Sentimentos ambivalentes, um direito da gestante,

Cláudia Rodrigues


 

Um turbilhão de sentimentos desconhecidos começa a inundar a mulher a partir do momento em que desconfia que o atraso da menstruação pode ser gravidez.

Não importa se está na adolescência e a gravidez foi um acidente; se é o quarto filho de uma mulher de 40 anos; uma criança querida mas não-planejada da mulher de 26 ou o bebê muitíssimo planejado, que exigiu tratamento para chegar ali, na barriga da mãe de 38 anos. Todas as mulheres têm a oportunidade de conhecer na gravidez a força dos sentimentos ambivalentes.

O que poucas sabem é que a ambivalência dos sentimentos durante a gravidez, além de previsível e natural, é uma das ferramentas fundamentais para uma boa síntese do período gestacional, que significa um trabalho de parto contínuo com o clímax no nascimento do bebê.

A gestante que consegue encarar de frente a ambivalência dos seus sentimentos também terá maior facilidade para entregar-se às compensações, reparações. E encarar a ambivalência é dar escuta não somente aos bons sentimentos mas aos maus, aos medos ou àquela súbita e inexplicável vontade de chorar.

Nada mais ambivalente do que a atitude de parir em um momento e no minuto seguinte estar com o bebê ao seio, e nada mais simples, fisiológico e intuitivo do que a conexão entre essas duas ações. O corpo da mulher que pariu necessita aconchegar o bebê para reintegrar-se; e esse movimento é praticamente involuntário, não-cultural, amoral, natural.

A mulher que não consegue entrar em contato com seus "maus" sentimentos durante a gravidez pode estar se preparando para não conseguir expulsar o bebê no momento certo e também não acalentá-lo depois que nascer, o que significa não entrar em contato profundo com os "bons" sentimentos. Maus sentimentos podem ser somatizados em pesadelos, podem ser fantasias ruins e temores em geral, estão ligados ao "não", à imposição de limites ao que vem de fora e a um certo poder na hora de dar à luz, quando a mulher necessita separar-se do filho pela primeira vez depois de tanto tempo.

O estado de graça vem depois do parto
O comum no entanto é a existência de uma carga enorme de preconceito em relação a mãe que rejeita o embrião e sente-se pouco à vontade como gestante por temer, na maioria das vezes, não dar conta do recado, não estar à altura do mito da maternidade.

É claro que a ambivalência dos sentimentos passa por vários estágios durante a gravidez e isso pode e deve ser flexível. Passar nove meses em estado de graça achando que o mundo ficou cor-de-rosa porque está grávida pode ser tão contraproducente para a mulher durante o parto e no pós-parto, quanto teimar em negar uma gravidez até o 8º mês. Rejeitar um bebê prestes a nascer é bloquear sentimentos de ternura, necessários entre outras coisas pela liberação da ocitocina e da prolactina, hormônios que vão facilitar a descida e o aporte de leite.

Algumas mulheres só se identificam com o papel de benfeitoras, as boazinhas; outras sentem-se melhor no de duronas. Mas ser boazinha ou malvada é coisa de novela. Na vida real somos um pouco de tudo e na gravidez, especialmente, experimenta-se muito do muito bom e do muito mau. De qualquer maneira o estado de graça profundo só nasce junto com o bebê.

Fundamental é aumentar a percepção interna
É comum, por exemplo, que em gestações muito planejadas e batalhadas, a mulher bloqueie seus sentimentos negativos e chegue ao parto vinda de um mundo mágico, sem transtornos de qualquer espécie. Para essa mulher os cuidados com o bebê vão ter uma proporção infinitamente maior do que para aquela que temia não conseguir dar conta das tarefas. Lidar com a ambivalência é acima de tudo aceitar medos, fantasiar, entregar-se para o desconhecido e entrar em contato consigo mesma para conseguir sentir o bebê, de dentro para fora. O medo, às vezes, é melhor conselheiro do que a crença em soluções externas.

Socialmente se exige que a grávida esteja sempre disposta, bem-vestida, vaidosa, mulher sensual. Esquecemos que a gravidez, embora não deva ser tratada como doença, porque não o é de fato, é um período singular, delicado sob todos os pontos de vista; que merece uma atenção e um entendimento também especiais.

A mulher grávida pode e deve dar-se o direito de mudar e essas mudanças eventualmente passam por fatores externos como corte de cabelo, estilo de roupa, mas isso não é importante. O fundamental é que ela aumente sua percepção interna e aja a partir daí, exigindo direitos diferentes por estar em situação desigual.

Vai precisar muito do desenvolvimento dessa acuidade para chegar madura emocionalmente ao parto e preparada para os cuidados com o recém-nascido e para isso tem nove meses, tempo que a natureza deu às mulheres para juntar o bem e o mal da maneira mais harmônica possível.

A autora:
Cláudia Rodrigues é jornalista e vive em Florianópolis, SC, com marido e três filhos
E-mail- claudiar@th.com.br

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