todos animais aqui, e temos que deixar nosso corpo trabalhar junto com nossa mente neste momento, pois a natureza fará o resto. Estou chorado ao escrever estas palavras. Não sei como explicar o que é ter a oportunidade de dividir com tanta gente o que tenho dentro de mim.

Caroline Miranda
Dinamarca


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