Georgia com os filhos
Giancarlo e Rebeca
Georgia

Nascimento do Giancarlo em Porto Alegre e da Rebeca em Campinas, ambos de parto natural em ambientes não hospitalares.


 
Carta a meus filhos

Queridos filhos,
quero agradecê-los pelas experiências que foram seus partos, pois junto com vocês eu nasci. Nasci como mulher, nasci como mãe. Me descobri como um Ser forte, forte o suficiente para fazer as escolhas da minha vida. Também vejo que encontramos as pessoas certas nas horas pontuais, para que vocês viessem da melhor forma possível. E estamos colhendo os resultados disto através do jeito que vocês são, crianças calmas, amorosas e inteligentes. Isto se deve ao tratamento humanizado que vocês tiveram, ao respeito das equipes que acompanharam seus nascimentos, e trataram tanto à vocês quanto à mim de maneira tão maravilhosa e carinhosa. Nos garantindo o direito à um atendimento humanizado, que nada mais é do que ter respeito e carinho pela mãe que está parindo, e à este novo Ser que vem ao mundo. Garantindo e preservando o decorrer natural dos acontecimento, com calma, com atenção, com afeto, com segurança, com carinho, com amor.

O primeiro parto: Giancarlo Doshin. O grande esperado. Teu pai e eu decidimos deixar que você escolhesse vir a hora que fosse certa. Parei de tomar anticoncepcionais oito meses antes de você se juntar à nós. Foi uma grande felicidade! E um susto imenso quando em uma ecografia a médica disse que era um menino! O que eu iria fazer com um menino? Levei um susto e fiquei com muito medo. Na nossa família só haviam dois meninos, meus primos. Com calma fui me acostumando à idéia e gostando cada vez mais. Tua gestação foi maravilhosa. O outono, o inverno e principalmente a primavera começaram a saltar nos meus olhos. Nunca tinha visto tantas flores antes, nunca tinha estado tão feliz. 

Os enjôos começaram a ficar cada vez mais fortes, tentei de tudo: gelo, sorvete, limão, bolacha, umeboshi, mas de repente eles se foram. Estávamos com três meses. Já no primeiro mês iniciei a preparação para o parto com yoga. Há muitos anos já tinha claro dentro de mim que não iria de jeito nenhum para o hospital dar à luz. Já tinha visto vários partos e a maneira como tratavam os bebês era extremamente chocante para mim. Imagine só, você fica lá dentro durante nove luas, todo enroladinho, e de repente você sai, te penduram pelo pé e te dão um tapa para você chorar? É chocante e bruto demais. Isso é inconcebível para mim. 

E então, surgiu uma equipe que iniciou um trabalho maravilhoso em Porto Alegre, a Genesis Partos Humanizados. O Jorge Mello fazia Aikido na academia de teu pai, e atende as gestantes com shiatsu. Com ele, sua companheira Marge, que também fazia Aikido, eu fazia yoga. O Joaquim, irmão do Jorge, obstetra, e sua esposa, Valéria, a pediatra. Fiz todo o pré natal com eles, indo todos os meses em consultas para te escutar. Isto tudo foi muito importante para que a gestação transcorresse da melhor forma possível. Não tive nenhum problema físico. Fiquei sim muito sensível emocionalmente. Todos os acontecimentos tocavam meu coração de forma contundente. Em muitos momentos sofri. Teu pai e eu sempre conversávamos contigo, passávamos óleo na barriga, cantávamos para você. 

Enquanto eu trabalhava eu punha meus headphones na barriga para você escutar música, que foi a mesma que coloquei para tocar durante o trabalho de parto e parto. E assim foi tua gestação. Fiz hidroginástica, e parei de praticar aikido. No último mês comecei a ter azia. O espaço estava ficando cada vez menor e nada me caia bem. Você já estava encaixado. Eu engordei bastante, muito além do recomendado, mas nunca ninguém me disse que isto seria um empecilho. Dezembro começou e o calor em Porto Alegre foi ficando cada vez mais úmido. Eu já não estava agüentando mais. A barriga começou a pesar mais e mais, tudo eu fazia com mais dificuldade. Faltava ar. E como seria? Esta era minha pergunta constante. 

Li muitos livros durante toda a gestação. Mas ficava temerosa de não saber identificar o início do trabalho de parto. Chegou o Natal e minha família foi nos visitar. Passamos quatro dias com eles entre passeios e contagens das contrações que estavam cada vez mais presentes. Eu vivia com papel e caneta na mão. Todos perguntavam quando iria ser. E eu lá sabia?! Esta, acho que é a pior fase, quando todos ficam perguntando se já nasceu, pessoas ligando, outras te encontram na rua e dizem ainda?! A família voltou mas minha mãe ficou conosco. Passamos juntos o Reveillon. 

Mas só no dia 02 você se manifestou. Acordei de manhã com um pouco de líquido entre as pernas. Era claro, e tinha um cheiro característico, cheiro de esperma. Liguei para o Joaquim. Combinamos de nos encontrar às três da tarde no consultório. Fomos passear, almoçar e rumamos para lá. Tinha chegado a hora. As contrações estavam mais intensas e rítmicas. Eles iriam para a academia à dezenove horas. Fomos fazer compras no supermercado, pegar nossas coisas, buscar teu irmão e minha mãe e rumamos para lá. Tínhamos decidido fazer o parto na academia de Aikdio, que era nosso canto, pois estávamos morando com tua avó. Eles chegaram pontualmente. A Marge e o Jorge vieram depois pois eles estavam viajando. Montaram todo o equipamento e depois subiram para fazer uma oração. 

Fiquei caminhando pelo tatami durante as contrações. Subia e descia a escada, caminhava bastante, isto me ajudou muito. Às onze horas subimos e eles me colocaram soro, pois as contrações estavam ficando desritmadas. As contrações foram ficando cada vez mais fortes. Sentia os ossos da bacia se abrindo. Doía muito. Fiquei na posição de quatro apoiada nos cotovelos, aliviou bastante, mas elas prosseguiam mais e mais fortes. Sentia cada vez mais dor nos músculos da pelve. Não queria ser tocada por ninguém. Fiquei ensimesmada, quieta, absolutamente dentro de mim, num estado de completa interiorização. Fui algumas vezes ao banheiro fazer xixi. E subir e descer a escada ajudava. Estava quente, mas colocaram um aquecedor na sala para que você fosse não sentisse tanto frio na chegada. Colocamos música, meia luz, e o silêncio era total. 

Comecei a sentir cada vez mais dor, mas era uma dor bem vinda. Algumas vezes o Joaquim fez exame de toque para sentir a dilatação do colo do útero e isto doía muito. Quanto a dilatação foi total, fiquei de cócoras com teu pai me segurando por trás. Foram cinco contrações, e o Joaquim falando para eu fazer força de expulsão quando então saiu tua cabeçinha. Ele tirou o cordão do teu pescoço e depois, na próxima contração, você veio ao mundo. Eram 2:58 horas. Nasceu grande, com 3980 gramas, e 52 cm. Sem episiotomia, com uma rotura de 1 cm. Aquele Ser que antes estava dentro de mim agora já tinha sua independência. Te peguei no colo e ficamos juntos, o cordão parou de pulsar, teu pai o cortou. Você mamou, e ficamos assim até a pediatra te examinar. A equipe nos acompanhou até às 6:00 horas, foram embora, e nós ficamos alí, em êxtase, sem conseguir dormir...

O segundo parto: Rebeca Shobo. A grande surpresa, a grande mudança. Você veio para mudar tudo, e contigo minha vida mudou. Fiquei surpresa pois não esperava engravidar tão cedo assim, mas lá estava você. Tive muito medo, revolta,  pois estava recomeçando profissionalmente, estava com problemas no relacionamento com teu pai, mas você estava alí. E uma grande mudança começou. Me separei quando estava com cinco meses de gestação. Organizei toda a mudança, foi um processo muito dolorido pois aconteceram muitas, mas muitas coisas desagradáveis entre teu pai e eu. Voltei para Santo André, SP, para a casa de meus pais que me acolheram da melhor forma possível. 

Cheguei aqui com sete meses, pois era o prazo máximo que as companhias aéreas permitem que uma gestante viaje. Nas ecografias que fiz, não dava para saber teu sexo, e foi assim até o teu nascimento, uma surpresa. Com a experiência do parto de teu irmão, comecei uma romaria para encontrar alguém nesta cidade que fizesse parto domiciliar. Encontrei sim, muita resistência, críticas, e soberba por parte de médicos que achavam minha idéia maluca, e ficavam impressionados com a minha informação sobre o que eu queria para meu parto. Fui aconselhada pela equipe Gênesis a procurar um médico em Campinas, que fazia parto na água, mas à princípio achei que era longe demais. Arquivei a idéia, que logo em seguida retornou pois não achava ninguém que pudesse fazer o que eu queria. 

Conversei com o Adailton em janeiro, com oito meses!!! E ele me adotou e abraçou meu plano de parto: na água, em sua Casa de Parto. Minha primeira consulta com ele foi no dia 10 de janeiro. Você nasceu no dia 02 de fevereiro. De novo toda aquela pressão familiar, só que agora mais intensa, pois estava morando com eles. Num sábado de manhã achei que a bolsa tinha estourado, mas fomos para Campinas e nada. Foi um grande alarme falso. Todos estavam preocupados se daria tempo de chegar à tempo lá. Fazíamos os melhores percursos para a semana e para o final de semana para sabermos quanto tempo demoraríamos até lá. Até que chegou o grande dia. 

Numa Quinta-feira pela manhã as contrações estavam de cinco em cinco minuto, com uma duração de 40 segundos e já durava uma hora neste ritmo. Minha mala já estava pronta e partimos para Campinas. Avisei toda a família, teu pai (que não estava), e minha amiga Kátia, que foi junto conosco. Minha mãe perguntava o tempo inteiro como estavam as contrações. Chegamos em Campinas e fui examinada. As contrações pararam e os teus batimentos cardíacos estavam no limite mínimo do suportável. Hospital? Que nada, a presença de espírito do Adailton me mandou tomar banho e descansar. 

Dormi bastante, e quando acordei fizemos novo exame e você já estava melhor. As contrações iam e vinham. Minha mãe entrava para perguntar quando você ia nascer e tudo parava. Fizemos três induções. Toda a minha família foi para a clínica. Dormiram em Campinas, e quando todos foram embora na Sexta-feira à tarde, na terceira indução, e pedi para que ninguém entrasse no quarto, a bolsa estourou às 15:00 horas. Até então eu ficava me perguntando porque eu estava bloqueando o processo todo. Aí o trabalho de parto começou para valer. As contrações vinham cada vez mais forte. Eu fiquei na mesma posição do primeiro parto, de quatro sobre os cotovelos. Eu agradeci cada uma das contrações porque elas estavam ajudando você a nascer. E doía muito. 

Achei que não fosse conseguir, pois eu estava só alí, não tinha ninguém comigo, eu não tinha mais companheiro. Pedi para ir para o hospital e graças ao Adailton que morreu de rir de mim não fomos. A Dorothe ficou ao meu lado, uma doula maravilhosa, e lembro dela me dizer que eu conseguia, já tinha passado por isto. Mas talvez fosse isto, saber o que vinha pela frente. As contrações vinham e eu cantava com elas. Imaginei meu colo se abrindo como uma flor, como uma rosa lilás e saindo tua cabecinha no meio das pétalas. Às 17:30 eu ainda estava na cama e com dilatação de 5 cm. Foram avisar meus pais que você só iria nascer lá pelas 20 horas. Eu já estava em outro lugar. Ensimesmada, distante. Não ouvia mais ninguém. Não lembro de mais nada. Deixei meu corpo fazer o que ele sabia. Quando me dei conta, meu corpo estava fazendo força de expulsão. 

Estava com dilatação total! Eram 18:00. Pulei da cama. Falei que precisava ir para a água e pedi para tirarem o soro. Ainda deu tempo de limpar o sangue que escorria da minha mão. Entrei na água, estava sozinha. Encostei na borda, senti uma contração bem forte e coloquei a mão e pude sentir a tua cabeça , teu cabelos, um monte deles. Encostei na borda de novo, esperei, nova contração e de novo a mesma emoção. Aí já estava na hora. Sozinha na água, fiquei de cócoras, e na contração seguinte saiu tua cabeça. 

Eu estava alí sozinha e nem acreditava. O Adailton soltou o cordão do teu pescoço, a Dorothe tirou a roupa e entrou na água comigo, me segurou por trás e aí o Adailton me pediu para fazer força para te ajudar, pois você foi um bebê grande. E você nasceu, às 18:10 horas, com 4300 gramas e 54 cm, recorde da casa. Sem episiotomia e sem laceração. O pediatra nem tinha chegado, pois foi tudo muito rápido. Não tiveram tempo nem de chamar meus pais. Cuidamos de você e só depois fomos ver que era uma menina. Você não quis se mostrar e nem quis que tivessem pessoas assistindo teu nascimento. 
 


Santo André, 26 de julho de 2001.
Georgia Cardoso Gazola
georgia_gaz@uol.com.br


página principal          menu de depoimentos


Direitos Autorais