HUMANIZAR É PRECISO
 

Dra. Lívia Martins Carneiro

Este texto tem a finalidade de esclarecer as dúvidas das mulheres sobre a cesárea.


 

Antes competência natural das mulheres, o parto passou a ser especialidade médica. Ocorria nos domicílios, como um momento de comunhão familiar, e acabou sendo levado para os hospitais. Nesse ambiente frio e impessoal, com os argumentos da garantia de segurança e redução de riscos, foi excluída a participação familiar e retirado da mulher o seu papel de protagonista. Deita-se a mulher, facilitando-se intervenções como episiotomia e fórceps, deixando-a segmentada e alheia a sua esfera genital.

Formula-se uma tecnologia que é considerada superior à fisiologia feminina. A postura do/a profissional médico/a, de hipervalorização dos riscos e perigos, aliada à subestimação da capacidade da mulher em dar conta da situação e ambas acrescidas muitas vezes de atitudes ultrajantes, que despersonalizam e depreciam a mulher, vão torná-la impotente e vulnerável para enfrentar os desafios do parto. É a construção de mais uma dominação masculina, onde se estabelecem a superioridade e o controle do masculino sobre o feminino.

Esse modelo de parto tecnológico, que privilegia o prático, cômodo, rápido e lucrativo em substituição ao imprevisível e incoercível, esvazia os significados afetivos e existenciais que permeiam o parto. A lógica é não se submeter às forças da natureza, mas sim ao controle tecnológico, compatível com o que é considerado bem-estar na modernidade, ou seja, a capacidade de consumir e programar todas as coisas.

A concentração dos partos nas grandes maternidades ou em hospitais gerais resultou na sua patologização e tornou a sua assistência uma violência camuflada nas normas e rotinas eleitas para facilitar o trabalho da instituição. Outro ponto a considerar é o elevado custo operacional dessas maternidades, como também a complexidade do atendimento – sem justificativa, pois ao redor de 80% das mulheres internadas como doentes são saudáveis.

Como resultado do descaso das autoridades de saúde em relação à assistência ao parto, conjugado a essas novas maneiras de encarar e lidar com ele, o Brasil recebeu o título nada honroso de "Campeão em Cesáreas".

Nos últimos cinco anos o movimento de mulheres vem abrindo um debate com a sociedade civil, a academia e as autoridades públicas sobre mais esta aberração na vida das mulheres. Foi constituída a Rehuna – Rede pela Humanização do Nascimento, que conta com diversas parcerias e procura atuar de forma criativa em várias localidades do país. Em seguida o Conselho Federal de Medicina lançou a campanha "Natural É Parto Normal" que deu grande visibilidade a esta questão. Ficou evidente que era necessário realizar mudanças no modelo de assistência ao parto, pois essa distorção não iria ser eliminada apenas com um trabalho de informação e educação.

O Ministério da Saúde implementou algumas medidas, como: estipulação do percentual de cesáreas nos serviços; a legitimação do atendimento ao parto pela enfermeira obstétrica; o reforço na fiscalização dos serviços prestados pelo SUS (coibindo o duplo faturamento ou a complementação das cesáreas desnecessárias) e a normatização e construção das casas de partos; trata-se dos primeiros passos para a humanização do parto.

É tempo então de nos perguntarmos: Como institucionalizar algo que pertence à vida afetiva, emocional e sexual? Como institucionalizar como doença um ato fisiológico e natural? Como a instituição deve proceder para acolher a mulher, o homem e a criança? O que seria dar condições ao parto?

Tornar o parto simples, natural, agradável, benévolo e verdadeiramente benigno; e conservar o princípio básico da prática médica: Primum non nocere (se não se pode fazer o bem, que não se faça o mal).

É necessário mudar o cenário do parto. Da negociação entre as vantagens e desvantagens do domicílio e do hospital surge a casa de parto. Ela é a reconciliação entre esses dois partos. Podemos sonhar com ambientes mais semelhantes aos domicílios: paredes coloridas, janelas amplas, decoração singela, áreas verdes (praças e jardins) para as caminhadas, presença de música suave, quartos privativos que preservam a intimidade e afetividade da família, duchas e banheiras com água morna para amenizar os desconfortos, bancos e cadeiras obstétricas para favorecer a alternância de posição e adotar as benéficas posições verticais.

Em oposição às necessidades de privacidade do pré-parto, o ambiente do pós-parto, também chamado alojamento conjunto, pode ser um espaço comunitário. Nesta fase, as mulheres gostam de dialogar entre si sobre suas experiências e a sua criança. Elas trocam conhecimentos e informações e aprendem a dar o peito, entre si.

A casa de parto permite devolver o parto-nascimento à família e despertar inovações nas relações profissionais. Neste clima de intimidade e aconchego, os/as profissionais se sentem menos estressados/as e mais envolvidos/as e disponíveis para adequar rotinas mais flexíveis que levem em conta o bem-estar da mulher e da criança. O/a profissional deve desenvolver habilidades relacionadas ao contato com a mulher, que serão favoráveis a sua adequação emocional à gravidez e ao parto, resultando em melhor adaptação anatômica, fisiológica e bioquímica do seu corpo. Ele/a também pode ajudar na elaboração e superação dos medos, ansiedades e tensões. Neste modelo de atendimento, toda a equipe deve acolher a mulher e sua família com empatia, solidariedade e respeito, sempre levando em conta suas opiniões, preferências e necessidades. Deve-se cultivar uma postura otimista, tendente a aumentar a capacidade da mulher, em vez de torná-la frágil e dependente. A idéia é criar uma perspectiva de continuidade de atendimento desses nove meses antes e nove meses depois (exogestação) nos quais a mulher carece da mesma atenção dos serviços de saúde.

Assim estaremos repolitizando o parto-nascimento, começando pela sua humanização e caminhando até a sua feminização, quando a mulher se apropriar novamente dessa sua antiga atribuição e tornar-se a protagonista na condução do seu parto. Transformando-se o parto em uma expressão viva de seus valores femininos e buscando-se compreender esse mundo de silêncio e mistério que o permeia. E que cada mulher, com sua particular história de vida, a sua psicologia e todas as memórias nela inscritas, possa enxergar todo o caminho da maternidade como uma grande crise construtiva; e o parto como uma força que a sustenta, que a amplia e a enriquece enormemente, além de dar começo a uma nova vida.


Lívia Martins Carneiro

M édica ginecologista-obstetra do Hospital São Pio X, em Ceres/GO


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