ORAÇÃO DAS GRÁVIDAS

Do livro "Lendas e Mitos do Amapá"
de Joseli Dias


 

Dona Mariana estava se retorcendo em dores. No quarto, ao redor da cama, o marido acompanhava, junto com uma parteira, as contrações cada vez mais fortes, que poderiam causar a morte da mulher se não houvesse uma providencia divina.

Mariana estava grávida de sete meses e conforme explicara a parteira da vila, há mais de 30 anos fazendo partos alheios, o bebê estava "de atravessado", sendo portanto impossível um parto normal sem que a mãe e a criança corressem graves riscos.

A gravidez de Mariana foi difícil desde o início e vinha se agravando nos últimos meses. De nada adiantaram as massagem feitas pelas benzedeiras, os sucessivos chás medicinais e ainda menos as orações conhecidas nas redondezas, todas praticadas com fervor. Ela poderia morrer se não recebesse socorro imediato.

A balbúrdia estava formada no quarto quando ouviram alguém chamando na frente da casa. Indo verificar, descobriram um homem, puxando pelas rédeas um cavalo no qual estava uma mulher. Eles queriam pousada para aquela noite. Embora hospitaleiros os membros da casa consideraram a hipótese de mandá-los embora, afinal não havia como dar atenção aos viajantes. Uma beata, mais afoita, explicou-lhes o problema.

Com um sorriso benevolente, o viajante se identificou como um grande rezador e prometeu ver a grávida, desde que pudessem passar a noite ali. Dentro da casa, vendo Mariana contraindo-se em dores, calmamente foi até a mesa. apanhou caneta e papel e rabiscou alguma coisa. Em seguida, pediu um pedacinho de pano grosso, barbante e agulha, no que foi prontamente obedecido pelos presentes. Depois de costurar um saquinho com o panos depositou cuidadosamente o papel dentro, amarrou com um barbante e em seguida colocou, como um cordão, ao redor do pescoço da parturiente, mandando que todos, com exceção da parteira, fossem descansar, que tudo ficaria bem.

Cinco minutos depois um choro de criança rompeu o silêncio de expectativa que se fazia. O bebê tinha nascido saudável e a mãe não corria qualquer perigo. «Milagre!”, gritaram as beatas, ao mesmo tempo em que pegavam a criança no colo. Não é necessário dizer que o hóspede, responsável pela façanha, foi muito elogiado, recebendo o melhor quarto da casa, lençóis limpos e refeição farta durante as semanas seguintes em que ficou ali com a esposa Seu cavalo tinha ração de milho e torrões de açúcar garantidos. Quando se foram, gordos e sorridentes, a comoção foi geral.

A oração milagreira dentro do saquinho passou a cumprir, a partir dai, um ritual. Sempre que uma mulher da vila de Gurupora, onde aconteceu o fato, engravidava, imediatamente colocava-se o cordão com o saquinho em volta de seu pescoço. As crianças nasciam robustas e com boa saúde.

Durante muitos anos a oração passou de mão em mão, levando felicidade as grávidas.

Certo dia uma beata, vendo que o saquinho milagroso começava a desgastar-se apresentando pequenos furos, resolveu que o abriria, anotaria a oração e distribuiria para o maior numero de pessoas possível. Depois disso certamente nenhuma das vilas próximas de Gurupora veria suas grávidas sofrendo. Com muito cuidado abriu o saquinho, desdobrou o papel, leu e... desmaiou. Quem a socorreu descobriu o motivo. Meio desbotada, ali estava a mensagem:

“Estando eu e minha esposa bem alimentados e dispostos para o amor, nosso cavalo comendo milho com açúcar, as barrigudas da vila que se explodam”.

 

Esse material foi gentilmente cedido pelo site Amaparte
www.amaparte.com.br


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