Sintomas-mestres, os doutores emocionais,

Cláudia Rodrigues


 

A mulher primitiva sentia-se grávida mais facilmente do que consegue hoje a civilizada, que tende a pensar-se grávida, fazer-se grávida. A evolução da ciência médica tem salvado vidas, o que é inquestionável, mas também tem ajudado a mulher a desacreditar no potencial humano de luta pela sobrevivência, tão bem significado pelo desencadeamento de um parto natural.

A gravidez cada dia se torna menos um fato acidental e mais uma escolha pensada, refletida, adiada e finalmente escolhida ou renegada. Tudo é permitido, mas os sentimentos não são tolerados. Os desejos, vontades súbitas de comer algo inusitado, por exemplo, são encarados como bobagem. Esses desejos são explicados fisiologicamente, pois as mudanças hormonais provocam um maior aguçamento dos sentidos. A mulher grávida fica mais sensível e é natural que queira voltar-se para si mesma. Sente-se fragilizada, porque vive somaticamente a distenção máxima de deixar crescer dentro se si um ser, que ficará tão perfeito a ponto de precisar sair, lutando pela própria sobrevivência. Cabe à ela receber essa missão ancestral, permitindo que o bebê passe são e salvo para a vida do lado de fora do corpo da sua mãe.

É um grande processo, lento e profundo; poderia ser mais respeitado, melhor considerado, mas exige-se muito da mulher grávida. Ela precisa demonstrar que está feliz por estar grávida, por exemplo, embora os sentimentos naturais fabricados durante os três primeiros meses, mesmo quando a gravidez é desejada, sejam de instrospecção, uma certa preocupação, medos, planos, medo de fazer planos, sonhos, sensações nunca vividas antes e um universo de sentimentos desconhecidos que transbordam somaticamente em enjôos, dores de cabeça, sonolência, prisão de ventre entre outros, milenarmente conhecidos.

Laura do Espírito Santo, mestra em enfermagem-obstétrica, que há 23 anos acompanha partos, revela que os sintomas da gravidez são explicados fisiologicamente devido ao aumento dos hormônios -- progesterona e estrogênio -- no corpo fecundado. “Os enjôos, por exemplo, ocorrem porque a presença dos hormônios, faz com que haja um relaxamento do sistema gástrico e conseqüentemente uma maior salivação; mas a forma como a mulher, desde o princípio, recebe os sintomas aprendendo a lidar com eles, é fundamental para o bom desenvolvimento da gravidez e do parto”, defende. Os sintomas da gravidez exigem que a mulher se adapte a uma nova forma de ser e estar no mundo. Mas nem sempre a vida psíquica dá conta de receber e decodificar as transformações que o corpo físico está vivendo.

Os sintomas são resultados das relações entre as camadas que nos habitam. Quando as camadas neural, visceral e muscular não se comunicam ou entram em conflito, surge o sintoma. Quando ele é combatido a pessoa fica impossibilitada de entender o que o corpo estava tentando dizer. O cérebro não pode decodificar adequadamente as mensagens enviadas pelo corpo quando sofre invasões químicas externas.

A dor de cabeça não está ali para ser combatida com um analgésico. Está para ser compreendida. O corpo pede para relaxar na gravidez, exige que suas necessidades sejam atendidas ou a dor de cabeça não compreendida pode se transformar em hipertensão, risco de pré-eclâmpsia, parto expulsivo, cesariana. Os enjôos se apresentam para serem decifrados, promovidos a um novo status: sensibilidade olfativa aguçada.

“Para acolher bem o filho, a mulher necessita sentir-se segura dentro de si mesma...se ela denigre seu próprio corpo e passa a ter uma baixa auto-estima, tenderá a sentir-se predominantemente ruim por dentro, julgando-se incapaz de fazer bons bebês, escreve Maria Teresa Maldonado, mestre em psicologia clínica, em Psicossomática Hoje (Artes Médicas, Porto Alegre, 1992).

Acreditar-se incapaz de gerar um bom bebê, é acreditar que não se é capaz de colocá-lo a salvo no mundo e ainda dar conta da própria sobrevivência. Como é difícil sentir! Sentir um bebê fecundado é mais do que passar hidratante na barriga, conversar com ele, combinar número de chutes para determinadas perguntas. Esses modos de comunicação são muito superficiais, pois o que ocorre nas camadas mais profundas do corpo e da mente da mulher, fabrica um novo universo, totalmente diferente de tudo o que já sentiu. E isso dá medo. Um medo que só passa, de verdade, na hora em que a mulher dá à luz. Esse medo precisa ser vivido, compreendido, aos poucos, desde o início.

Os sintomas são os mestres e cada mulher tem os seus. O corpo é uma máquina muito bem preparada para dar conta das situações em que se mete, mas é muito mais do que um corpo e um cérebro em funcionamento neuroquímico. Ele é regido pelos sentimentos e emoções. É bem regido quando a pessoa se permite sentir e expressar seus afetos. É um corpo trancado, sinapses travadas no cérebro, quando bloqueia a diversidade de seus sentimentos.

Em sua tese de livre-docência, “A Psiquiatria Atual como Psicobiologia”, afirma o Dr. Danilo Perestrello: “Dia a dia, os vários fatos observados na prática clínica evidenciam que soma e psiquismo formam uma só unidade (...) Impõe-se, pois, a noção do homem como unidade psicossomática”. Os enjôos do primeiro trimestre, as cólicas eventuais, dores de cabeça, náuseas, sentimentos de solidão, são preparadores do processo todo que ainda vai se desenrolar.

Aceitar essas mensagens do corpo é entregar-se para o corpo grávido, fecundado. Uma mulher grávida pode receber tão abertamente seus enjôos a ponto de descobrir um aumento da sensibilidade olfativa. Em vez de sentir-se enjoada, percebe que prefere alguns cheiros a outros, que está diferente do que era, mas não necessariamente inadequada, vítima de sintomas que precisam ser combatidos a qualquer preço.

A paciência que ela precisará para ser mãe de um bebê começa na barriga. A mulher grávida necessita desenvolver paciência com seu corpo de grávida. E isso significa aceitar as mudanças, percebê-las, entendê-las. Uma mulher pode sentir, pensar e responsabilizar-se por sua gravidez mantendo um contato profundo com seus sentimentos, sensações e reações espontâneas, ou pode não tolerar certas mudanças condicionais do estado grávido e simplesmente passar a gravidez inteira controlando os sintomas ou pior, lutando contra eles.

Existem várias maneiras de controlar os sintomas e o tecnicismo que cerca o acompanhamento médico da grávida é um fator agravante, mas principalmente a curiosidade mórbida, típica da cultura ocidental atual. O medo de morrer, de não conseguir colocar o filho a salvo no mundo, ou de que o bebê nasça com problemas, por exemplo, transformou a grávida civilizada em uma especuladora da gravidez de maneira invertida, por isso mórbida.

Em vez de promover a aceitação interna e solitária da situação fortalecendo-se para a vida, preparando-se para o desafio cheio de subjetividades do parto, quer respostas, garantias, controle da situação durante os nove meses. Os medos naturais do primeiro trimestre, do segundo, do terceiro e do próprio desencadeamento do parto, que podem ser vividos e vencidos, são apaziguados pelas garantias. Quando chega a hora H, fica impossível parir a partir de um corpo que não amadureceu integralmente. Ele está pronto do ponto de vista fisiológico, mas não do emocional, cortical.

O momento do parto permite que a mãe tenha um insight gigante. Uma elaboração da sua importância no mundo. Seu corpo e sua mente dão um salto para a próxima etapa, entram preparados para a nova fase. Mãe e bebê sentem-se seguros e já estabelecem uma relação de confiança mútua para os próximos desafios da sobrevivência.

Sentir torna o pensar e o fazer absolutamente lógicos, mas exige muita responsabilidade e disponibilidade emocional. Preocupar-se fazendo ou fazer preocupando-se é o calcanhar de Aquiles que impede a vivência dos sentimentos na gravidez e no desencadeamento do parto. É claro que quem sentiu a gravidez e conseguiu entregar-se para o trabalho de parto, entra mais preparada na maternidade, mais segura do seu lugar de mãe.

Quando os sintomas são combatidos quimicamente, o desenvolvimento somático e emocional se separa. Cria-se uma dualidade interna que tende a afetar o desencadeamento do parto -- o corolário ideal de todo o processo. Os medicamentos regulam o funcionamento do corpo em direção ao que seria supostamente normal, mas apesar de não ser a gravidez um estado patológico, está longe de ser um estado fisiológico normal ou ideal.

“Quando a mãe fica ansiosa demais, por exemplo, é possível que desenvolva hipertensão. Ela pode desenvolver uma hipertensão tremenda, chegando a precisar de uma intervenção cirúrgica, ou pode aprender a diminuir sua ansiedade, aceitando a proximidade do parto com mais tranqüilidade, o que controlará os níveis da pressão arterial”, explica Laura do Espírito Santo, professora de enfermagem obstetra na Universidade Federal do Espírito Santo.

“Quando eu vejo uma parturiente muito nervosa e não consigo acalmá-la, quando ela está totalmente fora da situação, eu nem pego o caso”, conta Laura que acha que a tranqüilidade e o interesse da mãe pelo próprio processo é o mais importante para um bom desencadeamento do parto.

Quando uma gravidez é assintomática a mulher afirma não sentir nada, não temer nada, não sonhar nada. Isso significa que os processos somático-emocionais estão sofrendo bloqueios ainda mais rígidos do que no primeiro caso, em que ela busca combater os sintomas.

Não sentir é travar uma luta interna ainda mais severa. O desencadeamento do parto tenderá a sofrer bloqueios, repetindo o histórico da gravidez. Se a mulher não sente nada, não há nada que ela possa fazer e então se faz necessária uma intervenção: a cirurgia.

Passar uma gravidez assim é não sair do estado de pânico. Um medo paralisante que pode explicar muitos casos de bebês que passam da hora sem que a mãe entre em trabalho de parto. A máscara está na gravidez feliz, perfeita, com sintomas pouco vividos, pouco sentidos.

Quando os sintomas são muito intensos os enjôos não são suportáveis, ultrapassando os primeiros três meses; quando as dores de cabeça não desaparecem com uma boa massagem e alimentação saudável, quando a pressão vai às alturas, ultrapassando os níveis de tolerância; enfim, quando os sintomas literalmente não são suportados, significa que a situação de estar grávida é muito intensa e precisa ser melhor compreendida e/ou aceita.

O medo de gestar se reflete também na hora do parto. Tanto pode ocorrer aí um trabalho de parto rápido, quanto uma cesariana. Como a mulher entrou em contato com seus processos, ainda que de maneira distorcida, existe uma possibilidade maior de que consiga dar vazão à expressão final de tudo o que viveu. O drama pode permear a situação em um parto traumático ou por meio de uma cirurgia.

Se ainda nas últimas semanas o terror dos sintomas não deu lugar à paz, é certamente o caso de procurar ajuda de pessoas especializadas. A mulher grávida naturalmente busca orientação de pessoas mais experientes – a mãe, a tia, a irmã, a amiga – que já passaram pelo processo de gestar uma criança. A troca de informações permite conferir a veracidade de cada sintoma. Mas se a mulher grávida permanece confusa, perdida e desequilibrada, é mais do que natural procurar ajuda terapêutica. É só perguntar que se chega a alguém preparado para ajudar. É fundamental, no entanto, que a mulher compreenda que, uma vez grávida, não lhe cabe esperar que alguém venha salvá-la: o papel de mãe agora é seu.

Quando um ser humano feminino se vê no centro do palco -- colocar para fora de si alguém que gerou, formou, alimentou e está pronto para vir ao mundo -- sente uma dor emocional profunda. Quando a mulher recebe essa dor emocional e relaxa seu corpo, entregando-se às próprias sensações, entra em trabalho de parto. É fantástico. É maravilhoso. É totalmente borbulhante transformar uma dor desconhecida, jamais sentida, no mais intenso de todos os prazeres.

Os sintomas são os mestres e não há regras, receitas e modelos, pois o autoconhecimento é uma experiência singular, própria de cada pessoa.

A autora:
Cláudia Rodrigues é jornalista e vive em Florianópolis, SC
E-mail- claudiar@th.com.br

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