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Antes
competência natural das mulheres, o parto passou a ser especialidade
médica. Ocorria nos domicílios, como um momento de comunhão
familiar, e acabou sendo levado para os hospitais. Nesse ambiente frio
e impessoal, com os argumentos da garantia de segurança e redução
de riscos, foi excluída a participação familiar
e retirado da mulher o seu papel de protagonista. Deita-se a mulher,
facilitando-se intervenções como episiotomia e fórceps,
deixando-a segmentada e alheia a sua esfera genital.
Formula-se
uma tecnologia que é considerada superior à fisiologia
feminina. A postura do/a profissional médico/a, de hipervalorização
dos riscos e perigos, aliada à subestimação da
capacidade da mulher em dar conta da situação e ambas
acrescidas muitas vezes de atitudes ultrajantes, que despersonalizam
e depreciam a mulher, vão torná-la impotente e vulnerável
para enfrentar os desafios do parto. É a construção
de mais uma dominação masculina, onde se estabelecem a
superioridade e o controle do masculino sobre o feminino.
Esse modelo
de parto tecnológico, que privilegia o prático, cômodo,
rápido e lucrativo em substituição ao imprevisível
e incoercível, esvazia os significados afetivos e existenciais
que permeiam o parto. A lógica é não se submeter
às forças da natureza, mas sim ao controle tecnológico,
compatível com o que é considerado bem-estar na modernidade,
ou seja, a capacidade de consumir e programar todas as coisas.
A concentração
dos partos nas grandes maternidades ou em hospitais gerais resultou
na sua patologização e tornou a sua assistência
uma violência camuflada nas normas e rotinas eleitas para facilitar
o trabalho da instituição. Outro ponto a considerar é
o elevado custo operacional dessas maternidades, como também
a complexidade do atendimento sem justificativa, pois ao redor
de 80% das mulheres internadas como doentes são saudáveis.
Como resultado
do descaso das autoridades de saúde em relação
à assistência ao parto, conjugado a essas novas maneiras
de encarar e lidar com ele, o Brasil recebeu o título nada honroso
de "Campeão em Cesáreas".
Nos últimos
cinco anos o movimento de mulheres vem abrindo um debate com a sociedade
civil, a academia e as autoridades públicas sobre mais esta aberração
na vida das mulheres. Foi constituída a Rehuna Rede pela
Humanização do Nascimento, que conta com diversas parcerias
e procura atuar de forma criativa em várias localidades do país.
Em seguida o Conselho Federal de Medicina lançou a campanha "Natural
É Parto Normal" que deu grande visibilidade a esta questão.
Ficou evidente que era necessário realizar mudanças no
modelo de assistência ao parto, pois essa distorção
não iria ser eliminada apenas com um trabalho de informação
e educação.
O Ministério
da Saúde implementou algumas medidas, como: estipulação
do percentual de cesáreas nos serviços; a legitimação
do atendimento ao parto pela enfermeira obstétrica; o reforço
na fiscalização dos serviços prestados pelo SUS
(coibindo o duplo faturamento ou a complementação das
cesáreas desnecessárias) e a normatização
e construção das casas de partos; trata-se dos primeiros
passos para a humanização do parto.
É
tempo então de nos perguntarmos: Como institucionalizar algo
que pertence à vida afetiva, emocional e sexual? Como institucionalizar
como doença um ato fisiológico e natural? Como a instituição
deve proceder para acolher a mulher, o homem e a criança? O que
seria dar condições ao parto?
Tornar
o parto simples, natural, agradável, benévolo e verdadeiramente
benigno; e conservar o princípio básico da prática
médica: Primum non nocere (se não se pode fazer o bem,
que não se faça o mal).
É
necessário mudar o cenário do parto. Da negociação
entre as vantagens e desvantagens do domicílio e do hospital
surge a casa de parto. Ela é a reconciliação entre
esses dois partos. Podemos sonhar com ambientes mais semelhantes aos
domicílios: paredes coloridas, janelas amplas, decoração
singela, áreas verdes (praças e jardins) para as caminhadas,
presença de música suave, quartos privativos que preservam
a intimidade e afetividade da família, duchas e banheiras com
água morna para amenizar os desconfortos, bancos e cadeiras obstétricas
para favorecer a alternância de posição e adotar
as benéficas posições verticais.
Em oposição
às necessidades de privacidade do pré-parto, o ambiente
do pós-parto, também chamado alojamento conjunto, pode
ser um espaço comunitário. Nesta fase, as mulheres gostam
de dialogar entre si sobre suas experiências e a sua criança.
Elas trocam conhecimentos e informações e aprendem a dar
o peito, entre si.
A casa
de parto permite devolver o parto-nascimento à família
e despertar inovações nas relações profissionais.
Neste clima de intimidade e aconchego, os/as profissionais se sentem
menos estressados/as e mais envolvidos/as e disponíveis para
adequar rotinas mais flexíveis que levem em conta o bem-estar
da mulher e da criança. O/a profissional deve desenvolver habilidades
relacionadas ao contato com a mulher, que serão favoráveis
a sua adequação emocional à gravidez e ao parto,
resultando em melhor adaptação anatômica, fisiológica
e bioquímica do seu corpo. Ele/a também pode ajudar na
elaboração e superação dos medos, ansiedades
e tensões. Neste modelo de atendimento, toda a equipe deve acolher
a mulher e sua família com empatia, solidariedade e respeito,
sempre levando em conta suas opiniões, preferências e necessidades.
Deve-se cultivar uma postura otimista, tendente a aumentar a capacidade
da mulher, em vez de torná-la frágil e dependente. A idéia
é criar uma perspectiva de continuidade de atendimento desses
nove meses antes e nove meses depois (exogestação) nos
quais a mulher carece da mesma atenção dos serviços
de saúde.
Assim
estaremos repolitizando o parto-nascimento, começando pela sua
humanização e caminhando até a sua feminização,
quando a mulher se apropriar novamente dessa sua antiga atribuição
e tornar-se a protagonista na condução do seu parto. Transformando-se
o parto em uma expressão viva de seus valores femininos e buscando-se
compreender esse mundo de silêncio e mistério que o permeia.
E que cada mulher, com sua particular história de vida, a sua
psicologia e todas as memórias nela inscritas, possa enxergar
todo o caminho da maternidade como uma grande crise construtiva; e o
parto como uma força que a sustenta, que a amplia e a enriquece
enormemente, além de dar começo a uma nova vida.
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Lívia
Martins Carneiro
M édica ginecologista-obstetra do Hospital São Pio X, em Ceres/GO
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