CRÔNICA DE UM PARTO
Ana Cris Duarte

 
Eu sempre achei que ter nenê era uma coisa assim meio automática. A gente entra em trabalho de parto, vai lá no hospital, e tem o nenê. Assim, pá-pum! Puxa, não é bem assim…. Tem pá, tem pum, mas tem muito mais. Vou contar como foi meu parto.

Entrei em trabalho de parto de repente. Nada dessa propaganda enganosa de delicadas colicazinhas a cada 30 minutos. Eu estava deitada à tarde e senti uma cólica medonha. Eu pensei: nó nas tripas! Só podia ser. Corri pro banheiro, e o intestino funcionou direitinho. Ufa, não era parto! Deitei novamente e depois de 10 minutos, outra cólica. Outra??? Fui no banheiro de novo. E outra, e mais outra… Epa.. Acho que estou em trabalho de parto. E esse negócio dói.

Liguei pro meu marido, fui pro chuveiro enquanto esperava. Arrumei minhas coisas e esperei, esperei, esperei… Cadê o pai dessa criança? Duas horas depois ele chegou, muito tranquilo. Estava mudando uns livros de lugar. No dia do meu parto. Sim, era isso que ele estava fazendo. Sem comentários. Fomos para a maternidade. A essas alturas, eu achava que o bebê estava pra nascer. As contrações vinham a cada 5 minutos com muita força.

Chegando à maternidade, fui para a sala de “triagem”, um tipo de sala de visitas. Pelo menos 15 grávidas se amontoavam naquele espaço. Era uma quinta-feira, dia forte para as maternidades. Me disseram que as cesáreas são marcadas para quinta-feira para não atrapalhar o fim-de-semana. Nesse dia nasceram 40 bebês na mesma maternidade: 39 cesáreas e 1 parto normal (o meu). Aquele monte de grávida lá não estava em trabalho de parto. Mas eu estava…. Ô se estava!

Depois de meia hora, é a minha vez. A enfermeira estranhou: “Você está em trabalho de parto? Porque não avisou antes? A gente te passava na frente das outras.” Pronto, havia cometido meu primeiro erro. Ela fez o exame de toque: “Ih… Tem chão ainda! Só 1 cm”. Vamos ligar pro seu médico e ver o que ele quer fazer. Enquanto isso a enfermeira vai fazer a raspagem dos pêlos. Lá fui eu… Raspa, raspa, raspa. “O Doutor pediu para colocar você na suíte de parto enquanto ele vem pra cá”.  Fui para a “sala de despir”. 

Uma enfermiera me deu uma sacola grande com meu número escrito por fora  Entendi que eu era a nº 815. Depois soube que esse era o número do quarto onde ficaria depois do parto.  “Vai lá naquela salinha, tire toda a sua roupa, colar, brincos, lente de contato ou óculos, relógio, meias, roupa íntima, e vista essa camisola do hospital. Não fique com nada. Ponha tudo na sacola que nós mandaremos para o seu quarto.” Tentei argumentar que só queria as lentes, porque sem elas sou um galo cego. A enfermeira explicou sorridente: “são as regras do hospital, meu bem, não posso fazer nada, viu?” Lá fui eu, a nº 815, despir minhas coisas. Passei a ser a nº 815 de camisola verde. Parecia um abacate maduro e cego, imensa daquele jeito com o camisolão verde. “Sente na cadeira de rodas, por favor”. Expliquei que não precisava, ia andando entre as contrações. Dessa vez ela não sorriu mais: “Regras do hospital, minha senhora”. Deixei de ser o “meu bem” e agora era a “minha senhora”.

Nessa hora eu e meu marido nos separamos. Ele é um cara forte, corajoso. Trabalha com jararacas, aquelas serpentes perigosas e altamente venenosas. Mas em se tratando de partos e hospitais, vira uma geléia. Mole. E não quis saber dessa coisa de parto, sangue, gritos, líquidos, etc… Ainda vou entender os homens. Ninguém lembrou de me perguntar se eu tinha coragem de ver o meu parto!

Antes da suíte, eu deveria passar pela sala do monitor fetal. Mas que coisa mais estranha a gente saudável, esbanjando vitalidade, entrar naquela saleta com duas camas altas e aparelhos eletrônicos. A enfermeira me mandou ficar deitada de costas e colocou uma cinta na barriga com dois eletrodos ou sei lá como chamam aquelas coisinhas. A posição é incômoda. Pedi para ficar de lado: não pode. Levantar mais as costas: não pode. Sentar: você está brincando, né? Meia-hora naquela posição!!! Com aquela cinta maldita apertando minha barriga! Fazia 5 meses que eu não punha jeans e agora tinha que usar cinta. A médica de plantão veio ver a fita pra saber se eu estava bem: sim, eu estava (como se eu já não soubesse disso). Tivesse ela me perguntado antes, teria economizado uns bons metros de fita de monitor fetal!!!

Fui deixada na tal suíte de parto, sozinha. O médico ainda não tinha chegado, vindo de outra cidade. Fui ao banheiro e me vi no espelho, com os pêlos raspados. Meu Deus! Eu pareço uma criança de 6 anos, roliça e pelada, aquela coisinha rachada no meio!!! A suíte é bonita, toda em madeira, decorada com uns quadrinhos, uma cama larga e uma cadeira de balançar. Um banheiro confortável e uns armários que estavam fechados. Supus que eram armários, mas não vi os puxadores. Depois eu soube que atrás daquelas portas tem equipamento suficiente para salvar 17 soldados completamente retalhados, se for o caso. Tem incubadeira, foco de luz, ressucitador, oxigênio, e mais um monte de máquina que eu não sei o nome nem pra que serve.

Chamei a enfermeira e pedi água: ela disse que eu não podia. Eu pedi pelo amor de Deus senão ia morrer seca esturricada ali mesmo na frente dela. Ela trouxe um copinho com 2 dedos de água. Aquele foi o líquido mais delicioso e precioso que já bebi na minha vida! Pedi mais. Ela nem respondeu. Saiu fingindo que não ouviu. E lá fiquei eu naquela sala, contração depois de contração. Uma atrás da outra, uma pior que a outra. De vez em quando aparecia uma enfermeira, fazia o exame de toque. 1 cm, 2 cm, 2 e meio… Uma mixaria. 

Chegou o médico, que alívio! Ele vai resolver isso aqui. Doutor, isso dói demais… Faça alguma coisa. Ele já avisou: vamos esperar mais 3 horas, se você não dilatar, a gente faz a cesárea, tá bom? Sim, doutor. Sim doutor??? Fiquei pensando que aquilo não era justo. Veio uma solução intermediária: anestesia na sala de cirurgia. Lá fui eu de maca para o centro obstétrico. Uma sala gelada como a minha sogra. A maca mede a exata largura do meu quadril. Virar é uma aventura. Aqui e ali pipocam maquininhas diabólicas, parece um fliperama. Tudo de aço escovado, muito moderno. Tomei uma peridural, me botaram soro e dilatei, dilatei, dilatei… Na sala estavam apenas o médico e o anestesista. Uma paz….

E aí  tudo mudou. DEZ CENTÍMETROS!!!!!! Ficaram todos malucos, parecia que eu ia explodir a qualquer momento. Começou a aparecer gente de tudo que era lado, auxiliar do médico, obstetriz, auxiliar de enfermagem, pediatra, circulante, médico e anestesista. A sala era minúscula e aquele povo estava todo lá aboletado, esperando eu explodir. Me puseram de costas (eu estava de lado), botaram minhas pernas nos estribos, acenderam um holofote tão forte que eu achei que eu deveria cantar! Lá estou eu, o abacate cego, deitada que nem um frango assado, uma pequena platéia olhando entre as minhas pernas. A dor havia voltado e a maluca da enfermeira obstetra queria que eu fizesse força. O quê??? Força? Pra doer mais?? Eu não queria fazer força. Meus braços doiam de puxar os “remos”. Minhas pernas doíam nos estribos, minha barriga doía! O médico apertava o períneo. A enfermeira gritava: FAZ FORÇA!!! Eu gritava, e ela ficou brava: não adianta gritar, minha filha, que a dor não vai passar! Prende a respiração, faz força, agora, um, dois e já!! De novo, de novo! Prende a respiração, faz força de cocô! Que coisa charmosa de se dizer na hora do nascimento do meu bebê.

Vou falar em poucas palavras: que situação ridícula! O que era para ser um momento de calma e paz, parecia uma praça de guerra. Todo mundo estava nervoso. E eu estava bem, imagine um parto complicado. Acho que esse povo ia ter uma convulsão coletiva! No meio desse caos, uma enfermeira tentava tirar uma foto do instante do nascimento. O médico deve ter ficado nervoso no meio dessa comoção e rompeu a bolsa, talvez para ver se a coisa ia mais rápido. E em seguida, ZAP, um corte que atravessou  o períneo. Só descobri porque depois do parto ele ficou meia hora costurando aquela colcha de retalhos. Que você está fazendo aí embaixo, doutor? Estou fechando a episiotomia. Não bastasse o nome horroroso, essa infeliz dói pra caramba no pós-parto.

Eu não me lembro direito do que aconteceu logo depois do parto, porque eu estava exausta e o bebê tinha sido levado para longe. Eles não gostam muito que o bebê fique grudadinho na mãe. Devem achar perigoso,  ou antihigiênico, sei lá. Bom, eu fiquei lá sendo costurada. Ainda tive que ficar algumas horas na sala de recuperação, para o caso de ainda explodir, nunca se sabe. O fato é que me comportei como boa menina e depois de algumas horas me deixaram pegar meu bebê. Eu estava muito feliz, muito mesmo, porque tinha acabado, estavam todos bem, inclusive aquela equipe à beira de um ataque de nervos. Meu bebê estava perfeito e eu tinha conseguido um parto “normal”. O primeiro tinha sido uma cesárea, que um dia eu conto.
 

obs: essa é uma história de ficção, embora as semelhanças com pessoas, atitudes e hospitais reais não sejam meras coincidências.
 
Ana Cristina Duarte
Bióloga, Webmistress do Site Amigas do Parto, São Paulo, SP
anacris@amigasdoparto.com.br


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