UM PARTO NA RUA

F.C. Filardi

 

Querem saber como foi minha primeira noite de inverno neste Caminho que é o autêntico e o mais verdadeiro de todos ...o cotidiano ?!? A primeira noite de Distribuição dos cobertores que alguns peregrinos doaram?? Pois bem...

Cheguei em casa com 100 cobertores dos 230 cobertores arrecadados até agora. A parati foi lotada até o teto e decidi levar apenas 60 por viagem. Saí a 0:20h e o frio estava como era previsto, intenso.

Sempre que saio para distribuir cobertores a noite, eu nada levo de valor ou de chamativo, apenas documentos; contudo nesta noite eu decidi levar o celular cujos créditos também eu havia recarregado (coisa rara).

Eu havia saído de casa com um espírito pouco "cristão" e dirigia pelas ruas normalmente olhando as moças de difícil vida fácil, tendo pensamentos ..digamos pouco elevados, lembrando dos tempos de farra .. etc..etc.

Depois de algum tempo me toquei que aquele não era o espírito próprio para a circunstância. Como de costume caiu a ficha e rezei pedindo para Deus guiar meu caminho. Rodei pelas ruas de costume mas para meu espanto não encontrei nenhum "freguês" dos cobertores. Não havia um único "sem-teto" pelas ruas que passei. Nunca eu havia passado por aquelas ruas e não encontrado ninguém ou deixado de entregar ao menos um cobertor.

Contrariando meu roteiro, decidi dar a volta pelo largo S. Francisco (São Paulo, SP). Parei para "atender" um "doidão" que não queria cobertor algum. Saí de fininho com o carro. Alguns metros adiante ouvi um grito de mulher. parecia um grito de alguém sendo atacado. Não era um grito mas um urro. Eu estava sozinho e era 0:40h. A primeira vontade foi de atender aquele grito e a segunda e mais forte vontade foi a de auto-preservação (cada um com seus problemas e tchau!).

Vencendo meus receios e colocando-me nas mãos de Deus, avancei ainda mais o carro prestando atenção de onde vinham os gritos. A mulher urrava de dor e seguindo os urros contornei a praça e depois retornei de ré com o carro. Ela estava deitada debaixo da marquise de um prédio e tinha vários cobertores. A noite, muitos falam alto, berram, sofrem, fazem de tudo para chamar um pouco da atenção. "Talvez fosse esse o caso daquela mulher" - pensei.

Eu já ia embora quando decidi parar o carro e ver o que estava acontecendo. Aquela vozinha pérfida da consciência indolente não parava de dizer: "não é nada, cai fora!" Cheguei na mulher que deitada se queixava de fortes dores e colocava a mão no lado direito da virilha. Pensei que pudesse ser um caso de apêndice supurado (apendicite seria do lado esquerdo?? ou direito?? ...droga de aulas de biologia!!). Percebi que a dor era séria. A mulher disse que havia ido ao hospital e a tinham mandado embora. Volta e meia ela sofria surtos de dor e gritava de modo horrível pondo-me em quase desespero.

Sabem o que é ver alguém sofrer horrível e genuinamente?? e nada poder fazer?? Quando eu saio para distribuir cobertores levo apenas o RG e a habilitação. Naquela noite excepcionalmente eu estava com o celular. Liguei para o 192 pedindo socorro. Não havia nada nem ninguém por perto e a atendente do 192 pedia localização exata... nome da rua..., numero etc...etc... e a pobre mulher urrando ao meu lado. A cada urro que a mulher dava, eu falava sem perceber: - Mãe, Mãe ...Maria, minha Mãe..ajudai-a! Comecei a tentar distrair a mulher conversando. Ela ora falava, ora soltava gritos horrendos.

Ela tinha os dentes da frente podres e mal conseguia se expressar com clareza. - Eu me sujei toda ela - disse envergonhada - Normal - eu disse - é normal que com dores tão fortes a gente se suje, não tenha vergonha. Conversamos...

Um homem "sem teto com álcool" atravessou a rua e disse que aquela mulher tinha estado grávida. Eu perguntei se ela estava grávida ainda e ela disse que sim. - Você esta tendo um bebê? - perguntei apavorado.
- Não, é uma dor forte aqui, disse colocando a mão na virilha.
Eu pedi permissão e levantei o cobertor e apalpei a barriga da mulher que não eslava muito grande. o que me aliviou. Não era hora do parto ainda. Vejo surgir uma patrulha da policia e faço sinal.
Nisso a mulher grita.

- Moço, eu acho que meu filho vai nascer...acho que é o menino sim... A policia chega perto e as duas policiais femininas ficam paradas sem ação quando lhes conto que talvez a mulher estivesse dando a luz. Insisto para que chamem o 192 e venham ajudar. Vou para junto da mulher e que confirma que talvez esteja dando a luz fora da hora.
- Temos de cortar a calça dela - digo.
- Temos de deixar o canal de parto livre, tirando a roupa - repito irritado ante a pasmaceira das duas!!
- Por acaso o senhor é médico ou enfermeiro - pergunta Norma, a policial.
- Não, mas acompanhei o parto de meus dois filhos - digo irritado.
A policial diz que não devemos fazer nada até chegarem os paramédicos. Peço uma faca para o homem "sem teto com álcool" e ele dá uma olhada para a policial e atravessa a rua, retornando com uma daquelas facas de pão. Uma das policiais fica dentro do carro imóvel segurando o volante enquanto a outra me diz para não fazer nada.

- O senhor é médico?? Então não faça nada até chegarem os paramédicos.
- Não toque na mulher - diz a outra policial de dentro do carro.
Não dei ouvidos e levantando o cobertor mostro para a policial Norma que temos de tirar a calça daquela mulher urgentemente. Há uma mancha escura que parece sangue e a calça esta toda molhada de urina. A policial hesita eu então pego a calça e corto o elástico da cintura com a faca. Não tenho mais pudor ou medo de ser mal compreendido. A policial esboça uma ação de tentar me impedir de cortar. Grito algo e continuo cortando a calça. Ela então me ajuda. Rasgo a calcinha e ao abrir as pernas da mulher que urra vejo o bebê saindo com força.

O bebê caiu nas minhas mãos!! Ele saiu tão rápido que o apanhei por reflexo. Percebi então que eu não estava com luvas, ao contrário da policial estática. Inclinei o corpo do bebê de modo a escorrer o liquido amniótico e quando ele moveu os braços tranqüilo (sem chorar) então o coloquei sobre o chão forrado com cobertor do peregrinos.

Tudo ocorreu em segundos quando então a outra policial apareceu ao meu lado pensando em impedir-me de desnudar a parturiente. Vendo o bebê, a policial se abaixou e então o segurou com suas mãos protegidas pelas luvas. Discutimos pois ela insistia em não cobrir a criança. Ela apenas segurava o bebê estática. A policial parecia em surto e a única coisa que lhe importava era tentar manter o controle de algo que ela não compreendia.

- Cubra o bebe com o cobertor, está muito frio - digo asperamente.
Essa policial sente-se afrontada com minha postura e tenda discutir comigo. Eu puxo o cobertor para cobrir o bebê e a outra policial diz:
- Vai tirar o ar dele.
Eu nem tento explicar que o bebê ainda esta preso ao cordão umbilical e que o verdadeiro perigo é o frio.
Digo apenas:
- Que tipo de preparo vocês recebem?
- Que tipo de mulheres vocês são? São mulheres e policiais e não sabem o que é um parto na rua??
Nada mais falo apenas mantenho o cobertor por sobre o bebê enquanto a policial o segura com as mãos. Nisso chegam mais 3 viaturas. A policial que estivera dentro do carro e que só aparecera ao final para segurar o bebê sem cobri-lo diz para seus colegas que chegam:


- Tira esse cidadão daqui pois ele esta tumultuando e desrespeitando nosso trabalho.
Sem nada falar eu me levantei e afastei-me dois metros afinal a mulher não estava mais sozinha. Vários policiais chegaram perto do bebê e depois de 15 minutos chegou o resgate, cortando o cordão umbilical e levando o bebê para a ambulância.

Cumprimentei a primeira policial por ter me ajudado a rasgar a calça da mulher e disse-lhe:
- Parabéns agora você é titia.
Como estava muito frio e havia mais de 10 policiais, paramédicos etc..
Decidi voltar a ronda pelas ruas.
Eu ainda estava surpreso e feliz.
No meio da noite eu cantava e agradecia a Deus, a oportunidade e o "regalo" que ele me havia concedido. Ainda agora dou risada de felicidade e de gratidão a Deus que nunca nos abandona e sempre nos ensina.

Deu-me a oportunidade de "apanhar" um bebê e tornou minha vida mais feliz. Fiquei depois com receio de ter-me contaminado com alguma doença por não ter usado luvas ao apanhar o bebê. Havia sangue e fluidos corpóreos em minhas mãos.

Mesmo essa sombra não me entristece, ao contrário, me estimula. Nessa primeira noite fria de inverno pude, de modo para mim inexplicável, chegar no exato momento, no exato local e fazer a exata coisa.

PS: de agora em diante sempre que sair às ruas para distribuição de cobertores, levarei minhas luvas descartáveis e talvez até uns clipes de parto ehehehe
 

 
F.C. Filardi
São Paulo, SP


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