| Novamente reascende-se a
polêmica entre cesariana e parto normal. Está nas revistas
de circulação nacional, nos cadernos de saúde e nas
conversas entre profissionais envolvidos. Esta discussão me remete
a uma outra ocorrida nos anos 60 envolvendo amamentação natural
e aleitamento artificial. Naquela época ocorreu o apogeu dos leites
artificiais, que propalavam aspectos nutricionais equivalentes ou mesmo
superiores àqueles do leite materno, além de livrar as mulheres
da "penosa e árdua" tarefa da amamentação. Era uma
fase de expansão das conquistas feministas, e esta discussão
estava obviamente inserida neste contexto cultural. Parecia-nos que nossa
tecnologia era suficiente para dar conta de todos os nossos problemas.
Criávamos máquinas que substituíam o trabalho humano,
que viajavam até a lua, que encurtavam distâncias etc... Por
que não criar algo que diminuísse o "desconforto" de amamentar?
Foram necessários
muitos estragos e alguns anos para que descobríssemos o engodo que
a nossa característica soberba havia nos legado. Transtornos nutricionais,
de crescimento, dentários, e afetivos são alguns dos resultados
desta aventura. Hoje em dia existem severas sanções para
qualquer publicidade que veicule substitutos do aleitamento materno. Trinta
anos depois estamos convencidos do prejuízo causado por qualquer
procedimento que interfira na amamentação natural e precoce.
De forma semelhante se insere
a celeuma da cesariana no nosso meio. Assim como a amamentação,
o parto natural é um processo absolutamente fisiológico,
que foi determinado por milhões de anos de aperfeiçoamento.
Entretanto a medicina moderna no afã de salvar aquelas mulheres
que por dificuldades várias não conseguiam parir de forma
segura ou eficiente criou um procedimento cirúrgico que abrevia
o processo. Este procedimento é a cesariana. Tudo muito bonito e
correto.
Entretanto muito cedo os
médicos descobriram que este procedimento, que em algumas e específicas
circunstâncias é benéfico para mães e filhos,
é sempre tentador para o profissional. Digo tentador porque a tarefa
de acompanhar uma gestante nos seus momentos mais críticos é
extremamente desgastante para o profissional médico envolvido. Horas
a fio escutando as dores de sua paciente, que parecem sem fim. Horas estas
em que se distancia da sua família ou do seu consultório,
fonte do seu sustento. Somem-se a isso os dias em que esteve à disposição
da sua paciente impedido de sair, passear, viajar para a praia etc... e
teremos a equação mais aproximada da causa do exagero nas
indicações desta cirurgia.
Sim, porque este profissional
diante da remuneração baixa, da dedicação que
o parto natural exige, do despreparo que sente por não ter recebido
na faculdade uma visão humanística, fatalmente sucumbirá
à tentação da cesariana, com seu canto inebriante
e ilusório. Sim, recordem-se que uma cesariana marcada com antecedência
não atrapalha fins-de-semana, horas de consultório, madrugadas
ou férias programadas. Ela é perfeita em quase tudo. Só
não leva em consideração um pequeno detalhe: o paciente.
Ora, me dirão, não
é mais possível imaginar um mundo em que este procedimento
não esteja presente. É uma cirurgia salvadora sem a qual
milhares de pessoas teriam suas vidas destruídas. Tudo verdade.
O que não podemos admitir é que um procedimento, obviamente
de exceção, tenha se tornado, no nosso país, a via
de escolha para o nascimento. A Organização Mundial da Saúde
preconiza que qualquer incidência superior a 15 por cento em qualquer
parte do mundo é exagerada. Como explicar nossos índices
próximos de 50%, quando na década de 70 este índice
era de 14,6%?
Várias são
as explicações. Sabemos da utilização da cesariana
com objetivos de esterilização. Sabemos da debilidade da
formação médica. Sabemos da ignorância da população
quanto aos benefícios do parto normal e dos riscos da cesariana.
Sabemos do ambiente cultural em que vivemos que relega a segundo plano
os aspectos afetivos da relação médico-paciente, e
que coloca a tecnologia como uma Deusa que tudo pode nos prover, produzindo
este caldo cultural que a bio-antropologia moderna chama de "Modelo Médico
Tecnocrático.
Entretanto diante deste problema
não podemos ficar sabendo, sabendo e sabendo e continuar de braços
cruzados. Minha experiência como obstetra nos últimos 15 anos
me fez ver que o caminho da conscientização das mulheres
a respeito dos benefícios do parto natural é a via mais segura
para modificarmos estes índices. Porém não é
a única. O debate interno da classe médica e uma mea-culpa
das nossas deficiências também se fazem necessárias.
Ações de estratégia em nível de SUS poderiam
ajudar neste esforço, com idéias originais e arrojadas.
Algum tempo atrás
recebi a carta de uma médica americana que escreveu um livro sobre
homeopatia e trabalho de parto. Escrevi a ela pedindo que me mandasse seu
livro pois acreditava que este poderia ser útil no meu esforço
contra a cesariana desnecessária no meu país. Ela respondeu
que ficava feliz em saber que no Brasil havia pessoas engajadas nesta luta
e que tinha informações de que aqui a incidência de
cesarianas chegava a 95% dos nascimentos. Apesar do exagero da sua afirmação
fiquei chocado com a idéia que americanos e europeus fazem da nossa
obstetrícia. Em verdade me senti envergonhado.
Entretanto, cada vez que
consigo convencer minha paciente das vantagens do parto natural, não
agressivo, respeitoso e privilegiando os aspectos afetivos do mesmo, me
sinto com coragem renovada para continuar. E quando depois, com o seu filho
recém nascido nos braços, o rosto suado desta mulher se ilumina
e dos seus lábios eu escuto uma voz suave dizendo –"Dr, eu consegui
!! Muito obrigada !!" me sinto um privilegiado em ter participado de alguma
forma do milagre da vida.
 |
Dr. Ricardo
Herbert Jones
Médico
Homeopata, Ginecologista e Obstetra, Porto Alegre, RS
rhjones@ieg.com.br
|
página
principal menu
de artigos
|