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Quando
penso na ligação especial entre avós
e netos, lembro-me de um parto do qual participei há
muito tempo.
O pai do menino, um norte-americano filho de mexicanos, fazia
pós-graduação na universidade em que
eu trabalhava. Sua esposa, uma jovem de Boston, também
estudava ali. Era o primeiro filho e eles queriam ter todo
o cuidado necessário.
Os
dois jovens participaram dos cursos de treinamento para o
parto e das aulas de como cuidar do bebê. Estavam prontos,
assim como nós, com todo o poder da obstetrícia
e da pediatria contemporâneas para nos apoiar. Mas nem
tudo correu bem. O trabalho de parto foi longo e muito difícil.
Após
várias horas de esforço, os obstetras perguntaram
se eles gostariam de uma intervenção cirúrgica.
Mas a moça tinha medo de uma cesariana e eles recusaram.
Muitas horas mais se passaram e os médicos resolveram
me chamar como consultora pediátrica. Ficou decidido
que ofereceriam a opção da cirurgia mais uma
vez. Apesar da exaustão, da dor e dos apelos do marido,
a moça continuava inflexível. Estava amedrontada
demais.
Depois
de mais uma hora sem nenhum progresso, O rapaz, já
desesperado, telefonou para a sogra na Costa Leste pedindo
que ela convencesse Jennifer, sua mulher, a aceitar a cesariana.
Enquanto elas conversavam, ele foi comigo até a sala
de espera para contar ao seu pai o que estava acontecendo.
Embora vivesse na Califórnia há muitos anos,
o pai de Michael quase não falava inglês. Era
um homem. da terra, endurecido e forte, que primeiro trabalhou
na lavoura e depois, com a ajuda dos filhos, tornou-se um
pequeno proprietário de terras. Ele estava sentado
naquela sala há várias horas aguardando o nascimento
de seu primeiro neto. Michael era seu filho mais velho. Com
muita atenção, ele ouviu as explicações
de Michael e a expressão de seu rosto foi se tornando
séria e pensativa. Então, balançou a
cabeça, disse algumas palavras em espanhol e colocou
um braço no ombro do filho. Pude perceber que Michael
relaxou um. pouco. Depois, voltamos à sala de parto
e ficamos sabendo que, após falar com a mãe,
Jennifer havia concordado com. a cirurgia. Ela estava deitada
na cama, exausta, os olhos cheios de lágrimas. Os obstetras
foram preparar a sala de cirurgia e eu subi dois andares até
meu consultório para avisar que estaria assistindo
a cesariana.
Mal
cheguei à minha mesa fui chamada ao telefone pelo médico
de Jennifer. Antes de ser levada à sala de cirurgia
ela havia recobrado o ânimo, conseguindo expulsar a
criança após um. vigoroso esforço.
-Todos estão bem. -disse o médico.
Pude ouvir o bebê chorar. Era um menino. Mais tarde,
eu quis saber a opinião de Michael sobre o que havia
acontecido. Ele me disse que os médicos lhe haviam
dado várias explicações, mas ele achava
que tudo tinha a ver com seu pai. Diante de minha expressão
de surpresa, ele riu e comentou:
-Meu pai é um grande homem.
Quando Michael contou ao pai que o bebê nascera antes
da cesariana, o velho homem sorriu e balançou a cabeça.
-Houve muito medo -disse-lhe o pai, em espanhol.
Ele
ouvira falar dos temores da nora e percebeu que o filho sentia-se
da mesma forma. Por isso, sabia que o bebê também
estava com medo. Assim, sozinho na sala de espera, conversou
mentalmente com o neto, encorajando-o a nascer. Ele falou
com o bebê sobre suas muitas lembranças da beleza
da terra, do alvorecer, do pôr-do-sol, da nova colheita
e da riqueza das safras. Disse ao neto que aguardava ansioso
pelo momento de poder caminhar com ele sobre a terra. Falou
da bondade da vida, da amizade, do riso e do trabalho bem
feito. Finalmente, falou sobre o seu amor pela família.
Lembrou-se de seu próprio pai, no México, e
da esposa, ambos mortos. Falou com o bebê sobre cada
um dos irmãos de Michael, que seriam seus tios. Falou
da bondade e da força de todos os seus filhos, do orgulho
que sentia deles e das mulheres com quem se casaram. Lembrou
antigos natais, aniversários e casamentos. Contou da
alegria que sentiam pela felicidade uns dos outro. Ofereceu
ao bebê o seu coração. E o bebê
veio.
Nesses
muitos anos, atendi vários partos como pediatra, orientadora,
parente ou amiga. Algumas vezes, sugiro aos pais que, nesses
momentos, falem com seus filhos que estão por nascer,
mostrando-lhes imagens mentais da bondade do mundo, compartilhando
com eles seu amor pela vida, fortalecendo-os e encorajando-os
nessa passagem tão difícil.
Extraído
do livro "As Bençãos do meu Avô"
de Rachel Naomi Remen
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