As Metamorfoses do Parto: Como o Parto Passou a Ser Assunto Médico
Ricardo Herbert Jones

 
Deitada em seu leito, sua face pálida e suada parece ainda mais branca. Os lençóis revoltos encobrem um corpo inquieto. O teto, a cama, o lampião, nada parece ser exatamente o que é. As sombras dançam na parede, tendo a brisa que entra pela fresta da janela como melodia. A casa simples e rude está em sintonia com quem ali habita. O olhar da mulher procura alguém. Precisa de algo. Seu coração sente a necessidade de auxílio. Nem o sabe porque, mas sua alma reclama uma presença. Sua mão se ergue em direção à porta, onde encostado ao batente está um menino. Com os olhos arregalados pela falta de luz o frágil menino lhe estende a mão magra e delicada. Ela espera que uma dor cesse, respira fundo e lhe diz com uma voz fraca, porém firme:

- Chame dona Maria, meu filho. Diga-lhe que a hora é chegada. Avise que a bolsa já rompeu, e que não demora ele vem. Ahh.... e avise seu pai também.

O moleque escuta e sai em disparada porta afora. Seu coração pula no peito. Ele é um mensageiro. É Feidípedes avisando que a batalha se aproxima. Entende a importância do momento e coloca o coração nos calcanhares. Está orgulhoso e empolgado com a sua tarefa. O medo se mistura à excitação. Vira 4 ou 5 esquinas, atravessa algumas ruas sem olhar para o lado, e chega na casa de Dona Maria. Seu peito parece pular mais forte que as batidas que dá na porta da velha casa de madeira. Repete o gesto até escutar movimento na casa. Então a porta se abre e vê aparecer o vulto de uma velha senhora, nos seus sessenta e muitos. 

- Dona Maria... a bolsa... a minha mãe. As dores... Com fôlego entrecortado repete as palavras que pareceriam sem sentido, não fosse a velha senhora uma mulher acostumada à cena. Ela sorri um sorriso quase maroto. Olha enternecida para o menino. Pousa a mão calejada em sua cabeça suada. 

- Calma moleque !! Respire fundo...Já entendi tudo, diz ela com o mesmo sorriso ainda no rosto. Corre, avisa teu pai. Mas antes toma um copo d’água. Fica tranqüilo, vai dar tudo certo. Arrumo minhas coisas e já vou para tua casa.
 

Esta cena fez parte do cenário cultural de gerações. Está na nossa memória coletiva. No nosso inconsciente. Ela está nos filmes, nas histórias, nas lendas, nos contos. Está nos estudos de antropologia e nas canções populares. O universo do nascimento confundia-se com o universo do feminino. A geração de um novo ser no claustro materno inseria-se absoluta e inexoravelmente no mundo das mulheres. Era seu destino, sua sina, sua dívida. Aos homens cabia a contemplação e o encantamento. E a inveja recôndita, mascarada e escondida. Durante os milhares de anos em que a humanidade se desenvolveu esta era a regra básica para o entendimento do fenômeno: Este é um mistério, um mistério divino. Uma coisa de mulher.

Uma série de eventos, entretanto, rompeu este vínculo do nascimento com a natureza. O surgimento de várias conquistas científicas na área da biologia (como a circulação do sangue, a noção mais exata da anatomia pelas dissecações, os estudos de patologia etc.) aliadas ao molde conceptual e filosófico trazido pelo mecanicismo de Renée Descartes produziram o caldo cultural para a entrada do saber médico na obscuridade mágica e úmida do nascimento humano. A razão, enquanto ferramenta, começava a ocupar o lugar outrora ocupado pela intuição e pela experiência. 

Os homens, a partir de meados do século XVII, iniciavam na tarefa de atender as gestantes e os partos, deslocando paulatinamente as parteiras, curiosas e "bruxas", que durante milênios foram as únicas "cuidadoras de mulheres" no momento de parir. Era a "vingança" daqueles que durante milênios estiveram alijados do milagre. Agora os homens também seria co-criadores. Era a "couvade" (mecanismo pelo qual os homens se "apoderam" do nascimento nas culturas primitivas, como os índios brasileiros por exemplo) se manifestando de forma avassaladora. Mais do que os homens, o "masculino" entrava no mundo das mulheres, trazendo com ele as luzes da razão, na tentativa de iluminar o obscuro e até então impenetrável mistério do nascer. O marco inicial desta revolução poderia ser materializado no primeiro grande instrumento masculino no atendimento ao parto: o Fórceps. Criado pelo irmãos Chamberlen, na Inglaterra, foi mantido escondido dos olhares de curiosos, por ser uma ferramenta tão importante, a ponto de ser alvo da cobiça de concorrentes. A entrada desta ferramenta fálica na história determina um divisor de águas na obstetrícia. Nada mais seria como antes.

Com o correr dos anos mais e mais tecnológica a obstetrícia foi se tornando. Os homens, antes espectadores atônitos e amedrontados, tornavam-se aos poucos condutores do processo. As mulheres passavam de protagonistas a assistentes passivas, seja como auxiliares dos médicos, seja na pele das próprias parturientes. O preço que a razão cobraria para a sua entrada ficou claramente estabelecido. A partir de então não seria mais a natureza, com seus mistérios e incertezas, a conduzir o processo; a razão assumiria as rédeas. Com isso muitas vidas poderiam ser salvas, muitas mulheres deixariam de morrer; muitas crianças seriam retiradas heroicamente do seu destino cruel pelas mãos (ou instrumentos) que os homens traziam.

Poucos séculos nos separam da obstetrícia "feminina", mas podemos constatar nos dados que nos chegam a guinada que produzimos no atendimento às gestantes. Hoje em dia quase todos os partos são feitos em hospitais, estando as mulheres apartadas do seu ambiente e da sua família. O nascimento deixou de ser um evento cultural para se tornar um acontecimento médico. A intervenção passou a ser a regra. Na classe média das grandes cidades os índices de cesariana chegam a 70%. Nos partos normais 80% das pacientes usam medicações potencialmente perigosas para os fetos. A analgesia do parto tornou-se um tabu nos grandes centros médicos. A intolerância com as práticas não-ortodoxas tem aspectos de perseguição religiosa. A jornada tecnológica chega aos dias de hoje na obstetrícia da mesma forma que muitas outras experiências humanas. 

Depois de um investimento pesado nas conquistas da ciência temos o dever e a necessidade de reavaliar nossas posturas, e o que em verdade conquistamos. A ninguém parece plausível que o fenômeno do nascimento seja relegado à desasistência, porém o preço pago pela super mecanização parece estar cada dia mais alto. Surge na cabeça de muitas mulheres, bem como de muitos profissionais da área, uma questão: Pode um fenômeno tão visceralmente feminino como o nascimento ser conduzido por pressupostos filosóficos tão absolutamente masculinos? Da resposta desta questão certamente aparecerão novos posicionamentos, novas visões e uma reavaliação do que nós realmente conquistamos até agora. 

Os resultados negativos do tecnicismo nós o vemos todos os dias: epidemia de cesarianas, mortalidade materna alta, morbidade perinatal alta, insatisfação das usuárias, custos estratosféricos. Apesar de que, no mundo de hoje, 80% das crianças ainda nascem pelas mãos das parteiras, no ocidente da atualidade a medicalização crescente é uma realidade que nos mostra estes índices alarmantes. Ao lado de dar segurança para as mulheres no momento de parir está na hora de oferecermos a elas aquilo que elas antigamente tinham, e que foi retirado pela civilização contemporânea: o afeto, a parceria, a feminilidade, o calor, a alegria, o sentido de aconchego e segurança dos seus lares. 

Nossa medicina obstétrica iatrocêntrica (centrada na figura do médico), etiocêntrica (centrada na patologia e na doença) e nosocomial (que privilegia os hospitais como centros onde se busca a saúde) não consegue oferecer a feminilidade que o parto reclama. É hora de que estes conceitos que há alguns séculos povoam o nosso dia sejam revistos. Para que o parto possa novamente ser uma coisa de mulher. Com segurança, com alegria e com afeto.
 
  

Dr. Ricardo Herbert Jones
Médico Homeopata, Ginecologista e Obstetra, Porto Alegre, RS
rhjones@ieg.com.br


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