Simone Diniz

Parto de David, sem intervenções, no chão mesmo, em um hospital com índice de 90% de cesáreas


 


Antes
Quando estava com uns 35 anos, comecei a pensar no segundo filho. Ainda estava tentando convencer o Artur quando engravidei. Depois de sangramentos, repouso, uma fase mais tranqüila incluindo viagens, perdi o bebê na 16a. semana. Foi a ocasião mais triste da minha vida, que andava com vários aspectos tumultuados. Foi também uma guinada na vida, passei a me priorizar mais, mudei minha postura frente ao trabalho e busquei mais espiritualidade no meu cotidiano.

Tinha retomado meu contato com Rogério, para o pré-natal. Ângela Gerhke seria minha parteira, e ela me ajudou a lidar com a perda. Me sugeriu que não tentasse engravidar imediatamente, desse um tempo, talvez um ano. Com seis meses da perda, tentei de novo, engravidei no ciclo seguinte (com a ajuda da temperatura basal) e perdi com dez dias do resultado positivo. Dessa vez, resolvi usar camisinha por um tempo, tomar a vacina para rubéola e esperar mais uns meses pra tentar de novo.

Concepção
Encontrei com Ângela, contei que em breve ia tentar de novo. Ela me disse: começa a tentar logo e manda suas camisinhas pra mim! Rimos muito. Engravidei alguns dias depois, e mais uma vez, convidei ela para minha parteira e fizemos planos.

Gravidez
Com oito semanas de gravidez, de férias em Natal, RN, comecei a ter sangramentos. Pânico. No ultrasson, o descolamento era quase total. Fiz repouso absoluto, e uma prima médica que faz Reike me tratou, outra amiga médica prescreveu florais. Minha obstetra prescreveu progesterona, que eu havia lido que era ineficaz, mas tomei como placebo. A área de descolamento foi se reduzindo e a gravidez progredindo, mas o sangramento, pouquinho, continuava.

Nessa ocasião, Ângela descobriu que estava com câncer, foi uma tristeza. Um dia, já com 14 semanas, acordei e tive um sangramento abundante, assustador, igual ao que tive quando perdi o bebê. Minha médica me disse pra ficar de repouso absoluto no leito, não sair para mais um ultrassom, nada. Estava discutindo com ela sobre o que eu lera de que a mim parecia que a perda anterior poderia se dever a uma infecção.

Artur e eu (ambos somos médicos) pesquisamos e meio que de nossa cabeça, diante daquele pavor, decidimos tratar como infecção, escolhemos o antibiótico que pensamos ser o mais apropriado e eu comecei a tomar diariamente, por 10 dias. No terceiro dia o sangramento parou, e no quinto não havia mais muco, que me acompanhava desde o início da gravidez. Pedi uma consulta com uma especialista em perda fetal, que confirmou a indicação dos antibióticos e pediu uma pesquisa completa de infecção, que deu positiva para um bicho sensível ao antibiótico que escolhemos e associado a abortamentos (ureaplasma). Tratei de novo, por mais 14 dias. Como tive uma perda de segundo trimestre, nossos amigos médicos perguntavam: já fez cerclagem (costura do colo, achando que era esse o problema)? Para descartar um abortamento ou um parto prematuro por causa do colo, fiz uma quantidade de ultrassom para medir o colo, todos ótimos, até que desisti daquilo. Que parto prematuro que nada!

Parto
A gravidez seguiu até o termo, completou 38, 39, 40 semanas, chegou no carnaval. Minha médica do pré-natal foi uma mulher maravilhosa e que me apoiou muito nos meus dramas. Mas eu queria um parto sem intervenções, como o da Beatriz, de preferência em casa, e ela não tinha experiência com isso. Conversamos, e eu procurei Adailton Salvatore, que faria o meu parto, em casa ou em hospital. Começamos a procurar um serviço com sala PPP, que admitisse a minha filha mais velha, Beatriz, que aceitasse meu próprio pediatra para evitar condutas desnecessárias com o bebê, mas esse serviço não existia.

O Santa Marcelina era muito longe para meus partos rápidos, e eu estava preocupada pelo Adailton morar em Campinas até ele chegar! No fim fiquei com o plano do parto em casa, mas com cartas de encaminhamento para vários hospitais, que reforçavam para que não fizessem tricotomia, enema, etc. Os dias se passavam, e já estávamos quase chegando na 42a. semana, já há um mês com contrações às vezes de 4-4, 5-5 minutos, quando acordei na madrugada do domingo de carnaval com contrações fortes, eram umas 2:30h. Acordei Artur e resolvi esperar umas cinco contrações para acordar o Adailton.

Liguei pra ele, que propôs que eu fosse pro hospital, pois caso o parto fosse muito rápido, eu não estaria desassistida. Acordamos a vizinha pra ficar com Beatriz, pegamos a sacola e saímos para a maternidade às 3:10h. A Av. Paulista, que separa Perdizes do Paraíso, onde ficava a maternidade, se abria numa onda verde, como um canal de parto, e chegamos na maternidade em 10 ou 15 minutos. Fomos conduzidos a uma sala, e todo o tempo queriam excluir o Artur, que foi firme em teimar com elas.

Cheguei na sala de exames de admissão às 3:30h, quando a obstetriz tocou e disse que eu estava com seis centímetros e foi ligar para Adailton. Pediram para eu entregar as jóias (meu colar de pérolas, herança de família, que eu uso como talismã em momentos especiais) e os óculos (sem os quais eu não enxergo direito, pois tenho 3 graus de miopia) para o meu marido, e eu nem discuti porque não ia obedecer mesmo. Me entregaram para a atendente fazer o tricotomia e o enema. Explicamos a elas que não, e tivemos que mostrar a carta do Adailton, que as deixou desconfiadas e não muito convencidas.

Aí as contrações apertaram mesmo e eu comecei a sentir aquele furacão interno que é a transição. Você sente literalmente a cabeça do bebê abrir o colo, é intensíssimo, dói mesmo, nada mais importa. Eu peguei o elevador e gritei que queria ir para a suíte de parto agora, que estava em período expulsivo. As enfermeiras diziam; "Calma, mãezinha, você está só com seis centímetros”; "Não, eu estou com o neném saindo!" eu insistia. Isso com uma atendente atrás de mim que queria fazer a tricotomia, o enema, não queriam que eu bebesse a água que o Artur me trouxe, não queriam que ele ficasse comigo.

O Artur insistia que estava lá pra ajudar a elas, eu queria um banho urgente, ir para a sala, elas me levaram para uma sala comum (felizmente eu havia visitado os hospitais antes e conhecia a área) e eu ainda tive que brigar para ir para a outra. Quando cheguei lá, fui direto para o banheiro, já em período expulsivo franco, ainda de roupa, pois o tempo era todo consumido em atravessar a barreira institucional. Tirei a roupa, toquei a cabeça do David na vulva e gritei pelo Artur, que conseguiu atravessar a barreira e chegou, teve a presença de espírito de pedir à enfermeira circulante um campo cirúrgico do armário, pôs no chão, me apoiou pelas costas e o David nasceu, ali no chão mesmo.

Nesse momento final chegou a obstetriz de plantão, bastante assustada com a situação toda, e ajudou no finalzinho. O Adailton conta que ela dizia no telefone: ela não quer subir na mesa pra eu examinar! Quando alguém se ligou de olhar no relógio, eram 3:45h. Foi tudo muito rápido. Me ajudaram a ir para a cama e eu peguei o David para mamar. Eu, meu filho, meu marido, meus óculos e minhas pérolas. Só faltou a Beatriz, que chegou depois.

Entendo que elas agiram assim porque é assim que funciona essa instituição. Depois foram todas muito agradáveis conosco, menos a pediatra que seqüestrou o David para fazer tudo aquilo que não precisava, insistindo que era rotina e nos ameaçando que se não fizessem aquilo tudo, o David poderia morrer de uma tal síndrome do pulmão molhado. Eu já havia ouvido isso e aprendido que era mais um mito sem base na evidência.

 


Beatriz chega logo após o nascimento do irmão
Ainda fizeram uma cena dizendo que ele estava contaminado porque tinha nascido no chão, tido contato com minhas fezes, e por pouco eu não tenho que ir ao berçário para falar das evidências e exigir meu filho de volta.

O Artur fez esse papel, coitado, com toda a sua diplomacia de diretor de hospital, mas teve uma hora que a pediatra falava sem olhar na cara dele, e ele disse pra ela, na maior seriedade, que ela tinha que fazer contato visual com os pais. O David nasceu ótimo, e eu não tive nada, nenhuma laceraçãozinha. Apenas o tradicional ardor vaginal, para o qual pedi gelo, mas a anestesista propôs (juro) uma periduralzinha. O Artur ficou nervoso só essa hora.

Demos banho no David ali na sala antes ainda que a placenta tivesse saído. O Adailton chegou bem depois e foi maravilhoso em acalmar as pessoas, que estavam muito nervosas. No mais, fomos para o apartamento e rimos muito, inclusive dos comentários que ouvimos: a moça teve um parto normal! Sem soro! Sem anestesia! No chão! E ainda levou a placenta! O resto do dia do nascimento do David, domingo de carnaval, cinco de marco de 2000, foi uma festa, visitas, alegria. Depois soubemos que Ângela morreu naquele mesmo dia, nos lembrando que a vida tem seus ciclos.


Leia também o depoimento sobre o nascimento da primeira filha do casal: Beatriz

 

Simone Diniz
E-mail: sidiniz@uol.com.br

 

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