Pai e Paternidade
Ricardo Herbert Jones

 
A história do ser humano na face da terra é um curso de aprendizado muito lento. Nossas conquistas nas áreas sociais sempre foram lentas, graduais, paulatinas, com gerações inteiras experimentando apenas detalhes como modificações na sua vida pessoal, na organização social e política e mesmo no terreno da ciência. Durante milênios nossas tarefas e especificidades sociais foram determinadas rigorosamente pelas aptidões aparentemente mais "naturais" que apresentavam os homens e as mulheres. O legado que nossa extensa experiência como caçadores/coletores nos deixou transmitiu-se por inúmeras gerações, sendo que a rigidez dos seus postulados apenas há alguns anos passou a ser questionado. Assim, nada mais justo que o mundo externo, o mundo das conquistas, das batalhas e do saber racional ficasse sob a responsabilidade do componente masculino, enquanto o mundo interior, da família, da natureza, dos mistérios do inconsciente coubesse às mulheres. Esse esquema funcionou com razoável equilíbrio até algumas poucas décadas atrás, fazendo com que homens e mulheres convivessem numa "harmonia forçada", por ser esta a expectativa clara e única de suas funções sociais. Neste mundo, a gravidez, o parto e a maternagem existiam apenas como uma extensão do universo feminino, não sendo possível entender a participação dos homens nele, a não ser como procriadores, provedores e possuidores de uma descendência. 
 

As horas se acumulavam, umas sobre as outras. As dores se aproximavam, quase se fundindo. O suor, o rosto contraído, a palidez. O gosto salgado na sua boca. Olhava para ela como que a pedir perdão. Uma súplica. Como posso te ajudar, se tenho as mãos atadas? Que posso fazer para minorar tua dor? Eu tenho apenas 22 anos. Como sou estudante de medicina me permitem adentrar o espaço do centro obstétrico. É uma manhã fria de junho de 1982. Estamos no meio da Copa do Mundo. Ontem o Brasil aplicou 4 x 0 num time qualquer. Nem lembro bem qual é, mas o Zico fez um gol. A ruptura da bolsa se deu junto com o romper da aurora. Levo-a para o hospital, que decide por mante-la baixada, apesar de não haver ainda uma dilatação avançada. Saio de lá prometendo voltar mais tarde. Como de costume, eu estava gazeando aulas na faculdade de medicina para fazer um plantão no Pronto Socorro. Sempre me atraiu a medicina viva, em carne e osso, olhando a face do paciente, catando diagnósticos nos sulcos que o sofrimento marcava no seu rosto; por isso minha opção desde cedo de trabalhar junto aos doentes e cuidar menos da teoria. No meio da tarde meu cunhado me liga dizendo que as dores estavam muito fortes, e que seria melhor eu voltar ao hospital. Percebi que Lucas estava chegando. Havia aguardado mais de 20 anos por este reencontro.
 

A participação paterna no processo de parto e nascimento é um evento raro entre os mamíferos, principalmente quando a paternidade não é uma obviedade. Entre os grupamentos em que a participação genética de determinado parceiro é assegurada esta ligação pai-filho se dará de forma mais intensa, enquanto nos grupamentos mais promíscuos (com paternidade menos confiável) um padrão muito heterogêneo poderá ocorrer, variando do infanticídio até mesmo cuidados ativos. Esta disparidade idiossincrática de atitudes nos aponta de que o estabelecimento da relação entre o pai e seu filho não seria um produto de nossa herança genética, mas ocorreria em razão de aspectos ecológicos e comportamentais, principalmente relacionadas com a distribuição de comida, o que está de acordo com a atitude de todos os carnívoros sociais
 

Ela a cada minuto parecia mais fraca. Dezoito horas já haviam se passado desde a ruptura das membranas e a perda do líquido amniótico. Seu humor estava abalado. Não mais suportava a conversa das auxiliares. Mesmo a minha presença era apenas tolerada. Eu caminhava ansiosamente de um lado para outro. Fazia promessas. Imaginava que amanhã estaria rindo com meu filho nos braços. Pensava na magia de ser pai. Ia até o corredor do hospital e pedia colo para minha mãe, que silenciosamente aguardava para parir seu primeiro neto. Tentava criar coragem. Olhava para as residentes e esperava delas uma palavra, um gesto, uma confirmação. Esperava que meu sofrimento fosse abreviado. Eu estava entregue. Dependia daquela mulher, e dependia daqueles médicos. A sensação de dependência, de falta de controle sobre a situação me fazia menino, pequeno, diminuto. Só o que podia fazer era esperar e confiar. Até que ao cair da noite, depois de um exame vaginal, eu escuto a guturalidade de um som; a expressão sonora de uma passagem. Algo ocorrera, e fixei meus olhos no residente. Este olhou-me rapidamente e disse, enquanto dirigia-se à porta: - A dilatação se completou, podemos ir para a sala. 
 

Bowlby, que foi um dos pioneiros na investigação do apego entre mães e filhos, dizia que o pai não tem nenhuma importância para o recém-nascido, e sua participação se resume em ser uma fonte de recursos econômicos e como suporte emocional para a mãe. Margaret Mead dizia que "O pai é uma necessidade biológica, mas é um acidente social". Apesar destas posições pessimistas quanto ao papel desempenhado pelo pai, vários outros autores demonstraram que o desempenho dos pais em sala de parto tende a ser muito semelhante ao que freqüentemente é observado com as mães que acabaram de ter seus filhos. Desta forma os mesmos rituais de reconhecimento e de contato seriam estabelecidos não fossem as expectativas e os papéis sociais fixos encontrados nas sociedades. Este comportamento de formação de apego é o que se chamaria de "espécie específico", e tem sua origem geneticamente determinada, segundo uma das hipóteses que existem contemporaneamente. Hoje em dia muito se tem estudado a respeito da importância do pai na sala de parto, porque a pressão cultural pela participação ativa dos parceiros na hora do nascimento levou os profissionais, e mesmo os hospitais, a se prepararem para que a chegada do bebê ocorra preferencialmente com a presença do pai. O próprio método Lamaze, dos anos 60, estimulava a presença do pai como um orientador, um condutor da paciente diante das agruras do trabalho de parto. 
 

Pelo menos agora eu sabia que a espera estava por se findar. O bebê havia atingido a parte inferior do canal de parto. Minha insipiência médica me deixava à mercê do que era dito. Sem perguntar se era permitido invadi a área restrita do CO, depois de trocar de roupa no vestiário. Eu agora estava todo de verde. Estava igual aos residentes e doutorandos. Tive a sensação (que eu repetiria alguns anos depois) que eu havia vestido a roupa do Super Homem. Menos charmosa, com menos glamour, mas que produzia os mesmos efeitos. Senti-me participante de uma confraria de homens que decidem sobre a vida de outros. Há poder maior que este?

Ela foi colocada deitada sobre a mesa fria. Esforçava-se como podia. Fazia a força mais poderosa que seu corpo permitia. Os gritos na sala vinham de todos os lados. As enfermeiras, os médicos, todos gritavam, como que querendo exorcizar a angústia que traziam dentro de si. Eu ficava parado, imóvel, assustado num canto da pequena sala. Não ousava dizer uma palavra, porque temia que ela fosse interpretada como uma interferência, e me determinassem sair da sala. Ela suava, pálida, colocando todas as gotas do seu sangue nos braços e no útero. Os minutos passam.... A ansiedade da equipe começa a aumentar. A testa do obstetra residente suava, e ele solicitava à enfermeira para que ela a secasse. Eu observava as atitudes e anotava mentalmente. Puxa, quando eu me formar quero ter uma auxiliar só para secar a minha testa. Brincava mentalmente para afastar o medo. Será mesmo que tudo está bem? – Vou precisar de um fórceps, ele disse. Lucas !!! Agüenta aí meu velho !! Eles querem te puxar !!
 

A participação do pai no parto pode ser vista como um fato inato, geneticamente determinado, mas que não se expressaria na sua plenitude por fatores culturais e sociais. Mas também pode ser visto, alternativamente, como um processo de aprendizado absolutamente cultural. De qualquer maneira a expressão última deste fenômeno é recentíssima na história da espécie humana. O que se percebe pelas últimas pesquisas é que o envolvimento paterno intenso, quando permitido, fortalecerá os vínculos futuros de assistência e afeto, tanto em relação ao bebê quanto com a sua mãe. Este aspecto novo nas relações humanas conjugado com as modificações rápidas na sociedade, nos aspectos sociais e econômicos, tem despertado o interesse de muitos pesquisadores a respeito das tendências comportamentais relacionadas ao papel da paternidade no futuro da humanidade. Como diz Alice Rossi, ou providenciamos uma compensação para o pai sob forma de treinamento nos cuidados com o recém-nascido, ou veremos um fortalecimento crescente da força e da importância da formação de apego entre a mãe e seu bebê, em função do fato de que a maternidade agora se estabelece por livre escolha e a figura paterna como fertilizador e provedor se encontra ameaçada. 
 

Eu não sabia exatamente o que significava um fórceps. Já havia visto alguns. No terceiro ano de medicina mal havíamos estudado bioquímica. Nada de pacientes, muito menos de grávidas. O pouco que eu sabia havia aprendido nos plantões intermináveis do Pronto Socorro. Mas eu sabia que ali estava uma decisão que ele estivera protelando pelos últimos minutos. Olhei para minha mulher. Cansada, frágil, fraca, intensamente bela. Mas ela também sentiu medo. O trovejar das colheres do instrumento de Chamberlen ecoou pela sala. Uma colher repousava na mão do residente, a outra aguardava na mesa. – Fique em silêncio, não se mova... vou colocar a primeira colher. Vais sentir uma dor diferente, mas... - Espera !!! disse ela. O som saiu como uma sopro por entre seus labios sem cor. - Estou com uma contração, deixe-me tentar de novo... por favor. 

O que me lembro deste momento é uma coleção de fotos mentais, coladas sem ordem no mural das lembranças mais cálidas. O choro, o medo, a emoção, a ansiedade, o alívio. A força suprema. O ápice da dor. Então ele aparece. Molhado, cabeçudo, "cabeça de ovo", enfim, lindo. Minha mulher dizendo que não conseguia ver direito, que queria tocar nele. A enfermeira secando sem cuidado; o corte rápido do cordão. A sala às claras, a pediatra chegando. O bebê sendo levado antes de minha mulher poder tocá-lo. Os comentários infelizes da médica da neonatologia, o cansaço de minha mulher. O abraço de minha mãe. Tudo se mistura, num amálgama de sentimentos, sensações, cheiros, cores e luzes. Mas ali estava ele. Sua primeira batalha havia terminado. E ali estava ela, sua principal vitória como mulher tinha acontecido. 
 

Em algum momento de nossa jornada na terra tornou-se adaptativo para os homens tomarem conta das suas fêmeas e seus filhos. A conduta calcada no "cada um por si" dava lugar a um comportamento baseado na divisão de alimentos e posteriormente na divisão das tarefas na família. Esta modificação de tremenda importância na história da humanidade é a responsável por modificações na morfologia dos hominídeos, nos ecossistemas ocupados e na crescente dependência que se estabeleceu entre os recém nascidos de nossa espécie. (Lovejoy) Este mesmo autor esclarece que a criação do núcleo familiar, pela disposição paterna de tomar conta de uma fêmea que lhe asseguraria a paternidade de sua descendência, produziu as condições necessárias para a supremacia da espécie humana, por fortalecer uma estratégia de cooperação e crescimento populacional. Assim, a paternidade, como fortalecedor do núcleo social, está relacionada a construção da humanidade como nós a conhecemos e concebemos. Hoje em dia cada vez mais a importância da interação afetiva (e não mais apenas econômica) é solicitada por parte do pai, e os valores da paternidade emergem num mundo tão assombrado com as mudanças vertiginosas nos conceitos até então inquestionáveis sobre o nascer, reproduzir-se e morrer.
 

Ali estava ele. Enrolado. Na orelha o mesmo furinho que o pai carrega. O sorriso imaginado na contração do rosto mostra as covinhas do pai. Minha mulher não se importa que eu me julgue parecido, pelo contrário, sorri da minha necessidade de produzir uma vinculação. Ela repousa sobre a evidência gritante e avassaladora da sua experiência corporal. Seus músculos doídos, sua sutura perineal, seu cansaço.. tudo isso lhe prova. Fixo-me em seus olhos. Olho atentamente para ele. Você voltou, amigão

Minha filha nasceu 3 anos depois. Eu fazia meu último plantão como estudante. Desta vez minha mulher resolveu esperar em casa até o último instante. Sabendo do stress relacionado à hospitalização, propositadamente adiou sua entrada no centro obstétrico o mais que pode. Chegou lá com mais de 8 cm, e minha filha nasceu pouco tempo depois. A sabedoria na parturição também ocorre com a experiência. Novamente eu estava junto dela, mas não precisei fazer pressão para ser admitido: eu era o doutorando de plantão. Isabel, que era esperada como Josué, nasceu linda e charmosa. Também nasceu de um sonho, como seu irmão. Igualmente não foi planejada, mas a recebi como alguém que eu ansiava por reencontrar. Percebi claramente que eu precisava estar no nascimento de ambos para poder constatar a força transformadora que o nascimento produz. Para sentir a dor e a angústia de sentir-se sob o controle de algo muito maior. Sabia que este aprendizado seria fundamental para moldar o médico que eu queria ser. Depois disso, tornei-me um defensor do direito dos pais de assistirem o nascimento dos seus filhos. Fui obrigado a comprar algumas brigas e criar algumas inimizades, mas percebi que estava tratando de um dos mais elementares direitos do homem: o direito de presenciar o milagre da vida, de assistir a criação da sua imortalidade.
 

 

Dr. Ricardo Herbert Jones
Médico Homeopata, Ginecologista e Obstetra, Porto Alegre, RS
rhjones@ieg.com.br


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