| 1)
Gerando e Gestando
Numa noite
de lua cheia, lá pelo dia 21 ou 22 de maio de 97 eu e o Chico
concebemos a Beatriz e eu disse: "Agora é só esperar nove
meses".
Seis meses
antes havia perdido um filho, com 19 semanas por causa de uma série
de situações de grande stress. Tinha sido uma gravidez que
chegou antes do previsto. Tive enjôos terríveis, de ficar
carregando saquinhos nos ônibus. Mas depois desta, agora sim, eu
queria finalmente ter a filha que esperava há mais de dez anos.
Eu estava na época com 34 anos.
Esperei o tempo
de praxe: seis meses e depois tentamos. Não fiquei grávida
e me decepcionei. Então encarei o fato de que não conseguia
assumir ter um filho em plena consciência porque esse mundo não
é lá grandes coisas, né? No final de abril consegui
amadurecer a decisão: e engravidei da Beatriz.
Enjôos?
Não. Só lembro de uma vez, no quarto mês. Fiquei os
primeiros três meses sem ir a nenhum ginecologista. Não queria
ninguém “mexendo em mim”, como se pudesse perturbar o “enraizamento”
da gravidez.
2)
Escolhendo o parto
No começo
do quarto mês fui a uma médica que me haviam indicado. Ela
era simpática, aparentemente descontraída mas não
sintonizei com ela porque simplesmente não respondia às minhas
perguntas e necessidades. A situação culminou num dia em
que lhe disse – de saída do consultório – que eu queria um
parto de cócoras – sei lá que iluminação eu
tive! - e ela respondeu caçoando das minhas idéias “malucas”...
riu e me disse que de jeito nenhum ela ficaria agachada esperando meu neném
cair no colo dela! Reagiu como se eu não soubesse do que estava
falando e me tolerava porque me considerava uma “pobre mãe” leiga
e ignorante...
No quinto mês
fizemos uma nova ultra-sonografia. Eu já sabia que era uma menina
mas os outros não acreditavam então na noite anterior pedi
para minha filha “revelar-se” e lá estava ela de bumbum pra
cima e de pernas abertas! Que felicidade!!!
Saí
do consultório e comprei meus primeiros livros sobre gestação:
duas agendas de acompanhamento. Uma bonitinha, rosa de florzinhas, cheia
de dicas preciosas e outra mais técnica escrita por duas mulheres
(americanas) que apresentavam no final todos os tipos de parto possíveis:
todos. Este livro me ajudou a tomar consciência de que queria mesmo
um parto em casa. Por que ir para um hospital? Fiz a proposta para o Chico
e ele, que vinha de um primeiro casamento em que teve três filhos
todos de cesárea eletiva e foi afastado da sala cirúrgica
para “não dar problemas”, topou entusiasmado.
Aí senti
que tinha que procurar a Fadynha, e não lembro como é que
sabia dela. Fomos lá, eu e o Chico, e começamos o curso de
Yoga para Gestantes. Já no primeiro encontro pedi para que me indicasse
uma médica disposta a fazer um parto em casa. Assim conheci
a Stella Marina Ferreira e marcamos uma consulta.
Durante o Encontro
anual da Fadynha (Encontro Nacional de Gestação e Parto Natural
Conscientes, no Rio) que iniciou depois de poucas semanas, senti aquele
ar gostoso de respeito pela gravidez que me fez enxergar o mundo lá
fora como profundamente "desconfortável" para uma mulher grávida.
Mas, isso tudo era ainda embrionário. Logo na primeira mesa havia
quatro mulheres discutindo parto, dentre elas a Lívia Pavitra (de
Brasília). Fiz perguntas sobre o parto em casa e a Lívia
- que teve 5 filhos de parto natural – me apoiou e ainda por cima com um
belo sorriso.
No intervalo
fui para o jardim sentei na grama e mergulhei em mim mesma tentando perceber
o que realmente queríamos, eu e minha filha e, por incrível
que pareça eu senti que ela queria nascer em casa. Fiquei muito
feliz.Estava no início do sétimo mês.
3)
Preparando-me para o parto
No oitavo mês
eu já estava pensando no parto com maior clareza e também
com mais medo. Porque o parto é uma assombração que
acompanha - acho eu - toda mulher desde o princípio, cinza clara
no começo, sempre mais preta lá pro final. Bom, me dei conta
da ligação do meu medo com o meu parto, o meu próprio
nascimento. Minha fantasia dizia que iria me sentir "sufocada". O que evidentemente
não tem muito a ver, ma a fantasia era forte. O que me contaram
é que meu parto foi demorado, "um dia inteiro!", nasci "roxa e feia"...
Fiquei pensando se foram realmente 24 horas de trabalho de parto, depois
descobri que foram 12 - 12 horas (um tempo “normal” para o primeiro parto)
muito mal vividas porém! Minha mãe, deitada numa cama de
hospital, sem muito apoio emocional e com apenas 23 anos que na época
eram como os nossos 15 hoje (ou até menos!). Eu devia estar sufocando,
pelo jeito... mas foi parto natural e sem fórceps.
Comecei a me
trabalhar, distinguindo dentro de mim as situações: o meu
nascimento e o da Beatriz: coisas diferentes. E enfim, passei isso pra
ela: conversei com ela pra que ela não tivesse medo por projeção
com os meus temores e memórias.
Uns tempos
depois eu percebi o quanto é estranho você ter outro ser na
barriga e não saber sequer quem é! Poderia até ser
um extra-terrestre! Então uma noite a sonhei: vi minha filha de
pé ao lado da cama me olhando. Ela era tão bonitinha e na
verdade muito parecida com a realidade (como descobri meses depois). Olhava-me
com aqueles olhos grandes, como se quisesse se apresentar e me dizer: "Sou
eu!". Assim me tranqüilizei.
Nos últimos
meses da gravidez tive uma fome terrível, a Stella me apoiava e
eu comia com todo prazer! Ganhei perto de vinte quilos!
O nono mês
foi muito tenso. Estava nervosa. Começaram a vir à mente
todo tipo de pensamento negativo e sentia como um canto de sereias que
me convidava constantemente a ir pelo caminho "mais fácil": um hospital
onde me entregaria nas mãos dos outros... eu odeio hospitais, sou
arredia a qualquer tipo de intervenção médica... Cheguei
a pensar que as mulheres ainda podem morrer de parto (o que é verdade)!
E, sobretudo, eu não sabia qual seria minha própria reação
na hora do parto: como confiar em mim? Ficava pensando: poderia até
querer uma cesárea se não agüentasse! Seria o cúmulo
do cúmulo, mas quem poderia dizer o ia acontecer?
Em primeiro
lugar, eu queria ser LIVRE para decidir aquilo que iria sentir necessidade
de fazer e RESPEITADA em qualquer circunstância.
Por precaução
visitamos um hospital que ficava há uns dez minutos de carro no
máximo da nossa casa. Vi todas aquelas máquinas, o berçário,
tudo verdinho e bonitinho e senti arrepios. Mas fomos: praxe.
Enquanto isso,
preparamos o material indicado pela Stella para o parto: duas dúzias
de fraldas de pano, dois lençóis de solteiro brancos, uma
lâmpada (para exame final), um colchonete e uma capa de plástico
para forrar tudo. O Chico pegou uma bomba de oxigênio na casa da
Marta, a pediatra neonatologista, estávamos prontos.
As consultas
com a Stella eram feitas de longos papos, ela quase não fazia toques,
falávamos de tudo. Mas no final eu comecei a ficar nervosa. Queria
saber e saber. Queria que minha mente tivesse as informações
necessárias e CORRETAS para colaborar com meu corpo. Se pensasse
“abobrinhas” iria atrapalhar o processo. E tinha também uma dose
de medo que buscava um certo controle sobre a situação –
controle hoje que sei ter seus limites.
4)
O parto
Eu achava que
a Beatriz fosse nascer lá pro dia três de fevereiro. Imaginem
que nem havíamos comentado sobre a data provável do parto.
O clima era sempre o mais descontraído possível, nenhuma
neura sobre os “dados técnicos”.
Minha tensão
abrangia não a gravidez, mexeu com todas minhas relações
afetivas, sobretudo as familiares e andei resolvendo algumas questões
não fáceis mas importantes.
Eu já
não via a hora que minha filha nascesse, as últimas semanas
são cansativas porque estamos “grandes” e pesadas, me parecia que
eu ia permanecer grávida a vida toda!!!!
Na
tarde do domingo do dia 15 de fevereiro, recebo um telefonema do meu
pai e o papo foi leve e solto e assim eu me acalmo em relação
as questões familiares. Fico deitada no escuro, descansando
e.... lá pelas 11 horas da noite chegaram as primeiras contrações!!!

Marta
a pediatra, Stella Marina a obstetra e Fadynha a doula: um dos segredos
de um bom parto é estar contida por uma equipe afinada e harmonizada
com você |
O
incrível é que estava tranquila!! Ligamos para a Fadynha
e para a Stella. As duas, também tranquilas, pediram para serem
chamadas lá pelas seis da manhã... e nós fomos
para o quarto. |
O
Chico, em sua euforia, encostou nossa cama contra a parede, lavou o
chão, pôs um colchão de solteiro no chão,
o colchonete, forrou-os, pegou bloco e caneta e começou a anotar
os tempos (a duração de cada contração e
o intervalo entre uma e outra). Enquanto isso, eu encontrei uma posição
bem "gostosa", sentada no colchão no chão, apoiada contra
uma almofada.
Chegavam as
contrações e depois eu "caia" num sono profundo, ou talvez
cochilasse porque me parecia estar acordada... Uma vez olhei pro teto,
na altura da luminária e lá estava a Madona, tranquila, sorridente,
olhando "pra baixo", e eu entre as ondas... Em outro momento vi dois anjos,
um pouco mais pra cá, à direita, conversando entre si e olhando
para aquela cena evidentemente agradável para eles. Estavam animados
e tranquilos, sorrindo felizes.
As contrações
doíam, sim, mas depois tudo passava e eu descansava. A dor não
era insuportável, dava pra levar. Assim passou a noite, sem que
eu percebesse. O processo (até o nascimento) todo durou 12 horas:
parece muito mas não é. Na manhã, chegou a Stella.
Sossegada, pediu pro Chico um cafezinho e os dois ficaram batendo papo
na cozinha!!!! As contrações se aceleraram, já não
dava mais pra ficar sentada. Começamos a andar.
A Fadynha já
tinha chegado, discreta e silenciosa. A Stella pegou minhas mãos
e fomos andando pela casa. Agora a cada contração o certo,
o natural, era mesmo agachar-se e aí doía mais.... Eu estava
um pouco tonta - me disseram que era por causa da respiração
acelerada. As ondas sempre mais fortes... e eu andando. Comecei a ficar
preocupada porque senti que estava chegando ao fim o trabalho de parto,
e começava outra fase. Lembro que perguntei pra Stella: "E agora,
Stella?". E agora, o que vem? Eis a questão. O que vem depois das
contrações? Dei-me conta de que não o sabia!!!
Fui tomar um
banho no chuveiro, fiquei lá um pouco e sentia vontade de agachar,
mas sozinha era difícil, a Fadynha me ajudou a voltar por quarto.
Vi que graças a Deus chovia: a única coisa que pedi a Deus
foi que no dia do parto chovesse, porque não iria aguentar aquele
calor medonho (do Rio)!!! Pelo jeito (naquele dia minha rua ficou toda
alagada!), Deus exagerou!!!
Abrimos a escadinha
(a de três degraus) e o Chico ficou sentado atrás, eu tentei
sentar no primeiro degrau - mas de fato não era muito confortável.
Fiquei mesmo de cócoras - o que não é tão simples,
já que nem conseguia enxergar meus pés com aquela barriga
toda!!! O Chico me segurava na hora do descanso. E comecei a fazer força,
eis o que vem depois: a expulsão! Fazia força e senti necessidade
de gritar, mas não estava gritando direito. Gritava “pra cima”,
porque “pra baixo” (centrando no ventre) doía mais!! A Marta, pediatra
chegou lá pelas nove e meia.
A Fadynha fazia
cromoterapia: foi magnífica. Tinha horas em que sentia imediatamente
um alívio na vagina, abria os olhos e a via com a luz apontada pra
vulva. O clima geral era super tranquilo. A Marta semideitada no meio das
almofadas assistia, como uma menina pendurada numa árvore... A Stella
na minha frente segurava minhas mãos e fazíamos aquela brincadeira
de quem puxa mais! Explicaram-me como devia ser o grito, é o grito
que os lutadores de karaté emitem, vem do hara, como eles o chamam:
o centro do nosso ser. Saquei, claro, e comecei. Putz, não era fácil!
Já dava pra ver a cabecinha da Beatriz, a Stella me convidou a tocá-la
e eu não tive coragem!! Que pena (disso eu não gostei). Mas
ainda não saia.
Então
a Stella resolveu fazer um toque: o primeiro do dia! pra ver se estava
acontecendo o que ela imaginava. Constatou que sim e me disse, olhando
para a Marta que fazia de sim com a cabeça: "Você está
na fase pela qual toda mulher passa: a da covardia. Parece que tudo vai
se arrebentar, mas não vai não". Ah, pensei eu, é
mesmo... Estou com medo dessa passagem. A Marta, preocupada com a Beatriz,
mostrou preocupação com a Beatriz e disse que ela estava
sofrendo - mas não me pressionou de forma alguma.
Fiquei um pouco
brava dentro de mim, pensava: o que eu posso fazer pela Beatriz se ainda
não me decidi, se tenho que cuidar de mim? Não pensei essas
coisas claramente, mas era isso que sentia. Enfim, amadureci o que precisava
amadurecer e de uma vez só pluff! cuspi, literalmente, a bonequinha
pra fora de mim!!! E lá estavam as mãos da Stella que a seguraram.
Nunca vou me esquecer daquele rostinho, espirrando e batendo as pernas,
daqueles pezinhos compridos e finos como chapinhas, a boca vermelha do
formato de um moranguinho... Eram 11:35 do dia 16 de fevereiro de 1998.
Xiiii,
fiquei com tontura e a Stella disse: "Se você quiser, agora você
pode desmaiar!", agora? De jeito nenhum! Agora que vai começar
a festa?!
 |
A
Beatriz veio pro meu peito, mas não mamou, só ficou
sobre mim. Depois foi pro colo do Chico (que havia cortado com muito
orgulho o cordão) e ele lhe deu o mindinho pra ela mamar,
depois foi pra Marta... depois veio o banho...
|
5)
Depois do parto...
Fui examinada
pela Stella. Lacerei um pouco o períneo, mas: não doeu, não
notei, não incomodou. Por que? Porque expulsei com muita força
e de repente - mas esse é o meu modo de ser em todas as coisas da
minha vida ("vai ou não vai? vai ou não vai? vai ou não
vai? ....até que: chega! Vai!). A Stella fez uma anestesia
para costurá-lo, eu estava preocupada, mas foi como ela me assegurou:
não senti nem a injeção nem o resto
Estava
ainda transtornada com tudo e sabem o que a Stella fez? Pegou a Beatriz
e a "desmistificou", a mostrou a mim como fosse uma bonequinha e disse,
olha só que beleza, uma coisa assim, e acrescentou: "Se não
for pelo beiço, vai seduzir com essa cocha aqui, olha só!".
Então, consegui pegá-la realmente no colo e virei mãe.
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À
noite, o Chico estava “desmaiado” dormindo no colchão no chão
e eu estava recebendo os telefonemas dos amigos e parentes, com a
Beatrizinha ao lado dormindo, me sentindo ótima.
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Três
dias depois queria ter outro filho, repetir aquele parto, estar mais
lúcida e consciente e certamente mais corajosa. Porque: É
DEMAIS!!!! É imperdível.
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