| Tudo começou bem
na famosa década de 70, no auge de tantas mudanças de comportamentos,
de paradigmas, como em todas as áreas, foi um despertar da consciência
para a busca de uma vida mais harmoniosa com o outro, consigo mesmo, com
o planeta e com o universo.
Quase que simultaneamente,
na França, o médico francês Frederick Leboyer, que
bebeu na fonte do Yoga e se contaminou com o "vírus" da humanização
ao chamar a atenção do mundo com o lançamento do livro
"Por um nascimento sem violência". No Brasil, mais precisamente no
Paraná Moysés (o pai) e Cláudio (o filho) Paciornik
também pesquisavam o porque da posição do parto, chegaram
a conclusão de que a melhor posição é a de
cócoras - o "parto índio". Também no Brasil outro
trabalho se sobressaía no nordeste, no Ceará, com o Dr. Galba
de Araújo, que já não se encontra mais entre nós,
mas que deixou uma grande obra reconhecida no mundo todo.
Nos Estados Unidos, fruto
do movimento hippie, uma grande comunidade, a "Farm" formava a "Spiritual
Midwifery" (parteiras espirituais). E, mais, Michel Odent, etc... etc...
Parece uma receita de bolo.
Somam-se todas as propostas, coloca-se uma pitada de Yoga, coloca-se uma
colherada de sabedoria e bom-senso e temos aí a mais bela proposta:
o parto natural ou o respeito à mulher e ao seu filho. Ah, pode-se
colocar tudo isso em banho-maria e nasce o parto na água.
Viu como é fácil!
Fácil? Para alguns. Simples e óbvio para os mais sensíveis.
É só olhar em volta, perceber, respirar, sentir a natureza
e pronto!
Mas, e os céticos?
E os endurecidos? E os bloqueados? E os incessíveis? Os incrédulos?
Pior é que é o que mais existe. E, estão até
hoje aí intervindo no processo natural da vida.
Quando começamos pioneiramente
a reunir todas essas propostas, lá pelos idos de 1977, ainda tudo
o que fazíamos cheirava à "incenso", oriundos da contracultura,
cada vez saindo mais fora dos subterrâneos e ganhando mais adeptos,
mas ainda naquela época, um movimento tímido, com a proposta
de congregar as pessoas que pensavam de forma igual, trocar, aprender e
levar ao máximo de pessoas essas propostas.
Sorrateiramente também
surgiram as mais perversas propostas, muito bem consolidadas nos consultórios
ginecológicos e que foram cada vez mais "fazendo a cabeça"
das mulheres, dos casais, das famílias,: de que parto normal era
coisa do passado, que o "progresso" chegou, que a tecnologia estaria aí
para servir como "alívio" para as mulheres, que parto de cócoras
é coisa de "índia" e mais uma porção de filosofias
baratas que foram sendo colocadas nas cabeças das mulheres e da
população em geral, de que parto dói. Mulheres mais
velhas que haviam tido partos em casa com parteiras, agora estimulavam
suas filhas a fazerem cesáreas pois elas "sofreram" muito e que
agora não tinha mais sentido sentir dor, correr riscos e que ao
longo desses anos isso foi ficando tão forte, penetrando nos mais
longínquos lugares, desde as camadas mais abastadas, mulheres instruídas,
às sem recursos, todas procurando a cesariana como a grande solução,
como se a mulher brasileira tivesse perdido a capacidade de parir. Que
tristeza!
Até as mulheres mais
bem preparadas pensam assim. Foi um trabalho muito bem feito! E, não
é só isso. Além das cesarianas eletivas, marcadas
nas datas de aniversários das avós, dos mapas astrológicos
para se escolher o melhor momento do céu, para atender aos sonhos
dos pais. Junto com tudo isso, todos que estão brincando de Deus,
não só já dão os nomes dos bebês antes
de nascer (nada contra, mas, perde muito daquela surpresa gostosa, da expectativa,
da magia da descoberta, da torcida) mas já até fazem fertilização,
não por necessidade, mas para escolher o sexo do bebê.
Copiando justamente a linha
mais intervencionista, a americana, os brasileiros adotaram e medicalizaram
tudo no parto. O parto chamado "normal" é tão sofrido, tão
agressivo à mãe e ao bebê que todas as mulheres tremem
apavoradas de terror só de pensar como é esse parto. E, é
realmente assim. O parto é deitado, a mulher sem liberdade para
fazer o que seu corpo pede. Geralmente a mulher é deixada deitada
com indução, muitas das vezes com a intenção
de conduzir o parto para ele se tornar rápido e atender ao interesse
comercial do obstetra, sua equipe e até do hospital. Todos os medicamentos,
todas as coisas usadas são cobradas.
Infelizmente a busca é
de atender a imediata necessidade do profissional e sua equipe, cumprir
sua agenda. Isso facilmente constatado nas proximidades de feriadão,
uma semana antes as maternidades particulares ficam lotadíssimas
para que esses profissionais possam fazer as cesarianas em suas pacientes
e darem alta antes do feriado para que eles possam viajar com seus familiares.
Por falta de uma investigação e/ou um controle maior o Brasil
é campeão de cesarianas há 30 anos. Tem maternidades
particulares que chegam ao abusivo índice de 90 ou 95% de casarianas,
quando a OMS (Organização Mundial de Saúde) recomenda
o índice de 10, no máximo 15%.
Tem países, como o
Japão, a Holanda ( e outros países da Europa) que tem índices
abaixo de 10%, e uma grande parte dos partos são realizados em casa
com os seus familiares. Enquanto no Brasil o parto está se tornando
um ato cirúrgico, medicalizando, intervindo e cortando, lá
nesses países o parto é feito por parteiras formadas, sem
muito aparato, como fazíamos muito no final da década de
70 para 80 em diante.
Depois, com tantas dificuldades
econômicas que o nosso país tem passado, começou a
ficar cada vez mais difícil para a mulher escolher um médico
de acordo com a sua vontade. Como quase todas as pessoas se viram na necessidade
de ter um plano de saúde, por falta de um bom atendimento nos hospitais
públicos que, sem recursos, sobrevivem como podem, caiu mais ainda
o bom atendimento à gestante.
Uma consulta de rotina, de
pré-natal, dura no máximo 15min. Onde o médico se
limita a prescrever exames e mais uma vez medicalizar o que não
é doença. Aproveitando-se também da tecnologia para
simular algum risco quando aparece qualquer coisa no exame de ultra-sonografia
por exemplo, e induzir aquela "paciente" a fazer uma cesariana. Tudo isso
por que esse profissional precisa atender o máximo de pessoas para
atender à sua expectativa financeira.
Caindo assim no erro de ter
mais quantidade e não qualidade. As únicas pessoas que não
ganham quando é feita uma cesariana abusiva são a mãe
e o bebê. Perdem esse momento mágico, de realização
da mulher. Perdem a oportunidade de realizar uma congregação
plena que a natureza consagrou em milhares e anos, por um simples poder
humano de manipular outras a favor de seus interesses.
E é por esses e outros
assuntos tão importantes que começamos a fazer desde o final
da mágica década de 70, muitos seminários, inúmeras
palestras, a congregar aqueles que sabem "deixar nascer" os bebês
da forma mais humana, natural, livre, espontânea, e agradável,
organizados pelo Instituto de Yoga e Terapias Aurora.
Entre outros seminários
o Encontro de Gestação e Parto Natural Conscientes ganhou
uma continuidade e tradição, e já agora, no final
do milênio, acumula um currículo muito significativo, de ter
sido o pioneiro e único a acontecer, durante muitos anos, na América
do sul.
Pariu frutos importantíssimos,
como a Maternidade Leila Diniz (RJ), que foi idealizada, gestada e acalentada
nos nossos Encontros. Outros encontros, muitas práticas agora consagradas
pelo Ministério da Saúde também foram concebidas e
divulgadas nesses fóruns de clamor pelo resgate que sentimos e entendemos
ser por direito: "Devolver o parto e o nascimento à mãe,
ao bebê, à família".
Desde quando todo esse movimento
começou, se formos ver por outro lado, as coisas só pioraram.
Por outros, estamos cada vez mais tendo pessoas importantes se engajando
e lutando por essa proposta. Haja visto a criação da REHUNA
- Rede pela Humanização do Parto e Nascimento -, criada em
1993, da qual fazemos parte, ganhando a importância que merece, no
sentido de vir unir pessoas do Brasil todo, que vem todos os anos trocar
informações, ensinar, a prender, atualizar, criar propostas,
etc. A cada ano dentro do nosso Encontre, e que este ano mais do que nunca,
ganhará uma identidade própria, formalizando o seu nascimento
num grande grito de prazer e alegria por estarmos chegando num ponto de
amadurecimento tão bom que unidos poderemos mostrar quem somos e
conscientizar a sociedade de tão importante momento que é
aquele em que o bebê nasce em paz e continua a fazer esse mundo de
paz, e não continuar revidando os tapas recebidos ao nascer, como
vemos atualmente no mundo onde o ser humano foi contaminado com o vírus
da violência.
Vamos também buscar
conscientizar as nossas mulheres famosas e todos formadores de opinião
a reeducarem nossas irmãs, filhas e amigas a perderem o medo de
sentir a dor, que é tão programada na nossa cultura e transformá-la
no maior prazer de dar à luz, sentindo um orgasmo fantástico
nesse momento.
Se é questão
de moda, a moda em Hollywood é ter o filho em casa, com parteira,
se preparar com Yoga, etc. Veja a top model Cindy Crawford, que teve o
seu filho com 17 horas de trabalho de parto, sem anestesia, etc. Se essa
moda pegar... O que teremos serão bebes mais saudáveis, seres
humanos mais amorosos e uma sociedade mais feliz. Amém!
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