| Quando nos mudamos para o Brasil
em julho de 95, não tínhamos a menor idéa do padrão
de médicos que iríamos encontrar. Foi uma surpresa desagradável
constatar a freqüência exorbitante de cesarianas nesse país.
Em nosso país, a Holanda, a prática comum é o parto
natural, com incidência de quase 40% de partos domiciliares com parteira.
Os hospitais são apenas para circunstâncias especiais.
Tomar conhecimento deste fato nos
estimulou a buscar na medicina alternativa, principalmente a homeopatia,
médicos que tivessem uma visão diferente. Mesmo porque para
nosso filho mais velho, era preciso encontrar um pediatra que náo
estivesse restrito à alopatia. Nessa busca encontramos uma pediatra
que atendia também pela Medicina Tradicional Chinesa. Na primeira
consulta ficamos agradavelmente surpresos ao descobrir que na mesma clínica
realizavam-se partos ativos.
Essa foi a primeira descoberta entre
muitas outras que viriam e um primeiro passo em direção a
uma gestação feliz e um parto cheio de ricas recordacões,
superando, em muito, a minha primeira experiência na Holanda. Toda
tecnología e equipamentos disponíveis no meu país
não foram suficientes para garantir um parto sem complicações.
Assim, para essa segunda experiência iria requerer uma nova postura
e uma restruturação emocional a fim de superar as más
lembranças. Optamos, portanto, por ter nosso segundo filho fora
do ambiente hospitalar.
Durante o pré-natal recebemos
todo tipo de orientação possível. Nos foi sugerido
a leitura de diversos livros para ficarmos bem informados a respeito de
todas as nuanças do parto ativo e da importância da participação
do pai em todo esse processo. Freqüentamos reuniões de Grupos
de Grávidas e Grávidos onde pudemos compartilhar todas as
experiências, dúvidas e ansiedades sobre gravidez, nascimento
e cuidados com o bebê. Tínhamos certeza de que, dessa
vez, seria diferente.
O grande acontecimento se fez anunciar
através do rompimento da bolsa. Era 29 de outubro de 1996, 18.30
da tarde de uma terça-feira. Após o exame, o médico
confirmou a suspeita. As contrações não haviam começado
ainda e, em vez de indução ou cesariana, ele nos orientou
voltar para casa e esperar as próximas 12 horas. Lá arrumei
a mala, passei ropa, tomei banho e avisei a babá, uma vez que não
tínhamos nenhum parente desse lado do mundo. E fomos dormir.
As contrações começaram
a 1h da madrugada e quando voltamos para a clínica às 7 da
manhâ, eu já estava com 4 cm de dilatação. Em
casa, e depois na clínica eu me permiti utilizar todas as posições
que desejava para relaxar e aliviar as dores. Sentei, andei, me deitei
de lado, me agachei, fiquei de joelhos e um dos momentos mais reconfortantes
foi o contato com a água, primeiro no chuveiro e depois na banheira.
Realmente ajuda. Era incrível como meu corpo me dizia o que fazer
e como era bom poder dar ouvidos a ele!
Eu estava no comando e sentia uma
imensa necessidade de me interiorizar. Foi muito positivo verificar que
todas as pessoas que estavam ali comigo: médicos, assistentes, amigos
e marido, me proporcionaram essa introspeção e fizeram o
possível para me oferecer um ambiente favorável ao nascimento
do meu filho.
Às 11h30 o médico rompeu
o que restava das membranas e rapidamente as contrações se
intensificaram. Quando eu já estava com a dilataçåo
quase total o Dr. Adailton me pediu para sair da banheira, pois o batimento
cardíaco do Nicholas diminuia de ritmo durante as contrações.
Assim, o parto não poderia ser realizado na água. Nesse momento
senti a primeira contração de expulsão. Assumi a posição
de joelhos apoiada num puff. O período expulsivo não levou
mais do que 20-30 minutos, mas me pareceu uma eternidade. Perdi a noção
do tempo e hoje sou incapaz de definir exatamente como eram essas contrações.
Sei apenas que eram fantásticas;
uma dor que jamais senti e um poder incontrolável que tomava conta
do meu corpo. O meu eu mais primitivo se manifestava e sabia exatamente
como agir. Gritei para o primeiro parto e o segundo ao mesmo tempo. Houve
um instante que pensei que não ia conseguir, mas receber as massagens
do meu marido e ouvir as palavras de estímulo e coragem da equipe
nos intervalos das contrações me revigoravam o bastante para
ir até o fim.
Uma episiotomia se fez necessária
e após mais 3 contrações o Nicholas nasceu. Sentir
o bebê escorregar para fora é uma sensação indescritível.
Eu pude sentir o seu corpo deixando o meu, seguido apenas pelo seu choro
e o alívio total das minhas dores.
Quando me passaram ele por baixo
das minhas pernas, eu olhei para ele, toquei sua face e ,só então,
o tomei nos meus braços. Toda uma eternidade em um só instante,
como se ele sempre estivesse estado lá comigo. Um momento especial
também estava reservado para o pai; o primeiro banho do Nicholas
foi nos braços do pai, juntos na banheira.
As primeiras horas depois do parto
nos possibilitaram repouso, intimidade e confraternização
com todos os que participaram dessa nossa grande experiência. A esses,
fica minha eterna gratidão pelo envolvimento e dedicação
e por terem tornado possível a realização de um sonho.
Essa é, fundamentalmente, a grande diferença entre o parto
que tivemos na Holanda e esse aqui no Brasil. Eu senti aqui que realmente
se importavam comigo, com o meu bebê e com meu marido. Esse profissionais
fazem de seus trabalhos suas vidas, e não uma relação
estritamente profissional. Por isso pudemos vivenciar toda a magnitude
de um parto natural, ativo e feliz!
Agradeço a todos por isso!
página
principal menu
de depoimentos
|