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Antes
Quando estava com uns 35 anos, comecei a pensar no
segundo filho. Ainda estava tentando convencer o Artur
quando engravidei. Depois de sangramentos, repouso, uma
fase mais tranqüila incluindo viagens, perdi o bebê na
16a. semana. Foi a ocasião mais triste da minha vida,
que andava com vários aspectos tumultuados. Foi também
uma guinada na vida, passei a me priorizar mais, mudei
minha postura frente ao trabalho e busquei mais espiritualidade
no meu cotidiano.
Tinha
retomado meu contato com Rogério, para o pré-natal. Ângela
Gerhke seria minha parteira, e ela me ajudou a lidar com
a perda. Me sugeriu que não tentasse engravidar imediatamente,
desse um tempo, talvez um ano. Com seis meses da perda,
tentei de novo, engravidei no ciclo seguinte (com a ajuda
da temperatura basal) e perdi com dez dias do resultado
positivo. Dessa vez, resolvi usar camisinha por um tempo,
tomar a vacina para rubéola e esperar mais uns meses pra
tentar de novo.
Concepção
Encontrei com Ângela, contei que em breve ia tentar de
novo. Ela me disse: começa a tentar logo e manda suas
camisinhas pra mim! Rimos muito. Engravidei alguns dias
depois, e mais uma vez, convidei ela para minha parteira
e fizemos planos.
Gravidez
Com oito semanas de gravidez, de férias em Natal, RN,
comecei a ter sangramentos. Pânico. No ultrasson, o descolamento
era quase total. Fiz repouso absoluto, e uma prima médica
que faz Reike me tratou, outra amiga médica prescreveu
florais. Minha obstetra prescreveu progesterona, que eu
havia lido que era ineficaz, mas tomei como placebo. A
área de descolamento foi se reduzindo e a gravidez progredindo,
mas o sangramento, pouquinho, continuava.
Nessa
ocasião, Ângela descobriu que estava com câncer, foi uma
tristeza. Um dia, já com 14 semanas, acordei e tive um
sangramento abundante, assustador, igual ao que tive quando
perdi o bebê. Minha médica me disse pra ficar de repouso
absoluto no leito, não sair para mais um ultrassom, nada.
Estava discutindo com ela sobre o que eu lera de que a
mim parecia que a perda anterior poderia se dever a uma
infecção.
Artur
e eu (ambos somos médicos) pesquisamos e meio que
de nossa cabeça, diante daquele pavor, decidimos tratar
como infecção, escolhemos o antibiótico que pensamos
ser o mais apropriado e eu comecei a tomar diariamente,
por 10 dias. No terceiro dia o sangramento parou, e no
quinto não havia mais muco, que me acompanhava desde o
início da gravidez. Pedi uma consulta com uma especialista
em perda fetal, que confirmou a indicação dos antibióticos
e pediu uma pesquisa completa de infecção, que deu positiva
para um bicho sensível ao antibiótico que escolhemos
e associado a abortamentos (ureaplasma). Tratei de novo,
por mais 14 dias. Como tive uma perda de segundo trimestre,
nossos amigos médicos perguntavam: já fez cerclagem (costura
do colo, achando que era esse o problema)? Para descartar
um abortamento ou um parto prematuro por causa do colo,
fiz uma quantidade de ultrassom para medir o colo, todos
ótimos, até que desisti daquilo. Que parto prematuro que
nada!
Parto
A gravidez seguiu até o termo, completou 38, 39, 40 semanas,
chegou no carnaval. Minha médica do pré-natal foi uma
mulher maravilhosa e que me apoiou muito nos meus dramas.
Mas eu queria um parto sem intervenções, como o da Beatriz,
de preferência em casa, e ela não tinha experiência com
isso. Conversamos, e eu procurei Adailton Salvatore, que
faria o meu parto, em casa ou em hospital. Começamos a
procurar um serviço com sala PPP, que admitisse a minha
filha mais velha, Beatriz, que aceitasse meu próprio pediatra
para evitar condutas desnecessárias com o bebê, mas esse
serviço não existia.
O Santa Marcelina era muito longe para meus partos rápidos,
e eu estava preocupada pelo Adailton morar em Campinas
até ele chegar! No fim fiquei com o plano do parto em
casa, mas com cartas de encaminhamento para vários hospitais,
que reforçavam para que não fizessem tricotomia, enema,
etc. Os dias se passavam, e já estávamos quase chegando
na 42a. semana, já há um mês com contrações às vezes de
4-4, 5-5 minutos, quando acordei na madrugada do domingo
de carnaval com contrações fortes, eram umas 2:30h. Acordei
Artur e resolvi esperar umas cinco contrações para acordar
o Adailton.
Liguei
pra ele, que propôs que eu fosse pro hospital, pois caso
o parto fosse muito rápido, eu não estaria desassistida.
Acordamos a vizinha pra ficar com Beatriz, pegamos a sacola
e saímos para a maternidade às 3:10h. A Av. Paulista,
que separa Perdizes do Paraíso, onde ficava a maternidade,
se abria numa onda verde, como um canal de parto, e chegamos
na maternidade em 10 ou 15 minutos. Fomos conduzidos a
uma sala, e todo o tempo queriam excluir o Artur, que
foi firme em teimar com elas.
Cheguei
na sala de exames de admissão às 3:30h, quando a obstetriz
tocou e disse que eu estava com seis centímetros e foi
ligar para Adailton. Pediram para eu entregar as jóias
(meu colar de pérolas, herança de família, que eu uso
como talismã em momentos especiais) e os óculos (sem os
quais eu não enxergo direito, pois tenho 3 graus de miopia)
para o meu marido, e eu nem discuti porque não ia obedecer
mesmo. Me entregaram para a atendente fazer o tricotomia
e o enema. Explicamos a elas que não, e tivemos que mostrar
a carta do Adailton, que as deixou desconfiadas e não
muito convencidas.
Aí
as contrações apertaram mesmo e eu comecei a sentir aquele
furacão interno que é a transição. Você sente literalmente
a cabeça do bebê abrir o colo, é intensíssimo, dói mesmo,
nada mais importa. Eu peguei o elevador e gritei que queria
ir para a suíte de parto agora, que estava em período
expulsivo. As enfermeiras diziam; "Calma, mãezinha, você
está só com seis centímetros”; "Não, eu estou com o neném
saindo!" eu insistia. Isso com uma atendente atrás de
mim que queria fazer a tricotomia, o enema, não queriam
que eu bebesse a água que o Artur me trouxe, não queriam
que ele ficasse comigo.
O
Artur insistia que estava lá pra ajudar a elas, eu queria
um banho urgente, ir para a sala, elas me levaram para
uma sala comum (felizmente eu havia visitado os hospitais
antes e conhecia a área) e eu ainda tive que brigar para
ir para a outra. Quando cheguei lá, fui direto para o
banheiro, já em período expulsivo franco, ainda de roupa,
pois o tempo era todo consumido em atravessar a barreira
institucional. Tirei a roupa, toquei a cabeça do David
na vulva e gritei pelo Artur, que conseguiu atravessar
a barreira e chegou, teve a presença de espírito de pedir
à enfermeira circulante um campo cirúrgico do armário,
pôs no chão, me apoiou pelas costas e o David nasceu,
ali no chão mesmo.
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Nesse
momento final chegou a obstetriz de plantão, bastante
assustada com a situação toda, e ajudou no finalzinho.
O Adailton conta que ela dizia no telefone: ela
não quer subir na mesa pra eu examinar! Quando alguém
se ligou de olhar no relógio, eram 3:45h. Foi tudo
muito rápido. Me ajudaram a ir para a cama e eu
peguei o David para mamar. Eu, meu filho, meu marido,
meus óculos e minhas pérolas. Só faltou a Beatriz,
que chegou depois.
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Entendo
que elas agiram assim porque é assim que funciona essa
instituição. Depois foram todas muito agradáveis conosco,
menos a pediatra que seqüestrou o David para fazer tudo
aquilo que não precisava, insistindo que era rotina e
nos ameaçando que se não fizessem aquilo tudo, o David
poderia morrer de uma tal síndrome do pulmão molhado.
Eu já havia ouvido isso e aprendido que era mais um mito
sem base na evidência.

Beatriz
chega logo após o nascimento do irmão |
Ainda
fizeram uma cena dizendo que ele estava contaminado
porque tinha nascido no chão, tido contato com minhas
fezes, e por pouco eu não tenho que ir ao berçário
para falar das evidências e exigir meu filho de volta.
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O
Artur fez esse papel, coitado, com toda a sua diplomacia
de diretor de hospital, mas teve uma hora que a pediatra
falava sem olhar na cara dele, e ele disse pra ela, na
maior seriedade, que ela tinha que fazer contato visual
com os pais. O David nasceu ótimo, e eu não tive nada,
nenhuma laceraçãozinha. Apenas o tradicional ardor vaginal,
para o qual pedi gelo, mas a anestesista propôs (juro)
uma periduralzinha. O Artur ficou nervoso só essa hora.
| Demos
banho no David ali na sala antes ainda que a placenta
tivesse saído. O Adailton chegou bem depois
e foi maravilhoso em acalmar as pessoas, que estavam
muito nervosas. No mais, fomos para o apartamento
e rimos muito, inclusive dos comentários que ouvimos:
a moça teve um parto normal! Sem soro! Sem anestesia!
No chão! E ainda levou a placenta! O resto do dia
do nascimento do David, domingo de carnaval, cinco
de marco de 2000, foi uma festa, visitas, alegria.
Depois soubemos que Ângela morreu naquele mesmo dia,
nos lembrando que a vida tem seus ciclos. |
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Leia
também o depoimento sobre o nascimento da primeira
filha do casal: Beatriz
Simone
Diniz
E-mail: sidiniz@uol.com.br
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