Falha Nossa...
Ricardo Herbert Jones

 
Novamente reascende-se a polêmica entre cesariana e parto normal. Está nas revistas de circulação nacional, nos cadernos de saúde e nas conversas entre profissionais envolvidos. Esta discussão me remete a uma outra ocorrida nos anos 60 envolvendo amamentação natural e aleitamento artificial. Naquela época ocorreu o apogeu dos leites artificiais, que propalavam aspectos nutricionais equivalentes ou mesmo superiores àqueles do leite materno, além de livrar as mulheres da "penosa e árdua" tarefa da amamentação. Era uma fase de expansão das conquistas feministas, e esta discussão estava obviamente inserida neste contexto cultural. Parecia-nos que nossa tecnologia era suficiente para dar conta de todos os nossos problemas. Criávamos máquinas que substituíam o trabalho humano, que viajavam até a lua, que encurtavam distâncias etc... Por que não criar algo que diminuísse o "desconforto" de amamentar?

Foram necessários muitos estragos e alguns anos para que descobríssemos o engodo que a nossa característica soberba havia nos legado. Transtornos nutricionais, de crescimento, dentários, e afetivos são alguns dos resultados desta aventura. Hoje em dia existem severas sanções para qualquer publicidade que veicule substitutos do aleitamento materno. Trinta anos depois estamos convencidos do prejuízo causado por qualquer procedimento que interfira na amamentação natural e precoce.

De forma semelhante se insere a celeuma da cesariana no nosso meio. Assim como a amamentação, o parto natural é um processo absolutamente fisiológico, que foi determinado por milhões de anos de aperfeiçoamento. Entretanto a medicina moderna no afã de salvar aquelas mulheres que por dificuldades várias não conseguiam parir de forma segura ou eficiente criou um procedimento cirúrgico que abrevia o processo. Este procedimento é a cesariana. Tudo muito bonito e correto. 

Entretanto muito cedo os médicos descobriram que este procedimento, que em algumas e específicas circunstâncias é benéfico para mães e filhos, é sempre tentador para o profissional. Digo tentador porque a tarefa de acompanhar uma gestante nos seus momentos mais críticos é extremamente desgastante para o profissional médico envolvido. Horas a fio escutando as dores de sua paciente, que parecem sem fim. Horas estas em que se distancia da sua família ou do seu consultório, fonte do seu sustento. Somem-se a isso os dias em que esteve à disposição da sua paciente impedido de sair, passear, viajar para a praia etc... e teremos a equação mais aproximada da causa do exagero nas indicações desta cirurgia. 

Sim, porque este profissional diante da remuneração baixa, da dedicação que o parto natural exige, do despreparo que sente por não ter recebido na faculdade uma visão humanística, fatalmente sucumbirá à tentação da cesariana, com seu canto inebriante e ilusório. Sim, recordem-se que uma cesariana marcada com antecedência não atrapalha fins-de-semana, horas de consultório, madrugadas ou férias programadas. Ela é perfeita em quase tudo. Só não leva em consideração um pequeno detalhe: o paciente. 

Ora, me dirão, não é mais possível imaginar um mundo em que este procedimento não esteja presente. É uma cirurgia salvadora sem a qual milhares de pessoas teriam suas vidas destruídas. Tudo verdade. O que não podemos admitir é que um procedimento, obviamente de exceção, tenha se tornado, no nosso país, a via de escolha para o nascimento. A Organização Mundial da Saúde preconiza que qualquer incidência superior a 15 por cento em qualquer parte do mundo é exagerada. Como explicar nossos índices próximos de 50%, quando na década de 70 este índice era de 14,6%?

Várias são as explicações. Sabemos da utilização da cesariana com objetivos de esterilização. Sabemos da debilidade da formação médica. Sabemos da ignorância da população quanto aos benefícios do parto normal e dos riscos da cesariana. Sabemos do ambiente cultural em que vivemos que relega a segundo plano os aspectos afetivos da relação médico-paciente, e que coloca a tecnologia como uma Deusa que tudo pode nos prover, produzindo este caldo cultural que a bio-antropologia moderna chama de "Modelo Médico Tecnocrático. 

Entretanto diante deste problema não podemos ficar sabendo, sabendo e sabendo e continuar de braços cruzados. Minha experiência como obstetra nos últimos 15 anos me fez ver que o caminho da conscientização das mulheres a respeito dos benefícios do parto natural é a via mais segura para modificarmos estes índices. Porém não é a única. O debate interno da classe médica e uma mea-culpa das nossas deficiências também se fazem necessárias. Ações de estratégia em nível de SUS poderiam ajudar neste esforço, com idéias originais e arrojadas. 

Algum tempo atrás recebi a carta de uma médica americana que escreveu um livro sobre homeopatia e trabalho de parto. Escrevi a ela pedindo que me mandasse seu livro pois acreditava que este poderia ser útil no meu esforço contra a cesariana desnecessária no meu país. Ela respondeu que ficava feliz em saber que no Brasil havia pessoas engajadas nesta luta e que tinha informações de que aqui a incidência de cesarianas chegava a 95% dos nascimentos. Apesar do exagero da sua afirmação fiquei chocado com a idéia que americanos e europeus fazem da nossa obstetrícia. Em verdade me senti envergonhado. 

Entretanto, cada vez que consigo convencer minha paciente das vantagens do parto natural, não agressivo, respeitoso e privilegiando os aspectos afetivos do mesmo, me sinto com coragem renovada para continuar. E quando depois, com o seu filho recém nascido nos braços, o rosto suado desta mulher se ilumina e dos seus lábios eu escuto uma voz suave dizendo –"Dr, eu consegui !! Muito obrigada !!" me sinto um privilegiado em ter participado de alguma forma do milagre da vida.
 
  

Dr. Ricardo Herbert Jones
Médico Homeopata, Ginecologista e Obstetra, Porto Alegre, RS
rhjones@ieg.com.br


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