| Fenômeno
cultural da cesárea no Brasil
O Brasil, país conhecido
pela abundância de recursos naturais, tem sofrido uma das piores
ações antiecológicas: apresenta a maior taxa mundial
de cesáreas, alcançando índices entre 70 e 90% em
alguns hospitais. O parto cirúrgico passou a ser o método
“normal” de fazer uma criança vir ao mundo, ocorrendo uma
inversão de valores da naturalidade da vida. Este fenômeno
permeia a cultura brasileira, pois, ao engravidar, muitas mulheres optam
pela cesárea como forma “antidolorosa” de ter filhos, o que não
passa de engano e desinformação.
Todavia aproximadamente 32%
dos nascimentos ocorreram por cesarianas, uma cifra inaceitável.
A intervenção cesárea é um procedimento capaz
de evitar um óbito materno ou fetal quando indicada corretamente,
mas representa um risco, para quem poderia ter um parto normal.
Há pelo menos 30 anos
que o Brasil detém a liderança mundial de partos cesareanos,
realizando até 558 mil cirurgias anuais desnecessárias, o
que resulta num gasto inútil de R$ 83,4 milhões e a ocupação
desnecessária de algo em torno de 1.653 leitos a cada dia. No município
de Italva, no Norte Fluminense, por exemplo, 166 dos 168 partos ocorridos
em 1996, foram de cesareana!!! (2)
Além de líder
mundial na prática do parto cesareano, o Brasil por causa desta
cirurgia, responde por um saldo médio de 114 óbitos maternos
por 100 mil bebês nascidos vivos. A taxa de cesárea no Brasil
situa-se em torno de 36,45, enquanto a dos Estados Unidos é de 24%
e da Áustria 7,5%(1).
“As cesáreas desnecessárias
são as primeiras a causar aumento de mortes maternas, de mortalidade
pós-parto e de aumento de incidência de prematuridade e síndrome
de angústia respiratória do recém-nascido”, concluem
estudos realizados nesta área pelo professor Hugo Sabatino(3).
Os dados do SUS(1) mostram de que há 4,35 vezes mais riscos
de infeção puerperal e de que a mortalidade materna, após
o parto cesáreo, é de três vezes maior do que o parto
normal ou do abortamento.
Dos fatores que contribuem
para a epidemia de cesárea, os mais importantes são os seguintes:
laqueadura de trompas, falta de reembolso de anestesia para o parto normal,
desconhecimento da população dos riscos da cirurgia, conveniência
médica devido ao tempo mais curto e melhor renumeração,
incentivos financeiros diretos e indiretos para médicos e hospitais,
falta de equipamentos para avaliação de risco fetal, mas
ainda, a mais importante é a representação social
da mulher que a cesárea é indolor e preserva a anatomia vaginal
para as futuras relações sexuais.
No final da década
de 80, a Federação Brasileira das Sociedades de Ginecologia
e Obstetrícia - FEBRASGO, através de seu Presidente Hans
Halbe desencadeou um campanha de “Parto Normal e Amamentação
- uma ato de amor”. A classe médica e algumas entidades estranharam
a conduta das Sociedades locais em estimular o resgate do parto normal
e baixar os altos níveis de operações desnecessárias
no país. Os colegas que apoiaram e divulgaram tal campanha foram
taxados de oportunistas e ridicularizados perante a classe. Mal sabiam
eles que estavam na contra mão da história. Mas hoje, após
uma década, o mundo aderiu a este movimento, inclusive o Brasil.
O Ministério da Saúde
preocupado com o alarmante índice de partos cirúrgicos, desenvolveu
um projeto sobre a Epidemiologia da Cesárea na América, utilizando
as estratégias de ação da Coordenação
da Saúde da Mulher, da Criança e Adolescente, em parceria
com Centro Latino Americano de Perinatologia da OPAS. Esse projeto desenvolve-se
em três etapas. A primeira, estudou uma amostra de 103 maternidades
do SUS, que apresentaram uma taxa acima de 50% de cesarianas em mais de
5.000 partos no ano de 1996. A segunda parte deve analisar as indicações
de cirurgias, e a terceira deve avaliar todas as de indicações
cesáreas. através de acompanhamento sistemático.
Em 1997, o Conselho Federal
de Medicina(2) (CFM) lançou ampla campanha com o slogam “Parto
Normal é Natural” conscientizando a população e os
médicos para o resgate do parto normal, buscando baixar os alarmantes
índices de cesareanas verificados no país. A campanha que
teve como madrinha a atriz Malú Mader, envolveu diversas entidades
da sociedade civil principalmente as voltadas para a saúde e os
direitos das mulheres. A repercussão da campanha atingiu o Ministério
da Saúde que após a posse do ministro José Serra,
intensificou o Programa de Assistência À Saúde da Mulher,
com medidas como aumento de recursos para os procedimentos de partos normais
ou cesáreas, incentivo à criação de serviços
de alto risco com renumeração diferenciada, pagamento de
analgesia nos partos normais e de UTI neonatal, entre outras(2).
1. Ministério da Saúde -
Programas de Saúde - Saúde da Mulher
2. Revista do Conselho Federal de Medicina.
3. Medicina Perinatal - José Aristodemo
Penotti e José Hugo Sabatino, Ed. Unicamp, 1982
página
principal menu
de artigos
|