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ESCOLHENDO
UMA MÉDICA
Quando soubemos
que estávamos grávidos, em outubro de 1998, ficamos muito
felizes! Eu, atenta aos sinais do meu corpo, já suspeitava....
Logo comecei a pensar no parto: queria muito que fosse normal
e sabia que aqui no Brasil isso exigia um planejamento especial,
dada as altas taxas de cesárea nos hospitais...
Comecei a fazer certas perguntas à minha médica, que já era
minha ginecologista há alguns anos: "O que você acha da cesárea?",
"Costuma esperar quanto tempo depois das 40 semanas para o
bebê nascer?", "O que acha das técnicas do Leboyer?". Suas
respostas eram evasivas e também senti que tinha ficado impaciente
com minhas perguntas. Apesar de gostar e confiar nela, fiquei
insegura. Pensei em conhecer alguns outros médicos.
Uma amiga, também grávida, me indicou sua obstetra e me disse
que sabia que ela era "a favor" de parto normal... Fui conhecê-la.
Ela me deu todas as respostas que eu queria ouvir: me disse
que não fazia lavagem intestinal e tricotomia rotineiramente,
que episiotomia só fazia quando realmente necessária, que
assim que minha filha nascesse ela iria para meu colo e ficaria
lá o tempo que eu quisesse, que meu marido poderia dar o primeiro
banho nela, dentro da sala de parto, que ela achava o alojamento
conjunto super importante etc. Decidi, então, trocar de médica,
sonhando com um parto lindo, emocionante, num ambiente acolhedor..
Não foi fácil tomar esta decisão de trocar de médico; já conhecia
a minha ginecologista há alguns anos e gostava dela. Apesar
desta outra, que me haviam indicada, ter, aparentemente uma
postura legal em relação ao parto, eu não tinha tido tempo
de descobrir se ela era uma pessoa legal, se me sentiria bem
com ela, se havia uma empatia entre nós. Por outro lado, achava
normal a relação com um médico ser meio distante e acabei
dando mais importância ao fato de que ela faria um parto mais
próximo daquilo que eu queria. Também tinha medo de ficar
muito tempo procurando o médico "ideal" porque, afinal, a
gravidez tinha um prazo para acabar!
GRAVIDEZ
Minha gravidez
foi super tranqüila, me sentia muito bem. Decidi fazer yoga
e também fiz o curso de preparação para o parto oferecido
pela maternidade (indicação da minha médica). Éramos 60 casais
num auditório...não preciso nem dizer que foi tudo muito superficial.
Só valeu a pena para conhecer mais de perto o hospital (considerado
um dos melhores de São Paulo), as salas de parto etc. e ir
me familiarizando com o ambiente (na medida do possível, claro!).
Como eu também lia bastante, me senti razoalvelmente bem preparada.
Conforme a data esperada para o parto foi chegando, a ansiedade
aumentava: como iria começar o trabalho de parto? Será que
eu iria reconhecer os sinais? Como seria o trabalho de parto?
E o parto? Será que iria sentir muita dor? (Quanto a isso
tinha mais curiosidade do que medo)...
ENTRANDO
EM TRABALHO DE PARTO
Na madrugada do dia 23 de junho, um dia antes da tal data
prevista para o parto, eu estava dormindo, sonhando, quando
acordei, gelada e percebi que minha bolsa tinha rompido. Nem
sei o que senti quando me dei conta de que agora não tinha
como voltar atrás: minha filha iria nascer logo, logo....(um
certo pânico não estaria muito longe da verdade !!). Liguei
para minha médica que me perguntou se estava tendo contrações
fortes (não, não estava) e que então me disse que eu podia
ir direto para o hospital ou então esperar até umas 9 da manhã,
se até lá não tivesse contrações.
Decidi esperar. E agora, o que fazer? Tentei dormir mais um
pouco...(meu marido até que conseguiu). As contrações eram
como cólicas bem fraquinhas...não sabia se relaxava e ficava
deitada ou se caminhava para estimular as contrações. Se bem
que, com a bolsa rota, ficava difícil fazer isto sem molhar
a casa toda! Nunca tinha parado para pensar nestes aspectos
mais práticos! Precisava de alguém para me orientar!
A
CHEGADA NO HOSPITAL
Por volta das
nove chegamos ao hospital. Chegando lá percebi que não sentia
mais as contrações... Era tudo muito diferente daquilo que
eu tinha imaginado, que vemos nos filmes. Cadê a correria,
a gritaria e a comoção? Aqui estávamos nós, calmamente estacionando
o carro e subindo até o centro obstétrico... Nos fizeram esperar
uma hora sentados num banquinho para entrar na sala de triagem.
Uma grávida com cesárea marcada passou na minha frente e foi
logo internada. Eu podia não estar com contrações mas minha
bolsa já tinha rompido há algum tempo... mesmo assim estavam
nos fazendo esperar para sermos atendidos como se estivéssemos
lá para fazer um simples exame de sangue....
Quando finalmente entramos na sala de triagem, falei meu nome
e expliquei porque estava lá(!!!). Uma enfermeira virou para
a outra e disse "essa aqui tem que admitir, é bolsa rota".
Levaram-me para a sala de pré-parto (pequena e abafada), me
deram um avental e pediram que eu me trocasse e tirasse relógio,
brinco etc. Me tranquei num banheiro minúsculo e fiz o que
disseram. Mandaram meu marido descer para fazer minha internação
e foram ligar para minha médica para avisar que eu estava
lá. Antes disso uma delas me examinou e deu seu veredicto:
"humm, só 2 de dilatação". Comecei a ter a sensação de que
as coisas não andavam tão bem, de que meu corpo não estava
funcionando como deveria.
Fiquei uns 20 minutos sozinha, deitada na cama, me sentindo
meio inadequada, até que a enfermeira aparecesse para avisar
que a obstetriz (da equipe da minha médica) iria chegar logo
para me acompanhar ao longo do trabalho de parto. Enquanto
isso me avisou que minha médica tinha pedido para induzirem
meu parto. Fiquei apreensiva, queria falar pessoalmente com
minha médica, para saber como seria e porque ela estava tomando
aquela decisão. Meu marido também tinha desaparecido...
Depois de mais uns 20 minutos em que fiquei novamente sozinha
(tinham ligado a televisão que eu imediatamente desliguei!
Até parece que isso era hora de me distrair com algum programa...),
duas enfermeiras reaparecem para instalar o soro. Meu marido
não tinha voltado e eu estava um pouco assustada. Avisei que
detestava ser espetada com agulha... a primeira tentativa
deu errado e tentaram na outra mão. Posso dizer que foi uma
das partes mais doloridas do parto!!! Minhas mãos levaram
mais de um mês para voltarem à sua cor normal!!! Meu marido
finalmente reapareceu e me foi dada a opção de subir para
o quarto. Aceitei na hora. Esperamos mais meia hora até que
uma senhora muito simpática chegou para me levar de cadeira
de rodas até lá em cima.
CONHECENDO
A OBSTETRIZ
A obstetriz
finalmente chegou e nos encontrou no quarto; parecia ser uma
pessoa bem legal... pena que não nos conhecemos antes, durante
a gravidez. Já era meio-dia. Só de chegar no quarto me senti
bem melhor. Era agradável, com janelas grandes e uma vista
bonita. Ia poder ficar lá até "precisar" tomar anestesia.
Ligamos o som para ouvir os CDs que trouxemos... Nos sentimos
mais "em casa".... Até então estava me sentindo cada vez mais
desamparada no meio de toda a burocracia e rotinas do hospital,
minha médica acompanhando de longe pelo telefone, eu sem poder
questioná-la sobre o que estavam fazendo comigo, sendo atendida
por pessoas desconhecidas. Meu marido estava tão perdido quanto
eu.
A obstetriz trouxe o monitor fetal para analisar os batimentos
cardíacos do bebê durante uns 20 minutos... estava tudo bem.
Diminuiu o soro para que eu pudesse almoçar, comer alguma
coisa leve e aí também saiu para almoçar. Quando voltou, ela
me "conectou" de novo ao monitor fetal. Dessa vez ela pareceu
um pouco preocupada e disse que os batimentos cardíacos, embora
dentro dos parâmetros normais, estavam oscilando durante as
contrações e que se continuassem assim talvez eu teria que
ser submetida a uma cesariana. Ficamos muito preocupados...
ouvir isso não contribuiu em nada para que ficássemos tranqüilos.
Tentei me movimentar um pouco para ir aliviando o desconforto
que começava a sentir... a obstetriz deu uma outra saida e
avisou que já voltava. Na verdade demorou um bom tempo…
CONTRAÇÕES
INDUZIDAS
As contrações começaram a ficar doloridas de uma hora para
a outra. Era engraçado porque eu sentia que eram contrações
que vinham de fora (induzidas)... eram fortes e demoradas
e vinham num ritmo que eu sabia que não era natural, não era
do meu corpo. Ficou difícil lidar com elas, até porque o monitor
fetal impedia que eu me movimentasse. Pedi para o Marcos tentar
achar a obstetriz... tudo isso demorou. Quando ela voltou
eu já estava querendo tomar anestesia.
Descemos de novo até a sala abafada do pré-parto. Dessa vez
fui deitada numa maca. Eram umas 3 da tarde e eu estava com
uns 4 ou 5 de dilatação. Ela voltou a colocar o monitor fetal
e me avisou que o anestesista já estava chegando. Fui obrigada
a ficar deitada, imóvel, por causa do monitor fetal que agora
ficou ligado direto. O monitor me dava a impressão que a situação
era meio arriscada, que alguma coisa podia dar errada a qualquer
momento! E também apertava ainda mais minha barriga (como
se eu precisasse de mais alguma coisa me apertando, fora as
contrações!). As contrações eram cada vez mais fortes, às
vezes sem intervalo entre uma e outra. Uma outra enfermeira
entrou e ficou batendo papo com a obstetriz, falando sobre
seus filhos... aquilo me irritou profundamente... já estava
com muita dor. Será que não percebiam?!! Cadê o anestesista
que não chegava? Quando perguntava, sentia que estavam me
enrolando.... descobri depois que ele nem estava no hospital
e teve que vir de outro lugar correndo!
Quando ele chegou, já estava com quase nove de dilatação.
O alívio de tomar a anestesia foi tão grande, que o procedimento
não me incomodou nada (só meu marido que não aguentou e saiu
da sala!). A obstetriz correu para chamar minha médica, que
estava no consultório, atendendo, acompanhando tudo pelo telefone.
Ela não pensava que seria tão rápido... estava prevendo o
parto para as 8 da noite, mas já eram 5 da tarde e minha filha
estava quase nascendo! Para não atrapalhar o andamento do
trabalho de parto, me deram uma dose mínima de anestesia.
O suficiente para aliviar bastante a dor das contrações mas
continuar sentindo toda a pressão no períneo. Achei bom...
pelo menos dava para ter alguma noção do que estava acontecendo.
O
PARTO
Minha médica
chegou, esbaforida, me examinou, confirmou que eu estava com
10 de dilatação e que então podíamos ir para a sala de parto.
Eu não entendi direito... cadê aquela tal vontade de fazer
força? Queria que alguém me explicasse direito o que estava
acontecendo... Parecia ser meio aleatório, que estava na hora
da minha filha nascer só porque minha médica tinha chegado.
Fazia tempo que a obstetriz tinha me examinado e constatado
que eu estava com dilatação total. Não era assim que eu tinha
imaginado meu parto...com as contrações induzidas e a anestesia,
fazia tempo que eu não estava em sintonia com meu corpo. Estranhei
muito essa sensação de desconexão...tanto que depois que minha
filha nasceu, eu tinha, às vezes, a sensação de não saber
"de onde" ela tinha vindo...
A sala de parto era, na verdade, uma sala de cirurgia. Transferiram-me
para a "mesa", colocaram minhas pernas nos suportes, absurdamente
altos... reclamei e deram uma ajustada. Enquanto isso foi
entrando mais gente na sala: tinha minha médica, o anestesista
(os dois ficaram trocando figurinhas sobre a política administrativa
do hospital), a obstetriz, uma outra enfermeira, um pediatra
e seu assistente.... ah, e meu marido também!
O parto foi rápido... fiz força algumas vezes (sob orientação
do anestesista, que também me dava uma "ajuda" empurrando
o alto da minha barriga), ouvia alguns comentários (nenhum
deles dirigidos a mim) como "olha, duas circulares de cordão",
senti um ardor quando foi feita a episiotomia, e, finalmente
nasceu minha filhinha, toda pequenininha. Eram 6 e meia da
tarde! Quando me dei conta, lá estava ela, em cima da minha
barriga, olhando em volta, com os olhos abertos, bem tranquila.
"Não parece muito com vocês", foi o comentário da médica.
Continuaram falando de mim e do parto como se eu não estivesse
lá... Tentei tocar minha filha mas tinha umas quatro mãos
competindo com as minhas. Levaram-na para ser examinada e
pesada pelo pediatra. Enquanto eu assistia, o Marcos deu o
primeiro banho.
DEPOIS
DO PARTO
Depois fui levada
de volta para a sala de pré-parto. Como estavam todas ocupadas,
tive que "esperar", deitada na maca, no corredor. Uma outra
maca, onde estava outra mulher indo ter seu bebê, não conseguiu
passar e o médico foi obrigado a empurrar a minha mais para
frente! Que congestionamento! Dava para ouvir o choro de outros
bebês nascendo nas salas ao lado. Era uma grande linha de
produção! Finalmente, trouxeram minha filha para ser amamentada.
Não nos deixaram sozinha com ela. A obstetriz, com a maior
das boas intenções, "colocou-a" para mamar, mas minha vontade
era que nos deixassem em paz! Depois de uns 20 minutos, uma
enfermeira veio buscá-la para levar até o berçario onde teria
que ficar 4 horas em observação (era a norma do hospital).
O Marcos foi, então, se trocar (ele teve que colocar uniforme
de médico para assistir ao parto), enquanto eu fiquei esperando,
para variar, mais uns 20 minutos, sozinha, deitada na maca,
até aparecer alguém que me levasse de volta para o quarto.
Mais tarde, no quarto, quando eu avisei à enfermeira que queria
que minha filha dormisse comigo naquela noite, ela respondeu
que era uma loucura, que eu tinha que descansar e que deveria
deixar para fazer alojamento conjunto só a partir do dia seguinte.
Ainda virou para uma outra enfermeira e disse "Viu só? Ela
está querendo dormir com o bebê hoje à noite!". A outra olhou
para mim com olhar de desaprovação e disse "Que besteira!
Espere até amanhã". Confusa e cansada, me dei por vencida....
REFLEXÕES...
Como que um
momento tão sagrado, o momento do nascimento de uma nova vida,
fica tão banalizado? Não era assim que eu imaginava o nascimento
da minha filha, um dos momentos mais importantes e especiais
da minha vida! Dei-me conta de que o ambiente impessoal e
as rotinas do hospital junto com a falta de um bom vínculo
com minha médica resultaram numa experiência de parto que
não foi boa. Percebi também que, apesar dos cursos de preparação
que eu tinha feito, eu estava despreparada. Ser respeitada
e ouvida neste momento é fundamental. Tive a impressão durante
meu parto, de que os médicos se esqueciam de que eu estava
lá, acordada, consciente. Faziam comentários sobre o andamento
do parto etc. como se estivessem realizando uma cirurgia numa
paciente com anestesia geral! Desde o momento em que cheguei
no hospital, pequenas coisas foram sendo ditas e feitas que,
pouco a pouco, minaram minha auto-confiança e fizeram crescer
uma sensação de total desamparo. No final parecia que tinham
passado com um rolo compressor por cima de mim...eu tinha
sido absolutamente desconsiderada como pessoa, como indivíduo.
Apesar de "normal", o parto foi muito diferente daquilo que
eu imaginava e queria. Por outro lado, ser mãe tem sido a
experiência mais rica da minha vida. O parto, sendo do jeito
que foi, desencadeou este processo de questionamento, de crescimento
e de transformação; me apaixonei pelo assunto, conheci a Ana
Cris e a Angelina, e o resultado está aqui, na criação deste
site!
LEIA
TAMBÉM O DEPOIMENTO DO MEU SEGUNDO PARTO, EM CASA!
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