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Pré-Natal
Cheguei em Viena no quinto mês de gravidez. Já tinha passado
por três consultas do pré-natal em São Paulo, sabia que
meu bebê estava bem, que iria nascer na quadragésima semana
de gestação e que corria o risco de passar por uma cesariana,
como toda mulher grávida corre.
O
primeiro passo foi achar um médico que me aceitasse no
quinto mês de gravidez. Indicaram-me um médico polonês
que trabalhava com parto natural. Achei a idéia de parto
natural muito simpática depois que me explicaram que o
parto natural não é apenas o parto normal. Comparei as
duas situações, em São Paulo e em Viena. Em São Paulo
estaria preocupada se teria um parto normal ou cesariana,
em Viena a preocupação era se teria um parto natural ou
apenas um parto normal. Decidi ir a fundo nessa história
de parto natural, apesar de carregar o medo típico de
mulher brasileira, o medo de não conseguir...
Freqüentei
um centro de convivência de pais e filhos chamado Nanaya,
onde há muitas atividades de incentivo ao parto natural.
Foi lá que eu tive a notícia que meu filho iria nascer
na mão de uma parteira, não do médico polonês. Foi lá
que eu entendi exatamente como um parto começa e como
um parto termina. Foi lá que eu fiquei chocada com as
imagens de um vídeo de um parto natural na casa de uma
holandesa.
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Gostei
de ter a oportunidade de falar sobre o medo do parto
e o medo de virar mãe. Nessa época sonhava que dava
luz a um menino grande, com um ano de idade. Estava
tão assustada com o parto e com a dor do parto que
decidi desenhar meus medos. O resultado é uma coleção
de desenhos assustadores de pessoas com caras distorcidas,
mulheres sofrendo com barrigas enormes em cores fortes.
Essa não é a imagem do parto pra mim, mas a imagem
do medo do parto. O medo do parto e o medo da dor
não podem ser ignorados. |
Mais
chocada com tantas idéias diferentes eu ficava, quando
tomava consciência da minha ignorância. É incrível como
a cada reunião no Nanaya eu me convencia de que na hora
h tudo iria depender de mim. E realmente foi assim.
Preparando
para o parto
No restante da gestação, só me preparei pro parto, comendo
bem, me divertindo, indo nadar, freqüentando as praias
de nudismo no Danúbio, dançando dança do ventre e desenhando.
Foi o verão mais bonito da minha vida! Não me preocupei
com enxoval, móveis de bebê, nada disso.
Arrumei
algumas roupinhas para as primeiras semanas, curti e choquei
meu ovo, que decidiu nascer duas semanas antes. Sonhei
que estava na chuva e que uma gota pingava sobre mim.
Acordei e vi que a bolsa tinha estourado. Isso indicava
que o parto não seria o mais fácil. O trabalho de parto
começou às quatro da manhã, o sol já tinha nascido. Às
oito da manhã foi feito um ultrassom e a enfermeira confirmou
que seria parto normal. O parto-seco, o que começa com
o rompimento da bolsa, pode acabar mal se a massa do cordão
umbilical descer e ficar entre o colo do útero e a cabeça
do bebê. Perguntei se o cordão umbilical estava enrolado
no pescoço do bebê, ela riu e disse que não é possível
saber com um ultrassom. Como não? Essa é a principal desculpa
dos médicos no Brasil pra enfiar a faca na barriga das
pacientes...
O
parto
Às dez da manhã tinha quatro centímetros de abertura do
colo do útero. Passei por alguns procedimentos normais
em Viena, como lavangem intestinal, banho e finalmente
fui mandada para a sala de parto, que tinha uma janela
bem grande que dava pra um jardim verde e colinas forradas
por parreiras. Vi o médico obstetra uma vez, quando entrou
na sala e perguntou se tudo estava bem.
Senti
muita dor. Tentava ficar íntima da dor cada vez que sentia
que o corpo tentava expulsar a barriga. Foi nítida a diferença
entre as 3 fases das contrações que já tinha visto na
teoria. A primeira fase de abertura do colo do útero,
a segunda transitória, e a terceira de expulsão. No processo
inteiro eu me senti ativa apenas quando tentava relaxar.
A força que os músculos fazem para expulsar a criança
é muito mais involuntária do que a gente pensa, nessa
hora a única coisa importante é relaxar pra não atrapalhar
a natureza. Essa terceira fase, a de expulsão dura pouco,
de 10 a 15 minutos, são duas ou três contrações e o filho
nasce.
Meu
namorado, pai do meu filho ficou comigo todo o tempo,
sofreu um bocado com o meu mau humor e pegou o recém nascido
no colo, cortou o cordão e deu banho nele, o primeiro
contato real com o seu filho. Senti que foi ali que ele
assumiu seu filho de fato.
Ao
todo foram 13 horas de trabalho de parto, meu filho nasceu
com o cordão umbilical enrolado duas vezes no pescoço
mas pra parteira e pro médico, tudo foi muito dentro da
normalidade. Não fiz cesariana, não tomei anestesia e
não passei por uma episotomia. Uma hora depois estava
bem, andando, então entendi que era sobre isso tudo que
falávamos no Nanaya. Falávamos de um processo longo, cheio
de detalhes e responsabilidade, mas muito normal, que
acontece todos os dias em todas as partes do mundo.
Gostei
da experiência da dor, dos detalhes e não acredito
que a única coisa importante seja a saúde da criança.
Acredito que a mulher deva passar pelo parto consciente
e ativa, e principalmente que o processo deva ser
muito, muito bonito.
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Marcia
Vaitsman
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E-mail: marcia@khm.de
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