PRIMEIRO
PARTO: FRUSTRAÇÃO DA CESÁREA E PAIXÃO À
PRIMEIRA VISTA
Com 32 anos decidi que dava
para realizar meu desejo de maternidade. Morava em São Paulo, mas
resolvi mudar para o Rio de Janeiro na hora do parto e para alguns anos
a seguir. Mas estava até em dúvida se não fosse melhor
deixar nascer minha filha ou filho na minha terra, a Itália, em
Roma, perto da minha mãe, irmã e amigas importantes e queridíssimas,
um mundo feminino para mim vital.
Não quis saber o sexo
até o fim, não sentia curiosidade em relação
ao ultrassom, pelo contrário, tirava os óculos e esperava
acabar o mais rápido possível. Só me emocionei na
primeira.
Eu e Rogério dizíamos
“ela”, mas a partir do momento em que senti mexer, senti também
que a decisão não era minha, mas desta nova presença.
A concepção
foi num momento intenso e espontaneamente acontecido, uma onda de desejo
que partiu de mim. Então sempre soube quando tinha sido, apesar
de ninguém se interessar em saber para cálculo dos meses.
Minha médica sim, ela me escutava. Eu estava consciente sobre as
possibilidades dos partos ativos e tinha procurado uma médica mulher
que os fizesse, aqui no Rio.
Eu tinha um ideal muito
grande, uma idéia positiva de parto e não imaginava ainda
que só idéia e representação mental do parto
não basta. Minha mãe, através das palavras, sempre
me transmitiu, aparentemente, a naturalidade, a ausência de dor insuportável
e a beleza do evento. Mas... .
A vivência na pele
tinha sido outra, a dela no meu nascimento, a dela no parto do terçeiro
filho, a minha aos 4 anos com o nascimento deste meu irmão que sofreu,
por causa de médicos, um retardo mental... . mas isso tudo eu entendi
depois, bem depois, só depois do segundo parto.
A gravidez foi ótima,
apesar dos barulhos e da poluição da cidade e da frustração
de não estar perto da natureza como sonhado. Na data esperada chegaram
as contrações, pouco depois do tampão ter saído,
de noitinha, no final de um dia em que andei muito na praia de Ipanema
junto com minha mãe e meu irmão, chegados da Itália.
Cada sinal me entusiasmava,
relia os livros, Janet Balaskas, Leboyer, consegui ficar a noite toda em
casa, cochilando entre as contrações ou andando durante,
enquanto Rogério cronometrava, escrevendo os minutos, os intervalos...
até de manhã. Às 7 h fomos para a clínica Perinatal
escolhida por ser só Maternidade e Livio nasceu só 6 horas
mais tarde, apesar da noite toda de contrações. (ao todo
foram 14 horas de TP)
(o nome Livio foi dado muitos
dias depois)
As últimas três
horas foram terrivelmente doloridas e sofridas. As contrações
tomavam conta de mim de uma maneira desesperadora, não aguentava,
a dor era acima dos meus limites, cheguei a cochilar em pé apoiada
na cama e quase a falar em italiano meio delirando... ou seja, o parto
estava difícil, a criança queria sair e batia, batia mas
não conseguia passagem até que, resolvendo estourar a bolsa,
Lilian viu que o bebê estava em sofrimento e optou por uma cesárea.
Sofri muito ainda para conseguir ficar parada e permitir a peridural. Mesmo
confiando nela, desde que soube da cesárea começei a chorar
de frustração, decepção, tristeza, disse brincando
que a natureza tinha me traído (deixando entrar muito ar que não
devia entrar na hora da cirurgia); só quando vi o bebê nos
meus braços o choro foi de emoção.
Era um menino, pelo qual,
apesar da minha preferência em ter menina, me apaixonei logo. O pessoal
da equipe que faz partos Leboyer, faz cesáreas também diferentes.
Ninguém falou alto, abaixaram as luzes, me deram o bebê logo.
Ele não chorava, olhava em volta dele e para mim, num silêncio
de calma ternura que nunca vou esquecer. Parecia vir de longe, de um outro
mundo. Eu e Rogério sim, chorávamos.
De volta para o quarto trouxeram-me
o meu filho depois de menos de uma hora, amamentei e dormi com ele todas
as noites até... poucos meses atrás... Ele tem hoje quase
5 anos.
Não tenho dúvidas
sobre os fatos da cesária ter sido necessária, mas demorei
em superar a sensação de derrota.
De qualquer forma não
fui eu que fiz o parto, tiraram a criança de mim e me deram.
Não pude passar pela
grande experiência do parto, e não aceitei muito bem a idéia
de um corte e de uma cicatriz. Talvez somente a amamentação
permitiu retomar aquelas sensações de ligação
com as leis da natureza e do cosmo envolvidas na gravidez e interrompidas
pela intervenção cirúrgica. Amamentando voltei a sentir-me
próxima às fêmeas de todas as espécies e às
mulheres de todos os tempos e todas as raças.
PARTO
NORMAL: UM RITO DE PASSAGEM
Mais de 2 anos depois, no
final do desmame gradativo do Livio e no Natal frio de Roma, “quis” engravidar
da Flora. Ou ela quis chegar na hora dela. À pergunta se foi planejada
ou por acaso, respondi: nem uma nem outra. Não teria planejado no
sentido de “liberar”- pois planejar mesmo acho impossível se for
viver a sexualidade com ritmos e desejos autênticos – porque ia viajar
de avião de volta para o Rio. Mas também não foi “sem
querer”, pois de novo uma onda poderosa de atração tomou
conta do meu corpo e dos meus sentimentos e a força da sexualidade
guiou meus desejos até envolver de novo o Rogério, e sabendo
que estava ovulando naqueles dias... o prazer foi mais intenso ainda e
depois sonhei que dizia: que desejo de filho que eu tinha! (em italiano,
obviamente...). Estava lendo As Brumas de Avalon, onde a sacerdotiza Morgana
recupera seu antigo poder numa relação sexual com o homem
amado e escolhido.
A essência feminina
da Flora queria se manifestar já nos sonhos, sonhava que nascia,
vestida e só depois descobria que era menina, toda vez o mesmo sonho...
Nem desta vez quis saber do sexo com antecedência. Até na
hora do parto pedi para ninguém me dizer, queria ver com meus olhos.
Gravidez ótima de
novo, yoga, praia, trabalho sem esforços excessivos... a chegada
da minha família, desta vez minha irmã também, a qual
sonhou, nas duas vezes aliás, o sexo certo das crianças e
características correspondentes à verdade.
Li novamente As Brumas de
Avalon inteiro. Sinais mais espaçados, tampão saindo muitos
dias antes do parto, aquela ansiedade “será que vai dar para minha
família curtir” já que eles sempre tinham uma volta marcada.
De noite Livio começa a ficar gago, agitado. É Lua cheia.
No dia seguinte as contrações. Minha irmã me massageia
e relaxa. Meu intestino quer esvaziar-se espontaneamente, reconheço
nisso outro sinal. Às 16 horas vamos para a Perinatal como para
o primeiro parto.
Estou de novo confiante,
talvez menos do que na primeira experiência, mas mesmo assim esperançosa
de ter um parto normal e de cócoras possivelmente. Nem gostaria
de usar a cadeira por mais moderna e alternativa que seja. As contrações
param ao chegar na clínica. Mas depois voltam e as duas últimas
horas são de dores fortíssimas, a bolsa estoura com uma violência
de um temporal de verão numa contração de tal impacto
que fico quase branca, diz a Lilian, minha médica. A enfermeira
vai e volta para limpar o chão do quarto mas dizemos a ela qua não
precisa, melhor esperar tudo terminar. Perambulo pelo quarto, não
suporto que o Rogério me fale, as sugestões me irritam, só
quero apoio físico, dele, da Lilian; dela aceito palavras também,
palavras calmas, firmes e presentes, como a sua presença e seu olhar.
As dores se tornam de novo
desesperadoras, até peço “qualquer coisa” para diminuir esta
tortura. Acreditava e acredito em partos sem dores, ou com dor suportável,
mas os meus não foram desses. Apesar de lembrar da dinâmica
do primeiro parto, a Lilian propõe ainda tentar um parto normal
mas para isso precisa de uma ligeira peridural para aliviar as dores de
um mínimo que permita um relaxamento e participação
melhor. Eu tinha até pedido cesárea se fosse necessário
para parar de sofrer... !
Na sala de trabalho de parto
de novo sofro tremendamente para conseguir a peridural, ficar parada com
dores alucinantes me dá a sensação que não
vou agüentar mais e que vou desmaiar. Rogério deixa que seu
corpo me sustente e me permite apertá-lo até doer para poder
suportar as contrações imóvel. Depois, continuo sentindo-as
fortes mas a dor agora é suportável. Começo a fazer
força, não sei quanto dura tudo isso, é cansativo
mas
ponho toda a energia possível, a cabecinha do bebê aparece,
mas não consegue sair. E vai, e nada, e vai e nada, tentativas e
nada.
Lilian comenta que está
acontecendo algo parecido a meu primeiro parto, apesar de ter evoluído
bem mais e da cabeça aparecer. Vai ter que usar um forceps de alívio
ou fazer cesária. O assistente de cirurgia liga de vez em quando
para saber se tem que aparecer em caso da cesárea, ou não...
a Lilian manda toda vez esperar e ligar de novo. Forceps ou cesárea?
Rogério logo diz “cesárea!” preocupado com a ideia do forceps
e eu reajo logo dizendo para não se anticipar, minha decisão
é prioritária. Pergunto a Lilian como seria com o forceps
de alívio e ela me explica que usou pouquissimas vezes em 20 anos,
e seria só para ajudar na passagem e não para puxar pela
cabeçinha. Eu, eterna indecisa e medrosa das responsabilidades deixo
a ela a decisão final.
E
ela : “ENTÃO VAMOS TENTAR MAIS UMA VEZ”.
Estas palavras mágicas
até hoje ressoam como um momento crucial e pelas quais serei eternamente
agradecida. Palavras mágicas porque abriram em mim um horizonte
novo, um espaço procurado, uma necessidade de encarar o presente
com uma iniciativa decisiva.
Realmente soube que era
agora ou nunca mais, que queria me abrir, queria abrir as passagens e esta
porta misteriosa entre a vida externa e as profundezas do meu interior
– talvez aquele véu entre os mundos que as sacerdotizas de Avalon
sabem atravessar - e ajudar esta criança a sair, participar desta
experiência dela, estarmos juntas de verdade na hora da separação.
Me lembro ainda dos músculos da virilha e dos ossos se relaxando
num segundo de tempo e milimetricamente, e ouvi a Lilian incitar com entusiasmo
"Assim, Anna"; chamei as forças da natureza, pensei nas montanhas,
no mar, em todas as águas e na terra.
Até então
tinha continuado a empurrar a cada contração que vinha como
maré alta, agora estava exausta mas de repente, graças a
um surto de misteriosa energia, numa fração de segundo, me
senti sendo atravessada por algo da cabeça aos pés e com
uma velocidade inesperada seu corpo inteiro escorregou para fora de mim
quase me dando um sobressalto de susto.
Ela gritava, colocaram-na
sobre minha barriga ainda com o cordão unido a mim, ninguém
me disse nada, vi com minha vista fraca sem óculos que era menina.
Rogério cortou o cordão, mas eu nem percebi direito, já
estava amamentando para poder acalmá-la. Eu e ela tínhamos
feito uma viagem juntas.
Voltando para casa, li no
jornal que a autora de As Brumas de Avalon tinha morrido no dia do nascimento
da Flora. Que presença deste livro até o fim!
Depois do parto da Flora,
apesar das dificuldades e da necessidade de recorrer às intervenções
hospitalares e mais agressivas (anestesia, posição semi-deitada,
episiotomia), muita coisa mudou. Aliás, não mudou. Se abriu.
Novos caminhos desabrocharam
na minha vida, novas possibilidades de vida a ser exploradas, interesses,
quem sabe futuros novos trabalhos... Ainda estou neste processo de re-nascer,
de me redefinir e de elaborar os meus limites com os quais me deparei no
sofrimento do parto. Descobri limites grandes e ao mesmo tempo o trabalho
para superá-los. No parto da Flora senti que os limites, ao mesmo
tempo que existem, você não imagina quanto pode sempre ir
muito mais além do que pensa.
Outra coisa que fui repensando
aos poucos: a minha verdadeira vivência de parto, meu próprio
nascimento – fiz perguntas à minha mãe – e o nascimento traumático
do meu irmão quando tinha 4 anos. Quanta angústia e solidão
minha mãe deve ter trazido para casa no lugar da expectativa de
um novo irmãozinho... Nunca tinha refletido a respeito. Nem depois
do primeiro parto. Nem sabia que minha mãe não tivera contrações
no meu próprio nascimento e queria na verdade me segurar dentro
dela.
Só a potência
e intensidade vivenciada no parto da Flora cortou esta cadeia enigmática
e estática. Me induziu a procurar mais perguntas no meu corpo, procurei
a antiginástica e isso me ajudou a estimular uma visão mais
sutil dos acontecimentos do corpo e das emoções, e uma visão
mais ampla dos meus partos. Dei a minha filha e a mim mesma um impulso
diferente, de energia mais ativa, confiante, ligada aos antigos poderes
das mulheres, forjada pela natureza. Por isso chamei ela de Flora.
Ela tem uma lua em Áries,
quem sabe se a energia veio de mim ou dela. Ou das duas, da nossa total
fusão até a hora do parto, e até naquela hora.
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