| Veio o saber médico
e, em nome da defesa da vida e da ausência da dor, se apossou deste
processo natural. A família insegura e despreparada fica à
mercê desse saber. Temos dificuldade para entender a razão
desta cultura que transformou o nascer num ato tão médico
e mecânico. Não interprete que somos contra os grandes avanços
da tecnologia médica. A gestante é tratada como "paciente",
ou seja, submetem-se a vários exames e diagnósticos, permanecem
nas filas dos consultórios e recebem receitas e remédios.
Na hora do parto, a conduta
médica continua prevalecendo com rotinas hospitalares rígidas,
que acabam inibindo o processo natural e fisiológico, levando a
inúmeras cesáreas e partos induzidos. E o pai permanece isolado
desse processo, como se não tivesse nada a ver com isso. Nos hospitais
privados ainda prevalece um pacto que mistura medo da dor com interesses
dos profissionais e da instituição que termina numa cesárea.
Na rede pública, ainda vigora um quase desprezo pela gestante. Sozinha,
assustada, ela é atendida por profissionais anônimos atrás
de máscaras que não dizem o nome nem esboçam um gesto
amistoso. Tanto nos hospitais cinco estrelas como nas maternidades de periferia,
a paciente e os familiares são os últimos a serem ouvidos.
O parto é um processo
natural, nascer é um ato natural e ecológico. É um
caminho de transformação, de amor, de vencer os medos, e
de dar à luz uma nova era. Por estar em seu habitat natural, vivendo
intuitivamente, a maioria das espécies mamíferas nasce sem
maiores problemas. Embora os mecanismos do parto do animal mamífero
sejam diferentes do ser humano (porque o tamanho do cérebro nos
animais é menor em relação ao do corpo), existe uma
semelhança. Como seres urbanos e humanos, colocamo-nos distantes
dessa natureza de bicho a que pertencemos. As mulheres modernas estão
distantes do seu instinto maternal animal.
O parto, um momento da vida
sexual e afetiva, um ritual de passagem e de crescimento para o ser humano,
de ambos os sexos, tem sido reduzido a uma simples "ação
médica" em nossa sociedade contemporânea. O ideal seria que
todas as mulheres tivessem oportunidade de viver a gestação
e o parto como parte de sua vida afetiva e sexual, dispondo de recursos
médicos quando necessário e, ao mesmo tempo, podendo estar
em contato com a natureza verdadeira do ato de dar à luz.
O parto deve ser natural,
o mais expontâneo possível, com um mínimo de sofisticação
na sua assistência, com o máximo de consciência e de
adestramento técnico do profissional que o assiste. A melhor maneira
de seguir um parto é observá-lo, sem interferir no seu andamento.
De mãe para filhas
as parteiras transmitem um ensinamento valioso: para uma mulher em trabalho
de parto, o mais precioso é alguém que segure sua mão
e que não tenha pressa. A parturiente é quem melhor presente
a hora, identifica os movimentos e sabe a melhor posição.
"Quem faz nascer é a mãe mesmo", disse uma das parteiras
mais antigas do Amapá. Essas regras simples são de parteiras
tradicionais que aparam os mais de trezentos mil bebês que nascem
por ano fora dos hospitais. O nome de "aparadeiras", conquanto seja usado
pejorativamente para qualificar as curiosas, em nada as deve diminuir,
pois caracteriza sua atuação: a de aparar a criança
que nasce sozinha.
Observando os dados de uma
favela de São Paulo, cujos partos são assistidos por uma
parteira, teremos um bom exemplo de como nascer é um ato natural
para as mulheres de gestação de baixo risco. Ali, as complicações
e cesáreas somam 3%, as mulheres não são isoladas,
não se usam medicamentos e o índice de episiotomia é
de 17%. Na rede de hospitais privados, o índice de cesárea
chega a 70% e, na pública 40%. A episiotomia chega a 100% nos hospitais
convencionais quando se trata do primeiro filho.
O resgate da forma de nascer,
da transformação do nascimento, tão essencial e necessário,
precisa ser uma iniciativa feminina e da própria classe médica.
No Brasil isto já vem acontecendo, os professores Galba Araújo,
Moysés e Claudio Paciornik, Fernando Estelita Lins, Hugo Sabatino,
Adailton Salvatore Meira, Maria Tereza Maldonado, Emerson Godoy c. Machado,
Maria Celia Del Valle, Lívia Penna, entre outros, têm trabalhado,
pesquisado e escrito sobre a gestação e o parto como momentos
de iniciação que deveriam ser tratados de forma especial
e diferenciada. Muitas parturientes e mulheres anônimas têm
procurado formas alternativas, naturais e humanizadas para terem seus filhos
longe das maternidades, em suas próprias casas, sob o cuidado das
parteiras tradicionais, mas são ainda minoria.
Recomendações
da Organização Mundial de Saúde (OMS) em 1996
Para humanizar o Parto
as seguintes condutas:
No pré-natal
planejar onde e como o nascimento
será assistido
avaliação
do risco durante a gestação
monitoramento do bem-estar
físico e emocional da mulher
respeitar a escolha da gestante
sobre o local e nascimento
prestar informações
sempre que necessário
Na admissão
respeitar a privacidade
da mulher
respeitar a escolha do acompanhante
Durante o trabalho de
parto
oferecer líquidos
via oral
dar suporte emocional empático
prestar informações
sempre que necessário
uso único de materiais
descartáveis
respeitar o direito à
opinião sobre a episiotomia
corte do cordão umbilical
tardio com material estéril
Posição
durante o trabalho de parto
encorajar a posição
não deitada
liberdade de posição
e movimento
Controle da dor
alívio por meios
não invasivos, não farmacológicos (massagens, técnicas
de relaxamento, etc...)
Monitoramento
do bem-estar físico
e emocional da mulher
fetal, por ausculta intermitente
do progresso do trabalho
de parto por meio do partograma
Após a dequitação
exame de rotina da placenta
uso de ocitócitos
no terceiro estágio se há risco de hemorragia
prevenção
da hipotermia do nenê
amamentação
na primeira hora.
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