| Carta
a meus filhos
Queridos filhos,
quero agradecê-los pelas experiências
que foram seus partos, pois junto com vocês eu nasci. Nasci como
mulher, nasci como mãe. Me descobri como um Ser forte, forte o suficiente
para fazer as escolhas da minha vida. Também vejo que encontramos
as pessoas certas nas horas pontuais, para que vocês viessem da melhor
forma possível. E estamos colhendo os resultados disto através
do jeito que vocês são, crianças calmas, amorosas e
inteligentes. Isto se deve ao tratamento humanizado que vocês tiveram,
ao respeito das equipes que acompanharam seus nascimentos, e trataram tanto
à vocês quanto à mim de maneira tão maravilhosa
e carinhosa. Nos garantindo o direito à um atendimento humanizado,
que nada mais é do que ter respeito e carinho pela mãe que
está parindo, e à este novo Ser que vem ao mundo. Garantindo
e preservando o decorrer natural dos acontecimento, com calma, com atenção,
com afeto, com segurança, com carinho, com amor.
O primeiro parto: Giancarlo
Doshin. O grande esperado. Teu pai e eu decidimos
deixar que você escolhesse vir a hora que fosse certa. Parei de tomar
anticoncepcionais oito meses antes de você se juntar à nós.
Foi uma grande felicidade! E um susto imenso quando em uma ecografia a
médica disse que era um menino! O que eu iria fazer com um menino?
Levei um susto e fiquei com muito medo. Na nossa família só
haviam dois meninos, meus primos. Com calma fui me acostumando à
idéia e gostando cada vez mais. Tua gestação foi maravilhosa.
O outono, o inverno e principalmente a primavera começaram a saltar
nos meus olhos. Nunca tinha visto tantas flores antes, nunca tinha estado
tão feliz.
Os enjôos começaram
a ficar cada vez mais fortes, tentei de tudo: gelo, sorvete, limão,
bolacha, umeboshi, mas de repente eles se foram. Estávamos com três
meses. Já no primeiro mês iniciei a preparação
para o parto com yoga. Há muitos anos já tinha claro dentro
de mim que não iria de jeito nenhum para o hospital dar à
luz. Já tinha visto vários partos e a maneira como tratavam
os bebês era extremamente chocante para mim. Imagine só, você
fica lá dentro durante nove luas, todo enroladinho, e de repente
você sai, te penduram pelo pé e te dão um tapa para
você chorar? É chocante e bruto demais. Isso é inconcebível
para mim.
E então, surgiu uma equipe
que iniciou um trabalho maravilhoso em Porto Alegre, a Genesis Partos Humanizados.
O Jorge Mello fazia Aikido na academia de teu pai, e atende as gestantes
com shiatsu. Com ele, sua companheira Marge, que também fazia Aikido,
eu fazia yoga. O Joaquim, irmão do Jorge, obstetra, e sua esposa,
Valéria, a pediatra. Fiz todo o pré natal com eles, indo
todos os meses em consultas para te escutar. Isto tudo foi muito importante
para que a gestação transcorresse da melhor forma possível.
Não tive nenhum problema físico. Fiquei sim muito sensível
emocionalmente. Todos os acontecimentos tocavam meu coração
de forma contundente. Em muitos momentos sofri. Teu pai e eu sempre conversávamos
contigo, passávamos óleo na barriga, cantávamos para
você.
Enquanto eu trabalhava eu punha meus
headphones na barriga para você escutar música, que foi a
mesma que coloquei para tocar durante o trabalho de parto e parto. E assim
foi tua gestação. Fiz hidroginástica, e parei de praticar
aikido. No último mês comecei a ter azia. O espaço
estava ficando cada vez menor e nada me caia bem. Você já
estava encaixado. Eu engordei bastante, muito além do recomendado,
mas nunca ninguém me disse que isto seria um empecilho. Dezembro
começou e o calor em Porto Alegre foi ficando cada vez mais úmido.
Eu já não estava agüentando mais. A barriga começou
a pesar mais e mais, tudo eu fazia com mais dificuldade. Faltava ar. E
como seria? Esta era minha pergunta constante.
Li muitos livros durante toda a gestação.
Mas ficava temerosa de não saber identificar o início do
trabalho de parto. Chegou o Natal e minha família foi nos visitar.
Passamos quatro dias com eles entre passeios e contagens das contrações
que estavam cada vez mais presentes. Eu vivia com papel e caneta na mão.
Todos perguntavam quando iria ser. E eu lá sabia?! Esta, acho que
é a pior fase, quando todos ficam perguntando se já nasceu,
pessoas ligando, outras te encontram na rua e dizem ainda?! A família
voltou mas minha mãe ficou conosco. Passamos juntos o Reveillon.
Mas só no dia 02 você
se manifestou. Acordei de manhã com um pouco de líquido entre
as pernas. Era claro, e tinha um cheiro característico, cheiro de
esperma. Liguei para o Joaquim. Combinamos de nos encontrar às três
da tarde no consultório. Fomos passear, almoçar e rumamos
para lá. Tinha chegado a hora. As contrações estavam
mais intensas e rítmicas. Eles iriam para a academia à dezenove
horas. Fomos fazer compras no supermercado, pegar nossas coisas, buscar
teu irmão e minha mãe e rumamos para lá. Tínhamos
decidido fazer o parto na academia de Aikdio, que era nosso canto, pois
estávamos morando com tua avó. Eles chegaram pontualmente.
A Marge e o Jorge vieram depois pois eles estavam viajando. Montaram todo
o equipamento e depois subiram para fazer uma oração.
Fiquei caminhando pelo tatami durante
as contrações. Subia e descia a escada, caminhava bastante,
isto me ajudou muito. Às onze horas subimos e eles me colocaram
soro, pois as contrações estavam ficando desritmadas. As
contrações foram ficando cada vez mais fortes. Sentia os
ossos da bacia se abrindo. Doía muito. Fiquei na posição
de quatro apoiada nos cotovelos, aliviou bastante, mas elas prosseguiam
mais e mais fortes. Sentia cada vez mais dor nos músculos da pelve.
Não queria ser tocada por ninguém. Fiquei ensimesmada, quieta,
absolutamente dentro de mim, num estado de completa interiorização.
Fui algumas vezes ao banheiro fazer xixi. E subir e descer a escada ajudava.
Estava quente, mas colocaram um aquecedor na sala para que você fosse
não sentisse tanto frio na chegada. Colocamos música, meia
luz, e o silêncio era total.
Comecei a sentir cada vez mais dor,
mas era uma dor bem vinda. Algumas vezes o Joaquim fez exame de toque para
sentir a dilatação do colo do útero e isto doía
muito. Quanto a dilatação foi total, fiquei de cócoras
com teu pai me segurando por trás. Foram cinco contrações,
e o Joaquim falando para eu fazer força de expulsão quando
então saiu tua cabeçinha. Ele tirou o cordão do teu
pescoço e depois, na próxima contração, você
veio ao mundo. Eram 2:58 horas. Nasceu grande, com 3980 gramas, e 52 cm.
Sem episiotomia, com uma rotura de 1 cm. Aquele Ser que antes estava dentro
de mim agora já tinha sua independência. Te peguei no colo
e ficamos juntos, o cordão parou de pulsar, teu pai o cortou. Você
mamou, e ficamos assim até a pediatra te examinar. A equipe nos
acompanhou até às 6:00 horas, foram embora, e nós
ficamos alí, em êxtase, sem conseguir dormir...
O segundo parto: Rebeca
Shobo. A grande surpresa, a grande mudança.
Você veio para mudar tudo, e contigo minha vida mudou. Fiquei surpresa
pois não esperava engravidar tão cedo assim, mas lá
estava você. Tive muito medo, revolta, pois estava recomeçando
profissionalmente, estava com problemas no relacionamento com teu pai,
mas você estava alí. E uma grande mudança começou.
Me separei quando estava com cinco meses de gestação. Organizei
toda a mudança, foi um processo muito dolorido pois aconteceram
muitas, mas muitas coisas desagradáveis entre teu pai e eu. Voltei
para Santo André, SP, para a casa de meus pais que me acolheram
da melhor forma possível.
Cheguei aqui com sete meses, pois
era o prazo máximo que as companhias aéreas permitem que
uma gestante viaje. Nas ecografias que fiz, não dava para saber
teu sexo, e foi assim até o teu nascimento, uma surpresa. Com a
experiência do parto de teu irmão, comecei uma romaria para
encontrar alguém nesta cidade que fizesse parto domiciliar. Encontrei
sim, muita resistência, críticas, e soberba por parte de médicos
que achavam minha idéia maluca, e ficavam impressionados com a minha
informação sobre o que eu queria para meu parto. Fui aconselhada
pela equipe Gênesis a procurar um médico em Campinas, que
fazia parto na água, mas à princípio achei que era
longe demais. Arquivei a idéia, que logo em seguida retornou pois
não achava ninguém que pudesse fazer o que eu queria.
Conversei com o Adailton em janeiro,
com oito meses!!! E ele me adotou e abraçou meu plano de parto:
na água, em sua Casa de Parto. Minha primeira consulta com ele foi
no dia 10 de janeiro. Você nasceu no dia 02 de fevereiro. De novo
toda aquela pressão familiar, só que agora mais intensa,
pois estava morando com eles. Num sábado de manhã achei que
a bolsa tinha estourado, mas fomos para Campinas e nada. Foi um grande
alarme falso. Todos estavam preocupados se daria tempo de chegar à
tempo lá. Fazíamos os melhores percursos para a semana e
para o final de semana para sabermos quanto tempo demoraríamos até
lá. Até que chegou o grande dia.
Numa Quinta-feira pela manhã
as contrações estavam de cinco em cinco minuto, com uma duração
de 40 segundos e já durava uma hora neste ritmo. Minha mala já
estava pronta e partimos para Campinas. Avisei toda a família, teu
pai (que não estava), e minha amiga Kátia, que foi junto
conosco. Minha mãe perguntava o tempo inteiro como estavam as contrações.
Chegamos em Campinas e fui examinada. As contrações pararam
e os teus batimentos cardíacos estavam no limite mínimo do
suportável. Hospital? Que nada, a presença de espírito
do Adailton me mandou tomar banho e descansar.
Dormi bastante, e quando acordei
fizemos novo exame e você já estava melhor. As contrações
iam e vinham. Minha mãe entrava para perguntar quando você
ia nascer e tudo parava. Fizemos três induções. Toda
a minha família foi para a clínica. Dormiram em Campinas,
e quando todos foram embora na Sexta-feira à tarde, na terceira
indução, e pedi para que ninguém entrasse no quarto,
a bolsa estourou às 15:00 horas. Até então eu ficava
me perguntando porque eu estava bloqueando o processo todo. Aí o
trabalho de parto começou para valer. As contrações
vinham cada vez mais forte. Eu fiquei na mesma posição do
primeiro parto, de quatro sobre os cotovelos. Eu agradeci cada uma das
contrações porque elas estavam ajudando você a nascer.
E doía muito.
Achei que não fosse conseguir,
pois eu estava só alí, não tinha ninguém comigo,
eu não tinha mais companheiro. Pedi para ir para o hospital e graças
ao Adailton que morreu de rir de mim não fomos. A Dorothe ficou
ao meu lado, uma doula maravilhosa, e lembro dela me dizer que eu conseguia,
já tinha passado por isto. Mas talvez fosse isto, saber o que vinha
pela frente. As contrações vinham e eu cantava com elas.
Imaginei meu colo se abrindo como uma flor, como uma rosa lilás
e saindo tua cabecinha no meio das pétalas. Às 17:30 eu ainda
estava na cama e com dilatação de 5 cm. Foram avisar meus
pais que você só iria nascer lá pelas 20 horas. Eu
já estava em outro lugar. Ensimesmada, distante. Não ouvia
mais ninguém. Não lembro de mais nada. Deixei meu corpo fazer
o que ele sabia. Quando me dei conta, meu corpo estava fazendo força
de expulsão.
Estava com dilatação
total! Eram 18:00. Pulei da cama. Falei que precisava ir para a água
e pedi para tirarem o soro. Ainda deu tempo de limpar o sangue que escorria
da minha mão. Entrei na água, estava sozinha. Encostei na
borda, senti uma contração bem forte e coloquei a mão
e pude sentir a tua cabeça , teu cabelos, um monte deles. Encostei
na borda de novo, esperei, nova contração e de novo a mesma
emoção. Aí já estava na hora. Sozinha na água,
fiquei de cócoras, e na contração seguinte saiu tua
cabeça.
Eu estava alí sozinha e nem
acreditava. O Adailton soltou o cordão do teu pescoço, a
Dorothe tirou a roupa e entrou na água comigo, me segurou por trás
e aí o Adailton me pediu para fazer força para te ajudar,
pois você foi um bebê grande. E você nasceu, às
18:10 horas, com 4300 gramas e 54 cm, recorde da casa. Sem episiotomia
e sem laceração. O pediatra nem tinha chegado, pois foi tudo
muito rápido. Não tiveram tempo nem de chamar meus pais.
Cuidamos de você e só depois fomos ver que era uma menina.
Você não quis se mostrar e nem quis que tivessem pessoas assistindo
teu nascimento.
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