| Eu sempre achei que ter
nenê era uma coisa assim meio automática. A gente entra em
trabalho de parto, vai lá no hospital, e tem o nenê. Assim,
pá-pum! Puxa, não é bem assim…. Tem pá, tem
pum, mas tem muito mais. Vou contar como foi meu parto.
Entrei em trabalho de parto
de repente. Nada dessa propaganda enganosa de delicadas colicazinhas a
cada 30 minutos. Eu estava deitada à tarde e senti uma cólica
medonha. Eu pensei: nó nas tripas! Só podia ser. Corri pro
banheiro, e o intestino funcionou direitinho. Ufa, não era parto!
Deitei novamente e depois de 10 minutos, outra cólica. Outra???
Fui no banheiro de novo. E outra, e mais outra… Epa.. Acho que estou em
trabalho de parto. E esse negócio dói.
Liguei pro meu marido, fui
pro chuveiro enquanto esperava. Arrumei minhas coisas e esperei, esperei,
esperei… Cadê o pai dessa criança? Duas horas depois ele chegou,
muito tranquilo. Estava mudando uns livros de lugar. No dia do meu parto.
Sim, era isso que ele estava fazendo. Sem comentários. Fomos para
a maternidade. A essas alturas, eu achava que o bebê estava pra nascer.
As contrações vinham a cada 5 minutos com muita força.
Chegando à maternidade,
fui para a sala de “triagem”, um tipo de sala de visitas. Pelo menos 15
grávidas se amontoavam naquele espaço. Era uma quinta-feira,
dia forte para as maternidades. Me disseram que as cesáreas são
marcadas para quinta-feira para não atrapalhar o fim-de-semana.
Nesse dia nasceram 40 bebês na mesma maternidade: 39 cesáreas
e 1 parto normal (o meu). Aquele monte de grávida lá não
estava em trabalho de parto. Mas eu estava…. Ô se estava!
Depois de meia hora, é
a minha vez. A enfermeira estranhou: “Você está em trabalho
de parto? Porque não avisou antes? A gente te passava na frente
das outras.” Pronto, havia cometido meu primeiro erro. Ela fez o exame
de toque: “Ih… Tem chão ainda! Só 1 cm”. Vamos ligar pro
seu médico e ver o que ele quer fazer. Enquanto isso a enfermeira
vai fazer a raspagem dos pêlos. Lá fui eu… Raspa, raspa, raspa.
“O Doutor pediu para colocar você na suíte de parto enquanto
ele vem pra cá”. Fui para a “sala de despir”.
Uma enfermiera me deu uma
sacola grande com meu número escrito por fora Entendi que
eu era a nº 815. Depois soube que esse era o número do quarto
onde ficaria depois do parto. “Vai lá naquela salinha, tire
toda a sua roupa, colar, brincos, lente de contato ou óculos, relógio,
meias, roupa íntima, e vista essa camisola do hospital. Não
fique com nada. Ponha tudo na sacola que nós mandaremos para o seu
quarto.” Tentei argumentar que só queria as lentes, porque sem elas
sou um galo cego. A enfermeira explicou sorridente: “são as regras
do hospital, meu bem, não posso fazer nada, viu?” Lá fui
eu, a nº 815, despir minhas coisas. Passei a ser a nº 815 de
camisola verde. Parecia um abacate maduro e cego, imensa daquele jeito
com o camisolão verde. “Sente na cadeira de rodas, por favor”. Expliquei
que não precisava, ia andando entre as contrações.
Dessa vez ela não sorriu mais: “Regras do hospital, minha senhora”.
Deixei de ser o “meu bem” e agora era a “minha senhora”.
Nessa hora eu e meu marido
nos separamos. Ele é um cara forte, corajoso. Trabalha com jararacas,
aquelas serpentes perigosas e altamente venenosas. Mas em se tratando de
partos e hospitais, vira uma geléia. Mole. E não quis saber
dessa coisa de parto, sangue, gritos, líquidos, etc… Ainda vou entender
os homens. Ninguém lembrou de me perguntar se eu tinha coragem de
ver o meu parto!
Antes da suíte, eu
deveria passar pela sala do monitor fetal. Mas que coisa mais estranha
a gente saudável, esbanjando vitalidade, entrar naquela saleta com
duas camas altas e aparelhos eletrônicos. A enfermeira me mandou
ficar deitada de costas e colocou uma cinta na barriga com dois eletrodos
ou sei lá como chamam aquelas coisinhas. A posição
é incômoda. Pedi para ficar de lado: não pode. Levantar
mais as costas: não pode. Sentar: você está brincando,
né? Meia-hora naquela posição!!! Com aquela cinta
maldita apertando minha barriga! Fazia 5 meses que eu não punha
jeans e agora tinha que usar cinta. A médica de plantão veio
ver a fita pra saber se eu estava bem: sim, eu estava (como se eu já
não soubesse disso). Tivesse ela me perguntado antes, teria economizado
uns bons metros de fita de monitor fetal!!!
Fui deixada na tal suíte
de parto, sozinha. O médico ainda não tinha chegado, vindo
de outra cidade. Fui ao banheiro e me vi no espelho, com os pêlos
raspados. Meu Deus! Eu pareço uma criança de 6 anos, roliça
e pelada, aquela coisinha rachada no meio!!! A suíte é bonita,
toda em madeira, decorada com uns quadrinhos, uma cama larga e uma cadeira
de balançar. Um banheiro confortável e uns armários
que estavam fechados. Supus que eram armários, mas não vi
os puxadores. Depois eu soube que atrás daquelas portas tem equipamento
suficiente para salvar 17 soldados completamente retalhados, se for o caso.
Tem incubadeira, foco de luz, ressucitador, oxigênio, e mais um monte
de máquina que eu não sei o nome nem pra que serve.
Chamei a enfermeira e pedi
água: ela disse que eu não podia. Eu pedi pelo amor de Deus
senão ia morrer seca esturricada ali mesmo na frente dela. Ela trouxe
um copinho com 2 dedos de água. Aquele foi o líquido mais
delicioso e precioso que já bebi na minha vida! Pedi mais. Ela nem
respondeu. Saiu fingindo que não ouviu. E lá fiquei eu naquela
sala, contração depois de contração. Uma atrás
da outra, uma pior que a outra. De vez em quando aparecia uma enfermeira,
fazia o exame de toque. 1 cm, 2 cm, 2 e meio… Uma mixaria.
Chegou o médico, que
alívio! Ele vai resolver isso aqui. Doutor, isso dói demais…
Faça alguma coisa. Ele já avisou: vamos esperar mais 3 horas,
se você não dilatar, a gente faz a cesárea, tá
bom? Sim, doutor. Sim doutor??? Fiquei pensando que aquilo não era
justo. Veio uma solução intermediária: anestesia na
sala de cirurgia. Lá fui eu de maca para o centro obstétrico.
Uma sala gelada como a minha sogra. A maca mede a exata largura do meu
quadril. Virar é uma aventura. Aqui e ali pipocam maquininhas diabólicas,
parece um fliperama. Tudo de aço escovado, muito moderno. Tomei
uma peridural, me botaram soro e dilatei, dilatei, dilatei… Na sala estavam
apenas o médico e o anestesista. Uma paz….
E aí tudo mudou.
DEZ CENTÍMETROS!!!!!! Ficaram todos malucos, parecia que eu ia explodir
a qualquer momento. Começou a aparecer gente de tudo que era lado,
auxiliar do médico, obstetriz, auxiliar de enfermagem, pediatra,
circulante, médico e anestesista. A sala era minúscula e
aquele povo estava todo lá aboletado, esperando eu explodir. Me
puseram de costas (eu estava de lado), botaram minhas pernas nos estribos,
acenderam um holofote tão forte que eu achei que eu deveria cantar!
Lá estou eu, o abacate cego, deitada que nem um frango assado, uma
pequena platéia olhando entre as minhas pernas. A dor havia voltado
e a maluca da enfermeira obstetra queria que eu fizesse força. O
quê??? Força? Pra doer mais?? Eu não queria fazer força.
Meus braços doiam de puxar os “remos”. Minhas pernas doíam
nos estribos, minha barriga doía! O médico apertava o períneo.
A enfermeira gritava: FAZ FORÇA!!! Eu gritava, e ela ficou brava:
não adianta gritar, minha filha, que a dor não vai passar!
Prende a respiração, faz força, agora, um, dois e
já!! De novo, de novo! Prende a respiração, faz força
de cocô! Que coisa charmosa de se dizer na hora do nascimento do
meu bebê.
Vou falar em poucas palavras:
que situação ridícula! O que era para ser um momento
de calma e paz, parecia uma praça de guerra. Todo mundo estava nervoso.
E eu estava bem, imagine um parto complicado. Acho que esse povo ia ter
uma convulsão coletiva! No meio desse caos, uma enfermeira tentava
tirar uma foto do instante do nascimento. O médico deve ter ficado
nervoso no meio dessa comoção e rompeu a bolsa, talvez para
ver se a coisa ia mais rápido. E em seguida, ZAP, um corte que atravessou
o períneo. Só descobri porque depois do parto ele ficou meia
hora costurando aquela colcha de retalhos. Que você está fazendo
aí embaixo, doutor? Estou fechando a episiotomia. Não bastasse
o nome horroroso, essa infeliz dói pra caramba no pós-parto.
Eu não me lembro direito
do que aconteceu logo depois do parto, porque eu estava exausta e o bebê
tinha sido levado para longe. Eles não gostam muito que o bebê
fique grudadinho na mãe. Devem achar perigoso, ou antihigiênico,
sei lá. Bom, eu fiquei lá sendo costurada. Ainda tive que
ficar algumas horas na sala de recuperação, para o caso de
ainda explodir, nunca se sabe. O fato é que me comportei como boa
menina e depois de algumas horas me deixaram pegar meu bebê. Eu estava
muito feliz, muito mesmo, porque tinha acabado, estavam todos bem, inclusive
aquela equipe à beira de um ataque de nervos. Meu bebê estava
perfeito e eu tinha conseguido um parto “normal”. O primeiro tinha sido
uma cesárea, que um dia eu conto.
obs: essa
é uma história de ficção, embora as semelhanças
com pessoas, atitudes e hospitais reais não sejam meras coincidências.
página
principal menu
de curiosidades
|