Elisa no colo da Andrea

 

Andrea

Nascimento da Elisa, um parto normal hospitalar
em São Paulo.



LEIA TAMBÉM O DEPOIMENTO
DO MEU SEGUNDO PARTO, EM CASA!


 

ESCOLHENDO UMA MÉDICA
Quando soubemos que estávamos grávidos, em outubro de 1998, ficamos muito felizes! Eu, atenta aos sinais do meu corpo, já suspeitava.... Logo comecei a pensar no parto: queria muito que fosse normal e sabia que aqui no Brasil isso exigia um planejamento especial, dada as altas taxas de cesárea nos hospitais...

Comecei a fazer certas perguntas à minha médica, que já era minha ginecologista há alguns anos: "O que você acha da cesárea?", "Costuma esperar quanto tempo depois das 40 semanas para o bebê nascer?", "O que acha das técnicas do Leboyer?". Suas respostas eram evasivas e também senti que tinha ficado impaciente com minhas perguntas. Apesar de gostar e confiar nela, fiquei insegura. Pensei em conhecer alguns outros médicos.

Uma amiga, também grávida, me indicou sua obstetra e me disse que sabia que ela era "a favor" de parto normal... Fui conhecê-la. Ela me deu todas as respostas que eu queria ouvir: me disse que não fazia lavagem intestinal e tricotomia rotineiramente, que episiotomia só fazia quando realmente necessária, que assim que minha filha nascesse ela iria para meu colo e ficaria lá o tempo que eu quisesse, que meu marido poderia dar o primeiro banho nela, dentro da sala de parto, que ela achava o alojamento conjunto super importante etc. Decidi, então, trocar de médica, sonhando com um parto lindo, emocionante, num ambiente acolhedor..

Não foi fácil tomar esta decisão de trocar de médico; já conhecia a minha ginecologista há alguns anos e gostava dela. Apesar desta outra, que me haviam indicada, ter, aparentemente uma postura legal em relação ao parto, eu não tinha tido tempo de descobrir se ela era uma pessoa legal, se me sentiria bem com ela, se havia uma empatia entre nós. Por outro lado, achava normal a relação com um médico ser meio distante e acabei dando mais importância ao fato de que ela faria um parto mais próximo daquilo que eu queria. Também tinha medo de ficar muito tempo procurando o médico "ideal" porque, afinal, a gravidez tinha um prazo para acabar!

GRAVIDEZ
Minha gravidez foi super tranqüila, me sentia muito bem. Decidi fazer yoga e também fiz o curso de preparação para o parto oferecido pela maternidade (indicação da minha médica). Éramos 60 casais num auditório...não preciso nem dizer que foi tudo muito superficial. Só valeu a pena para conhecer mais de perto o hospital (considerado um dos melhores de São Paulo), as salas de parto etc. e ir me familiarizando com o ambiente (na medida do possível, claro!). Como eu também lia bastante, me senti razoalvelmente bem preparada.

Conforme a data esperada para o parto foi chegando, a ansiedade aumentava: como iria começar o trabalho de parto? Será que eu iria reconhecer os sinais? Como seria o trabalho de parto? E o parto? Será que iria sentir muita dor? (Quanto a isso tinha mais curiosidade do que medo)...

ENTRANDO EM TRABALHO DE PARTO
Na madrugada do dia 23 de junho, um dia antes da tal data prevista para o parto, eu estava dormindo, sonhando, quando acordei, gelada e percebi que minha bolsa tinha rompido. Nem sei o que senti quando me dei conta de que agora não tinha como voltar atrás: minha filha iria nascer logo, logo....(um certo pânico não estaria muito longe da verdade !!). Liguei para minha médica que me perguntou se estava tendo contrações fortes (não, não estava) e que então me disse que eu podia ir direto para o hospital ou então esperar até umas 9 da manhã, se até lá não tivesse contrações.

Decidi esperar. E agora, o que fazer? Tentei dormir mais um pouco...(meu marido até que conseguiu). As contrações eram como cólicas bem fraquinhas...não sabia se relaxava e ficava deitada ou se caminhava para estimular as contrações. Se bem que, com a bolsa rota, ficava difícil fazer isto sem molhar a casa toda! Nunca tinha parado para pensar nestes aspectos mais práticos! Precisava de alguém para me orientar!

A CHEGADA NO HOSPITAL
Por volta das nove chegamos ao hospital. Chegando lá percebi que não sentia mais as contrações... Era tudo muito diferente daquilo que eu tinha imaginado, que vemos nos filmes. Cadê a correria, a gritaria e a comoção? Aqui estávamos nós, calmamente estacionando o carro e subindo até o centro obstétrico... Nos fizeram esperar uma hora sentados num banquinho para entrar na sala de triagem. Uma grávida com cesárea marcada passou na minha frente e foi logo internada. Eu podia não estar com contrações mas minha bolsa já tinha rompido há algum tempo... mesmo assim estavam nos fazendo esperar para sermos atendidos como se estivéssemos lá para fazer um simples exame de sangue....

Quando finalmente entramos na sala de triagem, falei meu nome e expliquei porque estava lá(!!!). Uma enfermeira virou para a outra e disse "essa aqui tem que admitir, é bolsa rota". Levaram-me para a sala de pré-parto (pequena e abafada), me deram um avental e pediram que eu me trocasse e tirasse relógio, brinco etc. Me tranquei num banheiro minúsculo e fiz o que disseram. Mandaram meu marido descer para fazer minha internação e foram ligar para minha médica para avisar que eu estava lá. Antes disso uma delas me examinou e deu seu veredicto: "humm, só 2 de dilatação". Comecei a ter a sensação de que as coisas não andavam tão bem, de que meu corpo não estava funcionando como deveria.

Fiquei uns 20 minutos sozinha, deitada na cama, me sentindo meio inadequada, até que a enfermeira aparecesse para avisar que a obstetriz (da equipe da minha médica) iria chegar logo para me acompanhar ao longo do trabalho de parto. Enquanto isso me avisou que minha médica tinha pedido para induzirem meu parto. Fiquei apreensiva, queria falar pessoalmente com minha médica, para saber como seria e porque ela estava tomando aquela decisão. Meu marido também tinha desaparecido...

Depois de mais uns 20 minutos em que fiquei novamente sozinha (tinham ligado a televisão que eu imediatamente desliguei! Até parece que isso era hora de me distrair com algum programa...), duas enfermeiras reaparecem para instalar o soro. Meu marido não tinha voltado e eu estava um pouco assustada. Avisei que detestava ser espetada com agulha... a primeira tentativa deu errado e tentaram na outra mão. Posso dizer que foi uma das partes mais doloridas do parto!!! Minhas mãos levaram mais de um mês para voltarem à sua cor normal!!! Meu marido finalmente reapareceu e me foi dada a opção de subir para o quarto. Aceitei na hora. Esperamos mais meia hora até que uma senhora muito simpática chegou para me levar de cadeira de rodas até lá em cima.

CONHECENDO A OBSTETRIZ
A obstetriz finalmente chegou e nos encontrou no quarto; parecia ser uma pessoa bem legal... pena que não nos conhecemos antes, durante a gravidez. Já era meio-dia. Só de chegar no quarto me senti bem melhor. Era agradável, com janelas grandes e uma vista bonita. Ia poder ficar lá até "precisar" tomar anestesia. Ligamos o som para ouvir os CDs que trouxemos... Nos sentimos mais "em casa".... Até então estava me sentindo cada vez mais desamparada no meio de toda a burocracia e rotinas do hospital, minha médica acompanhando de longe pelo telefone, eu sem poder questioná-la sobre o que estavam fazendo comigo, sendo atendida por pessoas desconhecidas. Meu marido estava tão perdido quanto eu.

A obstetriz trouxe o monitor fetal para analisar os batimentos cardíacos do bebê durante uns 20 minutos... estava tudo bem. Diminuiu o soro para que eu pudesse almoçar, comer alguma coisa leve e aí também saiu para almoçar. Quando voltou, ela me "conectou" de novo ao monitor fetal. Dessa vez ela pareceu um pouco preocupada e disse que os batimentos cardíacos, embora dentro dos parâmetros normais, estavam oscilando durante as contrações e que se continuassem assim talvez eu teria que ser submetida a uma cesariana. Ficamos muito preocupados... ouvir isso não contribuiu em nada para que ficássemos tranqüilos. Tentei me movimentar um pouco para ir aliviando o desconforto que começava a sentir... a obstetriz deu uma outra saida e avisou que já voltava. Na verdade demorou um bom tempo…

CONTRAÇÕES INDUZIDAS
As contrações começaram a ficar doloridas de uma hora para a outra. Era engraçado porque eu sentia que eram contrações que vinham de fora (induzidas)... eram fortes e demoradas e vinham num ritmo que eu sabia que não era natural, não era do meu corpo. Ficou difícil lidar com elas, até porque o monitor fetal impedia que eu me movimentasse. Pedi para o Marcos tentar achar a obstetriz... tudo isso demorou. Quando ela voltou eu já estava querendo tomar anestesia.

Descemos de novo até a sala abafada do pré-parto. Dessa vez fui deitada numa maca. Eram umas 3 da tarde e eu estava com uns 4 ou 5 de dilatação. Ela voltou a colocar o monitor fetal e me avisou que o anestesista já estava chegando. Fui obrigada a ficar deitada, imóvel, por causa do monitor fetal que agora ficou ligado direto. O monitor me dava a impressão que a situação era meio arriscada, que alguma coisa podia dar errada a qualquer momento! E também apertava ainda mais minha barriga (como se eu precisasse de mais alguma coisa me apertando, fora as contrações!). As contrações eram cada vez mais fortes, às vezes sem intervalo entre uma e outra. Uma outra enfermeira entrou e ficou batendo papo com a obstetriz, falando sobre seus filhos... aquilo me irritou profundamente... já estava com muita dor. Será que não percebiam?!! Cadê o anestesista que não chegava? Quando perguntava, sentia que estavam me enrolando.... descobri depois que ele nem estava no hospital e teve que vir de outro lugar correndo!

Quando ele chegou, já estava com quase nove de dilatação. O alívio de tomar a anestesia foi tão grande, que o procedimento não me incomodou nada (só meu marido que não aguentou e saiu da sala!). A obstetriz correu para chamar minha médica, que estava no consultório, atendendo, acompanhando tudo pelo telefone. Ela não pensava que seria tão rápido... estava prevendo o parto para as 8 da noite, mas já eram 5 da tarde e minha filha estava quase nascendo! Para não atrapalhar o andamento do trabalho de parto, me deram uma dose mínima de anestesia. O suficiente para aliviar bastante a dor das contrações mas continuar sentindo toda a pressão no períneo. Achei bom... pelo menos dava para ter alguma noção do que estava acontecendo.

O PARTO
Minha médica chegou, esbaforida, me examinou, confirmou que eu estava com 10 de dilatação e que então podíamos ir para a sala de parto. Eu não entendi direito... cadê aquela tal vontade de fazer força? Queria que alguém me explicasse direito o que estava acontecendo... Parecia ser meio aleatório, que estava na hora da minha filha nascer só porque minha médica tinha chegado. Fazia tempo que a obstetriz tinha me examinado e constatado que eu estava com dilatação total. Não era assim que eu tinha imaginado meu parto...com as contrações induzidas e a anestesia, fazia tempo que eu não estava em sintonia com meu corpo. Estranhei muito essa sensação de desconexão...tanto que depois que minha filha nasceu, eu tinha, às vezes, a sensação de não saber "de onde" ela tinha vindo...

A sala de parto era, na verdade, uma sala de cirurgia. Transferiram-me para a "mesa", colocaram minhas pernas nos suportes, absurdamente altos... reclamei e deram uma ajustada. Enquanto isso foi entrando mais gente na sala: tinha minha médica, o anestesista (os dois ficaram trocando figurinhas sobre a política administrativa do hospital), a obstetriz, uma outra enfermeira, um pediatra e seu assistente.... ah, e meu marido também!

O parto foi rápido... fiz força algumas vezes (sob orientação do anestesista, que também me dava uma "ajuda" empurrando o alto da minha barriga), ouvia alguns comentários (nenhum deles dirigidos a mim) como "olha, duas circulares de cordão", senti um ardor quando foi feita a episiotomia, e, finalmente nasceu minha filhinha, toda pequenininha. Eram 6 e meia da tarde! Quando me dei conta, lá estava ela, em cima da minha barriga, olhando em volta, com os olhos abertos, bem tranquila. "Não parece muito com vocês", foi o comentário da médica. Continuaram falando de mim e do parto como se eu não estivesse lá... Tentei tocar minha filha mas tinha umas quatro mãos competindo com as minhas. Levaram-na para ser examinada e pesada pelo pediatra. Enquanto eu assistia, o Marcos deu o primeiro banho.

DEPOIS DO PARTO
Depois fui levada de volta para a sala de pré-parto. Como estavam todas ocupadas, tive que "esperar", deitada na maca, no corredor. Uma outra maca, onde estava outra mulher indo ter seu bebê, não conseguiu passar e o médico foi obrigado a empurrar a minha mais para frente! Que congestionamento! Dava para ouvir o choro de outros bebês nascendo nas salas ao lado. Era uma grande linha de produção! Finalmente, trouxeram minha filha para ser amamentada. Não nos deixaram sozinha com ela. A obstetriz, com a maior das boas intenções, "colocou-a" para mamar, mas minha vontade era que nos deixassem em paz! Depois de uns 20 minutos, uma enfermeira veio buscá-la para levar até o berçario onde teria que ficar 4 horas em observação (era a norma do hospital).

O Marcos foi, então, se trocar (ele teve que colocar uniforme de médico para assistir ao parto), enquanto eu fiquei esperando, para variar, mais uns 20 minutos, sozinha, deitada na maca, até aparecer alguém que me levasse de volta para o quarto. Mais tarde, no quarto, quando eu avisei à enfermeira que queria que minha filha dormisse comigo naquela noite, ela respondeu que era uma loucura, que eu tinha que descansar e que deveria deixar para fazer alojamento conjunto só a partir do dia seguinte. Ainda virou para uma outra enfermeira e disse "Viu só? Ela está querendo dormir com o bebê hoje à noite!". A outra olhou para mim com olhar de desaprovação e disse "Que besteira! Espere até amanhã". Confusa e cansada, me dei por vencida....

REFLEXÕES...
Como que um momento tão sagrado, o momento do nascimento de uma nova vida, fica tão banalizado? Não era assim que eu imaginava o nascimento da minha filha, um dos momentos mais importantes e especiais da minha vida! Dei-me conta de que o ambiente impessoal e as rotinas do hospital junto com a falta de um bom vínculo com minha médica resultaram numa experiência de parto que não foi boa. Percebi também que, apesar dos cursos de preparação que eu tinha feito, eu estava despreparada. Ser respeitada e ouvida neste momento é fundamental. Tive a impressão durante meu parto, de que os médicos se esqueciam de que eu estava lá, acordada, consciente. Faziam comentários sobre o andamento do parto etc. como se estivessem realizando uma cirurgia numa paciente com anestesia geral! Desde o momento em que cheguei no hospital, pequenas coisas foram sendo ditas e feitas que, pouco a pouco, minaram minha auto-confiança e fizeram crescer uma sensação de total desamparo. No final parecia que tinham passado com um rolo compressor por cima de mim...eu tinha sido absolutamente desconsiderada como pessoa, como indivíduo.

Apesar de "normal", o parto foi muito diferente daquilo que eu imaginava e queria. Por outro lado, ser mãe tem sido a experiência mais rica da minha vida. O parto, sendo do jeito que foi, desencadeou este processo de questionamento, de crescimento e de transformação; me apaixonei pelo assunto, conheci a Ana Cris e a Angelina, e o resultado está aqui, na criação deste site!

LEIA TAMBÉM O DEPOIMENTO DO MEU SEGUNDO PARTO, EM CASA!
 

Andrea Amaral Almeida Prado
aa.prado@uol.com.br


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