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Dona Mariana
estava se retorcendo em dores. No quarto, ao redor da cama, o marido
acompanhava, junto com uma parteira, as contrações cada
vez mais fortes, que poderiam causar a morte da mulher se não
houvesse uma providencia divina.
Mariana
estava grávida de sete meses e conforme explicara a parteira
da vila, há mais de 30 anos fazendo partos alheios, o bebê
estava "de atravessado", sendo portanto impossível
um parto normal sem que a mãe e a criança corressem graves
riscos.
A gravidez
de Mariana foi difícil desde o início e vinha se agravando
nos últimos meses. De nada adiantaram as massagem feitas pelas
benzedeiras, os sucessivos chás medicinais e ainda menos as orações
conhecidas nas redondezas, todas praticadas com fervor. Ela poderia
morrer se não recebesse socorro imediato.
A balbúrdia
estava formada no quarto quando ouviram alguém chamando na frente
da casa. Indo verificar, descobriram um homem, puxando pelas rédeas
um cavalo no qual estava uma mulher. Eles queriam pousada para aquela
noite. Embora hospitaleiros os membros da casa consideraram a hipótese
de mandá-los embora, afinal não havia como dar atenção
aos viajantes. Uma beata, mais afoita, explicou-lhes o problema.
Com um
sorriso benevolente, o viajante se identificou como um grande rezador
e prometeu ver a grávida, desde que pudessem passar a noite ali.
Dentro da casa, vendo Mariana contraindo-se em dores, calmamente foi
até a mesa. apanhou caneta e papel e rabiscou alguma coisa. Em
seguida, pediu um pedacinho de pano grosso, barbante e agulha, no que
foi prontamente obedecido pelos presentes. Depois de costurar um saquinho
com o panos depositou cuidadosamente o papel dentro, amarrou com um
barbante e em seguida colocou, como um cordão, ao redor do pescoço
da parturiente, mandando que todos, com exceção da parteira,
fossem descansar, que tudo ficaria bem.
Cinco
minutos depois um choro de criança rompeu o silêncio de
expectativa que se fazia. O bebê tinha nascido saudável
e a mãe não corria qualquer perigo. «Milagre!,
gritaram as beatas, ao mesmo tempo em que pegavam a criança no
colo. Não é necessário dizer que o hóspede,
responsável pela façanha, foi muito elogiado, recebendo
o melhor quarto da casa, lençóis limpos e refeição
farta durante as semanas seguintes em que ficou ali com a esposa Seu
cavalo tinha ração de milho e torrões de açúcar
garantidos. Quando se foram, gordos e sorridentes, a comoção
foi geral.
A oração
milagreira dentro do saquinho passou a cumprir, a partir dai, um ritual.
Sempre que uma mulher da vila de Gurupora, onde aconteceu o fato, engravidava,
imediatamente colocava-se o cordão com o saquinho em volta de
seu pescoço. As crianças nasciam robustas e com boa saúde.
Durante
muitos anos a oração passou de mão em mão,
levando felicidade as grávidas.
Certo
dia uma beata, vendo que o saquinho milagroso começava a desgastar-se
apresentando pequenos furos, resolveu que o abriria, anotaria a oração
e distribuiria para o maior numero de pessoas possível. Depois
disso certamente nenhuma das vilas próximas de Gurupora veria
suas grávidas sofrendo. Com muito cuidado abriu o saquinho, desdobrou
o papel, leu e... desmaiou. Quem a socorreu descobriu o motivo. Meio
desbotada, ali estava a mensagem:
Estando
eu e minha esposa bem alimentados e dispostos para o amor, nosso cavalo
comendo milho com açúcar, as barrigudas da vila que se
explodam.
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