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Cida

Nascimento dos cinco filhos, a primeira em 1943 de parto domiciliar e os outros quadro com parteiras em hospital.


 
Meu nome é Maria Aparecida, mas sou chamada de Cida, D. Cida, Mãe e Vovó…

Tenho 80 anos, 5 filhos, 11 netos e 3 bisnetos. Vou contar um pouco da história do nascimento dos meus filhos. Naquela época era muito difícil um bebê nascer de cesárea.. Os bebês nasciam, era muito simples. Chegava a hora, e eles nasciam. Hoje em dia eu não entendo, não sei porque tem tanta operação.. Meus 5 filhos nasceram de parto normal, mas dos meus 11 netos, 8 nasceram de cesárea.

Tania
Minha filha mais velha, Tania, nasceu em 1943, em São Paulo, no bairro do Tucuruvi, em casa. Eu não fiz pré-natal, nem achei que precisasse. A barriga foi crescendo e tudo ia bem. Um dia, depois do almoço, recolhia os pratos da mesa e comecei a ter uma dores estranhas. De repente sumiam e só reapareciam depois de um tempo. Meu marido já tinha ido embora para o trabalho, eu estava sozinha. Fui falar com a vizinha, que já tinha filhos e pedi para ela ir telefonar para o Bruno, achei que tinha alguma coisa errada. Minha vizinha na hora já percebeu e saiu rápido. Voltou depois de alguns minutos com uma parteira que morava no bairro. Nem ligou para meu marido, pois achou que não daria tempo de me levar pro hospital. 

A parteira era uma jovem senhora, mulata, muito delicada e calma. Na hora pediu para que eu me acalmasse, que o bebê ia nascer. Pediu à vizinha que fervesse água e arrumasse alguns panos para o parto. Perguntou onde eu guardava as roupinhas do bebê, eu me espantei: já? Ela me explicou que não ia demorar. Ela ficava me mandando respirar com calma, pediu que eu me deitasse na cama. Bem, depois de uma hora o bebê tinha nascido. Com 3,2 kg, era uma menina! Muito rápido! Não precisei de pontos, nem nada. Ela logo deu banho na nenê, colocou uma roupinha e a colocou do meu lado.

A vizinha ainda passou a tarde comigo, preparou um lanche, foi muito gentil. Meu marido chegou e soube que alguma coisa estava estranha, pelo movimento. E logo que entrou, percebeu que a Tania tinha nascido. No dia seguinte bem cedo ele foi comprar um berço e trouxe na cabeça, desmontado! 

Depois de um mês, meu leite começou a ficar pouco. Tania chorava, chorava, eu não sabia o que estava acontecendo. Fui na casa da parteira, ela perguntou quanto tempo a nenê mamava, fez algumas perguntas assim e me disse: ela está com fome! Eu tenho uma vizinha aqui do lado que pode te ajudar. Era D. Alzira uma senhora grandona, negra, forte, que logo pôs minha filha no peito. Ela mamou como nunca, sugava com fome até se fartar. Daquele dia em diante, D. Alzira ia na minha casa dar de mamar pra a Tania. Nunca aceitou dinheiro algum, e chegava a se ofender se falássemos nisso. Algum tempo depois minha vizinha da frente teve bebê e tinha leite demais… Sobrava leite. Então ficou mais fácil e eu atravessava a rua com a Tania todos os dias para que ela mamasse. 

Beth
Um ano e meio depois, nasceu a Beth. Mas o parto foi feito no hospital. Dessa vez fiz todo o pré-natal com outra parteira, D. Elisa, já que tínhamos nos mudado para outra casa, perto da Brigadeiro Luiz Antonio. Eu ia na casa dela todos os meses, ela media minha barriga, pergutava como eu estava me sentido, escutava o coração do nenê. Ela tinha tudo o que era preciso na casa dela. No dia do parto liguei para ela avisando que estava com as dores e ela pediu que eu a encontrasse no hospital nove de julho. Meu marido foi dispensado e ela ficou lá e fez o parto. Só nós duas na sala. Sem pontos, muito rápido também. Ela tinha 2,9 kg. Depois de 3 dias fui para casa. Pude amamentar até uns 7 ou 8 meses.

Oswaldo Filho
Mais um ano se passou e veio o Waldinho. Esse bebê era muito grande. Minha bolsa estourou à noite, pela primeira vez. Elas sempre estouravam na hora do nascimento mesmo. Liguei para a parteira e ela pediu que eu a encotrasse no Nove de Julho. Eu ainda não estava em trabalho de parto. Meu marido foi novamente dispensado. Eu ia passar a noite no hospital para aguardar o início das dores. D. Elisa dormiu comigo na cama ao lado da minha. À noite tive uma ou outra contração, mas demanhã o parto começou pra valer. Mas foi muito difícil, a parteira explicou que o ombro era muito grande e estava preso nos meus ossos. Veio o médico e explicou que precisaria fazer um piquezinho para aumentar a passagem. Ele perguntou para a parteira se ela queria que ele fizesse o corte, ela disse que não. Ela mesma faria. Depois do corte ele nasceu de repente. Tinha 4,2 kg. Era um bebezão para uma mulher de 1,55m. Levei alguns pontos e depois de 3 dias estava em casa. Ele mamou até 14 meses.

Mario
Depois de 9 anos, quando nada mais deveria acontecer, engravidei novamente. Meu marido não ficou muito feliz. Não levávamos uma vida farta, todo o dinheiro era meio contado, mas acabou se conformando. Era o Mário. Quando ele ia nascer, tinha jogo no Pacaembu, tinha trânsito. Quando cheguei na maternidade Pró Mater, D. Elisa já estava me esperando. Ela olhou e disse: vamos correndo pra sala de parto que está nascendo! Foi uma correria danada, mas em 20 minutos ele tinha nascido. Meu marido, que não queria a gravidez, quando soube que era um menino, já no quarto, sentou-se na cama ao lado e ficou rindo e balançando as pernas. Parecia que estava com bobeira! Foi engraçado ver a cara dele rindo daquele jeito!! 

Evelise
Depois de um ano, veio a Evelise. Era pequena, 2,9 kg, e o parto foi na Pró-Mater. Dessa vez disse que eu não queria mais filhos, que eles operassem. Tomei uma injeção que me apagou e só fui acordar depois de 4 horas. Usaram fórceps para que ela nascesse, pois eu estava com a anestesia geral. Depois eles fizeram alguma coisa, que até hoje não sei o que era. Mas era pra eu não ter mais filhos. E realmente não engravidei mais. Só que não sei o que era. Dizem que era uma "operação por baixo".

Ter filhos pra mim era alguma coisa normal, que fazia parte da vida. Eu gostava de bebezinhos, adorava carregar, cuidar… Quando eles cresciam eu sentia falta e tinha mais um. Depois minhas filhas começaram a ter filhos, mas isso é outra história.
 
 

Maria Aparecida Queiroz Bruno


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