Elsa Goveia (Xinha)

Um parto em Portugal, com delicioso sotaque. Imperdível.


 

Um parto em Portugal

Como mulher e mãe de uma menina que está prestes a fazer 15 meses, e ao fazer uma reflexão de tudo o que esta experiência envolve, consigo regressar à minha adolescência ou até mesmo pré-adolescência, altura em que encontro a minha primeira preocupação com este tipo de assunto. Já então, eu perguntava frequentemente à minha mãe se ter filhos era doloroso e quão doloroso poderia ser. Eu queria explicações detalhadas, tal como qualquer menininha, julgo eu. A minha mãe, que teve 4 filhos de parto normal, em casa, com ajuda de uma parteira e sem saber o que são anestesias ou episiotomias, nunca me enganou, sempre me disse que sim, que custava um pouco mas que era um processo natural, que o corpo das mulheres estava preparado para isso e que logo após o nascimento da criança, todas essas dores eram esquecidas e que a alegria de ter um filho era tão grande que suplantava tudo isso. Pois bem, mesmo assim, isto complicava-se na minha cabeça e eu tinha pavor de vir a passar por essa experiência. Decidi, então, desde cedo, que não queria ser mãe e que se um dia o desejasse, de certeza que adoptaria uma criança.

Ainda bem que essa minha decisão foi reversível e ainda bem que um dia senti o apelo da maternidade, pois senti-me muito realizada por colocar a minha filha no mundo e hoje eu nada seria sem ela. Mesmo assim, durante quase toda a gravidez, vivi sempre com medo desse terrível momento que deveria ser "o parto".

Depois, fui lendo muito sobre o assunto e comecei a perceber, que tecnicamente, na maior parte dos casos, tudo está programado para correr de forma natural e que a atitude da parturiente pode em muito condicionar todo o desenrolar desse processo. Fui adquirindo auto-confiança e convenci-me de que o meu pensamento positivo, poderia ser um forte aliado quando chegasse a minha hora. Na véspera da Ana Marisa nascer, eu ainda andava agarrada aos livros, a praticar a respiração e a verificar todos os sintomas que pudessem anunciar que a sua chegada estava para breve. E esse momento chegou, no dia 15 de Dezembro de 2000, de madrugada, comecei com ligeiras contracções que foram aumentando quer na regularidade quer na intensidade e que me fizeram dirigir para a maternidade quando chegaram ao conhecido "pico dos 5 minutos".

Mas, para tristeza minha, depois de horas lá, ligada ao CTG, e de outros exames, disseram-me que era cedo, pois tinha apenas 2 dedos de dilatação e não me admitiriam na maternidade antes de ter completado os 4 dedos de dilatação. Esses, só os consegui atingir, no dia seguinte, por volta da meia-noite. O processo foi lento, o que é normal quando se trata de um primeiro filho. Assim, na noite seguinte dei entrada nas urgências da maternidade, encaminharam-me para um duche e depois para uma sala, onde fiquei sozinha umas duas horas. Essas foram as que mais me custaram a passar, pois esperava que o meu marido viesse assistir ao parto e ele estava lá fora, esperando que o chamassem. Decidi prescindir da epidural, embora me tivessem perguntado se queria (decidi ser corajosa, à última da hora, para quem estava com tanto medo).

Em Portugal, a lei consagra que a parturiente possa ter alguém a acompanhá-la durante todo o parto, desde que este não se complique. Por fim, o meu marido entrou e a partir daí foi muito melhor para mim, chegámos a rir juntos, a adormecer, entre contracções, mas o mais importante foi que ele me deu muita força e as horas seguintes passaram muito mais depressa. Quando atingi a dilatação completa, fomos para a sala de partos, onde fui assistida por um médico e uma parteira e a Ana nasceu em menos de 10 minutos (dia 17, às 10:54H). Colocaram-na por cima de mim para eu a ver bem e só depois o feliz papá cortou o cordão umbilical da nossa bebé.

Conclusão, passei por um parto normal, sem epidural e hoje não me recordo de sentir dor, mas não me livrei da famosa episiotomia, que julgo ser prática corrente em quase todo o lado.

Hoje, o que eu sinto, é que um parto não tem que ser tramático e algumas coisas podem ser feitas para melhorar substancialmente a vivência das mulheres face ao mesmo, nomeadamente:

- as aulas de preparação para o parto, a que eu não assisti por falta de tempo e por não querer faltar ao trabalho, embora a lei preveja que a grávida possa faltar ao trabalho, por esse motivo, da mesma forma que para as consultas e exames médicos; hoje concluo que essas aulas são fundamentais e deviam ser obrigatórias e não facultativas, fazendo parte do plano de saúde pré-natal;

- durante o parto, raramente, explicam à parturiente o que se está a passar, a menos que esta pergunte e, ás vezes, recebe ou uma resposta vaga ou nenhuma resposta e alguns monossílabos de desagrado; a compreensão do que se passa pode ajudar a tranquilizar mas claro que isto também depende da preparação da parturiente acerca do desenrolar do parto, pelo que as referidas aulas de preparação teriam em vista, também assegurar que a grávida percebe e compreende todo o processo e suas variantes, para não entrar em pânico;

- a nossa sociedade dramatiza o parto; as próprias mulheres adoram contar experiências terríveis e dolorosas de parto; especialmente, quando nos veêm grávidas, aproveitam para relembrar todos os pormenores das suas cesarianas, dos fórceps, dos cordões em volta do pescoço, das crianças que não deram a volta, sei lá... não sei o que poderia ser feito para mudar esta mentalidade, mas acho que a existência desta lista, pode ser um forte contributo para se repensar o parto, abrir o jogo, desdramatizar. Acho que as mulheres também aproveitaram para transformar o parto numa prerrogativa sua e ao dramatizá-lo tornam-se ainda mais no centro das atenções, mas pelos argumentos errados. Claro que digo isto pela minha experiência pessoal, sem qualquer base científica. Mas é o que me foi permitido pensar e sentir, durante a minha gravidez.

- o acompanhamento do parto por alguém cujo objectivo seja a preocupação com o bem estar da parturiente, capaz de lhe dar apoio moral e psicológico, de lhe explicar, em termos simples o que se passa e o que ela tem de fazer para colaborar no parto, quando as coisas parecem difíceis de suportar (julgo que esta seja uma das funções das doulas, coisa de que ainda não ouvi falar por aqui).

Lisboa, março de 2002
Elsa Gouveia (Xinha)


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