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Dois partos domiciliares na Holanda


 

Eu moro há 14 anos na Holanda. Eu estava viajando pela Europa, conheci o meu marido em maio, a gente se apaixonou rapidamente, fomos morar juntos na Holanda em setembro e casamos em dezembro de 1985 no Brasil. Voltamos para a Holanda com um mês de casados.
Aqui eu estudei (dramatherapia) fiz amigos novos, enfim criei uma vida nova e tive meus dois filhos.

Aqui na Holanda só se faz parto com ginecologista se tiveres uma indicação médica. Tipo: bacia muito pequena, problema com o tipo sangüineo, problema com o crescimento do bebê. Eu acredito que 10% dos partos são feitos por ginecologistas, no mais é feito por parteiras em casa ou na policlínica (no hospital).

É normal ter filho em casa, o seguro de saúde paga tudo inclusive a enfermeira que cuida da mãe e do bebe por sete dias durante oito horas por dia.
Vou contar como foi o nascimento dos meus dois filhos.


Troy Luca

Depois de três meses sem tomar pílula a minha menstruação não chegou, eu comprei um teste de gravidez e deu positivo. Super feliz telefonei para o meu médico, ele me deu o telefone da parteira, eu liguei para ela e a gente marcou um dia para uma consulta. Essa consulta foi na 14ª semana de gravidez e a consulta foi feita junto com o meu marido. Tive que levar urina matinal.

Durante a consulta ela tirou sangue de mim para ver se tive rubéola, olhou se na urina tinha glucose, fez um teste para ver se eu tinha ferro suficiente no meu sangue, tirou a minha pressão arterial, perguntou a respeito das doenças de família e tipo sanguíneo. Essa primeira consulta é super especial, demora uma hora e a parteira te dá muita informação. Ela pergunta como você se sente e quais são as tuas idéias a respeito do parto. Aqui podes escolher entre um parto em casa ou um parto policlínico. No final ela pôs um aparelho na minha barriga com um pouco de gel e aí pela primeira vez ouvimos o coração do nosso filho. Foi super emocionante.

A partir daí a gente ia uma vez por mês para controle, ela sempre olhava a pressão arterial, me pesava, e com a mão sentia quanto o meu útero cresceu. Nunca tive indicação para fazer ultrassom, a minha gravidez foi normal e tranqüila.

Com vinte e oito semanas de gravidez comecei a fazer um curso para dar à luz. Nesse curso com mais 18 mulheres grávidas a gente aprendeu a respirar durante a dilatação e durante a expulsão, viu vídeo de parto, teve aula com os maridos amigos ou amigas de massagem. A professora explica como tudo vai acontecer e onde a gente tem que prestar atenção.

A partir de trinta semanas de gravidez eu ia cada duas semanas na parteira, aí ela me explicou que se a minha bolsa d'água "explodisse" que eu deveria deitar imediatamente e telefonar para ela. Isso para não pressionar o cordão umbilical. A gente só pode ter filho em casa depois da 37ª semana de gravidez. Antes disso tem que ir direto para o hospital.

Com 37 semanas eu ia todas as semanas na parteira, recebi as instruções se a contração vier a cada cinco minutos, se a bolsa d'água estourar, prestar atenção na cor da água, pois se não for transparente quer dizer que o bebe não está passando bem, aí se vai direto para o hospital. Se o primeiro bebe não estiver encaixado na bacia a gente não pode dar luz em casa. Em todos esse casos a gente tem que telefonar para ela. Recebemos também uma lista com apetrechos para o parto em casa.

O kit que agente tem que comprar tem: Fralda de algodão, um tipo de clip bem pequeno para o umbigo do bebê, álcool, termômetro, um tipo de bandagem bem fininho que se põe em volta do umbigo do bebê. Tem um plástico grande para a cama da mãe, um monte de tipo toalhas descartáveis grandes 50X50 cm que tem algodão em cima e plástico em baixo e para proteger móveis, cama durante o trabalho de parto e que o marido ou a parteira jogam fora assim que fica sujo ou com sangue ou com líquido amniótico. No mais tem absorventes bem compridosv, e tivemos que comprar fusil eléctrico e uma lanterna forte para o caso de acabar a luz.

O contato com a parteira é super legal. Ela vira amiga mesmo. Com 40 semanas eu ia um dia sim um dia não. Com 40 semanas e tres dias a minhas contrações começaram às 23hs. Eu estava vendo televisão, às 23:30h liguei para o meu marido pois ele estava numa reunião. Ele chegou em segundos em casa, a gente desligou a TV, pusemos o Tom Jobin no CD, sentei numa cadeira embaixo do chuveiro, tive muita vontade de fazer coco, vomitei, bahhhh!!!!! e as contrações eram bem fortes, às 2h da madrugada o meu marido ligou para a parteira pois eu tinha muita dor.

A parteira chegou em vinte minutos e pela terceira vez ela me examinou por dentro. Dois centímetros de dilatação. Ela me disse para eu deitar e deixar o meu corpo fazer o trabalho. Ela me acariciou no rosto e disse amanhã o teu bebe vai estar nas tuas mãos. Aí ela foi embora.

Eu deitei, andei, fiquei de quatro, deitei de novo quase esmigalhei a mão do meu marido, ele me fez massagem e me contou o quanto que ele me ama, fez piada entre as contrações, nós estávamos dando à luz.

Às 5h da manhã senti que a minha bolsa d'água furou e a água desceu entre as minha pernas. Meu marido telefonou para a parteira. Ela chegou rápido, me examinou e disse "Eu volto às 7hs pois você tem 8cm de dilatação". Às 7h da manhã eu tinha 9cm, ela fez chá para nós, perguntou se eu queria comer alguma coisa. Ligou para a enfermeira que dá assistência, me disse que agora já não iria demorar muito.

No meu corpo eu sentia um furacão, doía muito, eu disse para ela : Ah, deixa, me leva para o hospital me dá uma injeção, faz cesariana. Aí ela disse: "Quanto o teu bebe estiver nos teus braços você vai estar super orgulhosa de você mesma". Às 8:30h eu senti o meu filho descer, no meu corpo era mais que um furacão, as contracões erão diferentes, expulsão, o cabelinho já se via. Céus como trabalhei para pôr ele para fora. A tal da enfermeira já tinha chegado, mas eu nem percebi. Lá para as 9:20h o meu filho ainda não tinha nascido, logo a parteira disse que teria que cortar (episiotomia) na próxima contração.

A contração veio, ela cortou, eu senti o corte, mesmo assim expulsei o meu bebê, mas só a cabeça nasceu, aí eu senti a enfermeira levantar as minhas costas, a parteira pôs um tipo de pinico embaixo da minha nádega, e empurrou o bebê para baixo, puxou pelo ombrinho dele, empurrou a minha barriga, me disse expulsa, contrai, faz força, aí ela puxou ele pelo ombro para fora.

Meu marido me olhou e disse: É um menininho. A parteira sugou líquidos do narizinho dele e pôs ele nos meus braços, Ceús meu filho, Troy Luca. Eu recebi uma injeção na minha coxa para expulsar a placenta rapidamente.

No momento em que o cordão umbilical parou de pulsar o meu marido o cortou. Pesaram o Troy 3300, 52 cm fizeram o Apgar, 9-10-10 e ela nos felicitou pelo bebe saudável. A placenta nasceu, a parteira olhou a qualidade da placenta, da bolsa e do cordão umbilical.
Nos entremeios a enfermeira fez chá, e jogou as toalhas descartavéis num saco de lixo. O meu marido pôs roupinhas no Troy, a parteira me custurou.

Eu fui fazer xixi, mas não consegui andar direito a enfermeira me ajudou. Às 11hs estávamos no meu quarto telefonando para os meus pais no Brasil e para os pais do meu marido aqui na Holanda. O Troy estava ao meu lado dormindo.

A enfermeira ficou 7 dias na minha casa (8 horas por dia), me ajudou com o Troy, fez compras, cozinhou, todos os dias ela media o meu pulso tomava a minha temperatura e controlava o quanto o meu útero tinha encolhido. A parteira veio nos primeiros três dias todos os dias, uma vez depois de uma semana e o último controle foi quando o Troy já tinha seis semanas.

Ter filho em casa é para mim ter filho de uma maneira muito consciente, a gente o fez junto e teve ele junto, na mesma casa. Aqui na Holanda é normal que os pais mandem um cartão de nascimento e as pessoas vem te visitar na primeira semana, a gente come um biscoito com anis e recebe um monte de presentes. É a maior festa!

Pepijn

O meu segundo parto foi muito rápido, demorou quatro horas e meia.

À meia noite eu tive a minha primeira contração, à 1h da madrugada resolvi ir tomar banho de banheira, estava na banheira e as contrações iam e vinham, que nem ondas no mar, de repente tive uma contração muito forte, chamei o meu marido, ele desceu para o banheiro e me perguntou há quanto tempo eu já tinha contração, eu não tive tempo de responder a contração veio super forte.

Eu pedi para ele me ajudar a sair da banheira e tive mais uma contração, era um maremoto de contraçoes, quando saí da banheira senti vontade expulsar. Meu marido manteve a calma, me ajudou a respirar, me levou para cima na minha cama. as contraçoes não paravam e eu sentia vontade de expulsar.

Meu marido pediu para eu deixá-lo ver se ele via alguma coisa. Ele abaixou para olhar se ele via o cabelinho do bebe, quando tive uma contração forte e a minhas águas simplesmente explodiram em cima dele. Eu lembro dele olhar a camiseta branca e constatar que a água era transparente. Ele desceu para telefonar para a parteira, foi olhar se o Troy estava dormindo e em cinco minutos a parteira chegou, ela olhou para mim e disse "Contrai para expulsar".

Ela pôs a luva cirúrgica para me examinar e constatou 9 cm, sentiu a testa do bebê, e disse que tinha um restinho da borda do útero segurando ele dentro, manualmente em cada contração ela massageou o último centimetro de dilatação. Isso doeu à beça. O meu marido teve que buscar todo o material dela no carro, pois ela não teve tempo de ligar para a enfermeira que dá assistência.

Quando deu os 10 cm ela me pediu para eu sentar num tipo de caderinha onde o assento é uma meia lua, meu marido me apoiava, ela pôs um espelho no chão para eu ver o nascimento, a cada contração eu sentia ele descer mais, no espelho eu via cada vez mais cabelinhos, quando a contração passava via menos cabelinhos. De repente veio uma contração enorme e eu vi quase a cabecinha toda. Ela me disse: "assopra, assopra que na próxima ele nasce"...

E assim foi. Empurra empurra , assopra assopra, empurra empurra assopra empurra segura, eu peguei ele saindo de mim. Meu segundo filho Pepijn (se diz Pepa in). Ela pôs uma fralda em cima dele para enxugá-lo e eu e o meu marido descobrimos que é menino. A parteira e o meu marido me ajudaram a deitar na minha cama, o Pepijn não estava respirando muito bem (superficial) logo ela sugou com um canudinho bem fininho os líqüidos dele e me deu uma garrafinha mínina de oxigenio com uma máscara mínima. Ela me instruiu a pôr a mascara perto do nariz dele, para ele ter um pouco de ar fresco. O cordão umbilical parou de pulsar o meu marido cortou o cordão.

Tive de repente uma contração, duas contrações e a placenta nasceu. A parteira controlou tudo, o Pepijn pesava 3400 e 48 cm. Apgar 8-9-10. Todo mundo saudavél e feliz, ela foi fazer chá, telefonar para a enfermeira e pela manhã eu já estava andando, e fui tomar banho sozinha. O Troy se apaixonou instataneamente pelo irmão.

O segundo parto foi mais facil, pois eu sabia o que ia acontecer, tive menos medo, me entreguei ao meu corpo, a minha vagina não teve nenhum ponto, foi perfeito.

Su Rondon Guasque
verdade@worldonline.nl

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