Adriana Krohling Kunsch

Ela dizia: Dói, dói muito, mas na hora que você achar que vai "morrer de dor", ela vai nascer. Esta frase foi super importante para mim.


 

Meu nome é Adriana, tenho 27 anos. Nasci e cresci em São Paulo, cercada da realidade urbana, altamente prática e rápida. Fiz faculdade de Biologia em São Carlos, interior de São Paulo, e consegui fugir da correria dos grandes centros.

Em 1996 fiz estágio no Projeto Tamar na Vila de Itaúnas, um pontinho no final do Espírito Santo, habitada por uma comunidade tradicional simples, cheia de costumes e práticas naturais.

Em 1999 mudei para Itaúnas e passei a morar com meu marido Milton. Trabalhando como Bióloga, em contato direto com a natureza e com as pessoas, fui afirmando minhas convicções em relação a uma vida natural e simples, unindo sempre o conhecimento que adquiri nas grandes cidades, com a experiência única de viver num local tão pequeno, com tão poucas "alternativas urbanas".Em julho de 2001 engravidei da minha filhinha Clara. Desde o início queria que ela nascesse de parto normal, era o meu sonho e a minha verdade. Os hospitais na região não me traziam segurança. Em Conceição da Barra faltava para mim um hospital mais equipado, em São Mateus, faltava a firmeza em acreditar na palavra do médico.

Procurando por um médico em Vitória, me indicaram um que havia convencido uma gestante que queria fazer cesárea a fazer parto normal. Fiquei super empolgada, peguei o telefone e marquei uma consulta. Três dias depois conversei com outra pessoa, que me disse que para fazer parto normal, teria que procurar o Dr. Paulo Batistuta. Para minha alegria, era com ele que a consulta estava marcada.

Passaram-se as semanas da gravidez e a cada consulta voltava mais feliz para minha Vila de Itaúnas, satisfeita com a transparência do Dr. Paulo, e com a amizade que era estabelecida.




Li diversos livros sobre gestação, e me mantive informada, sempre discutindo com as pessoas interessadas e com meu médico. Considero isto um dos pontos principais para a efetivação de um parto natural. Você se torna forte para não ouvir os conselhos de outros que não concordam com sua opinião, ou que não conhecem de fato sua realidade.

Com 37 semanas entrei de licença e fui para Vitória. Semanalmente encontrava com o Dr. Paulo e combinamos como seria o parto. Minha vontade era de cócoras. E ficou combinado que assim seria.

Em Vitória tive o tempo todo a companhia de minha Tia Ester: uma super mãe de quatro filhos, dois partos normais e duas cesarianas. Conversávamos muito e seu incentivo foi fundamental. Em nenhum momento ela me iludiu, dizendo que seria fácil. Ela dizia: Dói, dói muito, mas na hora que você achar que vai "morrer de dor", ela vai nascer. Esta frase foi super importante para mim.

Já com 40 semanas, muito ansiosa, comecei a sentir dores diferentes. Percebi que eram as contrações quando reparei na freqüência das mesmas. Começou às onze da noite de um sábado e às 8 horas da manhã do domingo me encontrei com o Dr. Paulo no Hospital Santa Rita. Ele fez o toque e conversando, decidimos que seria melhor eu passar o domingo em casa e ir para o hospital quando as contrações ficassem mais frequentes. Passei um dia divertido, me alimentando de forma leve e saudável e curtindo as contrações. Eu digo curtindo porque realmente me senti uma fêmea, me preparando para dar a luz a um filhotinho que passou nove meses se desenvolvendo dentro de mim. Esta sensação me completava, me tornava mulher como jamais havia sido.

Às dez da noite estava na maternidade, com dores bastante intensas, ainda suportáveis. Chegando lá Dr. Paulo fez o toque e me disse que eu estava em franco trabalho de parto, contrações bem regulares e frequentes, contudo não tinha dilatação; meu colo do útero já estava completamente apagado (característica que lhe indicava o parto iminente). A não dilatação era um problema mecânico, causado por uma cauterização feita em 1997, em São Carlos. Comecei a conversar comigo mesma, me preparando para uma eventual cesariana. Nesta hora, qualquer médico "prático" diria: pois é Adriana, você vai ter que fazer uma cesárea. O argumento era fortíssimo, eu não duvidaria de forma nenhuma. Dr. Paulo me colocou na posição de exame ginecológico, visualizou o colo do útero e desfez a fibrose cicatricial com uma manobra simples e indolor; e assim a dilatação aconteceu. Em poucos minutos estava lá eu com 8 cm de dilatação, e feliz da vida com o andamento do trabalho de parto.

Em seguida fomos para o meu quarto, onde estava minha Tia Ester e meu marido Milton. Dr. Paulo havia me pedido, ainda no pré-natal, autorização para filmar o meu parto, mostrando os exercícios para alívio da dor e do parto em si. Eu disse que teria todo prazer em ajudar a divulgar o parto humanizado e que cederia as imagens com muito prazer. O cinegrafista foi muito simpático e em nenhum momento me senti inibida em estar sendo filmada. A filmagem dos exercícios para alívio da dor foi muito descontraída e me ajudou muito, pois estava em trabalho de parto e realmente buscava alternativas para aliviar a dor das contrações; contei com sempre com o apoio do médico, do Milton e da Tia Ester.

Passada a filmagem, a bolsa foi estourada para auxiliar a descida da Clara para terminar a dilatação. Daí em diante perdi a noção temporal e as contrações foram se tornando mais intensas. Continuei buscando formas para amenizar a dor. Em certo momento perguntei ao Dr. Paulo quanto tempo demoraria ainda. Ele não falou exatamente e perguntei se demoraria ainda uma hora. Ele disse que poderia ser. Meu corpo já não encontrava mais posição, o cansaço era grande. Pensei, pensei e pedi analgesia. Ele disse que não seria bom para mim, que eu poderiaria apagar, pois estava muito cansada. Meu cansaço era tão grande que a idéia de apagar me confortava. Não queria a analgesia de forma nenhuma, mas precisava acreditar que aquela dor não demoraria muito mais, que havia uma forma de acabar com ela logo.

Fomos então para a sala de parto, na minha cabeça só vinha uma frase, por favor, meu Deus, me dê forças para não precisar de anestesia. Eu não quero. Chegando na sala de parto, Dr. Paulo fez o toque e me disse: Dilatação total Adriana. Perguntei se ela nasceria se eu fizesse força a partir dali. Ele disse que sim, e me lembro de ter ido direto para o local onde ficaria de cócoras. Daí em diante tudo foi rápido. Parece que não durou nem cinco minutos, mas deve ter sido mais de meia hora... lembro de ter olhado para um homem diferente, provavelmente o anestesista atendendo ao meu pedido reiterado, que sorria para o momento. Senti mais firmeza ainda. Eu estava lá, parindo, de cócoras, sem anestesia, com minha tia me sustentando, o Milton me dando a mão e ajudando em tudo que solicitado e o querido Dr. Paulo me orientando, me dando toda a segurança que precisava.

Lembrei da frase da minha Tia e quando achei que ia "morrer de dor" morri de alegria. Chegava ao mundo Clara, e com ela acabavam todas as dores, que não me assustam hoje. Ao ouvir seu chorinho no meu colo, e sentir a energia de todo aquele momento, tive a certeza de que ali nascia não só ela, mas uma nova Adriana. Tudo foi muito especial. O Milton cortou o cordão umbilical, após ele ter parado de pulsar; ela ficou comigo muitos minutos antes de ir para as mãos da pediatra e muitos minutos antes de ir para a sala de exames do bebê, no berçário. O vínculo já estava formado. Assim que chegou de lá, meu leite saciou a primeira fome da minha filha e a alegria estava completa. Liguei imediatamente para meus pais e irmãs que estavam em São Paulo, ansiosos e felizes com a chegada de mais um membro na família. Mesmo longe, tive o apoio deles, o que me confortou e me completou.

Me considero uma mulher privilegiada em ter vivido este momento assim. Fico triste em ver como a cesariana é utilizada no Brasil, e como as mulheres temem o parto normal.

Assisti ao vídeo do meu parto, sem edição e tenho muito orgulho em fornecer as imagens para todos aqueles que pretendem ter um parto natural, e principalmente para aqueles que não sabem que o parto humanizado existe e é a melhor alternativa.

Aprendi que para se ter um parto normal, é preciso ter informação, ter um médico que realmente esteja envolvido com a humanização do nascimento, ter liberdade de movimentos, tomar várias duchas quentinhas, beber líquidos, ter pessoas queridas próximas durante todo o processo e principalmente: acreditar na capacidade natural de dar a luz, assimilando esta idéia durante toda a gestação.

Fiz meu plano de parto, simples mas com meus desejos básicos, sempre baseado naquilo que aprendi durante minha gravidez, e com as indicações da Organização Mundial de Saúde.

Eu sou hoje uma mulher muito completa, e tenho que agradecer de todo meu coração à pessoa do Dr. Paulo Batistuta, que foi realmente um anjo que caiu do céu, e me ajudou a trazer um anjinho para formar minha família.

Eu e o Milton estamos hoje muito realizados com a chegada da Clara. Ela trouxe outro sentido para nossas vidas. Ver sua saúde, sua vitalidade desde o princípio, me traz a certeza que para ela o parto normal também foi fundamental, pois nasceu na hora certa, participou ativamente de todo o processo e sua chegada ao mundo foi calma, suave, sem violência. Ela realmente nasceu sorrindo... e nos deixou sorrindo até agora...

Vila de Itaúnas, 30/04/2002
Adriana Krohling Kunsch


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