HUMANIZAR
(AURÉLIO)
[De humano + -izar.]
V. t. d.
1. Tornar humano; dar condição
humana a; humanar.
2. Tornar benévolo,
afável, tratável; humanar.
3. Fazer adquirir hábitos
sociais polidos; civilizar.
4. Bras. CE Amansar (animais).
V. p.
5. Tornar-se humano; humanar-se
Recentemente em acalorada
discussão com um professor de obstetrícia da minha originária
faculdade de Ciências Médicas me deparei com um fato que me
pareceu digno de aprofundamento.
Este insigne professor foi
autor há alguns meses de um artigo em um jornal local de grande
circulação a respeito da criação de Casas de
Parto no Brasil. O artigo era a respeito de "Maternidade Segura" e tratava
do assunto pela conhecida ótica médica que discursa exaustivamente
sobre a questão da segurança. Neste artigo ele tenta demonstrar
o perigo de se criar Casas de Parto porque "nunca se pode ter certeza de
que um nascimento seja isento de risco", terminando com uma acusação
ao Ministério da Saúde afirmando que este tipo de "experiência"
só serve para fazer economia às custas da segurança
dos pacientes. Citava lugares do mundo onde os partos são exclusivamente
hospitalares e "esquecia-se" de citar locais como a Holanda onde mais de
30% dos partos se situam fora dos hospitais e sob o cuidado de parteiras.
Quando fui aluno deste professor
sempre me chamou a atenção a sua postura intervencionista,
tecnológica, seu posicionamento claramente favorável às
abordagens científicas e técnicas do parto e sua especial
simpatia pela obstetrícia americana. Alguns anos antes, ao candidatar-se
a cargo eletivo na Cooperativa Médica local, calcou sua plataforma
médica na questão do combate aos "profissionais alheios à
medicina" que estariam exercendo atividades na obstetrícia, numa
alusão clara à atividade das enfermeiras obstétricas.
Colegas me relatavam que no seu plantão no Hospital da Universidade
ele proibira que enfermeiras da graduação realizassem qualquer
tipo de atendimento obstétrico.
Bem, nada disso é
surpreendente. Estas coisas todas eram do meu conhecimento. Sabia que ele
como professor de obstetrícia reproduzia todo um arcabouço
filosófico que sustenta e embasa o proceder ritualístico
da obstetrícia contemporânea. Entretanto o que me deixou espantado
é que nossa conversa iniciou-se com a seguinte frase por ele pronunciada:
"- Dr, as coisas que aqui serão discutidas nada tem a ver com
sua posição em relação à Humanização
do Nascimento, até porque sou claramente favorável a ela."
Quando o meu honorável
professor proferiu esta sentença eu fiquei pensando: existe alguma
coisa que não está bem explicada a respeito da humanização
do nascimento. Se este professor considera-se um defensor do Parto Humanizado,
sendo que ele é o responsável técnico de uma maternidade
que tem 80% de cesarianas, que trabalha como professor de obstetrícia
e forma os obstetras que vão trabalhar posteriormente nesta mesma
maternidade (e o faz há mais de 20 anos), escreve e discursa contra
as Casas de Parto e não aceita o atendimento de obstetrizes em partos
de baixo risco, o que sou eu então?
Percebi que existe muita
confusão conceitual nesta área, e que se quisermos realmente
modificar estas questões temos que definir claramente qual a nossa
proposta de modelo, o que queremos dizer com humanização,
quais os nossos objetivos e as nossas metas. Assim como a discussão
do "normal e natural", a discussão do "humanizar" faz-se necessária,
sob pena de colocarmos em um mesmo saco gatos, cães, lebres, coelhos.
Não é admissível que "humanização" torne-se
um chavão vazio, como tantos outros que conhecemos, em que todos
o utilizem sem a menor responsabilidade e sem ter consciência exata
do que estão tratando.
O
QUE É HUMANIZAÇÃO DO PARTO
Existe um movimento no mundo
inteiro no sentido de reforçar estas teses. Aqui no Brasil temos
a Rede pela Humanização do Parto e Nascimento que é
nossa principal ferramenta de aglutinação de profissionais
de várias áreas interessados na modificação
do atendimento à mulher no ciclo gravido-puerperal. Entretanto percebo
que ainda não possuímos uma definição concreta
e precisa do que entendemos por humanização, a ponto de um
médico que me parece claramente um "intervencionista" tradicional
auto-proclamar-se "humanista". Porque?
Na minha ótica, (e
desde já pretendo colocar que se trata apenas de um viés
absolutamente pessoal e que apenas pretende iniciar um debate sobre a questão)
quando abordamos este assunto temos que compreendê-lo na sua origem,
nas raízes, fugindo tanto quanto possível da pueril superficialidade
que aparece aos nossos olhos. O equívoco que a mim parece evidente
nas palavras do meu professor é que ele não tem conhecimento
do que seja o projeto de humanização no seu sentido amplo
e profundo.
Quando ele fala em humanizar
está se referindo a tratar com mais gentileza e "humanidade" as
pacientes nos Centros Obstétricos; refere-se a uma abordagem menos
agressiva e mais racional do manejo das internações. Porém
eu considero humanização do nascimento algo muito mais profundo
do que isso. Vai além de fazer um centro obstétrico mais
arejado, enfermeiras e atendentes sorridentes ou colocar vasos de flores
nos quartos.
Humanização
do Nascimento tem a ver com a posição em que a cliente/parturiente
ocupa neste cenário. Neste sentido humanizar tem a ver com feminilizar.
Enquanto o nascimento for manejado de forma masculina ele nunca será
verdadeiramente humanizado. É inadmissível que um fenômeno
tão intrinsecamente feminino seja gerenciado por pressupostos tão
marcadamente masculinos! Se a paciente se mantém como objeto, como
indivíduo passivo, como alguém sobre a qual recaem as forças
cegas e desorganizadas da natureza, necessitando por isso um cuidado intensivo
no sentido de salvá-la do seu destino cruel, então nem 1
milhão de flores, rosas, jasmins, cravos, orquídeas e nem
milhares de sorrisos benevolentes tornarão este parto um parto humanizado.
O que torna um parto humanizado,
ao contrário do manejo alienante que encontramos nas nossas maternidades,
é o protagonismo conquistado por esta mulher. A posição
de cócoras, a presença do marido/acompanhante, a diminuição
de algumas intervenções sabidamente desnecessárias,
o local do nascimento, etc. não são suficientes para tornar
um nascimento "feminino e humanizado". É necessário muito
mais do que isso.
Não existe humanização
do nascimento com mulheres sem voz. É preciso que esta mulher, consciente
da sua posição como figura central no processo, faça
valer seus direitos, sua autonomia e seu valor. O que torna um obstetra
(ou profissional do parto) humanista ou não, é a capacidade
de estimular a participação, o envolvimento efetivo e a condução
deste processo a quem de direito: a mãe. Sem estes requisitos de
nada adiantam maternidades lindas, belas, arejadas, limpas, assépticas,
com enfermeiras gentis e sorridentes.
Usando como exemplo a questão
prisional, uma penitenciária não se torna humana simplesmente
varrendo as celas e oferecendo roupas limpas aos detentos. Nem tampouco
com carcereiros gentis e sorridentes. Ela se torna humana se a lei é
bem aplicada, se não ocorre injustiça na aplicação
das penas, se os presos tem os seus direitos respeitados.
Desta forma, muito mais importante
que a humanização da forma, é necessário instituir
a humanização dos conceitos. É fundamental construir
uma visão nova, que resgate este protagonismo perdido pela tecnocracia
dogmática e fechada do cientificismo religioso. Sem este delineamento
do que concebemos por humanização ficaremos todos tratando
por um mesmo termo conceitos completamente diversos.
Enfim, o projeto de humanização
do Parto e Nascimento inicia-se por uma definição clara do
que entendemos por "humanizar", para que a partir de conceitos firmes e
sólidos possamos construir um modelo mais justo e adequado para
as mulheres, sua família e seus filhos.
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Dr. Ricardo
Herbert Jones
Médico
Homeopata, Ginecologista e Obstetra, Porto Alegre, RS
rhjones@ieg.com.br
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