Natureza e Octávio

Nascimento de Maria, parto em casa com parteira


 

O PARTO DE MARIA (08.03.00)

Foi lá pelo sexto mês da gravidez de Maria que Natureza e eu ouvimos mencionar, pela primeira vez, o nome de Leboyer. Sonia (Padovan Catenne) amiga nossa de São Paulo e reputada neuro-pediatra, mãe de duas filhas extraordinárias, ambas nascidas de partos domiciliares, fez a gentileza de nos enviar pelo correio o "nascer sorrindo X nascer sofrendo", cuja leitura, breve e deliciosa, funcionou para nós como um verdadeiro tapa na cara.

Nos demos conta, então, de quantas desvantagens, para a mãe e para o bebê, representava o parto hospitalar e, ao contrário, do quanto seria saudável para ambas se Maria pudesse nascer dentro das condições propostas por Leboyer, em nossa própria casa, na pequena aldeia de Caraíva (Ba), distante quase cem quilômetros do hospital mais próximo.

Firmemente decididos, partimos para lá no início de Dezembro, a fim de podermos contar com todo o tempo possível para a preparação do parto.

As condições de Caraíva para esse propósito são perfeitas: a vila, com pouco mais de quinhentos habitantes, tem situação geográfica semelhante à de uma ilha, sem eletricidade e sem automóveis, absolutamente rústica. Suas ruas são todas de areia, o que a torna propícia para o fortalecimento da musculatura das pernas, e o enrijecimento do corpo é conseqüência natural da sua própria rusticidade. A temperatura é amena durante o verão, pois o vento marítimo naquele trecho da Bahia é constante. Conta, por sua vez, com uma beleza natural totalmente absorvente e cativante, já que a vila é cercada pelo Rio Caraíva e pelo mar. As noites enluaradas transformam-na em um jardim de coqueiros prateados e os olhos de seus moradores, e dos veranistas, podem desfrutar de um céu repleto de estrelas, onde a via Láctea é uma estrada cintilante, completamente nítida.

Natureza esforçou-se para se preparar adequadamente e seguindo a orientação de Sônia, dedicou grande parte de seu tempo a atividades indicadas ao fortalecimento de seu corpo, nadando, dançando forró quando dava vontade, fazendo canteiros e lavando roupas, sempre de cócoras, e andando muito no areião de Caraíva.

Passamos um verão feliz, em comunhão de espíritos, aprontando-nos emocionalmente para a grande ocasião, que já se avizinhava.

Perto de duas a tres semanas da data provável do parto, embora já tivéssemos combinado com Dna. Maria (Parteira De Caraíva), figura honorável da aldeia, que a mesma ajudaria Natureza no momento do parto, acabamos por ter confirmada a participação de Stella (Wurtz), nossa amiga antiga e também vizinha, com a sua experiência de vinte e tantos anos como enfermeira da Funai no Xingu, e dezenas de partos bem sucedidos, inclusive os de seus próprios filhos.

Nesse ritmo assistimos a passagem do Carnaval, torcendo intimamente para que Maria aguardasse o seu final, para que tivessemos uma recepção menos ruidosa, ainda que o carnaval de lá não passasse de uma meia dúzia de rojões.






Na quarta-feira de cinzas, oito de março, acordei com Natureza sentada no peitoral da janela, assistindo o sol nascer sobre o horizonte, colorindo com tons maravilhosos as águas do Atlântico. Ela olhou para mim e disse: "será hoje, tenho certeza, eu já estou sentindo algumas sensações diferentes...". Não duvidei nem por um segundo. Fiz avisar Dna. Maria e Stella a respeito do acontecido, pedindo que viessem em casa para examina-la.
Havendo ambas confirmado a previsão observaram, entretanto, que ainda estava muito cedo para o início do trabalho de parto propriamente dito e pediram-me que mandasse novo recado quando as contrações encurtassem de intervalo.

Natureza ainda encontrou tempo para lavar as ultimas roupinhas de Maria e passamos o resto do tempo daquela manhã deitados na grama do jardim, debaixo das sombras dos coqueiros, tentando imaginar como seria o rostinho de Maria. Durante todo esse tempo Natureza esteve tranqüila e confiante e eu absorvia essa tranqüilidade. Apesar disso, e conforme havíamos combinado, fizemos nossas próprias orações, o que era parte de nossa preparação espiritual, já que sob o aspecto físico e emocional sentíamo-nos inteiramente prontos.

No correr da tarde as contrações aumentaram de intensidade e os intervalos começaram a ser mais curtos. Mandei chamar Dna. Maria lá pelas tres da tarde e mais uma vez ela veio, observou Natureza e avisou que voltaria por volta das seis, porque até essa hora ela não teria muito o que fazer.

As contrações aumentavam de ritmo e de intensidade e Natureza até então não se queixara de qualquer dor. Os movimentos que Sônia havia ensinado, a respiração adequada e um pouco de dança ao estilo "kundalini" pareciam estar dando ótimo resultado.
Com o cair da noite chegaram Stella e Dna Maria, mostrando satisfação com o estado de Natureza, que já apresentava uma boa dilatação. A partir daí a cena transportou-se para o quarto que viria a ser de Maria, já devidamente preparado. As contrações passaram a ocorrer com muita intensidade a partir das oito da noite, com sensações perfeitamente suportáveis, que Natureza não acusava como dor. Ela já havia percebido que andando nos intervalos das contrações o incômodo diminuía, e quando elas vinham, eu, de pé a amparava ao mesmo tempo em que ela me segurava pelo pescoço, com os braços estendidos para trás.
Enquanto isso, do lado de fora, brilhava uma lua intensa e o arder de uma enorme fogueira no gramado do jardim projetava para dentro do quarto de Maria uma luz fantástica, que somada às velas, acabava por proporcionar um ambiente mágico, totalmente propício ao acontecimento.

Mais ou menos às oito e meia Stella pediu que eu me agachasse para ver a cabecinha de Maria, ainda envolta pela bolsa d'água, mas perfeitamente visível. Os olhos encheram de lágrimas quando vi, pela primeiríssima vez, os fartos cabelinhos de Maria, bem escuros.
Mais uma ou duas contrações e Stella segredou-me: "se a bolsa não romper na próxima, eu acho que vou dar um "clik" nela..., fazendo o gesto de quem usa um alfinete. Foi ela dizer isso e a bolsa se rompeu. Incentivamos Natureza a fazer força, ao mesmo tempo em que eu chamava Maria, docemente, dizendo a ela que nós a estávamos esperando, que ela podia vir tranqüila...

A contração seguinte foi a da expulsão da cabeça, um momento de intensa e inesquecível emoção, já que Maria veio com os olhinhos já abertos. Mais uma contração e os ombrinhos passaram, e alguns segundos depois ela já tinha nascido. Recordamos perfeitamente e iremos recordar para sempre esse que foi o momento mais bonito e mais importante de nossas vidas. Completamente emocionado, a única coisa que eu conseguia dizer era: "Como ela é linda, como ela é linda...".

De fato, Maria nasceu muito bonita, sem qualquer inchaço ou deformação causada pela passagem. Seus olhinhos fitavam ao redor, sem qualquer sinal de medo ou de dor. Os bracinhos mexiam de um lado para o outro enquanto ela nos observava sem fazer qualquer ruído. A primeira impressão que eu tive, fundada na nossa crença espiritualista, foi a de que Maria já tinha estado aqui e que essa, com certeza, não era a sua primeira encarnação. A tranqüilidade que ela aparentava, somada à falta de surpresa com o ambiente que lhe rodeava, nos indicava que essa sua nova chegada já estava sendo preparada, por ela mesma, há muito tempo.

Esperamos algum tempo para cortar o cordão, a fim de possibilitar que ela respirasse pelas duas vias, reduzindo o incômodo da sua primeira expansão pulmonar. Feito isso, Natureza levantou-se e foi sozinha lavar-se no banheiro, enquanto Dna. Maria e Stella cuidavam do primeiro banho da nossa neném.

Maria nasceu exatamente às 21.10 hs e mais ou menos uma hora após, terminada a primeira mamada, ela nos presenteou com seu primeiro sorriso. Nasceu, como havíamos pedido, sob o signo de Peixes. O seu ascendente: Escorpião.

Abrimos duas garrafas de vinho branco italiano e brindamos todos à sua feliz chegada ao planeta Terra.


NOTA DOS AUTORES:

1) O RESULTADO: Como já esperávamos, o tranqüilo parto de Maria proporcionou resultados que só hoje podemos constatar: a sua relação com o mundo e com as pessoas é marcada por uma postura positiva e feliz. Ela encanta e surpreende quem a conhece, por sua doçura, por sua esperteza e precocidade, e por sua beleza.

2) A CHEGADA DE SERENA: é óbvio que não poderia ser de outra forma. Estamos esperando Serena para a próxima semana e ela vai nascer aqui no Rio, em casa, só que dessa vez tentaremos o parto na água, tendo o pai por parteiro.

3) OS CUIDADOS: Ainda que estivéssemos plenamente confiantes do êxito do parto que realizamos, tomamos medidas de segurança: uma lancha veloz, abastecida e pronta, aguardava no Rio Caraíva para remoção em caso de necessidade. Para o parto de Serena, como dispomos de plano de saúde de primeira linha, iremos exigir a presença de uma UTI móvel do lado de fora de casa.

4) PARA AS FUTURAS MAMÃES E PAPAIS: sem querer menosprezar a classe médica, mas o fato é que os que eles chamam de base científica para aconselhar, quando não para impor, o parto hospitalar, não tem absolutamente nada de científico. A começar pela tradicional posição de decúbito dorsal, que rigorosamente impede a passagem normal do feto pelos ossos da bacia da mãe, causando as horrorosas dores, que não são do parto, mas do parto erradamente conduzido. Isso sem mencionar o fato de que a científica lei da gravidade é desconsiderada no parto hospitalar, daí resultando a necessidade da abominável prensa ativa abdominal, que nada mais é do que forçar estupidamente o ventre da mãe para baixo, como se espremesse um tubo de pasta de dente, enquanto os ossos da bacia dificultam, pela posição de decúbito, a passagem do feto. Sem mencionar, também, a questão da luz forte dos hospitais, o corte precoce do cordão umbilical, a prática extremamente invasiva, e quase sempre desnecessária, da desobstrução das narinas do neném, etc etc...

NASCER SORRINDO OU NASCER SOFRENDO, ESSA É UMA OPÇÃO QUE PODEMOS OFERECER AOS NOSSOS FILHOS. A ESCOLHA É VOSSA.

Rio de Janeiro, 20 de maio de 2002.
Natureza e Octávio

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