Acompanhando o Trabalho de Parto: Visão da Enfermeira Obstetra
Maria Clara Amaral
1) O Parto como é visto hoje.
2) A Mulher em trabalho de Parto precisa de ajuda?
3) A visão da enfermeira obstétrica.
4) Como ajudar na 1ª fase do trabalho de Parto?
5) Como ajudar nas fases finais do trabalho de Parto?

 

1) O Parto como é visto hoje.
O trabalho de parto é o evento fisiológico que coroa a gestação, e que vai selar a maternidade. Alguns autores dão tamanha importância ao momento que transforma mulher em mãe, que afirmam estar ele vinculado ao sentimendo de apego que definirá a maneira através da qual a mulher alcança um novo patamar em sua evolução como ser humano. Independente de como é visto, hão há como manter-se indiferente às manifestações físicas e psicológicas que caracterizam este evento. Também não se pode deixar de reconhecer o profundo significado que o parto exerce na vida da mulher, seu companheiro, seu filho e à família vinculada ao casal.

Gostaria de levantar alguns princípios fundamentais sobre o que significa realmente apoiar a mulher durante o trabalho de parto. Essas considerações foram desenvolvidas a partir da formação adadêmica, da experiência como enfermeira obstetra, e das minhas leituras e reflexões sobre o significado do parto na vida da mulher.

A modernização da cultura, principalmente a ocidental, trouxe notáveis avanços nas tecnologias que se referem à vida comum. Niguém duvida que, ainda no início do século XX, a vida era mais difícil: sem ferro de passar, sem luz elétrica, nem máquinas para lavar roupas e louças. O fato de hoje termos à mão tantas facilidades acabou por "enfraquecer" a nossa disposição em dar-se ao trabalho, preferindo sempre o mais prático, o menos difícil. A mensagem implícita em todas as propagandas e novelas é a de que "você é especial, e tem direito às coisas prazerosas e confortáveis que lhe oferecemos"; todos são belos, saudáveis, sorridentes, limpinhos e elegantes. A busca pelo prazer é o grande objetivo da vida moderna.

Como então explicar a uma parturiente que ela deve passar por todo o trabalho de parto - as horas intermináveis de dor, cansaço, desconforto, náuseas, medo por si e pelo bebê? Quantos já não afirmaram ser inconcebível que na nossa época ainda se admita que a mulher sinta dores no parto?

Assim justificam-se as cesáreas programadas, as analgesias, os derivados da morfina, os fórceps de alívio. Em nome inclusive do bem estar do bebê, a mulher é invadida e despida de qualquer poder sobre si mesma e sobre seu corpo. É objeto de tantas intervenções, exetutadas à sua revelia, que ao final a mulher agradece comovida ao médico que pariu seu filho. E ao final, todos ficam contentes, o doutor, orgulhoso de seu feito, aceita os elogios à sua competência como obstetra, com modéstia. O pai, como sempre, não cabe em si.

E a mulher? Esta, sim, perdeu a preciosa oportunidade de recohecer em si mesma a enorme força que possui. Força e capacidade com que a natureza lhe brindou, e que lhe foram sutilmente arrancadas, com a melhor das intenções e com sua própria anuência. Agora, o mérito pela chegada do seu filho é de muitos, e não será atributo dela mesma, que a todos agradece, menos a si própria.

2) A Mulher em trabalho de Parto precisa de ajuda?
A idéia de que a mulher precisa de ajuda durante o trabalho de parto e no momento do parto traz embutida em si o conceito de mulher como frágil, vulnerável e indefesa, que herdamos na história da nossa civilização, e que a nós parece tão verdadeiro. È com base neste conceito escondido que nos esmeramos em massageá-la, ensinamos respiração, relaxamento, seguramos sua mão, falamos palavras de conforto, a colocamos no banho, fundo musical, fotografias, filme. Onde foi parar a mulher na sua individualisade, e no seu direito à privacidade? Todos querem participar, "dar uma força", achar-se úteis, de certa forma co-autores deste "milagre".

Mas é a Mulher quem dá à luz. É ela a grande perpetradora do milagre que nos encanta, a rainha merecedora de todos os louros e plausos. A experiência do seu próprio valor quando observa seu bebê e diz para si: "Eis o meu filho, que eu pari por mim mesma. consegui! E se fui capaz de passar por isso, também serei uma boa mãe." isto sim é intestimável.

Com base nessas reflexões, perguntamo-nos: como deve ser a nossa ajuda, afinal? O que deve ser o nosso objetivo maior? Até que ponto vai a nossa atuação, ponto esse que, se ultrapassado, estaremos mais atrapalhando que ajudando?

3) A visão da enfermeira obstétrica.
Até alguns anos atrás, a conduta da enfermeira obstétrica ou da obstetriz era basicamente a mesma que a dos médicos, quanto ao manejo do trabalho de parto e as intervenções várias, como o uso de ocitócitos (soro, oxitocina sintética), o rompimento artificial das membranas para acelerar o processo, a monitorização fetal, a episiotomia. A formação da enfermeira obstetra também prevê ações de apoio à mulher durante o trabalho de parto, e orientações quanto à sua saúde e o cuidar de seu ebê.

Hoje há poucas enfermeiras obstétricas atuando como tal, dedicando-se à parturiente e realizando os partos normais. Na maioria dos hospitais, ela se encarrega da administração da unidade obstétrica. Em qualquer dos casos, a enfermeira obstetra faz parte de uma equipe que inclui médicos (obstetra, neonatologista, anestesista), pessoas de enfermagem (auxiliares, técnicos), funcionários de limpeza e de secretaria. Uma doula, ou uma acompanhante de parto fará parte dessa equipe. E a presença de alguém como a doula executanto, no território da enfermeira obstetra, algo que esta considera como de sua responsabilidade, deve trazer-lhe situações constrangedoras e até uma certa hostilidade, para as quais a doula ou acompanhante de parto deve estar preparada e compreender a sua origem.

4) Como ajudar na 1ª fase do trabalho de Parto? 
Para o papel que se deve desempenhar na assistência efetiva à mulher em trabalho de parto, vale a pena esboçar em linhas gerais o que acontece em cada fase deste processo.

O início da Fase de Dilatação é marcado por uma certa ansiedade e euforia: o grande dia é chegado. A essas alturas, as contrações não são muito fortes, e o momento é ideal para que a mulher se familiarize com o ambiente à sua volta. As pessoas que a acompanharão terão aqui um bom momento para fornecer algumas recomendações e orientações básicas: como ela deve respirar, as posições que pode assumir, o relaxamento.

À medida que o trabalho de parto evolui com contrações mais freqüentes e de maior duração e intensidade, a parturiente vai progressivamente se "ensimesmando". Este processo é natural e instintivo, e deve-se em parte à produção de endorfinas, substâncias de efeito semelhante ao ópio: diminuem a sensação de dor e têm efeito entorpecedor sobre a consciência. A mulher felha os olhos, isola-se do mundo ao seu redor, já não quer conversar. Nossa tendência natural é tentar ajudá-la mais, com conselhos e palavras de ânimo. Afinal, estamos lá para isso e precisamos "mostrar serviço".

Nada pior que estimulá-la com o externo nessa hora! A real ajuda é quase imperceptível: fazer-se presente de forma sutil, acolhedora, sem qualquer estardalhaço. Defendê-la o quanto possível dos ruídos, da excitação do parceiro, das luzes fortes e tudo o que a faça sair para fora de si mesma. Quando a parturiente sente-se segura, o parto se dá de forma muito mais fisiológica.

Para estabelecer com a parturiente uma interação construtiva e enriquecedora, Andrea Robertson oferece-nos sugestões práticas preciosas, que tomo a liberdade de transcrever abaixo:

"Inicialmente, observe atentamente a cena: onde as pessoas estão, o que está acontecendo, como eles interagem, a "atmosfera" do ambiente. Observe o nível de conversação, seu tom, volume e quantidade; como a parturiente está, sua posição, seus movimentos e reação às contrações.

Quando se aproximar da mulher, posicione-se no mesmo nível que ela. É provável qe ela esteja de olhos fechados, enquanto se concentra no que está acontecendo em seu corpo. Ficar ao seu lado ao invés de encará-la diretamente nos olhos reduzirá o risco de você agir como poderoso fator de distração no trabalho de parto em curso.

Imite alguns de seus comportamentos, tirando disso algumas pistas sobre como deve agir. Se ela está quieta, evite ficar fazendo perguntas. sE ela está descansando, sussurre em seu ouvido. Faça-a saber que está ao seu lado colocando sua mão em seus ombros, ao invés de anunciar sua presença com a voz.

Idealmente a parturiente deve estar cônscia de sua presença, mas somente como uma sensação ou sentimento. Seu objetivo é deixá-la no controle de seu próprio trabalho de parto, em um lugar que evoque sentimentos de privacidade, intimidade e segurança"

5) Como ajudar nas fases finais do trabalho de Parto?
A chamada "Fase de Transição" é em geral a mais delicada e difícil de manejar, para a mulher e quem a assiste. As contrações são muito fortes, e a dilatação ainda não se completou. A parturiente já está cansada das horas pelas quais passou e pode começar a entrar em desespero; busca se agarrar às pessoas, e ao mesmo tempo rejeita que a toquem. Nesta hora, nem pense em acalmá-la, explicando isto ou aquilo. Os comandos breves, firmes e circunscritos ao momento são úteis.

No "Período Expulsivo" a parturiente muda totalmente de postura interior: agora substitui os gritos e a agitação por uma ação focada de força, de empurrar. Às vezes nem precisamos realizar o toque vaginal para identificar o expulsivo. Na maioria das vezes o que vemos acompanhar este momento é a correria do transporte à sala de parto, o posicionamento da mulher nos estribos da mesa de parto, a gritaria do pessoal: "Faça força! Agora, bem comprida. Não pare!" É quando todos parecem torcedores histéricos na hora da cobrança de pênalti, quando deveria ser o momento mais quieto e sagrado. A doula ou acompanhante do parto deve estar ao lado da mulher, consciente de que seu papel não é o de juntar-se à torcida - coisa difícil, no frigir dos ovos. Instintivamente a mulher sabe quando fazer força e como, de modo a quase nunca romper o períneo.

Se for atuar numa instiuição hospitalar, prepare-se para encontrar de tudo, menos um mar de rosas. Aja sabiamente, refreie comentários e julgamentos que poderão comprometer sua aceitação dentro da equipe. Na obstetrícia há muita resistência às mudanças, tavez mais que em qualquer lugar. Mas tenha certeza que sua atitude serena aos poucos será notada e acabará por "contaminar" o ambiente de doçura e respeito. Boa sorte!

OBS: esse texto foi escrito originalmente em maio/2001 para o I Curso de Doulas organizado pelo Dr. Adailton Salvatore Meira em Campinas, SP
 

Maria Clara Amaral
Enfermeira Obstetra, dá aulas na Unicamp
para o curso de enfermagem. 
Campinas, SP
mcamaral@matrix.com.br


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