Adriana e Beatriz aos 8 meses (1998)
Adriana
Um parto domiciliar (no Rio)

1) Gerando e Gestando
2) Escolhendo o parto
3) Preparando-me para o parto
4) O parto
5) Depois do parto...


 
1) Gerando e Gestando

Numa noite de lua cheia,  lá pelo dia 21 ou 22 de maio de 97 eu e o Chico concebemos a Beatriz e eu disse: "Agora é só esperar nove meses". 

Seis meses antes havia perdido um filho, com 19 semanas por causa de uma série de situações de grande stress. Tinha sido uma gravidez que chegou antes do previsto. Tive enjôos terríveis, de ficar carregando saquinhos nos ônibus. Mas depois desta, agora sim, eu queria finalmente ter a filha que esperava há mais de dez anos. Eu estava na época com 34 anos.

Esperei o tempo de praxe: seis meses e depois tentamos. Não fiquei grávida e me decepcionei. Então encarei o fato de que não conseguia assumir ter um filho em plena consciência porque esse mundo não é lá grandes coisas, né? No final de abril consegui amadurecer a decisão: e engravidei da Beatriz.

Enjôos? Não. Só lembro de uma vez, no quarto mês. Fiquei os primeiros três meses sem ir a nenhum ginecologista. Não queria ninguém “mexendo em mim”, como se pudesse perturbar o “enraizamento” da gravidez.

2) Escolhendo o parto

No começo do quarto mês fui a uma médica que me haviam indicado. Ela era simpática, aparentemente descontraída mas não sintonizei com ela porque simplesmente não respondia às minhas perguntas e necessidades. A situação culminou num dia em que lhe disse – de saída do consultório – que eu queria um parto de cócoras – sei lá que iluminação eu tive! - e ela respondeu caçoando das minhas idéias “malucas”... riu e me disse que de jeito nenhum ela ficaria agachada esperando meu neném cair no colo dela! Reagiu como se eu não soubesse do que estava falando e me tolerava porque me considerava uma “pobre mãe” leiga e ignorante...

No quinto mês fizemos uma nova ultra-sonografia. Eu já sabia que era uma menina mas os outros não acreditavam então na noite anterior pedi para minha filha “revelar-se”  e lá estava ela de bumbum pra cima e de pernas abertas! Que felicidade!!!

Saí do consultório e comprei meus primeiros livros sobre gestação: duas agendas de acompanhamento. Uma bonitinha, rosa de florzinhas, cheia de dicas preciosas e outra mais técnica escrita por duas mulheres (americanas) que apresentavam no final todos os tipos de parto possíveis: todos. Este livro me ajudou a tomar consciência de que queria mesmo um parto em casa. Por que ir para um hospital? Fiz a proposta para o Chico e ele, que vinha de um primeiro casamento em que teve três filhos todos de cesárea eletiva e foi afastado da sala cirúrgica para “não dar problemas”, topou entusiasmado.

Aí senti que tinha que procurar a Fadynha, e não lembro como é que sabia dela. Fomos lá, eu e o Chico, e começamos o curso de Yoga para Gestantes. Já no primeiro encontro pedi para que me indicasse uma médica disposta a fazer um parto em casa.  Assim conheci a Stella Marina Ferreira e marcamos uma consulta. 

Durante o Encontro anual da Fadynha (Encontro Nacional de Gestação e Parto Natural Conscientes, no Rio) que iniciou depois de poucas semanas, senti aquele ar gostoso de respeito pela gravidez que me fez enxergar o mundo lá fora como profundamente "desconfortável" para uma mulher grávida. Mas, isso tudo era ainda embrionário. Logo na primeira mesa havia quatro mulheres discutindo parto, dentre elas a Lívia Pavitra (de Brasília). Fiz perguntas sobre o parto em casa e a Lívia - que teve 5 filhos de parto natural – me apoiou e ainda por cima com um belo sorriso. 

No intervalo fui para o jardim sentei na grama e mergulhei em mim mesma tentando perceber o que realmente queríamos, eu e minha filha e, por incrível que pareça eu senti que ela queria nascer em casa. Fiquei muito feliz.Estava no início do sétimo mês.
 

3) Preparando-me para o parto

No oitavo mês eu já estava pensando no parto com maior clareza e também com mais medo. Porque o parto é uma assombração que acompanha - acho eu - toda mulher desde o princípio, cinza clara no começo, sempre mais preta lá pro final. Bom, me dei conta da ligação do meu medo com o meu parto, o meu próprio nascimento. Minha fantasia dizia que iria me sentir "sufocada". O que evidentemente não tem muito a ver, ma a fantasia era forte. O que me contaram é que meu parto foi demorado, "um dia inteiro!", nasci "roxa e feia"... Fiquei pensando se foram realmente 24 horas de trabalho de parto, depois descobri que foram 12 - 12 horas (um tempo “normal” para o primeiro parto) muito mal vividas porém! Minha mãe, deitada numa cama de hospital, sem muito apoio emocional e com apenas 23 anos que na época eram como os nossos 15 hoje (ou até menos!). Eu devia estar sufocando, pelo jeito... mas foi parto natural e sem fórceps.

Comecei a me trabalhar, distinguindo dentro de mim as situações: o meu nascimento e o da Beatriz: coisas diferentes. E enfim, passei isso pra ela: conversei com ela pra que ela não tivesse medo por projeção com os meus temores e memórias.

Uns tempos depois eu percebi o quanto é estranho você ter outro ser na barriga e não saber sequer quem é! Poderia até ser um extra-terrestre! Então uma noite a sonhei: vi minha filha de pé ao lado da cama me olhando. Ela era tão bonitinha e na verdade muito parecida com a realidade (como descobri meses depois). Olhava-me com aqueles olhos grandes, como se quisesse se apresentar e me dizer: "Sou eu!". Assim me tranqüilizei.

Nos últimos meses da gravidez tive uma fome terrível, a Stella me apoiava e eu comia com todo prazer! Ganhei perto de vinte quilos! 

O nono mês foi muito tenso. Estava nervosa. Começaram a vir à mente todo tipo de pensamento negativo e sentia como um canto de sereias que me convidava constantemente a ir pelo caminho "mais fácil": um hospital onde me entregaria nas mãos dos outros... eu odeio hospitais, sou arredia a qualquer tipo de intervenção médica... Cheguei a pensar que as mulheres ainda podem morrer de parto (o que é verdade)! E, sobretudo, eu não sabia qual seria minha própria reação na hora do parto: como confiar em mim? Ficava pensando: poderia até querer uma cesárea se não agüentasse! Seria o cúmulo do cúmulo, mas quem poderia dizer o ia acontecer? 

Em primeiro lugar, eu queria ser LIVRE para decidir aquilo que iria sentir necessidade de fazer e RESPEITADA em qualquer circunstância. 

Por precaução visitamos um hospital que ficava há uns dez minutos de carro no máximo da nossa casa. Vi todas aquelas máquinas, o berçário, tudo verdinho e bonitinho e senti arrepios. Mas fomos: praxe. 

Enquanto isso, preparamos o material indicado pela Stella para o parto: duas dúzias de fraldas de pano, dois lençóis de solteiro brancos, uma lâmpada (para exame final), um colchonete e uma capa de plástico para forrar tudo. O Chico pegou uma bomba de oxigênio na casa da Marta, a pediatra neonatologista, estávamos prontos.

As consultas com a Stella eram feitas de longos papos, ela quase não fazia toques, falávamos de tudo. Mas no final eu comecei a ficar nervosa. Queria saber e saber. Queria que minha mente tivesse as informações necessárias e CORRETAS para colaborar com meu corpo. Se pensasse “abobrinhas” iria atrapalhar o processo. E tinha também uma dose de medo que buscava um certo controle sobre a situação – controle hoje que sei ter seus limites.

4) O parto

Eu achava que a Beatriz fosse nascer lá pro dia três de fevereiro. Imaginem que nem havíamos comentado sobre a data provável do parto. O clima era sempre o mais descontraído possível, nenhuma neura sobre os “dados técnicos”.

Minha tensão abrangia não a gravidez, mexeu com todas minhas relações afetivas, sobretudo as familiares e andei resolvendo algumas questões não fáceis mas importantes.

Eu já não via a hora que minha filha nascesse, as últimas semanas são cansativas porque estamos “grandes” e pesadas, me parecia que eu ia permanecer grávida a vida toda!!!!

Na tarde do domingo do dia 15 de fevereiro, recebo um telefonema do meu pai e o papo foi leve e solto e assim eu me acalmo em relação as questões familiares. Fico deitada no escuro, descansando  e.... lá pelas 11 horas da noite chegaram as primeiras contrações!!!


Marta a pediatra, Stella Marina a obstetra e Fadynha a doula: um dos segredos de um bom parto é estar contida por uma equipe afinada e harmonizada com você
O incrível é que estava tranquila!! Ligamos para a Fadynha e para a Stella. As duas, também tranquilas, pediram para serem chamadas lá pelas seis da manhã... e nós fomos para o quarto.

O Chico, em sua euforia, encostou nossa cama contra a parede, lavou o chão, pôs um colchão de solteiro no chão, o colchonete, forrou-os, pegou bloco e caneta e começou a anotar os tempos (a duração de cada contração e o intervalo entre uma e outra). Enquanto isso, eu encontrei uma posição bem "gostosa", sentada no colchão no chão, apoiada contra uma almofada.

Chegavam as contrações e depois eu "caia" num sono profundo, ou talvez cochilasse porque me parecia estar acordada... Uma vez olhei pro teto, na altura da luminária e lá estava a Madona, tranquila, sorridente, olhando "pra baixo", e eu entre as ondas... Em outro momento vi dois anjos, um pouco mais pra cá, à direita, conversando entre si e olhando para aquela cena evidentemente agradável para eles. Estavam animados e tranquilos, sorrindo felizes.

As contrações doíam, sim, mas depois tudo passava e eu descansava. A dor não era insuportável, dava pra levar. Assim passou a noite, sem que eu percebesse. O processo (até o nascimento) todo durou 12 horas: parece muito mas não é. Na manhã, chegou a Stella. Sossegada, pediu pro Chico um cafezinho e os dois ficaram batendo papo na cozinha!!!! As contrações se aceleraram, já não dava  mais pra ficar sentada. Começamos a andar. 

A Fadynha já tinha chegado, discreta e silenciosa. A Stella pegou minhas mãos e fomos andando pela casa. Agora a cada contração o certo, o natural, era mesmo agachar-se e aí doía mais.... Eu estava um pouco tonta - me disseram que era por causa da respiração acelerada. As ondas sempre mais fortes... e eu andando. Comecei a ficar preocupada porque senti que estava chegando ao fim o trabalho de parto, e começava outra fase. Lembro que perguntei pra Stella: "E agora, Stella?". E agora, o que vem? Eis a questão. O que vem depois das contrações? Dei-me conta de que não o sabia!!! 

Fui tomar um banho no chuveiro, fiquei lá um pouco e sentia vontade de agachar, mas sozinha era difícil, a Fadynha me ajudou a voltar por quarto. Vi que graças a Deus chovia: a única coisa que pedi a Deus foi que no dia do parto chovesse, porque não iria aguentar aquele calor medonho (do Rio)!!! Pelo jeito (naquele dia minha rua ficou toda alagada!), Deus exagerou!!!

Abrimos a escadinha (a de três degraus) e o Chico ficou sentado atrás, eu tentei sentar no primeiro degrau - mas de fato não era muito confortável. Fiquei mesmo de cócoras - o que não é tão simples, já que nem conseguia enxergar meus pés com aquela barriga toda!!! O Chico me segurava na hora do descanso. E comecei a fazer força, eis o que vem depois: a expulsão! Fazia força e senti necessidade de gritar, mas não estava gritando direito. Gritava “pra cima”, porque “pra baixo” (centrando no ventre) doía mais!! A Marta, pediatra chegou lá pelas nove e meia. 

A Fadynha fazia cromoterapia: foi magnífica. Tinha horas em que sentia imediatamente um alívio na vagina, abria os olhos e a via com a luz apontada pra vulva. O clima geral era super tranquilo. A Marta semideitada no meio das almofadas assistia, como uma menina pendurada numa árvore... A Stella na minha frente segurava minhas mãos e fazíamos aquela brincadeira de quem puxa mais! Explicaram-me como devia ser o grito, é o grito que os lutadores de karaté emitem, vem do hara, como eles o chamam: o centro do nosso ser. Saquei, claro, e comecei. Putz, não era fácil! Já dava pra ver a cabecinha da Beatriz, a Stella me convidou a tocá-la e eu não tive coragem!! Que pena (disso eu não gostei). Mas ainda não saia.

Então a Stella resolveu fazer um toque: o primeiro do dia! pra ver se estava acontecendo o que ela imaginava. Constatou que sim e me disse, olhando para a Marta que fazia de sim com a cabeça: "Você está na fase pela qual toda mulher passa: a da covardia. Parece que tudo vai se arrebentar, mas não vai não". Ah, pensei eu, é mesmo... Estou com medo dessa passagem. A Marta, preocupada com a Beatriz, mostrou preocupação com a Beatriz e disse que ela estava sofrendo - mas não me pressionou de forma alguma. 

Fiquei um pouco brava dentro de mim, pensava: o que eu posso fazer pela Beatriz se ainda não me decidi, se tenho que cuidar de mim? Não pensei essas coisas claramente, mas era isso que sentia. Enfim, amadureci o que precisava amadurecer e de uma vez só pluff! cuspi, literalmente, a bonequinha pra fora de mim!!! E lá estavam as mãos da Stella que a seguraram. Nunca vou me esquecer daquele rostinho, espirrando e batendo as pernas, daqueles pezinhos compridos e finos como chapinhas, a boca vermelha do formato de um moranguinho... Eram 11:35 do dia 16 de fevereiro de 1998.

Xiiii, fiquei com tontura e a Stella disse: "Se você quiser, agora você pode desmaiar!", agora? De jeito nenhum! Agora que vai começar a festa?! 

A Beatriz veio pro meu peito, mas não mamou, só ficou sobre mim. Depois foi pro colo do Chico (que havia cortado com muito orgulho o cordão) e ele lhe deu o mindinho pra ela mamar, depois foi pra Marta... depois veio o banho...

5) Depois do parto...

Fui examinada pela Stella. Lacerei um pouco o períneo, mas: não doeu, não notei, não incomodou. Por que? Porque expulsei com muita força e de repente - mas esse é o meu modo de ser em todas as coisas da minha vida ("vai ou não vai? vai ou não vai? vai ou não vai? ....até que: chega! Vai!).  A Stella fez uma anestesia para costurá-lo, eu estava preocupada, mas foi como ela me assegurou: não senti nem a injeção nem o resto

Estava ainda transtornada com tudo e sabem o que a Stella fez? Pegou a Beatriz e a "desmistificou", a mostrou a mim como fosse uma bonequinha e disse, olha só que beleza, uma coisa assim, e acrescentou: "Se não for pelo beiço, vai seduzir com essa cocha aqui, olha só!". Então, consegui pegá-la realmente no colo e virei mãe.

À noite, o Chico estava “desmaiado” dormindo no colchão no chão e eu estava recebendo os telefonemas dos amigos e parentes, com a Beatrizinha ao lado dormindo, me sentindo ótima.

Três dias depois queria ter outro filho, repetir aquele parto, estar mais lúcida e consciente e certamente mais corajosa. Porque: É DEMAIS!!!! É imperdível.
 

Adriana Tanese Nogueira
adriatnogueira@uol.com.br


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