A história do ser
humano na face da terra é um curso de aprendizado muito lento. Nossas
conquistas nas áreas sociais sempre foram lentas, graduais, paulatinas,
com gerações inteiras experimentando apenas detalhes como
modificações na sua vida pessoal, na organização
social e política e mesmo no terreno da ciência. Durante milênios
nossas tarefas e especificidades sociais foram determinadas rigorosamente
pelas aptidões aparentemente mais "naturais" que apresentavam os
homens e as mulheres. O legado que nossa extensa experiência como
caçadores/coletores nos deixou transmitiu-se por inúmeras
gerações, sendo que a rigidez dos seus postulados apenas
há alguns anos passou a ser questionado. Assim, nada mais justo
que o mundo externo, o mundo das conquistas, das batalhas e do saber racional
ficasse sob a responsabilidade do componente masculino, enquanto o mundo
interior, da família, da natureza, dos mistérios do inconsciente
coubesse às mulheres. Esse esquema funcionou com razoável
equilíbrio até algumas poucas décadas atrás,
fazendo com que homens e mulheres convivessem numa "harmonia forçada",
por ser esta a expectativa clara e única de suas funções
sociais. Neste mundo, a gravidez, o parto e a maternagem existiam apenas
como uma extensão do universo feminino, não sendo possível
entender a participação dos homens nele, a não ser
como procriadores, provedores e possuidores de uma descendência.
As horas se acumulavam,
umas sobre as outras. As dores se aproximavam, quase se fundindo. O suor,
o rosto contraído, a palidez. O gosto salgado na sua boca. Olhava
para ela como que a pedir perdão. Uma súplica. Como posso
te ajudar, se tenho as mãos atadas? Que posso fazer para minorar
tua dor? Eu tenho apenas 22 anos. Como sou estudante de medicina me permitem
adentrar o espaço do centro obstétrico. É uma manhã
fria de junho de 1982. Estamos no meio da Copa do Mundo. Ontem o Brasil
aplicou 4 x 0 num time qualquer. Nem lembro bem qual é, mas o Zico
fez um gol. A ruptura da bolsa se deu junto com o romper da aurora. Levo-a
para o hospital, que decide por mante-la baixada, apesar de não
haver ainda uma dilatação avançada. Saio de lá
prometendo voltar mais tarde. Como de costume, eu estava gazeando aulas
na faculdade de medicina para fazer um plantão no Pronto Socorro.
Sempre me atraiu a medicina viva, em carne e osso, olhando a face do paciente,
catando diagnósticos nos sulcos que o sofrimento marcava no seu
rosto; por isso minha opção desde cedo de trabalhar junto
aos doentes e cuidar menos da teoria. No meio da tarde meu cunhado me liga
dizendo que as dores estavam muito fortes, e que seria melhor eu voltar
ao hospital. Percebi que Lucas estava chegando. Havia aguardado mais de
20 anos por este reencontro.
A participação
paterna no processo de parto e nascimento é um evento raro entre
os mamíferos, principalmente quando a paternidade não é
uma obviedade. Entre os grupamentos em que a participação
genética de determinado parceiro é assegurada esta ligação
pai-filho se dará de forma mais intensa, enquanto nos grupamentos
mais promíscuos (com paternidade menos confiável) um padrão
muito heterogêneo poderá ocorrer, variando do infanticídio
até mesmo cuidados ativos. Esta disparidade idiossincrática
de atitudes nos aponta de que o estabelecimento da relação
entre o pai e seu filho não seria um produto de nossa herança
genética, mas ocorreria em razão de aspectos ecológicos
e comportamentais, principalmente relacionadas com a distribuição
de comida, o que está de acordo com a atitude de todos os carnívoros
sociais.
Ela a cada minuto parecia
mais fraca. Dezoito horas já haviam se passado desde a ruptura das
membranas e a perda do líquido amniótico. Seu humor estava
abalado. Não mais suportava a conversa das auxiliares. Mesmo a minha
presença era apenas tolerada. Eu caminhava ansiosamente de um lado
para outro. Fazia promessas. Imaginava que amanhã estaria rindo
com meu filho nos braços. Pensava na magia de ser pai. Ia até
o corredor do hospital e pedia colo para minha mãe, que silenciosamente
aguardava para parir seu primeiro neto. Tentava criar coragem. Olhava para
as residentes e esperava delas uma palavra, um gesto, uma confirmação.
Esperava que meu sofrimento fosse abreviado. Eu estava entregue. Dependia
daquela mulher, e dependia daqueles médicos. A sensação
de dependência, de falta de controle sobre a situação
me fazia menino, pequeno, diminuto. Só o que podia fazer era esperar
e confiar. Até que ao cair da noite, depois de um exame vaginal,
eu escuto a guturalidade de um som; a expressão sonora de uma passagem.
Algo ocorrera, e fixei meus olhos no residente. Este olhou-me rapidamente
e disse, enquanto dirigia-se à porta: - A dilatação
se completou, podemos ir para a sala.
Bowlby, que foi um dos pioneiros
na investigação do apego entre mães e filhos, dizia
que o pai não tem nenhuma importância para o recém-nascido,
e sua participação se resume em ser uma fonte de recursos
econômicos e como suporte emocional para a mãe. Margaret Mead
dizia que "O pai é uma necessidade biológica, mas é
um acidente social". Apesar destas posições pessimistas quanto
ao papel desempenhado pelo pai, vários outros autores demonstraram
que o desempenho dos pais em sala de parto tende a ser muito semelhante
ao que freqüentemente é observado com as mães que acabaram
de ter seus filhos. Desta forma os mesmos rituais de reconhecimento e de
contato seriam estabelecidos não fossem as expectativas e os papéis
sociais fixos encontrados nas sociedades. Este comportamento de formação
de apego é o que se chamaria de "espécie específico",
e tem sua origem geneticamente determinada, segundo uma das hipóteses
que existem contemporaneamente. Hoje em dia muito se tem estudado a respeito
da importância do pai na sala de parto, porque a pressão cultural
pela participação ativa dos parceiros na hora do nascimento
levou os profissionais, e mesmo os hospitais, a se prepararem para que
a chegada do bebê ocorra preferencialmente com a presença
do pai. O próprio método Lamaze, dos anos 60, estimulava
a presença do pai como um orientador, um condutor da paciente diante
das agruras do trabalho de parto.
Pelo menos agora eu sabia
que a espera estava por se findar. O bebê havia atingido a parte
inferior do canal de parto. Minha insipiência médica me deixava
à mercê do que era dito. Sem perguntar se era permitido invadi
a área restrita do CO, depois de trocar de roupa no vestiário.
Eu agora estava todo de verde. Estava igual aos residentes e doutorandos.
Tive a sensação (que eu repetiria alguns anos depois) que
eu havia vestido a roupa do Super Homem. Menos charmosa, com menos glamour,
mas que produzia os mesmos efeitos. Senti-me participante de uma confraria
de homens que decidem sobre a vida de outros. Há poder maior que
este?
Ela foi colocada deitada
sobre a mesa fria. Esforçava-se como podia. Fazia a força
mais poderosa que seu corpo permitia. Os gritos na sala vinham de todos
os lados. As enfermeiras, os médicos, todos gritavam, como que querendo
exorcizar a angústia que traziam dentro de si. Eu ficava parado,
imóvel, assustado num canto da pequena sala. Não ousava dizer
uma palavra, porque temia que ela fosse interpretada como uma interferência,
e me determinassem sair da sala. Ela suava, pálida, colocando todas
as gotas do seu sangue nos braços e no útero. Os minutos
passam.... A ansiedade da equipe começa a aumentar. A testa do obstetra
residente suava, e ele solicitava à enfermeira para que ela a secasse.
Eu observava as atitudes e anotava mentalmente. Puxa, quando eu me formar
quero ter uma auxiliar só para secar a minha testa. Brincava mentalmente
para afastar o medo. Será mesmo que tudo está bem? – Vou
precisar de um fórceps, ele disse. Lucas !!! Agüenta aí
meu velho !! Eles querem te puxar !!
A participação
do pai no parto pode ser vista como um fato inato, geneticamente determinado,
mas que não se expressaria na sua plenitude por fatores culturais
e sociais. Mas também pode ser visto, alternativamente, como um
processo de aprendizado absolutamente cultural. De qualquer maneira a expressão
última deste fenômeno é recentíssima na história
da espécie humana. O que se percebe pelas últimas pesquisas
é que o envolvimento paterno intenso, quando permitido, fortalecerá
os vínculos futuros de assistência e afeto, tanto em relação
ao bebê quanto com a sua mãe. Este aspecto novo nas relações
humanas conjugado com as modificações rápidas na sociedade,
nos aspectos sociais e econômicos, tem despertado o interesse de
muitos pesquisadores a respeito das tendências comportamentais relacionadas
ao papel da paternidade no futuro da humanidade. Como diz Alice Rossi,
ou providenciamos uma compensação para o pai sob forma de
treinamento nos cuidados com o recém-nascido, ou veremos um fortalecimento
crescente da força e da importância da formação
de apego entre a mãe e seu bebê, em função do
fato de que a maternidade agora se estabelece por livre escolha e a figura
paterna como fertilizador e provedor se encontra ameaçada.
Eu não sabia exatamente
o que significava um fórceps. Já havia visto alguns. No terceiro
ano de medicina mal havíamos estudado bioquímica. Nada de
pacientes, muito menos de grávidas. O pouco que eu sabia havia aprendido
nos plantões intermináveis do Pronto Socorro. Mas eu sabia
que ali estava uma decisão que ele estivera protelando pelos últimos
minutos. Olhei para minha mulher. Cansada, frágil, fraca, intensamente
bela. Mas ela também sentiu medo. O trovejar das colheres do instrumento
de Chamberlen ecoou pela sala. Uma colher repousava na mão do residente,
a outra aguardava na mesa. – Fique em silêncio, não se mova...
vou colocar a primeira colher. Vais sentir uma dor diferente, mas... -
Espera !!! disse ela. O som saiu como uma sopro por entre seus labios sem
cor. - Estou com uma contração, deixe-me tentar de novo...
por favor.
O que me lembro deste
momento é uma coleção de fotos mentais, coladas sem
ordem no mural das lembranças mais cálidas. O choro, o medo,
a emoção, a ansiedade, o alívio. A força suprema.
O ápice da dor. Então ele aparece. Molhado, cabeçudo,
"cabeça de ovo", enfim, lindo. Minha mulher dizendo que não
conseguia ver direito, que queria tocar nele. A enfermeira secando sem
cuidado; o corte rápido do cordão. A sala às claras,
a pediatra chegando. O bebê sendo levado antes de minha mulher poder
tocá-lo. Os comentários infelizes da médica da neonatologia,
o cansaço de minha mulher. O abraço de minha mãe.
Tudo se mistura, num amálgama de sentimentos, sensações,
cheiros, cores e luzes. Mas ali estava ele. Sua primeira batalha havia
terminado. E ali estava ela, sua principal vitória como mulher tinha
acontecido.
Em algum momento de nossa
jornada na terra tornou-se adaptativo para os homens tomarem conta das
suas fêmeas e seus filhos. A conduta calcada no "cada um por si"
dava lugar a um comportamento baseado na divisão de alimentos e
posteriormente na divisão das tarefas na família. Esta modificação
de tremenda importância na história da humanidade é
a responsável por modificações na morfologia dos hominídeos,
nos ecossistemas ocupados e na crescente dependência que se estabeleceu
entre os recém nascidos de nossa espécie. (Lovejoy) Este
mesmo autor esclarece que a criação do núcleo familiar,
pela disposição paterna de tomar conta de uma fêmea
que lhe asseguraria a paternidade de sua descendência, produziu as
condições necessárias para a supremacia da espécie
humana, por fortalecer uma estratégia de cooperação
e crescimento populacional. Assim, a paternidade, como fortalecedor do
núcleo social, está relacionada a construção
da humanidade como nós a conhecemos e concebemos. Hoje em dia cada
vez mais a importância da interação afetiva (e não
mais apenas econômica) é solicitada por parte do pai, e os
valores da paternidade emergem num mundo tão assombrado com as mudanças
vertiginosas nos conceitos até então inquestionáveis
sobre o nascer, reproduzir-se e morrer.
Ali estava ele. Enrolado.
Na orelha o mesmo furinho que o pai carrega. O sorriso imaginado na contração
do rosto mostra as covinhas do pai. Minha mulher não se importa
que eu me julgue parecido, pelo contrário, sorri da minha necessidade
de produzir uma vinculação. Ela repousa sobre a evidência
gritante e avassaladora da sua experiência corporal. Seus músculos
doídos, sua sutura perineal, seu cansaço.. tudo isso lhe
prova. Fixo-me em seus olhos. Olho atentamente para ele. Você voltou,
amigão
Minha filha nasceu 3 anos
depois. Eu fazia meu último plantão como estudante. Desta
vez minha mulher resolveu esperar em casa até o último instante.
Sabendo do stress relacionado à hospitalização, propositadamente
adiou sua entrada no centro obstétrico o mais que pode. Chegou lá
com mais de 8 cm, e minha filha nasceu pouco tempo depois. A sabedoria
na parturição também ocorre com a experiência.
Novamente eu estava junto dela, mas não precisei fazer pressão
para ser admitido: eu era o doutorando de plantão. Isabel, que era
esperada como Josué, nasceu linda e charmosa. Também nasceu
de um sonho, como seu irmão. Igualmente não foi planejada,
mas a recebi como alguém que eu ansiava por reencontrar. Percebi
claramente que eu precisava estar no nascimento de ambos para poder constatar
a força transformadora que o nascimento produz. Para sentir a dor
e a angústia de sentir-se sob o controle de algo muito maior. Sabia
que este aprendizado seria fundamental para moldar o médico que
eu queria ser. Depois disso, tornei-me um defensor do direito dos pais
de assistirem o nascimento dos seus filhos. Fui obrigado a comprar algumas
brigas e criar algumas inimizades, mas percebi que estava tratando de um
dos mais elementares direitos do homem: o direito de presenciar o milagre
da vida, de assistir a criação da sua imortalidade.
 |
Dr. Ricardo
Herbert Jones
Médico
Homeopata, Ginecologista e Obstetra, Porto Alegre, RS
rhjones@ieg.com.br
|
página
principal menu
de artigos
|