1)
O Parto como é visto hoje.
O trabalho de parto é
o evento fisiológico que coroa a gestação, e que vai
selar a maternidade. Alguns autores dão tamanha importância
ao momento que transforma mulher em mãe, que afirmam estar ele vinculado
ao sentimendo de apego que definirá a maneira através da
qual a mulher alcança um novo patamar em sua evolução
como ser humano. Independente de como é visto, hão há
como manter-se indiferente às manifestações físicas
e psicológicas que caracterizam este evento. Também não
se pode deixar de reconhecer o profundo significado que o parto exerce
na vida da mulher, seu companheiro, seu filho e à família
vinculada ao casal.
Gostaria de levantar alguns
princípios fundamentais sobre o que significa realmente apoiar a
mulher durante o trabalho de parto. Essas considerações foram
desenvolvidas a partir da formação adadêmica, da experiência
como enfermeira obstetra, e das minhas leituras e reflexões sobre
o significado do parto na vida da mulher.
A modernização
da cultura, principalmente a ocidental, trouxe notáveis avanços
nas tecnologias que se referem à vida comum. Niguém duvida
que, ainda no início do século XX, a vida era mais difícil:
sem ferro de passar, sem luz elétrica, nem máquinas para
lavar roupas e louças. O fato de hoje termos à mão
tantas facilidades acabou por "enfraquecer" a nossa disposição
em dar-se ao trabalho, preferindo sempre o mais prático,
o menos difícil. A mensagem implícita em todas as propagandas
e novelas é a de que "você é especial, e tem direito
às coisas prazerosas e confortáveis que lhe oferecemos";
todos são belos, saudáveis, sorridentes, limpinhos e elegantes.
A busca pelo prazer é o grande objetivo da vida moderna.
Como então explicar
a uma parturiente que ela deve passar por todo o trabalho de parto - as
horas intermináveis de dor, cansaço, desconforto, náuseas,
medo por si e pelo bebê? Quantos já não afirmaram ser
inconcebível que na nossa época ainda se admita que a mulher
sinta dores no parto?
Assim justificam-se as cesáreas
programadas, as analgesias, os derivados da morfina, os fórceps
de alívio. Em nome inclusive do bem estar do bebê, a mulher
é invadida e despida de qualquer poder sobre si mesma e sobre seu
corpo. É objeto de tantas intervenções, exetutadas
à sua revelia, que ao final a mulher agradece comovida ao médico
que pariu seu filho. E ao final, todos ficam contentes, o doutor, orgulhoso
de seu feito, aceita os elogios à sua competência como obstetra,
com modéstia. O pai, como sempre, não cabe em si.
E a mulher? Esta, sim, perdeu
a preciosa oportunidade de recohecer em si mesma a enorme força
que possui. Força e capacidade com que a natureza lhe brindou, e
que lhe foram sutilmente arrancadas, com a melhor das intenções
e com sua própria anuência. Agora, o mérito pela chegada
do seu filho é de muitos, e não será atributo dela
mesma, que a todos agradece, menos a si própria.
2)
A Mulher em trabalho de Parto precisa de ajuda?
A idéia de que a
mulher precisa de ajuda durante o trabalho de parto e no momento do parto
traz embutida em si o conceito de mulher como frágil, vulnerável
e indefesa, que herdamos na história da nossa civilização,
e que a nós parece tão verdadeiro. È com base neste
conceito escondido que nos esmeramos em massageá-la, ensinamos respiração,
relaxamento, seguramos sua mão, falamos palavras de conforto, a
colocamos no banho, fundo musical, fotografias, filme. Onde foi parar a
mulher na sua individualisade, e no seu direito à privacidade? Todos
querem participar, "dar uma força", achar-se úteis, de certa
forma co-autores deste "milagre".
Mas é a Mulher
quem dá à luz. É ela a grande perpetradora do milagre
que nos encanta, a rainha merecedora de todos os louros e plausos. A experiência
do seu próprio valor quando observa seu bebê e diz para si:
"Eis o meu filho, que eu pari por mim mesma. consegui! E se fui capaz
de passar por isso, também serei uma boa mãe." isto sim
é intestimável.
Com base nessas reflexões,
perguntamo-nos: como deve ser a nossa ajuda, afinal? O que deve ser o nosso
objetivo maior? Até que ponto vai a nossa atuação,
ponto esse que, se ultrapassado, estaremos mais atrapalhando que ajudando?
3)
A visão da enfermeira obstétrica.
Até alguns anos atrás,
a conduta da enfermeira obstétrica ou da obstetriz era basicamente
a mesma que a dos médicos, quanto ao manejo do trabalho de parto
e as intervenções várias, como o uso de ocitócitos
(soro, oxitocina sintética), o rompimento artificial das membranas
para acelerar o processo, a monitorização fetal, a episiotomia.
A formação da enfermeira obstetra também prevê
ações de apoio à mulher durante o trabalho de parto,
e orientações quanto à sua saúde e o cuidar
de seu ebê.
Hoje há poucas enfermeiras
obstétricas atuando como tal, dedicando-se à parturiente
e realizando os partos normais. Na maioria dos hospitais, ela se encarrega
da administração da unidade obstétrica. Em qualquer
dos casos, a enfermeira obstetra faz parte de uma equipe que inclui médicos
(obstetra, neonatologista, anestesista), pessoas de enfermagem (auxiliares,
técnicos), funcionários de limpeza e de secretaria. Uma doula,
ou uma acompanhante de parto fará parte dessa equipe. E a presença
de alguém como a doula executanto, no território da enfermeira
obstetra, algo que esta considera como de sua responsabilidade, deve trazer-lhe
situações constrangedoras e até uma certa hostilidade,
para as quais a doula ou acompanhante de parto deve estar preparada e compreender
a sua origem.
4)
Como ajudar na 1ª fase do trabalho de Parto?
Para o papel que se deve
desempenhar na assistência efetiva à mulher em trabalho de
parto, vale a pena esboçar em linhas gerais o que acontece em cada
fase deste processo.
O início da Fase de
Dilatação é marcado por uma certa ansiedade e euforia:
o grande dia é chegado. A essas alturas, as contrações
não são muito fortes, e o momento é ideal para que
a mulher se familiarize com o ambiente à sua volta. As pessoas que
a acompanharão terão aqui um bom momento para fornecer algumas
recomendações e orientações básicas:
como ela deve respirar, as posições que pode assumir, o relaxamento.
À medida que o trabalho
de parto evolui com contrações mais freqüentes e de
maior duração e intensidade, a parturiente vai progressivamente
se "ensimesmando". Este processo é natural e instintivo, e deve-se
em parte à produção de endorfinas, substâncias
de efeito semelhante ao ópio: diminuem a sensação
de dor e têm efeito entorpecedor sobre a consciência. A mulher
felha os olhos, isola-se do mundo ao seu redor, já não quer
conversar. Nossa tendência natural é tentar ajudá-la
mais, com conselhos e palavras de ânimo. Afinal, estamos lá
para isso e precisamos "mostrar serviço".
Nada pior que estimulá-la
com o externo nessa hora! A real ajuda é quase imperceptível:
fazer-se presente de forma sutil, acolhedora, sem qualquer estardalhaço.
Defendê-la o quanto possível dos ruídos, da excitação
do parceiro, das luzes fortes e tudo o que a faça sair para fora
de si mesma. Quando a parturiente sente-se segura, o parto se dá
de forma muito mais fisiológica.
Para estabelecer com a parturiente
uma interação construtiva e enriquecedora, Andrea Robertson
oferece-nos sugestões práticas preciosas, que tomo a liberdade
de transcrever abaixo:
"Inicialmente, observe
atentamente a cena: onde as pessoas estão, o que está acontecendo,
como eles interagem, a "atmosfera" do ambiente. Observe o nível
de conversação, seu tom, volume e quantidade; como a parturiente
está, sua posição, seus movimentos e reação
às contrações.
Quando se aproximar da
mulher, posicione-se no mesmo nível que ela. É provável
qe ela esteja de olhos fechados, enquanto se concentra no que está
acontecendo em seu corpo. Ficar ao seu lado ao invés de encará-la
diretamente nos olhos reduzirá o risco de você agir como poderoso
fator de distração no trabalho de parto em curso.
Imite alguns de seus comportamentos,
tirando disso algumas pistas sobre como deve agir. Se ela está quieta,
evite ficar fazendo perguntas. sE ela está descansando, sussurre
em seu ouvido. Faça-a saber que está ao seu lado colocando
sua mão em seus ombros, ao invés de anunciar sua presença
com a voz.
Idealmente a parturiente
deve estar cônscia de sua presença, mas somente como uma sensação
ou sentimento. Seu objetivo é deixá-la no controle de seu
próprio trabalho de parto, em um lugar que evoque sentimentos de
privacidade, intimidade e segurança"
5)
Como ajudar nas fases finais do trabalho de Parto?
A chamada "Fase de Transição"
é em geral a mais delicada e difícil de manejar, para a mulher
e quem a assiste. As contrações são muito fortes,
e a dilatação ainda não se completou. A parturiente
já está cansada das horas pelas quais passou e pode começar
a entrar em desespero; busca se agarrar às pessoas, e ao mesmo tempo
rejeita que a toquem. Nesta hora, nem pense em acalmá-la, explicando
isto ou aquilo. Os comandos breves, firmes e circunscritos ao momento são
úteis.
No "Período Expulsivo"
a parturiente muda totalmente de postura interior: agora substitui os gritos
e a agitação por uma ação focada de força,
de empurrar. Às vezes nem precisamos realizar o toque vaginal para
identificar o expulsivo. Na maioria das vezes o que vemos acompanhar este
momento é a correria do transporte à sala de parto, o posicionamento
da mulher nos estribos da mesa de parto, a gritaria do pessoal: "Faça
força! Agora, bem comprida. Não pare!" É quando todos
parecem torcedores histéricos na hora da cobrança de pênalti,
quando deveria ser o momento mais quieto e sagrado. A doula ou acompanhante
do parto deve estar ao lado da mulher, consciente de que seu papel não
é o de juntar-se à torcida - coisa difícil, no frigir
dos ovos. Instintivamente a mulher sabe quando fazer força e como,
de modo a quase nunca romper o períneo.
Se for atuar numa instiuição
hospitalar, prepare-se para encontrar de tudo, menos um mar de rosas. Aja
sabiamente, refreie comentários e julgamentos que poderão
comprometer sua aceitação dentro da equipe. Na obstetrícia
há muita resistência às mudanças, tavez mais
que em qualquer lugar. Mas tenha certeza que sua atitude serena aos poucos
será notada e acabará por "contaminar" o ambiente de doçura
e respeito. Boa sorte!
OBS: esse texto foi escrito
originalmente em maio/2001 para o I Curso de Doulas organizado pelo Dr.
Adailton Salvatore Meira em Campinas, SP
Maria
Clara Amaral
Enfermeira
Obstetra, dá aulas na Unicamp
para o curso
de enfermagem.
Campinas,
SP
mcamaral@matrix.com.br
página
principal menu
de artigos
|