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Um turbilhão
de sentimentos desconhecidos começa a inundar a mulher
a partir do momento em que desconfia que o atraso da menstruação
pode ser gravidez.
Não
importa se está na adolescência e a gravidez
foi um acidente; se é o quarto filho de uma mulher
de 40 anos; uma criança querida mas não-planejada
da mulher de 26 ou o bebê muitíssimo planejado,
que exigiu tratamento para chegar ali, na barriga da mãe
de 38 anos. Todas as mulheres têm a oportunidade de
conhecer na gravidez a força dos sentimentos ambivalentes.
O que
poucas sabem é que a ambivalência dos sentimentos
durante a gravidez, além de previsível e natural,
é uma das ferramentas fundamentais para uma boa síntese
do período gestacional, que significa um trabalho de
parto contínuo com o clímax no nascimento do
bebê.
A gestante
que consegue encarar de frente a ambivalência dos seus
sentimentos também terá maior facilidade para
entregar-se às compensações, reparações.
E encarar a ambivalência é dar escuta não
somente aos bons sentimentos mas aos maus, aos medos ou àquela
súbita e inexplicável vontade de chorar.
Nada mais
ambivalente do que a atitude de parir em um momento e no minuto
seguinte estar com o bebê ao seio, e nada mais simples,
fisiológico e intuitivo do que a conexão entre
essas duas ações. O corpo da mulher que pariu
necessita aconchegar o bebê para reintegrar-se; e esse
movimento é praticamente involuntário, não-cultural,
amoral, natural.
A mulher
que não consegue entrar em contato com seus "maus"
sentimentos durante a gravidez pode estar se preparando para
não conseguir expulsar o bebê no momento certo
e também não acalentá-lo depois que nascer,
o que significa não entrar em contato profundo com
os "bons" sentimentos. Maus sentimentos podem ser
somatizados em pesadelos, podem ser fantasias ruins e temores
em geral, estão ligados ao "não",
à imposição de limites ao que vem de
fora e a um certo poder na hora de dar à luz, quando
a mulher necessita separar-se do filho pela primeira vez depois
de tanto tempo.
O estado
de graça vem depois do parto
O comum no entanto é a existência de uma carga
enorme de preconceito em relação a mãe
que rejeita o embrião e sente-se pouco à vontade
como gestante por temer, na maioria das vezes, não
dar conta do recado, não estar à altura do mito
da maternidade.
É
claro que a ambivalência dos sentimentos passa por vários
estágios durante a gravidez e isso pode e deve ser
flexível. Passar nove meses em estado de graça
achando que o mundo ficou cor-de-rosa porque está grávida
pode ser tão contraproducente para a mulher durante
o parto e no pós-parto, quanto teimar em negar uma
gravidez até o 8º mês. Rejeitar um bebê
prestes a nascer é bloquear sentimentos de ternura,
necessários entre outras coisas pela liberação
da ocitocina e da prolactina, hormônios que vão
facilitar a descida e o aporte de leite.
Algumas
mulheres só se identificam com o papel de benfeitoras,
as boazinhas; outras sentem-se melhor no de duronas. Mas ser
boazinha ou malvada é coisa de novela. Na vida real
somos um pouco de tudo e na gravidez, especialmente, experimenta-se
muito do muito bom e do muito mau. De qualquer maneira o estado
de graça profundo só nasce junto com o bebê.
Fundamental
é aumentar a percepção interna
É comum, por exemplo, que em gestações
muito planejadas e batalhadas, a mulher bloqueie seus sentimentos
negativos e chegue ao parto vinda de um mundo mágico,
sem transtornos de qualquer espécie. Para essa mulher
os cuidados com o bebê vão ter uma proporção
infinitamente maior do que para aquela que temia não
conseguir dar conta das tarefas. Lidar com a ambivalência
é acima de tudo aceitar medos, fantasiar, entregar-se
para o desconhecido e entrar em contato consigo mesma para
conseguir sentir o bebê, de dentro para fora. O medo,
às vezes, é melhor conselheiro do que a crença
em soluções externas.
Socialmente
se exige que a grávida esteja sempre disposta, bem-vestida,
vaidosa, mulher sensual. Esquecemos que a gravidez, embora
não deva ser tratada como doença, porque não
o é de fato, é um período singular, delicado
sob todos os pontos de vista; que merece uma atenção
e um entendimento também especiais.
A mulher
grávida pode e deve dar-se o direito de mudar e essas
mudanças eventualmente passam por fatores externos
como corte de cabelo, estilo de roupa, mas isso não
é importante. O fundamental é que ela aumente
sua percepção interna e aja a partir daí,
exigindo direitos diferentes por estar em situação
desigual.
Vai precisar
muito do desenvolvimento dessa acuidade para chegar madura
emocionalmente ao parto e preparada para os cuidados com o
recém-nascido e para isso tem nove meses, tempo que
a natureza deu às mulheres para juntar o bem e o mal
da maneira mais harmônica possível.
A autora:
Cláudia Rodrigues é jornalista e vive em Florianópolis,
SC, com marido e três filhos
E-mail- claudiar@th.com.br
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