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Bettina

Nascimento de Catharina e Victória, ambas de cesárea.


 
Minhas duas filhas nasceram através de cesarianas. Pode parecer um absurdo, mas também acontece, e com uma freqüência muito maior do que a desejada. Queria um parto normal em ambas as vezes, sempre achei que partos deveriam ser normais por regra, e não por exceção, mas uma cesárea também pode ser uma experiência bastante positiva.

Catharina
A primeira gravidez, da Catharina, hoje com dois anos e meio, foi bastante querida. A gravidez transcorreu tranqüilamente, não tive nenhum sintoma, não parecia grávida, estava feliz, confiante e com um médico que já me acompanhava há 3 anos. Ele também era a favor do parto normal, fui percebendo que tudo iria transcorrer bem desde que dentro do seu horário comercial. No sétimo mês tive uma infecção urinária, percebi que a minha barriga não estava nem aí para o horário comercial do meu médico, ela era on line, e ele não. Ótimo ginecologista mas um zero como obstetra. Comecei então uma peregrinação de médicos, é muito desagradável você fazer opções meio que sob pressão. Encontrei uma médica, adepta de partos normais. Por uma série de motivos, inclusive por uma certa segurança que todos me passavam, de que partos normais eram algo óbvio e fácil, decidi ter minha filha pelo plantão. 

Na 37a semana, fui à consulta de praxe, tudo indicava que a gravidez iria facilmente completar as 41 semanas. A única coisa que preocupava era o tamanho da neném, já estava muito grande e a pressão, que estava muito baixa. No dia seguinte, talvez pela minha total falta de sossego, a bolsa rompeu e o líquido começou a vazar, em doses homeopáticas, eu diria. Eu não percebi. Fui trabalhar, e a noite, meu marido e eu fomos ao cinema. A situação se agravou quando, na saída do cinema, aquela umidade já estava bem maior do que o tolerável. Por sorte, minha médica atendia a noite e resolvemos passar pelo seu consultório, somente para tirar a dúvida. A “ficha” ainda não tinha caído.... passamos lá e ela confirmou, bolsa rota, e provavelmente há horas. Parto normal garantido, provavelmente com indução, quem estava no plantão era um de seus alunos, a médica dava aulas para a turma de residentes e eu continuava segura.

Fomos para casa, ainda tomei banho, fui arrumar minha mala, avisar minha mãe, todos os procedimentos corriqueiros e fomos para o hospital. Dei entrada as 23 horas e daí as coisas começaram a tomar outro rumo. No hospital encontrei o plantonista que ela havia me indicado, mas encontrei também o médico responsável pelo plantão, que prontamente me vendeu uma idéia de infecção, devido ao fato da bolsa estar rompida a horas. A indicação? Cesárea. Percebi que me faltava toda a informação para poder dialogar naquela situação. Sem argumentos não se fazem julgamentos... 

Minha filha nasceu com 3,8 kg as 00:45hs. Dizer que não restou uma certa frustração, não seria verdadeiro. Principalmente pelo fato de que eu havia estado com a minha médica talvez uma hora antes e esta me garantido as condições para um parto normal. Mas o momento da chegada de uma criança é mágico o suficiente para superarmos muitas coisas. Tive uma recuperação rápida e uma filha saudável e grande nos braços, exigindo de mim e me fazendo sentir realizada. O leite desceu rápido e ela foi amamentada até a 3 meses atrás. Não posso dizer que era o que eu queria.

Depois da revisão de parto, percebi que a então médica, era apenas uma ótima obstetra, e não ginecologista. Estava cansada daquelas peregrinações a procura de médicos. Fiquei um bom tempo sem me consultar com ninguém. 

Victória
A gravidez da Victória se anunciou de uma forma muito curiosa, Catharina então já andava, estava com um ano e meio, e ficava andando de quatro, porém toda esticada, dizia a crendice popular, que ela estava chamando pelo irmãozinho. Não dei bola... naquela época também, havia iniciado um tratamento com acupuntura, e, um belo dia, numa das sessões, a acupunturista me falou que havia algo errado e que ela apostava todas as fichas numa gravidez. O exame só confirmou a vinda de mais um nenem...

Daí precisava encontrar um médico, alguém em quem confiar, que fosse favorável a um parto normal, e eu já estava com mais de 30 anos... encontrei cesaristas, encontrei “meio termistas” que não me convenceram. Até que encontrei um médico, indicado por uma ex-aluna minha, que havia tido um parto normal. Ah, tinha grandes chances. Perto da minha casa, podia ir a pé, consultório sempre meio vazio, atendia pelo convênio. Porém.... faltou uma certa empatia. Eu estava tão cismada, que arrumava defeito em qualquer ato falho. 

Nesta gravidez percebi o que eram os famigerados enjôos, que coisa terrível. E começei a perceber que o médico era bem favorável às medicações halopáticas em geral. Tudo foi decorrendo bem , estava bem mais pesada do que antes, pois ainda havia um bom resquício de peso da minha primeira gravidez. Já não estava trabalhando, e nem por isso aproveitei para cuidar melhor de mim mesma. Começaram a aparecer alguns problemas, como a pressão, que desta vez resolveu subir. E tudo era normal, e para cada probleminha tinha um remedinho. Aquilo estava me incomodando profundamente, tantos remédios durante a gestação, não fazia sentido. Já não estava me sentindo saudável. 

Continuei amamentando a minha filha durante a gestação, para desgosto geral de todos que me rodeavam. O único que me dava apoio era o homeopata que acompanhava a minha filha. A situação chegou num ponto em que começaram a ocorrer contrações bastante fortes, que prontamente foram ditas como conseqüência da amamentação prolongada da minha filha. Neste ponto eu já estava com um calmante para a pressão, um anti contração e um analgésico para as dores nas costas, e uma profunda vontade de “chutar o balde”, já haviam decorrido 32 semanas de gestação. O ponto culminante foi quando, ao fazer o ultra-som, a médica me disse que não dava mais 10 dias para a neném nascer, e que não teria como ser um parto normal, devido ao tamanho dela, pressão etc, etc, etc. Discurso este prontamente aceito pelo médico que estava me acompanhando.

Mais uma vez estava vendo que as coisas não estavam tomando o rumo que eu gostaria. E numa navegada pela internet, encontrei um depoimento, de uma mãe que havia conseguido um parto normal após uma cesárea, ela já com 33 anos, na época. E o médico ainda era da minha cidade. Foi nesta situação que percebi que mudar novamente de médico poderia ser uma opção boa. Entrei em contato com a dona do depoimento e com os dados marquei a primeira consulta, estava na 35a semana, era o Dr Adailton S. Meira.

Ainda não estava plenamente decidida, queria uma opinião. Lembro bem da surpresa da secretária, quando me perguntou se era a primeira vez, e eu respondendo que sim, porém gestante de 35 semanas. Consulta marcada, efetuada e decisão tomada. Troquei de médico novamente. 

Já na primeira consulta fizemos o plano de parto. Tinha 60% de chance de um parto normal, o que me deixou bastante animada novamente. Toda minha medicação alopática foi substituída por uma homeopática. Percebi que um profissional, ainda mais um obstetra, não nos convence pelos diplomas que tem, nem pelo tempo de relacionamento com o paciente. É uma troca de emoções, gerada por muita empatia. Isso gera confiança. Dos 10 dias dados para a neném nascer, 5 já tinham se passado.

Minha gravidez alcançou 40 semanas e meia. As consultas foram seguindo, de semana a semana, e fomos percebendo que um parto normal realmente não poderia ocorrer. Minha pressão alcançou o nível máximo permitido, a neném ultrapassou de longe os 4 kg, havia uma cesárea prévia, as 40 semanas já haviam se completado e por fim, o ecocardiograma da neném, mostrava que esta já não estava mais tão reativa. A decisão da cesárea foi tomada em conjunto, baseada em fatores concretos. Eu tenho certeza que esta cesárea foi realmente necessária.

A Victória nasceu no dia 21 de junho, com 4,6kg e 54 cm. A cirurgia foi rápida e nem o bate papo entre os médicos, durante a cirurgia, me pertubou, como na primeira cesárea. Começei a perceber que era um sinal de que eles estavam seguros o suficiente do que estavam fazendo. Apesar da anestesia, percebia e escutava tudo, foi um grande alívio quando tiraram a neném. Uma semana depois já estava 13kg mais leve. 

A recuperação tem sido muito boa, não tive muitas dores, a quantidade de remédios a serem tomados foi bem inferior à da primeira cesárea, duas semanas após já havia iniciado as minhas caminhadas, estava dirigindo e mantendo uma vida quase normal. Ontem pela primeira vez depois de muito tempo, já consegui pegar minha primeira filha no colo.

Apesar de acreditarmos piamente que sabemos como lidar com as nossas próprias emoções, percebo que a vida é um aprendizado contínuo, sempre vão haver situações novas e momentos inusitados. Posso dizer que esta foi uma experiência bastante positiva, por que não dizer feliz. Não ficaram dúvidas. 

É importante “buscarmos” situações em que nos sentimos mais confiantes, mais estáveis emocionalmente. Torna a vida bem mais alegre, e isso facilita bastante. Tenho duas cesáreas sim, mas tenho também a experiência de vida de ter passado por isso, que vai sempre me ajudar a tomar novas decisões, além de duas filhas que me enchem de orgulho e alegria a cada momento.
 
 

Bettina Lauterbach

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