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Gostaria
de comecar este depoimento, pabenizando as organizadoras deste site.
Aqui encontrei coragem e informacões que me ensinaram coisas,
que se das quais eu soubesse antes de ter meu filho, o que vou contar
não teria acontecido.
Fiquei
grávida aos 19 anos, não tinha uma carreira feita, é
claro, mas não foi uma gravidez indesejável, queríamos
muito um filho, um fruto do nosso amor que estava explodindo em paixão
e felicidade. Minha família ficou muito decepcionada comigo,
pois esperavam muito de mim profissionalmente falando. Então,
decidi vir para a Dinamarca, país de onde é o meu marido.
Infelizmente não pude levar minha gravidez a termo aqui, tive
que retornar ao Brasil. E aos seis meses de gestacão, decidi
procurar o mesmo médico que havia diagnosticado a gravidez, pois
havia achado ele muito bom.
Quando
deixei seu consultório, logo após a primeira consulta,
tinha certeza de que era ele, pois ele se dizia totalmente vaginalista
e só optaria por uma cesariana em último caso. Estava
excitada em viver esta experiência que a natureza deu somente
à mulher, um dom e um presente que somente nós mulheres
podemos ter. Não estava com medo da dor, pois ele havia me explicado
tudo sobre o " parto humanizado" com a peridural após
os 5 cm de dilatacão e tudo mais. Me explicou também sobre
o encaixe do bebê, e que eu poderia achar que era a hora do parto,
mas que tudo passaria, isso provavelmente aconteceria uns 15 dias antes
do real trabalho de parto.
Eu tive
uma gravidez ótima, nenhum inchaco, ou nenhum outro tipo dos
muitos pequenos problemas gestacionais. Me sentia poderosa, e também
que estava fazendo uma grande contribuicão para a natureza. Tudo
que o médico disse, comecou a acontecer, e eu me sentia cada
vez mais preparada e encorajada a dar à luz ao meu filho (que
eu quis saber o sexo).
Quatro
dias antes da data provável do parto, fui à uma consulta
para um exame cervical, para saber quão baixo estava a cabeca
do bebê e assim poder saber em que fase eu estava. Ele me disse
que o bebê ainda estava flutuando, mas que se eu estivesse anciosa,
poderia marcar uma cesárea para o próximo dia. Ele havia
escolhido a maternidade Perinatal para fazer o meu parto. Porém,
quando liguei para saber informacões sobre a maternidade, soube
que eles não tinha a opcão enfermaria, que era tudo que
meu plano de saude "Bradesco Saúde" cobria. Quando
contei a ele, ele se mostrou boquiaberto e decepcionado, e me disse
cara a cara que seria pago bem menos fazendo o parto num hospital onde
eu ficaria numa enfermaria (quarto com 2 leitos). Vi em seu rosto a
decepcão e não soube o que pensar. E disse para minha
mãe, "ele vai arrumar uma razão para realizar uma
cesárea em mim mãe, estou com medo."
Na madrugada
antes do Nicholas nascer, levantei às 3:00hs da manhã
para ir ao banheiro e constatei que não era urina o que eu queria
expelir, e sim o líqudo aminiótico da bolsa, que havia
rompido. Interessante é que eu conseguia conter e então
liberar, como se estivesse realmente urinando. Comecei então
a contar as contracões que estavam muito brandas e distantes
umas das outras (2 a cada 15 min). Calmamente, tomei um banho, arrumei
minhas coisas pessoais, pus disponível a bolsa do bebê
que já estava arrumada desde os 7 meses, tomei café, pizza
com refrigerante (o que me fez vomitar na hora do parto) e sentei na
cama esperando as contracões aumentarem e o sol nascer para ligar
para o médico.
Às
7hs da manhã liguei para ele e contei o que estava a ocorrer,
e ele me disse para ir diretamente para a outra maternidade que ele
havia escolhido. Eu, minha irmã e minha mãe, muito excitadas,
fomos "voando" para o hospital. Dei entrada às 9 e
o médico chegou por volta das 11hs. Assim que fez um exame cervical
disse que eu não estava com nenhum sinal de parto exceto a bolsa
rota. Fui posta imediatamente em ocitocina o que fez as contracões
irem de brandas para quase isuportáveis. Mas eu podia suportá-las.
E ele disse que iria almoçar e voltaria em uma hora.
O assistente
dele veio uma hora depois, fez outro exame cervical e disse que eu estava
comecando a progredir, mas muito lentamente. Eu estava com 10 horas
de bolsa rota. Então meu médico chegou meia hora depois
e ouviu o que seu assistente tinha a dizer e então me falou,
bem parace que nnhum progresso está ocorrendo aqui, teremos que
optar por uma cesárea. Eu não tinha palavras neste momento,
sabia que isto iria acontecer. Mandou as enfermeiras prepararem a sala
de cirurgia e me levaram imediatamente para aquela sala fria e medonha.
Eles usavam o dopler para escutar o coracão do bebê, e
eu também podia ouvir, havia estudado muito sobre isto e sabia
que até então não havia sofrimento fetal ... Eu
não conseguia falar de tanta decepcão.
Foi me
administrada uma ráquianestesia, morfina, e outras coisas que
eu nem tomei conhecimento, fiquei completamente insensível, só
conseguia snetir a cabeca. Ele foi tirado do meu ventre às 2:34
hs da tarde. Ele não tinha nem mesmo o formato na cabeca de um
bebê que havia estado entrando no canal de parto. De qualquer
forma ele teve APGARS 10 e 10. Meu aleitamento foi horrível,
levei quatro dias para comecar a ter leite, tive uma crise de pressão,
que subiu de 100 x 90 para 180 x 130 após a operacão.
Dias depois,
me sentia uma fracassada, incapaz de atuar naturalmente como toda fêmea
do reino animal. Meu corpo não era capaz de realizar a tarefa
dada pela natureza. Meu marido não estava ao meu lado, o que
foi ainda mais difícil. Hoje, quase 9 meses depois, estou morando
na Dinamarca, e as vezes ainda me correspondo com o meu médico.
Nunca tive coragem de escrever-lhe uma carta contando como me senti
usada e enganada por ele. Apesar de ter esta vontade o tempo todo. Até
escrevi ua carta para uma revita famosa brasileira pedindo que fizessem
uma matéria sobre a máfia da cesariana nos planos de saúde,
mas também não tive coragem de enviar.
A vontade
de me sentir como um animal irracional durante este período mágico
e totalmente instintivo que é o mmomento de dar a lus naturalmente,
sem medicamentos para dor, sem episiotomia ou tricotomia, anestesia
ou qualquer outro tipo de palavras que terminem em "ia" cresceu
dentro de mim. Meu bebê não foi parido, ele foi tirado
para mim, através de uma cicatriz no abdomen e no coracão
que praticamente nunca cicatrizarão...
Espero
poder ter a alternativa de um VBAC no meu próximo filho. Tenho
certeza de que sou capaz agora, e sou muio mais informada por causa
do meu sentimento de fracasso, li tudo que pude sobre VBAC's e ainda
leio, e sei que não foi meu corpo que fracassou, ele foi usado
e enganado por um médico que se dizia totalmente vaginalista
e me passou confianca até o dia do nascimento do meu filho, talvez
para que eu não mudasse de médico.
Não
quero citar nomes e não quero levantar raiva por parte de ninguém
da comunidade obstétrica brasileira, mas tenho que contar este
fato também: No dia em que ele nasceu, uma médica trouxe
8 mulheres para serem operadas. Ela chegou às seis da noite e
às 11 estava em sua última cesariana. Foi ainda mais impressionante,
pois era uma mulher, como pode, uma mulher, que deve ter os instintos
dos quais falei, agir de tal forma?
Obrigada
por me darem esta chance de abrir meu coracão e descarregar tudo
isso que venho levando comigo desde o dia 24 de setembro de 2001. Mas
apesar de tudo, foi o dia mais lindo da minha vida, pois o Nicholas
é a melhor coisa que já aconteceu na minha vida, e somente
outro filho poderá ser comparado a este... Não há
sentimentos, ou emocões que sequer cheguem perto à de
ter um filho, um filhote, uma cria, pois somos todos animais aqui, e
temos que deixar nosso corpo trabalhar junto com nossa mente neste momento,
pois a natureza fará o resto. Estou chorado ao escrever estas
palavras. Não sei como explicar o que é ter a oportunidade
de dividir com tanta gente o que tenho dentro de mim.
Caroline
Miranda
Dinamarca
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