Simone Diniz

Parto de Beatriz, domiciliar, sem intervenções, rápido, na lua crescente, janeiro de 1992


 

Antes
A gravidez de Beatriz se seguiu a um fato curioso: eu e Artur estávamos pensando em filhos para mais tarde. Eu estava com 29 e ele com 30. Viajei sozinha a trabalho, e talvez pelas mudanças, fuso horário, etc. minha menstruação atrasou uma semana, o que jamais acontecia.
Eu achei que era gravidez, e fiquei entusiasmada.

Porém veio a menstruação, que eu senti como uma perda. Resolvi antecipar minha volta para pegar a ovulação seguinte. Deu certo: no domingo dia das mães, fiz o teste de gravidez no 30o. dia do ciclo, que foi bem positivo. Foi uma festa.

Em seguida, viajei na nona semana, e no final de três semanas, depois de muito agito, tive um sangramento. Cercada de amigas de meio mundo, que me fizeram rituais filipinos, palestinos e judeus de proteção, embarquei de volta agradecendo e fiquei quietinha por um tempo. A gravidez prosseguiu sem problemas, nenhuma náusea, apenas alguma azia no final. Fiz hidroginástica e tinha muita energia. Ganhei muito peso: quando cheguei nos vinte quilos a mais, lá pelo sétimo mês, deixei de me pesar, apenas checava se havia inchaço. Fiz umas fotos de estúdio quando estava no fim da gravidez, queria me lembrar daquelas formas.


Fiz o grupo de grávidas do Coletivo Feminista, então coordenado pela Melodie Radler, e que eu mesma coordenara anteriormente, junto com o Rogério Guimarães, que virou meu parteiro. Cheguei a contactar a parteira Ângela Gerhke, que trabalhou com o Coletivo no grupo, mas ela não estaria no Brasil em janeiro, quando a Beatriz nasceria. Resolvi por um parto domiciliar com Rogério. Convidei minhas amigas Ana Flávia d´Oliveira e Dagmar Ramos, que cuidariam da cozinha e da fotografia, além de Vera Murakami como pediatra. Ela me convenceu a contratar uma UTI móvel, que seria acionada quando eu estivesse no período expulsivo, para ficar de plantão na entrada do prédio.

No final da gravidez, lá para uns sete meses, comecei a ter muita contração. O Rogério, receoso de um parto prematuro, prescreveu aquelas drogas que dão palpitações horríveis. Um dia fiquei tão aflita com aquilo que não encontrei o Rogério e larguei o remédio por minha conta e risco. Continuei com contrações, cheguei ao termo, 38, 39, até as 40 semanas completas, na segunda-feira quando a Beatriz nasceu.

O Parto

No sábado anterior, era a passagem da lua nova para a crescente, e eu acordei com muitas contrações, intensas, dolorosas, a cada cinco ou quatro minutos. Foram várias horas daquilo. Acordei o Rogério pelo telefone, e ele sugeriu que eu aguardasse um pouco mais, anotando a freqüência e duração. Com o passar das horas, as contrações foram diminuindo de intensidade, até que eu adormeci e acordei ainda grávida no domingo. A dilatação não progrediu quase nada com as contrações, mas o colo ficou totalmente apagado. Já estava naquela fase que todos perguntam se já nasceu.

Na segunda-feira, fui formalizar minha licença maternidade e trabalhar normalmente. Esse dia a empregada faltou, cheguei em casa e fui fazer compras no supermercado, carreguei os sacos e tudo. Jantamos cedo, era verão, muito quente e passava uma novela muito engraçada, chamada Vamp, que já deveria ter acabado, mas a próxima novela não estava pronta, então a estória se arrastava, cada vez mais absurda non-sense e engraçada, com o Ney Latorraca, impagável. Nesse dia, eu ri tanto que comentei com o Artur que eu ia dar à luz já, de tanto rir. Assim foi.

 

Foto 2 - Artur e Simone, curtindo a pequena Beatriz logo após o nascimento

Às 9h da noite, as contrações voltaram, e como eu sabia que poderia ser mais um treino, resolvi esperar um pouco para ligar para o Rogério, que viria tomar um chá conosco lá pras 10h, depois de seu curso de mergulho. Às dez pras dez, as contrações apertaram e eu vi que era a hora. O Artur ligou para a "equipe" toda. O Rogério nem respondeu, mas chegou às dez em ponto. Fez um toque e disse que eu estava com seis centímetros de dilatação. Depois ele me disse que na verdade estava com cinco, seis era pra me animar.

As contrações estavam muito fortes e freqüentes, eu fui para o chuveiro e mal conseguia manter a respiração ritmada. Me lembrava da Melodie dizendo que a respiração servia para manter os pés no chão e tornar a dor suportável. Eu estava no meu limite. Se aquilo ainda ia durar horas, como dizem os livros de obstetrícia, eu não ia suportar. É a chamada hora da covardia, no dizer da Ângela Gerhke.

Gritei para os rapazes "façam alguma coisa, me ajudem!" enquanto os dois corriam para arrumar o cenário do parto, incluindo os sacos plásticos, opções de lugar, tudo que estava planejado. De repente, me deu vontade de empurrar. Gritei do banheiro: "Estou com vontade de fazer força!" Os dois falaram que era a transição, e eu comecei a perder o controle sobre o fazer força, que ficou totalmente involuntário e poderoso, ao mesmo tempo algo a desejar, pois por um lado a intuição corporal mostra que é a maneira de aliviar a dor, mas por outro lado, um receio de que vá doer mais, machucar e partir algo lá dentro, misturado com uma pressão e uma distensão do clitóris e da vulva tão intensas que doem.

 

Eu senti a cabeça da Beatriz já na vulva, e me dei conta que não era o fim da dilatação, mas da expulsão. "Vai nascer agora!" eu gritei, e os rapazes me ajudaram a sair do banho, e no único lugar do quarto não coberto por plástico, com o Artur me apoiando por trás, numa posição que me pareceu a única possível, entre a de pé e a de cócoras, a Beatriz nasceu, totalmente envolta na bolsa, íntegra.


Foto 3 - O casal e Beatriz (embrulhadinha no cobertor) aguardam a canja para repor as energias

O Rogério recebeu a Beatriz e abriu a bolsa, eu me deitei na cama e a recebi. Foi demais. Quando olhamos no relógio, eram 10:35h. Ficamos um tempo curtindo, deliciados (foto 2). Lembro que passado o auge da adrenalina e das endorfinas, sentia um ardor vaginal intenso, que melhorou com gelo. Felizmente, não houve qualquer laceração, apesar do parto rápido. Logo depois, Vera chegou, um pouco frustrada por perder o parto, e se ocupou da Beatriz, enquanto eu tomava um banho e me trocava. Ninguém se lembrou da tal da UTI móvel.

 

 
As madrinhas Nana e Dagmar chegaram e nos encontraram na cozinha, esperando pela canja da mulher parida (foto 3). Artur ligou para nossos pais e amigos. Foi uma festa. No dia seguinte, Nana dissecou o bolsa (pelica) separando-a da placenta e a secou ao sol.

A placenta foi enterrada sob uma palmeira na casa dela, no batismo da Beatriz. A pelica ficou como um talismã para a Beatriz, pois diz-se que as crianças que nascem empelicadas têm muita sorte.

Leia também o depoimento sobre o nascimento do segundo filho do casal: David

 

Simone Diniz
E-mail: sidiniz@uol.com.br

 

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