O Parto no Brasil:
Posições brasileiras de parir 
Dr. Heinz Roland Jakobi

 
Posições brasileiras de parir

É descrito que, na época Pré-Hipocrática (V século a. C.) o direito de socorrer as parturientes era privativo das parteiras, sendo os recursos da medicina muito limitados e as manobras rudes e agressivas necessitavam colocar as parturientes em várias posturas. A posição de parto, mais comum, era sentada sobre um tamborete baixo ou no regaço das parteiras, podendo considerar que foram os egípcios que inventaram a cadeira obstétrica.

A cadeira obstétrica era de uso corrente entre os gregos, que faziam a mulher parir sentada ou reclinada, sendo esta posição também adotada pêlos romanos, onde as parteiras se colocavam ajoelhadas esperando o concepto.

Com a decadência do Império Romano e a ascenção dos árabes, passam a prevalecer suas influências. Assim Ali Bem-Abbas (994 d.C.) descreve a atitude adequada da parturiente: decúbito dorsal, com a cabeça em declive e hiperextensão do membro inferior. Neste período Trótula preconizou a perineorrafia pós-parto.

Entre os séculos XVI a XIX, Ambrósio Paré em 1521 dá preceitos quanto à posição da parturiente, e Francisco Mauriceau em 1700, divulga na Europa a posição deitada para o parto (decúbito dorsal), considerada a mais adequada aos hábitos e costumes da época. Esta posição generalizou-se na cultura ocidental até os dias de hoje. Em 1752, Guilherme Smellie difunde a posição de parir em decúbito lateral com os joelhos afastados por uma almofada, muito utilizada na décadas de 40 e 50. Era clássico considerar apenas duas posições para parir: o decúbito lateral, tão a gosto dos anglo-saxões e a posição convencional, decúbito dorsal, adotada universalmente.
Flyn e Cols (1978) concluíram que a deambulação no trabalho de parto traz inúmeras vantagens para a mãe e feto, facilitando através dos movimentos da bacia, do relaxamento muscular e da força da gravidade a rápida dilatação do colo uterino e a passagem do concepto pelo canal do parto, aliviando as dores e abreviando o trabalho de parto.

Entre nós, Moysés Paciornik(1) (1979), Galba de Araújo(3)(1981), Caldeyro-Barcia(2) (1982) e Hugo Sabatino(2) (1984), pontificaram, preconizando a mudança de posição por ocasião do período expulsivo, salientado a importância da posição vertical.

Enquanto na mulher deitada seu canal se estreia, na posição de cócoras alarga-se e, até certo ponto, apresenta-se mais vazio, oferecendo menos obstrução à expulsão fetal. Diversos mecanismos concorrem para o sucesso: o sacro e o coccix basculam para trás, ampliando o diâmetro da via de parto, os músculos diafragmas perineais separam-se, a vulva e a vagina entreabem-se, o períneo posterioriza, o reto e a bexiga sobem, e a sínfise pubiana afasta-se proporcionando um alargamento de dois ou três milímetros(1)

Desta forma, no parto na posição de cócoras vários fatores colaboram na proteção das estruturas do assoalho pélvico da mulher: canal em declive, mais largo, mais vazio. Parto mais rápido, mais fácil, menos doloroso, menos perigoso. Menos riscos de lesões, roturas, esgarçamentos, deslocamentos que se refletem na situação e funcionamento dos órgãos pélvi-vaginais. Estes fatores somados representam um ganho de amplitude de 20% (vinte por cento). Ainda mais a posição transforma a via de parto num declive em direção ao solo, utilizando a força da gravidade(1).

Um grupo crescente de mulheres, mesmo que ainda minoritário, tem solicitado de seus médicos alternativas diferentes das convencionais para o atendimento de seu parto. Dentro dessas alternativas, uma porcentagem também crescente de mulheres deseja que seu parto seja realizado, se possível, em outras posições: em pé, de joelhos, de quatro, deitada de lado, sentada ou de cócoras. Porém no Brasil não existem dados suficientes relativos a estas posições, portanto, os médicos devem analisar mais casos para obter um know-how para modificar o atendimento convencional dos partos oferecidos. Para se conseguir isto, será necessário ter melhor conhecimento da fisiologia fetal no momento do período expulsivo e do mecanismo do parto, aliados a uma forma mais humanizada das atuais técnicas de atendimento médico ao parto.

1. Moysés Paciornik, Parto de Cócoras , Ed. Brasiliense, São Paulo.
2. Hugo Sabatino e Caldeyro-Barcia - Parto na posição sentada.
3. Perinatologia Social, José Américo Silva Fontes, Editorial BYK,1984 
 
  

Dr. Heinz Roland Jakobi
Médico Ginecologista e Obstetra
Porto Velho, RO
jakobi@enter-net.com.br


página principal          menu de artigos


Direitos Autorais